Os 15 Melhores Álbuns de (Metade de) 2008
Julho 1, 2008
- Portishead - Third
- Fleet Foxes - Fleet Foxes
- Lykke Li - Youth Novels
- Deerhunter - Microcastle
- No Age - Nouns
- British Sea Power - Do You Like Rock Music?
- Cut Copy - In Ghost Colours
- Johnny Foreigner - Waited Up ‘Til It Was Light
- The Notwist - The Devil, You + Me
- Women - Women
- School Of Language - Sea From Shore
- Frightened Rabbit - The Midnight Organ Fight
- The Dodos - Visiter
- Flying Lotus - Los Angeles
- Mystery Jets - 21
Menções honrosas para:
Foals - Antidotes, Beach House - Devotion, Born Ruffians - Red, Yellow & Blue, Quiet Village - Silent Movie, Sun Kil Moon - April, Youthmovies - Good Nature, Grouper - Dragging A Dead Deer Up A Hill, Kelley Polar - I Need You To Hold On While The Sky Is Falling, Vivian Girls - Vivian Girls, The Envy Corps - Dwell, Pete & The Pirates - Little Death, These New Puritans - Beat Pyramid, Pocahaunted - Island Diamonds, The Muslims - The Muslims.
Harvest Breed.
Os 30 Álbuns do Ano, Vols. #13-#30 (Lista Final)
Julho 1, 2008
E porque as coisas não duram para sempre e já aí se aproxima o Verão de 2008, decidimos aqui no blog pôr um fim ao ano de 2007. Um ano que marcou uma mudança que se poderá vir a provar histórica no mundo da música. Luís Filipe Reis lançou o seu 15º álbum, Só P’ra Dançar, e a indústria da música não mais voltou a ser a mesma. Mas 2007 foi também um ano de grandes trabalhos musicais, sejam discos de estreia (já tínhamos antes falado do álbum de Future Of The Left, por exemplo), sejam confirmações de talento (ver Field Music ou !!! já antes discutidos), sejam discos esperados que resultaram em autênticas voltas de honra (Of Montreal, Spoon) ou até mesmo discos que tecnicamente não foram propriamente álbuns (No Age…). Foram esses e outros que procurámos homenagear com esta rubrica que hoje se encerra. Novamente frisando não ter nenhuma ordem, segue:
Klaxons - Myths Of The Near Future
Chega ao fim do ano como praticamente um dinossauro, depois de uma nomeação e conquista do prestigiado Mercury Prize em Inglaterra, Myths Of The Near Future é energético, melódico e carrega músicas que têm tanto de acessíveis como de viciantes.
Para fãs de: The Rapture, !!!.
Pontos Altos: As Above, So Below; Two Receivers.
Iron & Wine - The Shepherd’s Dog
Por esta altura já não é segredo nenhum, Sam Beam é um dos grandes nomes do folk actual. The Creek Drank The Cradle e Our Endless Numbered Days registaram a evolução natural da mente musical de Beam, e The Shepherd’s Dog é mais uma confirmação.
Para fãs de: Bonnie ‘Prince’ Billy, Bon Iver.
Pontos Altos: Boy With A Coin, Pagan Angel And A Borrowed Car.
The Black Lips - Good Bad Not Evil
Adeptos fervorosos do punk à moda antiga, Good Bad Not Evil representou o álbum em que os Black Lips transformaram o seu appeal em palco para disco. É também dono e senhor de uma consistênsia muito admirável para um álbum de punk revivalista.
Para fãs de: The Exploding Hearts, King Khan.
Pontos Altos: O Katrina, Bad Kids.
Chromatics - Night Drive
Mais revivalismo, desta vez de disco melancólico a fazer lembrar Giorgio Moroder, com um especial olho para uma produção fria e emocionalmente removida, mas com resultados impressionantes. Night Drive prima pela beleza e pela simplicidade minimalista.
