Arquivo de Abril, 2008

28
Abr
08

Black Lips no Lux 22-04-08

Fui ver Black Lips no Lux com duas pessoas. Uma deles enviou-me o seguinte mail a mim e a mais dois amigos:

“Foi um bom concerto. O tipo de dentes de ouro ficou sem electricidade logo de início. O outro tipo esfregou a piroca na guitarra, e deu um hi5 ao sérgio exactamente com aquela mão. O baixista recebeu com agrado uma broca do público, e pagou com uma mini. O lsd começou a bater ao baterista a meio do concerto. (…) Os tipos são recordistas mundiais no arremesso do escarro, à frente, e à retaguarda. Um deles é especialista nessa modalidade em altura, com regresso ao local de partida.

Havia muita gente com looks à punk rock, cabelo à rock n’roll, e atitude à demi roussos. Devo ter visto a Leslie Feist prái umas 20 vezes durante a noite. Mto mudou de roupa, aquela moça. Vimos o baterista dos Martini, 2 tipos dos V5, os da weasel inteiros. (…) Descobrimos o melhor método de abrir minis. É com os dentes. E não, não era o tipo dos dentes de ouro.”

Ele esqueceu-se de dizer que a música foi electrizante.

Nota: 9.5

Which Will.

22
Abr
08

Novos Lançamentos: Islands – Arm’s Way

No longínquo ano de 2006, os disfuncionais e irreverentes canadianos Islands criaram aquele que foi o álbum do ano, Return To The Sea. Com tanto de ecléctico como de irrequieto, as músicas explodiam em diversas direcções e em pequenos espaços. Tal como Swans ou Humans representam indie rock especialmente bem construído e estruturado, Rough Gem ou Don’t Call Me Whitney, Bobby são pedaços de pop incrivelmente fácil e simples que até forma uma atracção quase embaraçosa, já Where There’s A Will There’s A Whalebone, com a sua incursão pelo rap com a participação de Subtitle ainda reforça mais a harmonia e a diversidade de Return To The Sea. Aliás, não é de estranhar, isto vindo da segunda encarnação dos lendários indie rockers The Unicorns, infelizmente já defuntos, mas transformados em Islands por dois terços da sua constituição, o vocalista Nick Thorburn e o baterista, que entretanto abandonou o novo projecto durante a preparação do segundo álbum, Jamie Thompson (conhecido como J’aime Tambeur).

Como o último dos Unicorns ainda nos Islands, Thorburn avançou para o segundo álbum, Arm’s Way, aparentemente um disco conceptual sobre escapar à morte. Arm’s Way é um registo marcadamente diferente de Return To The Sea. Já não vemos o tipo de experimentação por diferentes géneros musicais; Arm’s Way é mais concentrado e aposta em vez em mais daquilo que ouvimos em Swans: arranjos mais arrojados e composições mais ricas e diversas. Apesar de ser uma progressão ambiciosa, tudo isto torna Arm’s Way mais complicado de ouvir. À primeira audição, apesar de tudo ser agradável, pouco fica retido na memória. Contudo em audições posteriores é garantido que descobrimos sempre algo novo e interessante. Nesse aspecto difere em certas alturas, porque não dizê-lo, do imediatismo de Return To The Sea.

The Arm é o perfeito exemplo daquilo que podemos esperar do resto do álbum. Uma música longa e extremamente estruturada e complexa que gira à volta de um riff bombástico, seja com arranjos orquestrais ou com cortes abruptos na melodia. Já Pieces Of You e Abominable Snow, vinda desde o tempo dos Unicorns, apostam numa estrutura convencional de verso-refrão-verso, é a confirmação de que Arm’s Way é mais um piscar de olho àquilo que foram os Unicorns do que propriamente ao registo de estreia dos Islands. Creeper, com o seu ritmo disco é facilmente a música mais imediata do álbum, e também a mais viciante e atraente, introduz-nos à segunda parte de Arm’s Way. Composições longas como To A Bond, I Feel Evil Creeping In, In The Rushes e Vertigo (If It’s A Crime) mostram os Islands em plena produtividade criativa, praticamente óperas de indie rock, apesar de provar que a fórmula também pode falhar em We Swim.

Arm’s Way é um álbum ambicioso e complexo que requer várias audições para entrar por inteiro, mas depois de o fazer acaba por se mostrar um autêntico mamute musical, grande e constantemente irrequieto eleva os Unicorns à potência de uma ambição à lá Arcade Fire (que, por sinal, faziam as suas primeiras partes).

