Arquivo de Agosto, 2008

26
Ago
08

Criticando Públicos

Tendo assistido a diversos concertos em Inglaterra durante 2 anos, e depois de regressar de um festival na Suécia, ocorreu-me fazer uma reflexão sobre a atitude das pessoas perante música ao vivo nos diferentes países. Costuma dizer-se que as pessoas no Norte da Europa são geralmente mais frias e menos expressivas do que no Sul e que isso reflecte-se em ambientes de concertos. Costuma, também, dizer-se que o público português “ou ama ou odeia”. Será mesmo assim?

Antes de mais, o que é que leva as pessoas destes países a vir a concertos? Em Londres, há genuinamente uma cultura de “sair à noite para ir ver música ao vivo”. Mais, o conceito de banda de covers é geralmente circunscrito a eventos como casamentos, festas de aniversários e coisas do género. Esta ideia é uma coisa que se tem cimentado desde os anos 60 e a chamada “british invasion” de música pop/rock. Tradicionalmente, sai-se à noite relativamente cedo para pubs, que podem ir desde pubs chic com decoração elaborada e vinhos franceses até buracos pegajosos à pinha com miudos malcheirosos descalços e cerveja morna. Cerca de metade de todos os pubs na capital inglesa possuem uma sala à parte cuja entrada é cobrada, onde se pode assistir a música ao vivo. Tendo em conta que estamos a falar de imensos pubs, este tipo de prática só existe porque há mesmo um substancial número de pessoas que estão dispostas a pagar dinheiro para ver música ao vivo, mesmo sabendo que vão ver bandas sem contrato, sem notoriedade cuja música provavelmente nem conhecem muito bem. Ou seja, as pessoas têm mesmo um desejo de ver música ao vivo num sentido de a descobrirem.

Como é que isso se reflecte na atitude do do público durante o espectáculo? Bom, se imaginarmos uma sala pequena onde as pessoas pagaram para entrar e provavelmente muitas delas estão entre o “ligeiramente tocadas” até ao “a uma uva de um coma alcóolico”, muitas reacções são compreensíveis. Para já, há uma grande proximidade entre o artista e o público, quer pelo espaço em si, quer pelo carácter aberto e frugal do espectáculo. O facto de haver muito álcool à mistura (na mais fina tradição britânica) também serve para desinibir muita gente para mostrar o que pensa mesmo da música e da banda. Não é difícil uma pessoa sujeitar-se a ser enxovalhada, a este nível.

Tendo em conta que apenas fui a um festival na Suécia, as minhas conclusões sobre os públicos escandinavos valem pelo que valem. Mas notei uma similaridade muito importante com o público inglês: muita gente foi assistir a concertos de bandas semi-obscuras apenas e só por recomendação de outros. E não se trata de aparecer em concursos de bandas de amigos em juntas de freguesia com entrada livre, estamos a falar de ficar em filas de 100 metros à porta de sítios que cobram bem mais do que 5 euricos à entrada.

Em termos de “personalidade da plateia”, os suecos são muito mais expectantes do que quer os ingleses ou os portugueses. No geral, tentam apreciar a música e o espectáculo sem incomodar o vizinho do lado, especialmente quando a música não é bem banda sonora de mosh – e especialmente quando estão em missão de descobrir música nova. Não se coibem de andar aos saltos e moshar se a música assim o requer, mas não são abertamente interventivos ao ponto de espontaneamente interagir com os artistas como os portugueses ou os ingleses.

Então e os portugueses? Não é novidade para ninguém que cá não existe a tradição britânica de voluntariamente querer sair regularmente para ouvir bandas de originais anónimas. Um conhecido costuma dizer que “quem só vê os jogos do Benfica não gosta de futebol – gosta apenas do Benfica”. Será que isto quer dizer que os portugueses não gostam mesmo de música mas sim apenas das suas bandas preferidas e estabelecidas?

Historicamente, Portugal tem uma tradição muito reduzida (praticamente insignificante) de bandas e música pop/rock. Não somos como os ingleses que tiveram The Beatles e The Rolling Stones, ou como os suecos que tiveram Abba. O que explica que não sejamos um país de onde se espera grandes novidades ou revoluções musicais. E o público português é o primeiro a não esperar grandes coisas dos seus artistas compatriotas. Conta-se pelos dedos de uma mão os sítios em Lisboa onde as bandas de originais podem regularmente tocar ao vivo, sem ser a uma segunda-feira à noite, para 6 ou 7 conhecidos da banda. A tradição lisboeta de espectáculo ao vivo sempre foi a cena do fado, que agora está praticamente reduzida a turistas e um punhado de aficionados, prática pouco transmitida aos públicos jovens.