Para fãs de: Glass Candy, Giorgio Moroder.
Pontos Altos: Night Drive, Healer.
Animal Collective - Strawberry Jam
Oitavo álbum, os Animal Collective continuam a produzir malhas pop emergidas num imenso mar de batidas tribais, electrónica experimental ou praticamente tudo em que consigam pôr as mãos. Mas Straeberry Jam é capaz de ser o seu álbum mais consistente e eficaz até à data.
Para fãs de: Animal Collective.
Pontos Altos: For Reverend Green, Fireworks.
World’s End Girlfriend - Hurtbreak Wonderland
Post-rock com um ponto de vista interessante e necessariamente diferente, Hurtbreak Wonderland é o oitavo registo de Katsuhiko Maeda, World’s End Girlfriend, possui laivos de electrónica e experimentalismo que assume contornos de beleza inesperada.
Para fãs de: Tortoise, Té.
Pontos Altos: 100 Years Of Choke, Birthday Resistance.
Burial - Untrue
Apesar de toda a poeira que se levantou com a histeria à volta do dubstep, não podemos dizer que não seja justificada. Untrue é o segundo e mais consistente álbum do mistério que é Burial, revestindo-se de arranjos assustadores e desarmantes.
Para fãs de: Kode9, Boxcutter.
Pontos Altos: Archangel, Near Dark.
White Rabbits - Fort Nightly
Acabaram por ser uma das maiores revelações do ano, e com razão de ser. Fort Nightly é de uma riqueza impressionante para um disco de estreia, seja ela riqueza de arranjos, seja mesmo de criatividade de composição.
Para fãs de: Spoon, The Walkmen.
Pontos Altos: The Plot, While We Go Dancing.
The Twilight Sad – Fourteen Autumns And Fifteen Winters
A primeira coisa que notamos ao ouvir o disco de estreia dos Twilight Sad é o sotaque escocês ultra-pronunciado do vocalista James Graham, o que seria mais que suficiente para distrair muita gente, mas o que fica na memória são algumas das pérolas sentidas que este álbum traz.
Para fãs de: Frightened Rabbit, Arcade Fire.
Pontos Altos: And She Would Darken The Memory, That Summer, at Home I Had Become the Invisible Boy.
Apparat - Walls
Walls, lançado depois da sua bem-sucedida colaboração com Ellen Allien, representou para os Apparat uma viragem para uma direcção inesperada. Sascha Ring, aka Apparat, mostrou com este disco ter um especial olho para composições mais pop, nunca esquecendo as atmosferas cativantes que sempre produziu.
Para fãs de: Ellen Allien, Junior Boys.
Pontos Altos: Useless Information, Fractales Pt.1.
Les Savy Fav - Let’s Stay Friends
Quase não pareceu, mas este foi um álbum de regresso para os Les Savy Fav, já há muito com reputação de banda poderosa e ecléctica para além de sempre imprevisível ao vivo. Let’s Stay Friends capitalizou essa reputação e merecidamente colocou a banda num estatuto de reconhecimento geral.
Para fãs de: Constantines, Mclusky.
Pontos Altos: What Would Wolves Do?, Patty Lee.
LCD Soundsystem - Sound Of Silver
Era inevitável, não era? Nos últimos anos, especialmente depois do lançamento do álbum homónimo dos LCD Soundsystem, quer James Murphy quer a DFA ficaram sinónimo de uma marca de qualidade, e apesar de nem tudo serem rosas, Sound Of Silver é certamente um dos álbuns mais memoráveis do ano.
Para fãs de: The Rapture, Daft Punk.
Pontos Altos: All My Friends, Someone Great.
Radiohead - In Rainbows
Se Sound Of Silver era inevitável, este é inquestionável. Para além de todo o folclore que o rodeou, o simples facto de conter alguma da música mais simples, mas diversa e tremendamente bem estruturada dos últimos anos, voltou a elevar estes cinco músicos ao patamar de divindades musicais depois do intervalo de 4 anos.