PS – Esta capa é ou brilhante ou horrível, ainda não me decidi…

Tracklist:

  1. The Arm
  2. Pieces Of You
  3. J’aime Vous Voire Quitter
  4. Abominable Snow
  5. Creeper
  6. Kids Don’t Know Shit
  7. Life In Jail
  8. In The Rushes
  9. We Swim
  10. To A Bond
  11. I Feel Evil Creeping In
  12. Vertigo (If It’s A Crime)

Harvest Breed.

19
Abr
08

Novos Lançamentos: Quiet Village – Silent Movie

Porque queremos mostrar que somos igualmente maus a falar de álbuns com 15 anos como de álbuns que ainda não saíram oficialmente, é de imperativa necessidade criar uma nova rubrica no Volume/Tone que celebre a prematuridade. Sim, porque se há algo que esteja claramente em carência na blogosfera é de certeza indivíduos a falarem prematuramente sobre tudo e mais alguma coisa. Não que tenhamos alguma coisa contra publicações que ponderam o que escrevem e procuram ser sérios na sua análise, simplesmente não temos esse tipo de ambição. Nesta rubrica, não teremos especiais preocupações em falar especialmente sobre álbuns bons ou maus, apenas recentes.

Para entrar de pé direito, nada melhor que o novo, e primeiro, disco do duo britânico Joel Martin e Matt Edwards, melhor reconhecidos como Quiet Village, até aqui apenas reconhecidos como remixers de bandas como Gorillaz e por três singles numa editora semi-obscura. Os Quiet Village seguem na boa tradição de mestres do sampling como os The Avalanches, os Beastie Boys, DJ Shadow, ou ainda mais recentemente, os The Go! Team, criando uma sonoridade que tem tanto de complexa como de grandiosa. Diz o myspace dos Quiet Village que a banda se propõe a fazer o velho soar a novo. Mas é algo mais que isso. A sua inspiração marcadamente retro é o perfeito ponto de partida para doze faixas que parecem servir de banda sonora a um filme multifacetado. Seja ele um western em Gold Rush, um elegante filme noir em Victoria’s Secret, ou um poderoso e ameaçador suspense em Circus of Horror.

Victoria’s Secret abre Silent Movie com sons de gaivotas e ondas que se sucedem calmamente e dão origem a um ritmo de baile de verão nos anos 50 quase embaraçoso. Na verdade, se Martin e Edwards não possuem já uma máquina do tempo, disfarçam bem. Todas as faixas nos transportam para sítios totalmente diferentes e ainda dá a sensação que o álbum é dono de uma continuidade invejável. Veja-se o riff absolutamente demoníaco e simultaneamente assustadoramente atraente estilo anos 70 que conduz Circus of Horror, que conta também com orquestração de filme policial. Mais à frente, Too High To Move, com as suas linhas vocais minimalistas, pisca o olho a uma batida electrónica com muito soul à mistura e com arranjos distintamente jazzy. Voltamos à praia para Pacific Rhythm, com guitarra leve e traços de reggae, e por lá ficamos para o fim de tarde de Broken Promises que nos leva a um final estranhamente claustrofóbico e ameaçador. Pillow Talk encarrega-se de reforçar esse sentimento, com um cheiro a duelo ao melhor estilo western spaghetti no ar. Mas, quanto a mim, o álbum estica melhor as suas pernas em Gold Rush. Um ritmo forte e perturbador leva-nos a uma guitarra que convida a colocar o volume no máximo, criando uma sonoridade fortemente atraente.

Silent Movie é um poderosíssimo registo de abertura para o duo Quiet Village. Seja caminhando por estilos mais suaves e exóticos, seja fazendo a transição aparentemente sem qualquer dificuldades para uma intensidade e a envolvência apaixonantes.

Tracklist:

  1. Victoria’s Secret
  2. Circus Of Horror
  3. Free Rider
  4. Too High To Move
  5. Pacific Rhythm
  6. Broken Promises
  7. Pillow Talk
  8. Can’t Be Beat
  9. Gold Rush
  10. Singing Sand
  11. Utopia
  12. Keep On Rolling

Harvest Breed.

09
Abr
08

Gira-Discos: Suede – Dog Man Star

Os Suede foram uma banda que sempre teve qualquer coisa que desencorajava as pessoas em Portugal de os ouvirem com atenção. Ao princípio, surgiram como um rompimento com uma cena Madchester em declínio, e depressa foram declarados como os grandes pioneiros de um novo estilo musical chamado Britpop, apesar de musicalmente nada terem a ver. No final da sua carreira, a banda havia-se tornado um autêntico sell-out, alienando apreciadores de música mais sérios. Apesar de tudo, quem gosta de Suede ama a sua música obsessivamente, ainda hoje Morrissey toca lados B de Suede ao vivo e o comediante Ricky Gervais fala com orgulho dos tempos em que era manager da banda. Por detrás de um grande disco de música há sempre uma mistura de insanidade, ambição e conflito – e foi isso que levou Suede à sua obra-prima.