Não sendo Portugal uma paragem importante das digressões dos grandes artistas anglo-saxónicos, a maioria dos portugueses raramente vai a concertos, quer devido a qualidade quer devido a quantidade. Tendo também em conta que os preços de bilhetes se tornaram algo proibitivos para muitos, os portugueses perderam muito o hábito de ver música ao vivo em comparação com outros países ocidentais. Isso revela-se um bocado em atitudes menos louváveis de alguns espectadores: no Optimus Alive, um autêntico batalhão de fãs de Rage Against The Machine alojou-se directamente em frente ao palco principal no príncipio do festival (RATM foi a última banda a tocar). Durante os concertos de 3 ou 4 bandas ficaram sentados ou deitados em grandes grupos directamente à frente do palco, impediram outros que queriam apreciar os espectáculos de perto e à vontade e nalguns casos insultaram os artistas – tudo porque só ali estavam para ouvir RATM, mais nada, queriam a todo o custo um lugar privilegiado e não lhes interessava minimamente a música que outros pudessem ter para oferecer.

Contudo, quando em número suficiente e convenientemente motivado, o público português é muito participativo. Em bastantes aspectos, comporta-se muito como uma assistência de um jogo de futebol: têm cânticos, cantam letras das músicas que querem ouvir entre as canções, muitas vezes fazem mais barulho do que os próprios artistas (que o diga outros que viram recentemente José González na Aula Magna). Isto reforça a ideia de que os portugueses não estão lá propriamente para ouvir música em si mas mais pela experiência de estar num ambiente de concerto. A sensação de que se fica é que os portugueses ou são conhecedores e assistem ao espectáculo de uma forma fria, desligada e “sou demasiado cool para andar aos saltos e cantar a letra”, ou não gostam mesmo de música em geral e estão a assistir a um concerto para ouvir o seu artista mais-que-tudo debitar aquelas canções predilectas num ambiente ao vivo, pelo mesmo motivo que alguém vai ver um Sporting – Benfica ao vivo em vez de o ver pela televisão em casa. Isto suporta a proliferação de bandas de covers neste país – muitos músicos portugueses dizem-me que se eu quero dar concertos e fazer algum dinheiro que seja com música neste país, tenho de tocar numa banda de covers. Ou seja, só se toca ao vivo regularmente se se estiver a tocar música que o público já conhece e gosta. As pessoas certamente argumentarão “mas porque é que hei-de ir ouvir música que não conheço?”; eu pergunto “mas porque hei-de ouvir música que já ouvi mil vezes em casa e na rádio?”.

Which Will.

25
Ago
08

Way Out West ‘08 (em fotos)

Harvest Breed.

16
Ago
08

Way Out West Festival 2008 em Gotemburgo, Suécia – Dia 3

Joan As Police Woman, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Começando ainda mais cedo que o dia anterior, o segundo dia abriu com o concerto da americana Joan Wasser, aka Joan As Police Woman. Talvez mais famosa pela relação que em tempos mantia com Jeff Buckley por altura da sua morte e pela sua participação no projecto de Antony Hegarty com os Johnsons do que propriamente pela sua carreira a solo, uma audição à sua música deu para perceber porquê. Joan e a sua banda fazem música que não compromete nem insulta ninguém, e isso acaba por ser o seu grande problema. Sentada ao piano durante o início do set, arrastando-se sem grande entuasiasmo nem presença de palco por um punhado de músicas passáveis, Joan não conseguiu contagiar uma multidão já apreciável enquanto a sua banda se debatia com problemas técnicos que quase levaram a sua baixista a um ataque de nervos, e não sendo um concerto pouco profissional, não deixou de ser desinteressante.

José González, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage

Tendo em conta que este concerto representava um regresso do trovador folk à sua cidade natal de Gotemburgo, esperávamos uma recepção apoteótica que contrastaria com o cariz simples e despido das suas músicas, mas não foi bem o que vimos quando nos aproximámos do palco. Apesar de poder contar com um público bem apreciável e conhecedor para uma hora ainda relativamente cedo, não se pode dizer que os suecos sejam grandes apreciadores do folk. Ainda assim, González apresentou uma performance tipicamente profissional e eficaz, como já tínhamos visto quando o sueco passou pela Aula Magna em Abril, servindo-se de material dos seus dois álbuns em porções sensivelmente iguais. Apesar das já previsíveis boas recepções a números como o cover dos Massive Attack Teardrop, a Down The Line do último álbum ou a Crosses do primeiro, foi Heartbeats, já mundialmente reconhecida pelo anúncio da Sony, que gerou claramente o maior entusiasmo no seu set, o que acaba por ser normal, até por ser um bem sucedido músico sueco a fazer um cover de outra banda bem sucedida sueca. González mostrou novamente ser um músico consistente e sólido ao vivo.