Para fãs de: Radiohead.
Pontos Altos: Weird Fishes/Arpeggi, Reckoner.
Bon Iver - For Emma, Forever Ago
Em conjunto com The Shepherd’s Dog, é um dos álbuns tradicionalmente folk de 2007, mas For Emma, Forever Ago concentra uma abordagem mais lo-fi, apoiada no falsetto quase divinal de Justin Vernon, que faz deste disco um dos mais desarmantes e belos do ano.
Para fãs de: Iron & Wine, Sufjan Stevens.
Pontos Altos: Blindsided, Re: Stacks.
Okkervil River - The Stage Names
Depois do sucesso crítico que se tornou Black Sheep Boy em 2005, The Stage Names era um disco que assumia um carácter de estabilização da ‘marca’ Okkervil River, e a banda acaba por passar o teste com distinção. The Stage Names mostra uma evolução na composição da banda, apostando na consistência.
Para fãs de: Bright Eyes, Spoon.
Pontos Altos: Unless It Kicks, A Hand To Take Hold Of The Scene.
Boxcutter - Glyphic
Empilhado no mesmo monte do boom de dubstep depois do aparecimento de Burial e do lançamento do seu primeiro disco na discográfica Planet Mu, Oneiric, Boxcutter faz uma evolução natural do seu som para pastos mais ambiciosos, e o resultado é plenamente satisfatório.
Para fãs de: Burial, Kode9.
Pontos Altos: Glyphic, Rusty Break.
The Cribs - Men’s Needs, Women’s Needs, Whatever
Saindo quase sorrateiramente da cena degradante do lad rock inglês, os The Cribs têm vindo recentemente a receber apoios de lados inesperados, desde Alex Kapranos até Johnny Marr, passando por Stephen Malkmus, mas tudo com boa razão. O seu último disco é uma colecção de pérolas de rock directo e sem rodeios.
Para fãs de: The Strokes, The Libertines.
Pontos Altos: Girls Like Mystery, Men’s Needs.
Battles - Mirrored
Uma verdadeira constelação de nomes sonantes do indie rock mais tradicional, de math rock e até do avant-garde, os Battles cumpriram a promessa num disco de estreia que pavoneia todas as suas peculiaridades individuais e se revela não só surpreendemente fácil de ouvir como estranhamente viciante.
Para fãs de: Don Caballero, Helmet, Pattern Is Movement.
Pontos Altos: Atlas, Tonto.
Harvest Breed.
Novos Lançamentos: Vivian Girls - Vivian Girls
Junho 23, 2008
O aparecimento das Vivian Girls, as três senhoras Cassie Ramone, Frankie Rose e Kickball Katy, este ano parece quase em sintonia com a reunião e digressão dos Jesus and Mary Chain no ano transacto. Fazendo jus à boa tradição recente de bandas de Nova Iorque (as Vivian Girls vêm de Brooklyn) como os Strokes ou os Interpol que fundiam uma apetência por hooks facilmente discerníveis e viciantes com secções rítmicas que as trazem para o protagismo, as Vivian Girls, que se auto-definem como punk-shoegaze, têm um fetiche especial pela sonoridade retro não só do shoegaze dos JAMC, como da desorientação lo-fi dos Velvet Underground, mas acima de tudo aliando a um olho muito perspicaz para simples melodias pop.
O seu álbum homónimo de estreia vê as Vivian Girls no seu lado mais consistente, seja balançando para o lado mais shoegaze da sua música, como em Tell The World ou em Where Do You Run To?, seja mais inclinando para rápidos e frenéticos, porque não dizer revoltados, números punk, como em No ou em Going Insane. Sempre a balançar nesta corda, o álbum mostra-se surpreendemente consistente e suficientemente rico para se revelar cada vez mais em cada nova audição, mesmo apesar do tempo total deste álbum, pouco mais de 22 minutos, mais se assemelhar ao de um EP. Se tanto, este disco deixa-nos com um cheirinho doce no ar e a pedir mais do mesmo, mesmo não sendo um registo tremendamente ecléctico.