Depois do álbum de estreia homónimo (um grande disco no seu direito) que em 1991 estava à frente do seu tempo, aguardava-se com ansiedade o segundo disco de Suede, agendado para sair no Outono de 1994. A banda tinha então mais dinheiro para gastar em gravações, tinham optado por permanecer com a mesma editora indie (Nude) e produtor (Ed Buller) e o guitarrista/co-compositor da banda, Bernard Butler, era visto por muitos como um dos mais talentosos da sua geração, frequentemente comparado a Johnny Marr. Mas os Suede estavam sob tremenda pressão: Butler ficara pessoalmente afectado pelo falecimento do seu pai em 94, esperavam-se esmagadores sucessos comerciais, e Butler (uma pessoa serena, ambiciosa e discreta) sentia-se alienado do resto da banda, que adorava o estilo de vida de fama, sexo, drogas e rock ‘n roll. Depois do primeiro álbum, Butler e Anderson queriam levar Suede a explorar outros territórios musicais, abandonando as tonalidades glam/punk/pop que tanto tinham conquistado pela banda. O objectivo era um disco com grandeur, um ambiente único e uma visão artística.

O novo álbum chamar-se-ía Dog Man Star, numa referência à canção/EP de Meat Beat Manifesto (Dog Star Man).

Anderson trancou-se sozinho numa casa vitoriana a escrever letras e canções (alegadamente) sob as influências da droga e da solidão, enquanto Butler se lançava na missão de arquitectar as partes instrumentais do álbum. Em entrevistas posteriores ao álbum, Anderson disse que Butler “aparecia em estúdio com peças de guitarra épicas de 15:00, e esperava que fosse tudo incluído no álbum”. Butler, por outro lado, mesmo durante as gravações do álbum, veio a público sugerir uma falta de empenho de Anderson, que “parecia mais interessado em gozar o estilo de vida de estrela rock ‘n roll”.

O resto da banda e o produtor assistiam enquanto os dois alternavam entre conflitos verbais frequentes e a criação de música fenomenal, genuína e honesta. A brutal sinceridade do disco é clara em momentos como a performance vocal dos primeiros versos de The Wild Ones (“There’s a song playing on the radio/Sky high in the airwaves on the morning show”) ou dos refrões de Still Life (“Is this still life all I’m good for too?/There by the window quietly killed for you”). Outros momentos íntimos do disco, como The 2 Of Us, vivem justamente disso – um enquadramento instrumental simples e brilhantemente eficaz construído à volta de uma linha vocal que se entrega totalmente àquilo que canta.

Mais de 10 anos depois do lançamento de Dog Man Star, é latente que é esta luta de talentos que tornou o álbum numa referência da música britânica, um marco para gerações de músicos e uma espécie de Santo Graal de produção e composição. Quem ouve o disco percebe que a banda, com todo o respeito que merece, assistia em primeira fila enquanto Brett Anderson e Bernard Butler faziam o álbum épico que queriam fazer – de costas voltadas. Ora agressivos (como Hollywood Life e We Are The Pigs), ora serenos e introspectivos (como Wild Ones e The 2 Of Us), é no desprezo e no entendimento entre Anderson e Butler que nasceram momentos de classe e sofisticação que no pop/rock britânico de 94 não tinham paralelo.

As frustrações pessoais de Butler dentro dos Suede e a própria relação difícil com Anderson levaram a que ele saísse da banda ainda a meio das gravações do disco – Butler, contudo, sempre refutou que ele foi despedido e não que tinha abandonado a banda. Dog Man Star foi um sucesso crítico mas uma desilusão comercial: o primeiro single que antecedia o álbum tinha um nome algo infeliz (We Are The Pigs) e o seu videoclip foi banido por diversas televisões (por conteúdo violento), o abandono de Butler foi visto por muitos como um prelúdio para o fim da banda e a própria música de Dog Man Star era consideravelmente menos amiga da rádio do que o álbum de estreia. Outra explicação para o álbum não ter tido o sucesso comercial que merecia foi o timing: em 1994, os Blur lançaram Parklife, os Oasis lançaram Definitely Maybe – a Britpop explodia e ameaçava conquistar o mundo.