The Bug, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Com o cancelamento de Girl Talk à última da hora, a organização acabou por encontrar um substituto com uma aproximação sónica mínima sob a forma do DJ inglês The Bug. Navegando a onda da sua recente popularidade depois do lançamento e da boa recepção crítica, em especial pela trendsetter Pitchfork, do seu álbum London Zoo, não deixou de ser ainda uma ligeira surpresa que, mesmo com um turnout apreciável, o seu concerto acabou por ser o menos concorrido do festival. Ainda assim, e apesar dos problemas técnicos insistentes, acabou por ser um concerto muito interessante. Decerto que as suas sonoridades de dubstep neurótico e com travos de jungle e house se adaptariam melhor a um horário mais tardio, mas ainda assim The Bug, que se fez ainda acompanhar pelo rapper Flowdan e a enérgica Warrior Queen, acabou por conquistar um público que sempre pareceu estupefacto com este tipo de música.

Kelis, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage

Apesar de entrar num certo choque com o cariz do resto do festival, não deixou de surpreender a presença de uns quantos números de hip hop abertamente comercial sob a forma de Kelis, N.E.R.D e Lil’ Kim. Apanhando a parte final do concerto de Kelis, que teve a particularidade de ter sido o único a atrasar os horários desenhados pela organização, foi ainda possível ouvir dois dos seus grandes êxitos: o apoteoticamente recebido Milkshake, e talvez o seu número mais dançável Trick Me que acabou por fechar o set. Kelis talvez não seja propriamente uma popstar nascida para sê-lo, mas parece lidar bem num cenário ao vivo. E não, não sei dizer mais nada sobre isto.

Sahara Hotnights, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage

Se há algo que se possa dizer que seja um dos grandes sucessos da organização, é sem dúvida a forma como conseguiu fazer entrelaçar as bandas com carreira e sucesso estabelecido ou apenas com algum reconhecimento nos círculos indie americano ou inglês com bandas suecas que, viemos a descobrir, se provaram extremamente populares entre os locais, e apesar de nenhuma nos ter particularmente entusiasmado, pelo menos têm uma excelente oportunidade de se fazerem ver num festival com esta mentalidade. Uma dessas bandas da ‘casa’ eram os Sahara Hotnights, ou melhor, as Sahara Hotnights, quatro mulheres a fazerem um revivalismo vulgar de rock de garagem dos anos 70 da mesma forma que um dia antes os Mando Diao se tinham mostrado fãs muito especiais de Libertines e rock britânico. Apesar de pouco entusiasmante, não deixou de ser bem recebido por um público caseiro, mas acolhedor às suas bandas nacionais.

N.E.R.D., 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage

Sentado no sofá a ouvir a música dos N.E.R.D. na MTV já é uma experiência suficientemente estupificante, mas vê-los ao vivo assume um outro patamar de estranheza. Com um setup monstruoso, servindo-se de equipamento impressionante e com uma base de fãs apreciável e incrivelmente excitada, a banda leva toda o seu ego auto-inflaccionado e misoginia na duração do seu concerto. Apesar disso, foi impressionante ver em primeira mão um tipo de concertos que tem muito pouca saída em Portugal e ainda assim testemunhar o entusiasmo de uma plateia ao rubro com números como She Wants To Move, a única que conhecia e a única que reconheci, com fãs a serem chamados ao palco para entoarem as músicas com Pharell e amigos.