E se a ideia era mesmo o caminho da homage respeitosa às suas influências, sem as directamente copiar, a sua produção bastante fiel não defrauda este álbum, não deixando de surpreender a forma como as linhas vocais se encaixam por trás de todo o assalto sonoro. Assalto sonoro, esse, talvez mais notório na faixa de abertura, All The Time, poderosa, mas bem disposta. O single Wild Eyes é assustadoramente viciante, com a sua malha simplista de bateria e interlúdios conduzidos por guitarra para respirar, faz bom uso das harmonias vocais que tão bem as Vivian Girls usam ao longo de todo o álbum, mas é Where Do You Run To? que se pode orgulhar de ser jóia da coroa posicionada a meio da tracklist, usa um mood muito mais expectante, mas consegue elevar ainda mais a excelência das harmonias vocais de Wild Eyes. Para primeiro álbum, as Vivian Girls chegaram provavelmente mais longe do que pensavam, com incontáveis outras bandas que tentam reproduzir a mesma sonoridade com resultados bem distintos.
Tracklist:
- All The Time
- Such A Joke
- Wild Eyes
- Going Insane
- Tell The World
- Where Do You Run To?
- Damaged
- No
- Never See Me Again
- I Believe In Nothing
Harvest Breed.
Liars no Santiago Alquimista 09-06-08
Junho 10, 2008
Tive de escolher entre ver a segunda parte do Holanda – Itália e ver Liars no Santiago Alquimista. Se soubesse que a primeira parte iria começar com aproximadamente uma hora de atraso, teria ficado em casa para ver o golo do Van Bronckhorst.
Para abrir as hostilidades, entraram em palco os portugueses Loosers – que tocaram uma única música instrumental durante os cerca de 25 minutos que estiveram em palco. Canção essa que consistiu basicamente num único loop, repetido durante 20 minutos, com algumas variações mais no final. E um gong. Para ser franco não conheço o trabalho deles, mas a sensação que me transmitiu era que eles têm alguns bons pormenores de inventividade, mas no geral achei a música de Loosers um pouco enfadonha e a sua presença em palco desinteressada. É preciso ter coragem para abrir para Liars e tocar apenas uma única música repetitiva… Coragem ou burrice.
E surgem Liars. O set list consistiu essencialmente em temas do LP mais recente (Liars) e do terceiro álbum (Drum’s Not Dead). Para minha grande tristeza (mas já me tinham avisado disto), não tocaram uma única faixa do álbum de estreia (They Threw Us All In a Trench And Stuck a Monument On Top).
A banda nova-iorquina trouxe ao Santiago Alquimista postais vivos do mundo de uma determinada juventude urbana americana do século XXI - paranóica, claustrofóbica, frustrada e enraivecida. Isto foi concentrado na pessoa de Angus Andrew, de barba e cabelo comprido e oleoso, de fato e gravata, cujos “movimentos de dança” (sempre genuínos e espontâneos) eram refrescantemente estranhos e pesados. Como vocalista, teve uma presença em palco única e cheia de carácter. Em crescendo de intensidade no set list, a música de Liars esteve sempre bem, ora por vezes negra e perturbada, ora tribal e primal. E quem conhece a discografia de Liars sabe que quando se fala em tribal e primal, fala-se do terceiro álbum – as músicas de Drum’s Not Dead funcionam espectacularmente bem ao vivo e trazem um elemento diferente e original ao set list.
As únicas coisas de que me posso queixar é de tudo ter começado um pouco atrasado (e logo em cima do Holanda – Itália, por amor de Deus), de uma primeira parte um pouco monótona e de um público algo pequeno e expectante.
Nota: 8
Which Will.