A saída de Butler da banda não foi amigável. Não só acusou Anderson de falta de trabalho e de estar mais preocupado em ser uma estrela, também manifestou um desagrado à intromissão do produtor Ed Buller no processo criativo da banda em Dog Man Star e que ele tinha feito “peças de música lindas que levaram nomes estúpidos como We Are The Pigs”. Anderson, por outro lado, acusou Butler de ser uma pessoa difícil e de ter falta de maturidade a escrever música.

Dog Man Star acabou por ser um álbum único também por isto. Os Suede recrutaram um guitarrista de 17 anos praticamente anónimo para substituir Butler, e depois do fracasso comercial de Dog Man Star tentaram a todo o custo voltar à fórmula mágica comercial do primeiro álbum, efectivamente tornando-se numa triste banda de tributo a eles próprios, esforçando-se em demasia para assegurar sucessos comerciais. Butler, entretanto, começou uma carreira interessante a solo e como músico de sessão – mas é como produtor que neste momento está a recuperar a atenção dos públicos e críticos, que entretanto havia perdido desde 1994.

Which Will.

04
Abr
08

Banda em Foco: Supergrass

Vindos de Oxford, também casa dos Radiohead, com os quais até entraram em digressão, os Supergrass apareceram em 1994 como o último flavor of the day, mais ou menos aquilo que os Enemy ou os Wombats são hoje, uma banda que produz um álbum e depois desaparece num mar de desconhecidos musicais. Muito longe estávamos de saber que iriam ser das poucas bandas, especialmente depois da dissolução dos Blur e dos Pulp, a sobreviver à autêntica máquina trituradora que foi a Britpop de meados dos anos 90, não só mostrando grande consistência musical como nunca perdendo a alegria da sua música, apesar do amontoar de pressões.

Mas tanto ontem como hoje, bastou um só single para agregar quantidades anormais de hype de imprensa em cima dos Supergrass. Essa honra recaiu no propulsivo Caught By The Fuzz, lançado numa discográfica independente (a banda seria assinada pela Parlophone para a edição do seu primeiro álbum), ainda hoje reconhecida como uma das músicas mais infecciosas, desafiadoras e ousadas a sair dos anos 90. E é assim que os Supergrass se apresentaram durante toda a sua carreira, consistentemente ousando e desafiando preconceitos do indie marcadamente britânico e empurrando as suas fronteiras para cada vez mais longe, os Supergrass são das bandas que não recebem o crédito que mereciam quer hoje em dia, quer na duração da sua carreira. Mas examinêmo-la ao pormenor:

I Should Coco (1995)

No auge da Britpop, os Supergrass lançaram o seu disco de estreia sob uma chuva de elogios e capas de revista que os aclamaram como salvadores do lado mais divertido da Britpop, numa espécie de cruzamento entre o bom humor e a inteligência dos Pulp e os mais rockeiros Oasis. I Should Coco beneficiou do impacto que o hino à juventude conduzido pela pianada, Alright, teve junto da corrente de música britânica que ia ganhando espaço.

Agora: I Should Coco, tal como a maioria dos álbuns de Supergrass, envelheceu bem. As guitarras nervosas e os teclados alegras iniciam a directa I’d Like To Know, que dá lugar à não menos irrequieta Caught By The Fuzz, que ainda hoje seria um single fantástico se lançado pela mão de uma qualquer banda do estilo. Mas cedo os Supergrass se mostraram como das bandas mais versáteis a saírem da cena Britpop, um termo que não os favorece. Veja-se a saltitante Lenny, guiada por um trabalho de bateria fantástico, ou as mais sonhadoras She’s So Loose ou Sofa (Of My Lethargy), que se juntam a verdadeiros ícones como Alright e Mansize Rooster (a ser homenageada em nome no próximo álbum de R.E.M.). Destaques: Caught By The Fuzz, Mansize Rooster, Strange Ones, She’s So Loose.

In It For The Money (1997)

In It For The Money apareceu numa altura em que a Britpop começava a dar as últimas. Os Blur viravam-se para outros pastos, os Oasis nem por isso, mas esses nunca viriam a mudar. 1997 foi o ano do lançamento do infame Be Here Now por uns inebriados Oasis e o histórico OK Computer dos Radiohead, efectivamente marcando o fim da era Britpop. Nesse contexto, In It For The Money, apesar de ter sido visto como um lançamento de segundo plano, marcou a era em que os Supergrass se viraram para composições mais resistentes ao passar dos anos e mais adultas e ambiciosas. Sun Hits The Sky, terceiro single, e Richard III fizeram um considerável impacto, mas no geral, acabou por ser um álbum visto de lado.