Fleet Foxes, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Entrando na recta final do festival, o WOW acabaria por fechar com três dos melhores concertos que se viram no fim de semana. O primeiro do fim de tarde e princípio de noite era o dos muito aclamados folk-rockers de Seattle Fleet Foxes. E acabou mesmo por ser o concerto típico de uma banda no pico dos seus poderes musicais e demonstrando alguma da melhor música que se vê hoje em dia. E os suecos pareceram reconhecer isso de forma inequívoca, se nos orientarmos pela quantidade de fãs acérrimos que se juntaram na tenda e a fizeram abarrotar de gente pelas costuras. A banda fez tudo o que se pedia que fizesse e tocou um set imaculado e diplomático onde incluiu todos os seus números mais populares como a peça central do EP Sun Giant Mykonos, o último single Blue Ridge Mountains que fez arrepiar e motivar um grande singalong ao mesmo tempo e a espectacular White Winter Hymnal. Toda a forma como a banda interpretou estes e outros temas que ora destacavam todos os instrumentos e davam um ar completo à banda como English House ou ainda as espantosas harmonias vocais de Sun Giant, roçou sempre a perfeição. Se juntarmos isso à boa interacção com o público temos o porquê da maior ovação do festival, que se estendeu bem para lá da banda ter vindo arrumar os instrumentos.

The Flaming Lips, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage

Algures nas últimas duas décadas os Flaming Lips ganharam uma reputação por ser a melhor banda ao vivo do circuito indie. Independentemente do material em que se centram os concertos, que tem variado em qualidade ao longo dos anos, desde o mítico Soft Bulletin, passando pelo espectacular Yoshimi Battles The Pink Robots e acabando com At War With The Mystics, o seu último álbum, que não sendo uma obra prima, tem alguns números que se aguentam de forma surpreendemente boa num cenário ao vivo. Desde a primeira nota à última que se percebe o porquê dessa reputação, e o feel em qualquer concerto da banda parece ser o de um evento único e especial. Desde à já habitual e nunca menos impressionante bola insuflável do vocalista Wayne Coyne, passando pela parada de Teletubbies e pelas constantes explosões de confettis, acabando na excelência do espectáculo visual reproduzido em pano de fundo, ver os Flaming Lips é sem dúvida uma experiência memorável. Começando com uma das melhores músicas de abertura em Race For The Prize, de Soft Bulletin, passando pelo coro que se juntou numa versão unicamente vocal de Yoshimi Battles The Pink Robots e acabando no habitual final de Do You Realize??, o concerto de Flaming Lips não dá nenhum momento por perdido.

Lykke Li, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Virtualmente ignorada em Portugal e uma verdadeira popstar na Suécia, o concerto de Lykke Li representava um aclamado regresso a casa num justo horário de cabeça de cartaz para a autora do nosso terceiro melhor álbum da primeira metade do ano, apesar do seu disco de estreia Youth Novels já ter alguns meses de idade na Suécia. E isso notou-se plenamente ao observar o público sueco, que conhecia praticamente todas as letras e que fez abarrotar pelas costuras uma tenda claramente pouco preparada para receber um concerto tão concorrido como este. O mesmo já tinha acontecido nos concertos de Fleet Foxes, The Sonics e The National neste palco. Mas apesar dos constrangimentos de espaço, a chanteuse sueca não desiludiu, e começou o seu set com uma rendição grandiosa da doce, mas calculada Dance. Dance. Dance, um dos seus singles mais impressionantes, e a partir daí sempre pareceu ter a plateia controladíssima, fosse pelos singles e números mais dançáveis, fosse pelas músicas mais íntimas e reflectivas, o concerto cedo se viu que seria sempre uma vitória para Lykke Li. Numa interessante escolha de covers, viu-se uma representação do single de estreia dos Vampire Weekend Cape Cod Kwassa Kwassa, que resultou bem, ao contrário de um cover de Can I Kick It? dos A Tribe Called Quest, que pareceu forçado. Mas covers à parte, o material de originais de Youth Novels era demasiado forte para não funcionar em concerto. E especialmente impressionantes foram os singles Little Bit, apoteoticamente recebido, I’m Good, I’m Gone, uma das mais dançáveis do seu repertório, e o último single e dono de um refrão samplado Breaking It Up, o concerto de Lykke Li fechou o WOW 2008 da forma que merecia. Para o ano há mais.

Harvest Breed.

14
Ago
08

Way Out West Festival 2008 em Gotemburgo, Suécia – Dia 2

Iron And Wine, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

No dia seguinte, com a nossa genitália já recuperada do concerto de No Age, começámos suavemente com o folk de Iron And Wine. Já nas arenas ao ar livre, o recinto estava outra vez cheio. Como esperávamos, Iron And Wine apresentaram versões criativas dos temas da sua discografia, bastante mais funky e groovy, com a ocasional jam. Contudo, nada disto tirou o carácter doce e pessoal da voz de Sam Beam nem a sua interpretação apaixonada das letras. Enquanto que os discos de Iron And Wine mostram uma intimidade grande com o singer/songwriter, ao vivo consegue-se ver melhor o que é possível fazer com a sua música tendo uma banda competente, imaginativa e sensível com mais liberdade e preponderância.