Novos Lançamentos: Deerhunter - Microcastle
Junho 3, 2008
Leakando praticamente 3 meses antes da sua data de saída oficial, tanto que ainda nem está disponível a capa do disco, o novo álbum de Deerhunter aparece no seguimento da tournée europeia da dupla Animal Collective e Atlas Sound, projecto paralelo do frontman dos Deerhunter, Bradford Cox, concerto do Lux já revisto no blog. Microcastle é talvez um dos álbuns mais esperados do ano, depois do hype que Cryptograms, segundo disco dos Deerhunter, recebeu em 2007. Apesar de apreciar a forma como os Deerhunter encorporaram as suas influências em Cryptograms, o disco sofre de uma inconsistência que torna a audição difícil que nem os pontos altos como a faixa homónima, Octet ou Strange Lights conseguem evitar, Cryptograms é um album prometedor.
Com Microcastle, a banda opta por uma nova direcção, sem abdicar da sua identidade própria, o novo álbum é mais directo e orientado para melodias, e o facto é que os resultados são surpreendentes. Onde antes teríamos faixas densas e marcadamente shoegaze como White Ink, temos agora números mais crus e genuinamente honestos. Dizia Bradford Cox em entrevista, que em Microcastle os Deerhunter tinham procurado eliminar as incursões em música que se arrastasse por vários minutos e que fosse antes mais directa e imediata. Longe de ser um álbum pop, Microcastle é a versão dos Deerhunter de música pop. Na realidade, com as mesmas 12 músicas de Cryptograms, Microcastle tem cerca de menos 10 minutos de música que o seu antecessor. E o facto de ser mais conciso parece só ter feito bem; mantendo, como sempre, a sua identidade shoegaze, Microcastle, para além de se aguentar muito bem como um todo, tem aqui algumas das melhores peças de música que já ouvimos este ano.

A primeira amostra disso é talvez a mais forte: depois da já habitual Intro, Microcastle entra em grande com Agoraphobia, com o guitarrista Lockett Pundt a tomar o papel de vocalista é repleta de melodias atraentes e deslumbrantes, torna-se logo perceptível o carácter mais despido e natural do novo registo, mesmo acompanhado de guitarras que já não fazem barreiras sonoras, antes arranjos simples, mas brutalmente eficazes. Never Stops lembra um pouco a progressão da faixa homónima do último álbum, sem a linha de baixo irrequieta, mas com melodias vocais surpreendentemente admiráveis, enquanto Little Kids é agradavelmente provocadora e aposta num crescendo para uma barragem de guitarras final. Com mais uma bridge tremendamente eficaz, o tema título é mais um dos pontos altos, que voltamos a ouvir em Nothing Ever Happened, talvez a maior mostra das influências post-punk dos Deerhunter, repleta de linhas de baixo fortes e guitarras pesadas.
Microcastle é certamente uma experiência mais consistente e globalmente agradável que Cryptograms e não será difícil de ver este álbum entre as listas de melhores do ano… quando eventualmente for lançado oficialmente.
Tracklist:
- Intro
- Agoraphobia
- Never Stops
- Little Kids
- Microcastle
- Calvary Scars
- Green Jacket
- Activa
- Nothing Ever Happened
- Saved By Old Times
- These Hands
- Twilight At Carbon Lake
Harvest Breed.
Animal Collective no Lux 28-05-08
Maio 29, 2008
A noite de chuva junto ao rio não impediu a forte adesão de público ao antecipado concerto da dupla Animal Collective + Atlas Sound, e se há algo que possa ser dito dos concertos de Animal Collective é que são um acontecimento. Nos dias que correm, a banda está em plena fase de escrita de músicas para um novo álbum, e as suas aparições ao vivo passam muito por novas composições, algumas mais coerentes que outras, entrelaçadas com versões de material anterior. Assim, foi sem surpresa que se viu uma setlist quase completamente despida de músicas do seu último álbum, sendo as excepções os singles Fireworks e Peacebone, a primeira delas agora transformada num jam de quase um quarto de hora metendo pelo meio Essplode do segundo álbum, Danse Manatee, de 2001.