Agora: Quanto a mim, acaba por ser o melhor álbum dos Supergrass e um dos melhores e mais marcantes da década. As músicas, para além de mais ambiciosas que em I Should Coco, são a perfeita marca de uma banda no auge das suas capacidades. Apesar dos arranjos mais ambiciosos, In It For The Money não perde nenhum do inconformismo e ousadia de I Should Coco, e em termos criativos os Supergrass estão mais fortes que nunca. A abertura homónima mostra a banda decidida e olhando para a frente, “Here I see a time/ to go/ we’ll leave it all behind”, já em Richard III vemos Caught By The Fuzz de cara lavada, não menos rockeiro, mas mais consistente. O quarto single Late In The Day dá uma janela para o que seriam os Supergrass do futuro, enquanto Cheapskate e Going Out são músicas que fariam a inveja de qualquer banda indie britânica hoje em dia. Destaques: In It For The Money, Richard III, Late In The Day, Going Out, Cheapskate.

Supergrass (X-Ray) (1999)

Em 1999 a era do orgulho britânico que a Britpop tanto pregava tinha chegado ao fim e agora enquanto se esperava o ressurgimento do rock puro dos Strokes, instalava-se o medo do milénio que se aproximava com o domínio do experimentalismo dos Radiohead ou dos Spiritualized. A questão que se punha era onde se encaixaria o indie propulsivo e desafiador dos Supergrass nesta altura. A resposta surgiu no álbum homónimo de 99, onde pontificavam os singles tipicamente infecciosos Pumping On Your Stereo e Mary.

Agora: Supergrass é um registo mais contido que os dois anteriores, apesar disso não vemos a banda com dificuldades em arranjar ideias. A prova disso são as pérolas Mary, com o seu refrão explosivo e linhas de baixo atraentes, Pumping On Your Stereo, inegavelmente memorável, Moving, conduzida por acordes de guitarra acústica. Supergrass vê a banda sem medo do futuro e a assimilar o presente confuso que vivia, algo que vemos bem em Born Again. Destaques: Pumping On Your Stereo, Mary, Beautiful People, Moving.

Life On Other Planets (2002)

O primeiro álbum dos Supergrass desde o boom de rock puro e duro de Strokes, Libertines, Franz Ferdinand, Life On Other Planets é também o primeiro álbum com Rob Coombes como membro definitivo da banda. Life On Other Planets é também o primeiro álbum em que os Supergrass se vêem livres da montanha de atenção e hype que tinha estado à volta dos seus registos anteriores. Por um lado, foi considerado por muitos como um regresso à forma, os que consideraram que a tinham perdido, ajudado por essa orientação mais lo-fi que influenciou muitas bandas da altura.

Agora: Life On Other Planets é talvez o álbum mais eclético dos Supergrass. Aqui vemos a banda a apostar na pianada que antes víamos em Alright, em Za, na guitarra acústica e variações estilísticas em Seen The Light, ou ainda no típico riff forte de guitarra em Rush Hour Soul. Evening Of The Day remete e faz mesmo lembrar Late In The Day, enquanto Can’t Get Up impressiona pelo simples e infeccioso refrão que já vimos antes em Mansize Rooster ou Richard III. Destaques: Rush Hour Soul, Evening Of The Day, Can’t Get Up.

Road To Rouen (2005)

Road To Rouen é uma interessante olhadela a uma banda em mutação. Um álbum que mostra os Supergrass na sua faceta mais introvertida e reservada, inspirados pelo contacto directo com a morte, neste caso da mãe do vocalista Gaz Coombes, bem como do seu irmão Rob. Road To Rouen foi tido como um amadurecimento de uma banda que durante anos a fio se recusou terminantemente a sair da jovialidade e irreverência que marcou a sua carreira, daí ter dividido opiniões.

Agora: Road To Rouen é certamente um corte com o passado, aqui vemos maior proeminência de composições menos frenéticas e mais simples, como a primeira faixa, Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6), com uma guitarra acústica a marcar o tom do álbum. Tecnicamente, não é tão ecléctico como alguns dos seus predecessores, mas tem um feel mais íntimo e pessoal, acompanhado de uma execução surpreendentemente honesta. Não é imperdível, mas é o registo de uma banda que se sente introspectiva, em mutação. Destaques: Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6), St. Petersburg, Roxy.

Os Supergrass lançam este mês o seu sexto álbum, Diamond Hoo Ha.

Harvest Breed.