The Sonics, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Os The Sonics eram uma banda que fazia parte da onde de garage rock americano de princípios e meados dos anos ‘60. Para nossa grande surpresa, encontramos-los no cartaz, aparentemente a fazer uma espécie de digressão de reunião. The Sonics foram citados como influências importantes por pessoas como Kurt Cobain, James Murphy, Thurston Moore e outros. Ao vivo em 2008, é mais que óbvio que a idade já lhes está a pesar um bocado – não são propriamente animais de palco, têm uma postura e linguagem que evidencia um bocado o facto de terem idade para serem avôs da maioria das pessoas na plateia. Contudo, transmitiam a ideia de que estavam a gostar mesmo muito do que estavam a fazer, e que estavam com vontade de entusiasmar e conhecer melhor o público. Para uma banda com cerca de 40 anos de idade estavam surpreendentemente bem rotinados, enérgicos e genuinamente motivados. Mas o mais surpreendente de tudo era o seu som de guitarra – forte, distorcido e num estilo característico, roçava o punk e parecia extremamente actual. Um concerto agradável e inesperado.

Franz Ferdinand, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage

Não se trata de uma banda que nunca esteve ou nunca vai estar em Portugal, mas foi um concerto interessante para ver. Na Suécia, Franz Ferdinand têm um público-alvo um bocado diferente do que em Portugal – os espectadores eram esmagadoramente raparigas adolescentes que pareciam perder um pouco de fulgor quando a banda tocava canções que não eram singles. Foi muito mais estimulante ouvi-los tocar as músicas do novo álbum que o público conhecia menos bem. Em palco, a banda foi igual a si própria e fez uma performance sólida e motivada, quer estivesse a tocar a Take Me Out ou qualquer coisa menos conhecida. Apesar do factor N’Sync, foi um bom concerto.

Okkervil River, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Tal como No Age, mais cedo esperamos ver Jesus Cristo em Portugal do que Okkervil River em Portugal. Contudo, e novamente como em No Age, o público era muito numeroso e aderia em massa. Cheios de energia e convicção, Okkervil River entregaram uma performance excelente e tocaram um cover muito bem conseguido de Sloop John B dos Beach Boys. O estilo da actuação, indie pop enérgico, trouxe à memória concertos memoráveis de The Arcade Fire. Deixaram o apetite da plateia aberto para um regresso aos palcos suecos em Outubro. Muito infelizmente, por estas partes vamos continuar a segui-los apenas à distância.

Sonic Youth, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage

Com Thurston Moore a envergar uma t-shirt de The Sonics, que haviam tocado pouco antes, a expectativa para ver Sonic Youth era muita. Contudo, e ao contrário dos The Sonics que esconderam bem a sua idade com entusiasmo e comunicação, os Sonic Youth pareciam bem mais velhos, cansados e desinteressados. A música que tocaram não trouxe mais para quem já os conhecia, nem despertou interesse para quem os conhece menos bem. A sua postura em palco foi estática, indulgente e distante. Com um público cheio de fanboys, acabou por não ser uma catástrofe como certamente teria sido se fosse outro artista noutro país.

The National, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage

Bom, sendo a terceira vez que vemos The National ao vivo este ano, não sei muito bem que mais se pode dizer. Não foi uma actuação tão especial e íntima como o concerto da Aula Magna em Lisboa, mas foi consideravelmente melhor e mais entusiasmante do que o espectáculo no Optimus Alive. O alinhamento foi praticamente igual àquele que apresentaram no Alive, mas Matt Berninger apareceu muito menos alcoolizado e mais concentrado. The National, pela natureza introspectiva e pensativa da sua música, definitivamente são uma banda que ao vivo funciona melhor num concerto a título individual – e menos bem inserida em festivais. Contudo, a resposta do público foi muito melhor que a do público do Alive, e o facto de estarem a tocar num recinto coberto ajudou também a criar uma sensação de intimidade que lhes favorece muito. No geral, foi um concerto sentido, concentrado e bem executado, que transpareceu bem aquilo que é a música deles sem produzir um espectáculo extraordinário.

