Arquivo de Junho, 2008

23
Jun
08

Novos Lançamentos: Vivian Girls – Vivian Girls

O aparecimento das Vivian Girls, as três senhoras Cassie Ramone, Frankie Rose e Kickball Katy, este ano parece quase em sintonia com a reunião e digressão dos Jesus and Mary Chain no ano transacto. Fazendo jus à boa tradição recente de bandas de Nova Iorque (as Vivian Girls vêm de Brooklyn) como os Strokes ou os Interpol que fundiam uma apetência por hooks facilmente discerníveis e viciantes com secções rítmicas que as trazem para o protagismo, as Vivian Girls, que se auto-definem como punk-shoegaze, têm um fetiche especial pela sonoridade retro não só do shoegaze dos JAMC, como da desorientação lo-fi dos Velvet Underground, mas acima de tudo aliando a um olho muito perspicaz para simples melodias pop.

O seu álbum homónimo de estreia vê as Vivian Girls no seu lado mais consistente, seja balançando para o lado mais shoegaze da sua música, como em Tell The World ou em Where Do You Run To?, seja mais inclinando para rápidos e frenéticos, porque não dizer revoltados, números punk, como em No ou em Going Insane. Sempre a balançar nesta corda, o álbum mostra-se surpreendemente consistente e suficientemente rico para se revelar cada vez mais em cada nova audição, mesmo apesar do tempo total deste álbum, pouco mais de 22 minutos, mais se assemelhar ao de um EP. Se tanto, este disco deixa-nos com um cheirinho doce no ar e a pedir mais do mesmo, mesmo não sendo um registo tremendamente ecléctico.

E se a ideia era mesmo o caminho da homage respeitosa às suas influências, sem as directamente copiar, a sua produção bastante fiel não defrauda este álbum, não deixando de surpreender a forma como as linhas vocais se encaixam por trás de todo o assalto sonoro. Assalto sonoro, esse, talvez mais notório na faixa de abertura, All The Time, poderosa, mas bem disposta. O single Wild Eyes é assustadoramente viciante, com a sua malha simplista de bateria e interlúdios conduzidos por guitarra para respirar, faz bom uso das harmonias vocais que tão bem as Vivian Girls usam ao longo de todo o álbum, mas é Where Do You Run To? que se pode orgulhar de ser jóia da coroa posicionada a meio da tracklist, usa um mood muito mais expectante, mas consegue elevar ainda mais a excelência das harmonias vocais de Wild Eyes. Para primeiro álbum, as Vivian Girls chegaram provavelmente mais longe do que pensavam, com incontáveis outras bandas que tentam reproduzir a mesma sonoridade com resultados bem distintos.

Tracklist:

  1. All The Time
  2. Such A Joke
  3. Wild Eyes
  4. Going Insane
  5. Tell The World
  6. Where Do You Run To?
  7. Damaged
  8. No
  9. Never See Me Again
  10. I Believe In Nothing

Harvest Breed.

10
Jun
08

Liars no Santiago Alquimista 09-06-08

Tive de escolher entre ver a segunda parte do Holanda – Itália e ver Liars no Santiago Alquimista. Se soubesse que a primeira parte iria começar com aproximadamente uma hora de atraso, teria ficado em casa para ver o golo do Van Bronckhorst.

Para abrir as hostilidades, entraram em palco os portugueses Loosers – que tocaram uma única música instrumental durante os cerca de 25 minutos que estiveram em palco. Canção essa que consistiu basicamente num único loop, repetido durante 20 minutos, com algumas variações mais no final. E um gong. Para ser franco não conheço o trabalho deles, mas a sensação que me transmitiu era que eles têm alguns bons pormenores de inventividade, mas no geral achei a música de Loosers um pouco enfadonha e a sua presença em palco desinteressada. É preciso ter coragem para abrir para Liars e tocar apenas uma única música repetitiva… Coragem ou burrice.

E surgem Liars. O set list consistiu essencialmente em temas do LP mais recente (Liars) e do terceiro álbum (Drum’s Not Dead). Para minha grande tristeza (mas já me tinham avisado disto), não tocaram uma única faixa do álbum de estreia (They Threw Us All In a Trench And Stuck a Monument On Top).