Ora, por um lado, há a curiosidade em ver como se saem as novas músicas num contexto ao vivo, por outro há a incógnita, e não é nada de se desprezar, de ir para um concerto virtualmente às escuras sobre o que lá se irá passar. E se no caso de Atlas Sound, actuando sem banda, preferindo versões mais ambientais e atmosféricas de músicas do seu último álbum, também é verdade que apareceram praticamente irreconhecíveis, já em Animal Collective a questão muitas vezes era saber o que se estava a ser tocado. Começando com Dancer, uma das novas músicas a ser alvo deste roadtest, a banda retorna ao lado mais reflexivo de Strawberry Jam em músicas como Cuckoo Cuckoo, aliás muito do novo material mostra uma afinidade com o último álbum. House, outra das novas músicas aposta muito no entrelaçar de melodias vocais, com bom efeito. Pena, pois, que o som tenha sido tão pobre, enterrando as malhas vocais dentro de vagas sonoras que as deixaram praticamente irreconhecíveis.
Peacebone e Fireworks (Essplode) vieram de uma leva, posicionadas razoavelmente a meio do set, e não desiludiram. Peacebone continua sem alterações à pulsante versão de estúdio, com a sua batida contundente, enquanto Fireworks, tirando os interlúdios de improviso, mantem o seu cariz muito singalong. Mas o novo material ainda dava mais mostras de qualidade, veja-se Bearhug (Walk Around With You), tocada a seguir a Fireworks, tem uma progressão semelhante a Peacebone, com linhas vocais soberbas e sempre em foco, será sem dúvida um dos pontos altos do novo álbum. Lá mais para o fim do set, Chocolate Girl (recuperada do álbum de estreia) e Comfy in Nautica, de Panda Bear, quase se tornam na mesma música, enquanto que a mexida Brother Sport, que a Blitz vai defendendo ser samba, é também um ponto alto. O encore acabou por ser de altos e baixos; a versão de Who Could Win a Rabbit? pareceu confusa e desorientada, enquanto Grass continua a ser tão frenética como era quando saiu Feels.
Os Animal Collective são sem dúvida uma experiência hipnótica ao vivo, o concerto no Lux contou com alguns factores que não permitiram que fosse uma vitória completa, e seja a fraca qualidade do som, seja o excesso de improvisação à base de samples entre músicas que quebram continuidade e tornam o espectáculo mais cansativo.
Nota: 7.5
Harvest Breed.
The National na Aula Magna 11-05-08
Maio 12, 2008
Ultimamente temos tido uma autêntica maratona de concertos espectaculares em Lisboa. Em semanas consecutivas, tivemos Black Lips, Jose González, The National e na próxima semana… Animal Collective. Como a minha vida não é só escrever para aqui, tem sido impossível postar sobre todos estes concertos onde (muito felizmente) estivemos. Mas tinha de dizer qualquer coisa sobre os The National, ontem, na Aula Magna.
Eu pessoalmente acho que a Aula Magna é o pior espaço em Lisboa para acolher bandas Rock. Foi perfeitamente adequada a Jose González, mas estragou completamente o ambiente de, por exemplo, Spoon. The National mostraram ontem porque são actualmente uma das mais respeitadas bandas de música alternativa americanas.
Alternaram, sem nunca perder o interesse do público, o seu repertório entre temas do seu trabalho mais recente (Boxer) e do álbum de estreia (Alligator). Para os presentes que só conheciam Boxer através do single Fake Empire (em parte graças à constante rodagem na Radar), de certeza que o concerto de ontem abriu o apetite para se descobrir Alligator. A banda de Cincinnatti levou uma Aula Magna esgotada ao rubro com interpretações intensas e honestas de canções como Mr. November, Abel e Squalor Victoria… Provando que apesar da conotação melancólica e passiva que os seus últimos trabalhos granjearam, têm muita adrenalina na sua música. Numa nota mais calma, a banda também encantou em momentos como Ada e Racing Like A Pro.