A banda nova-iorquina trouxe ao Santiago Alquimista postais vivos do mundo de uma determinada juventude urbana americana do século XXI – paranóica, claustrofóbica, frustrada e enraivecida. Isto foi concentrado na pessoa de Angus Andrew, de barba e cabelo comprido e oleoso, de fato e gravata, cujos “movimentos de dança” (sempre genuínos e espontâneos) eram refrescantemente estranhos e pesados. Como vocalista, teve uma presença em palco única e cheia de carácter. Em crescendo de intensidade no set list, a música de Liars esteve sempre bem, ora por vezes negra e perturbada, ora tribal e primal. E quem conhece a discografia de Liars sabe que quando se fala em tribal e primal, fala-se do terceiro álbum – as músicas de Drum’s Not Dead funcionam espectacularmente bem ao vivo e trazem um elemento diferente e original ao set list.

As únicas coisas de que me posso queixar é de tudo ter começado um pouco atrasado (e logo em cima do Holanda – Itália, por amor de Deus), de uma primeira parte um pouco monótona e de um público algo pequeno e expectante.

Nota: 8

Which Will.

03
Jun
08

Novos Lançamentos: Deerhunter – Microcastle

Leakando praticamente 3 meses antes da sua data de saída oficial, tanto que ainda nem está disponível a capa do disco, o novo álbum de Deerhunter aparece no seguimento da tournée europeia da dupla Animal Collective e Atlas Sound, projecto paralelo do frontman dos Deerhunter, Bradford Cox, concerto do Lux já revisto no blog. Microcastle é talvez um dos álbuns mais esperados do ano, depois do hype que Cryptograms, segundo disco dos Deerhunter, recebeu em 2007. Apesar de apreciar a forma como os Deerhunter encorporaram as suas influências em Cryptograms, o disco sofre de uma inconsistência que torna a audição difícil que nem os pontos altos como a faixa homónima, Octet ou Strange Lights conseguem evitar, Cryptograms é um album prometedor.

Com Microcastle, a banda opta por uma nova direcção, sem abdicar da sua identidade própria, o novo álbum é mais directo e orientado para melodias, e o facto é que os resultados são surpreendentes. Onde antes teríamos faixas densas e marcadamente shoegaze como White Ink, temos agora números mais crus e genuinamente honestos. Dizia Bradford Cox em entrevista, que em Microcastle os Deerhunter tinham procurado eliminar as incursões em música que se arrastasse por vários minutos e que fosse antes mais directa e imediata. Longe de ser um álbum pop, Microcastle é a versão dos Deerhunter de música pop.  Na realidade, com as mesmas 12 músicas de Cryptograms, Microcastle tem cerca de menos 10 minutos de música que o seu antecessor. E o facto de ser mais conciso parece só ter feito bem; mantendo, como sempre, a sua identidade shoegaze, Microcastle, para além de se aguentar muito bem como um todo, tem aqui algumas das melhores peças de música que já ouvimos este ano.

A primeira amostra disso é talvez a mais forte: depois da já habitual Intro, Microcastle entra em grande com Agoraphobia, com o guitarrista Lockett Pundt a tomar o papel de vocalista é repleta de melodias atraentes e deslumbrantes, torna-se logo perceptível o carácter mais despido e natural do novo registo, mesmo acompanhado de guitarras que já não fazem barreiras sonoras, antes arranjos simples, mas brutalmente eficazes. Never Stops lembra um pouco a progressão da faixa homónima do último álbum, sem a linha de baixo irrequieta, mas com melodias vocais surpreendentemente admiráveis, enquanto Little Kids é agradavelmente provocadora e aposta num crescendo para uma barragem de guitarras final. Com mais uma bridge tremendamente eficaz, o tema título é mais um dos pontos altos, que voltamos a ouvir em Nothing Ever Happened, talvez a maior mostra das influências post-punk dos Deerhunter, repleta de linhas de baixo fortes e guitarras pesadas.

Microcastle é certamente uma experiência mais consistente e globalmente agradável que Cryptograms e não será difícil de ver este álbum entre as listas de melhores do ano… quando eventualmente for lançado oficialmente.

Tracklist:

  1. Intro
  2. Agoraphobia
  3. Never Stops
  4. Little Kids
  5. Microcastle
  6. Calvary Scars
  7. Green Jacket
  8. Activa
  9. Nothing Ever Happened
  10. Saved By Old Times
  11. These Hands
  12. Twilight At Carbon Lake

Harvest Breed.