Não há nada de menos bom que me ocorre sobre o concerto de ontem. Todos eles tocaram com paixão, entre as músicas Matt Berninger recordou com agrado a primeira vez que tocou em Portugal e jocosamente comparou a Aula Magna à sala de conferências das Nações Unidas: (“I feel like I should be passing a resolution or something”). A música foi triste, foi alegre, foi apaixonada e foi sincera. Não foram milhares de pessoas à chuva a cantar todas as letras de todas as canções como foi The Arcade Fire em 2007, mas foi igualmente especial.
Nota: 9.5
Which Will.
Novos Lançamentos: The Muslims - The Muslims
Maio 12, 2008
Tal como muitas outras bandas hoje em dia, os The Muslims, parecem saídos directamente de uma cave de Manchester no princípio dos anos 80. Mas ao contrário de outros, são muito mais que o seu nome manifestamente infeliz. As influências do post-punk são óbvias e notórias na música dos The Muslims, e o paralelismo com a sonoridade de bandas como os The Fall ou os Modern Lovers é facilmente identificável, mas apesar da banda conseguir com sucesso replicar uma espécie de identidade sónica suja e citadina, característica desse tipo de bandas, é surpreendente a maneira como a alia a composições simples, infecciosas e deliciosamente viciantes. Neste seu 12” de estreia que conta com 7 músicas com 3 de bónus e cuja capa confirma a controvérsia que o seu nome tinha começado, mostra uma superfície com buracos de balas, alegadamente da autoria de um polícia nova iorquino, os The Muslims apresentam-se com um considerável estrondo.
O registo começa com a linha de baixo saltitante de Right And Wrong, uma música consistente e desafiante que faz as delícias de quem faz do post-punk um modo de vida, e hoje em dia não parecem ser poucos. A forma quase desmazelada como as linhas vocais se entrelaçam na secção rítmica garante que tenhamos aqui um vencedor, mas é depois do envolvimento em mid-tempo de Beside Myself que os The Muslims fecham o negócio com Call It A Day. Quase em forma de balada, os altos e baixos de guitarras que conseguem assanhar o ouvinte quase tanto como as letras que as acompanham. Mais para a frente, é o punk de Future Rock que impressiona pela seu choque frontal, enquanto Extinction com um ambiente sombrio e confrontador, “I don’t owe anything to you (…) this is extinction for you”, é talvez a música mais madura e completa do disco.
Tracklist:
- Right And Wrong
- Beside Myself
- Call It A Day
- Future Rock
- On My Time
- Religion
- American
- Extinction
- Nightlife
- Bright Side
Harvest Breed.
Black Lips no Lux 22-04-08
Abril 28, 2008
Fui ver Black Lips no Lux com duas pessoas. Uma deles enviou-me o seguinte mail a mim e a mais dois amigos:
“Foi um bom concerto. O tipo de dentes de ouro ficou sem electricidade logo de início. O outro tipo esfregou a piroca na guitarra, e deu um hi5 ao sérgio exactamente com aquela mão. O baixista recebeu com agrado uma broca do público, e pagou com uma mini. O lsd começou a bater ao baterista a meio do concerto. (…) Os tipos são recordistas mundiais no arremesso do escarro, à frente, e à retaguarda. Um deles é especialista nessa modalidade em altura, com regresso ao local de partida.
Havia muita gente com looks à punk rock, cabelo à rock n’roll, e atitude à demi roussos. Devo ter visto a Leslie Feist prái umas 20 vezes durante a noite. Mto mudou de roupa, aquela moça. Vimos o baterista dos Martini, 2 tipos dos V5, os da weasel inteiros. (…) Descobrimos o melhor método de abrir minis. É com os dentes. E não, não era o tipo dos dentes de ouro.”
Ele esqueceu-se de dizer que a música foi electrizante.
Nota: 9.5
Which Will.
Novos Lançamentos: Islands - Arm’s Way
Abril 22, 2008
No longínquo ano de 2006, os disfuncionais e irreverentes canadianos Islands criaram aquele que foi o álbum do ano, Return To The Sea. Com tanto de ecléctico como de irrequieto, as músicas explodiam em diversas direcções e em pequenos espaços. Tal como Swans ou Humans representam indie rock especialmente bem construído e estruturado, Rough Gem ou Don’t Call Me Whitney, Bobby são pedaços de pop incrivelmente fácil e simples que até forma uma atracção quase embaraçosa, já Where There’s A Will There’s A Whalebone, com a sua incursão pelo rap com a participação de Subtitle ainda reforça mais a harmonia e a diversidade de Return To The Sea. Aliás, não é de estranhar, isto vindo da segunda encarnação dos lendários indie rockers The Unicorns, infelizmente já defuntos, mas transformados em Islands por dois terços da sua constituição, o vocalista Nick Thorburn e o baterista, que entretanto abandonou o novo projecto durante a preparação do segundo álbum, Jamie Thompson (conhecido como J’aime Tambeur).

Como o último dos Unicorns ainda nos Islands, Thorburn avançou para o segundo álbum, Arm’s Way, aparentemente um disco conceptual sobre escapar à morte. Arm’s Way é um registo marcadamente diferente de Return To The Sea. Já não vemos o tipo de experimentação por diferentes géneros musicais; Arm’s Way é mais concentrado e aposta em vez em mais daquilo que ouvimos em Swans: arranjos mais arrojados e composições mais ricas e diversas. Apesar de ser uma progressão ambiciosa, tudo isto torna Arm’s Way mais complicado de ouvir. À primeira audição, apesar de tudo ser agradável, pouco fica retido na memória. Contudo em audições posteriores é garantido que descobrimos sempre algo novo e interessante. Nesse aspecto difere em certas alturas, porque não dizê-lo, do imediatismo de Return To The Sea.
The Arm é o perfeito exemplo daquilo que podemos esperar do resto do álbum. Uma música longa e extremamente estruturada e complexa que gira à volta de um riff bombástico, seja com arranjos orquestrais ou com cortes abruptos na melodia. Já Pieces Of You e Abominable Snow, vinda desde o tempo dos Unicorns, apostam numa estrutura convencional de verso-refrão-verso, é a confirmação de que Arm’s Way é mais um piscar de olho àquilo que foram os Unicorns do que propriamente ao registo de estreia dos Islands. Creeper, com o seu ritmo disco é facilmente a música mais imediata do álbum, e também a mais viciante e atraente, introduz-nos à segunda parte de Arm’s Way. Composições longas como To A Bond, I Feel Evil Creeping In, In The Rushes e Vertigo (If It’s A Crime) mostram os Islands em plena produtividade criativa, praticamente óperas de indie rock, apesar de provar que a fórmula também pode falhar em We Swim.

Arm’s Way é um álbum ambicioso e complexo que requer várias audições para entrar por inteiro, mas depois de o fazer acaba por se mostrar um autêntico mamute musical, grande e constantemente irrequieto eleva os Unicorns à potência de uma ambição à lá Arcade Fire (que, por sinal, faziam as suas primeiras partes).
PS - Esta capa é ou brilhante ou horrível, ainda não me decidi…
Tracklist:
- The Arm
- Pieces Of You
- J’aime Vous Voire Quitter
- Abominable Snow
- Creeper
- Kids Don’t Know Shit
- Life In Jail
- In The Rushes
- We Swim
- To A Bond
- I Feel Evil Creeping In
- Vertigo (If It’s A Crime)
Harvest Breed.