Sigur Rós, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage

Depois de The National, ficámos curiosos para ver como se comportariam Sigur Rós num contexto de festival de música. Começando a tocar ao anoitecer, a banda fez-se ao palco com uma entourage enorme (aquilo que parecia ser toda a população com formação musical da Islândia) e com um guarda-roupa e decoração de palco originais começaram o alinhamento com Svefn-G-Englar, de Agaetis Byrjun. Mesmo fazendo música introspectiva, quando se tem em palco um exército de músicos e se aposta no grandeur, um concerto de festival conseguiu multiplicar a música de Sigur Rós. Novamente, o público mostrou-se unanimemente interessado e encorajador, e a banda respondeu com uma performance imponente que faz jus àquilo que se ouve nos seus discos. Foram sinceros e compenetrados nas passagens calmas e sentidas, e intensos e expressivos nos grandes clímaxes que são sua imagem de marca. O alinhamento terminou com Gobbledigook, com grande adesão dos espectadores, fechando a actuação com chave de ouro.

Dengue Fever, 8 de Agosto de 2008, bar Pustervik

De volta ao bar Pustervik onde na noite anterior vimos No Age, Dengue Fever abriu o palco. Honestamente, nunca tínhamos ouvido falar deles e não sabíamos muito bem o que esperar. Pelo que estavamos a constatar da organização e da escolha de artistas para o cartaz, parecia-nos que eles sabiam o que estavam a fazer e que certamente Dengue Fever não foram escolhidos para abrir para The Dodos só por acaso. Mas Dengue Fever foi estranho. Não foi mau, foi simplesmente estranho. A música deles era bastante acessível e fácil de ouvir, mas o conceito por detrás da banda era pura e simplesmente estranho. Imaginem Vampire Weekend (com todos os seus méritos e deméritos) presos num filme de Bollywood. Dengue Fever faz um tipo de pop muito standard, happy e convencional, tudo muito bem executado, e apostam sobretudo na diversidade étnica da banda para dar um twist diferente à música que fazem. Da bateria, baixo e até certo ponto também da guitarra, a banda é tradicionalmente pop anglo-saxónico bem executado e sem invenções. Mas com as escalas árabes e norte-africanas dos orgãos e o estilo livre, puxado e agudo da voz, que é claramente modelada para soar às vozes nos discos de música tradicional indiana, a banda joga a sua carta de diferenciação. Mesmo apesar de maioria das letras serem sobre amor em inglês, e terem a clássica estrutura verso-refrão-verso. A nós mortais, Dengue Fever não nos pareceu mais do que uma banda pop sólida e standard com um gimmick da diversidade cultural. Quanto ao concerto em si, a banda pareceu extremamente bem disposta, pronta a pôr o público a cantar e aos saltos, com o seu baixista enorme (de uns 2 metros de altura) que não canta a ser mais interventivo e falador com o público do que a sua diminuta vocalista cambodiana de 1,5m.

The Dodos, 8 de Agosto de 2008, bar Pustervik

Um dos grandes momentos do dia. Desde que decidimos que viríamos a este festival que estávamos com muita expectativa para ver The Dodos. Uma das nossas grandes bandas do momento, não acreditamos que The Dodos tenham público que justifique uma vinda ao nosso país. Tal como em No Age, estávamos um bocado reticentes se haveria interesse suficiente do público. E tal como em No Age, não ficámos desiludidos. The Dodos assumiram uma postura extremamente humilde, transparente e sinceramente sentida em palco, e enterpretaram a sua música bem à altura daquilo que deles conhecemos em estúdio. Sozinho, o vocalista Meric Long parece um hábil jovem músico blues a tocar originais nos metros de Nova Iorque, e a abordagem inventiva e original do resto da banda à percussão e uso de teclados traz um elemento especial e diferente ao som de The Dodos ao vivo. Entre a guitarra embriagada e tensa, as vocalizações doces sobre coisas óbvias e não tão óbvias, e entre as percussões que são tribais e primais sem serem brutais, algures está a magia e simplicidade na música de The Dodos. Algo de apaixonante de ouvir, algo que vendo em pessoa sabemos que estamos a ver algo de muito belo e muito raro, que no próprio momento sabemos que não voltaremos a ouvir e que só fará mesmo sentido para quem lá esteve.

Which Will.

13
Ago
08

Way Out West Festival 2008 em Gotemburgo, Suécia – Dia 1

Depois de um período de férias (até gente como nós merece desanuviar), estamos de volta. Estivemos no festival de música Way Out West em Gotemburgo, na Suécia, a ver música ao vivo umas 16 horas por dia e preparámos para vós, ávidos leitores do volume/tone, um pequeno resumo das actuações que vimos. Na sua maioria, podemos dizer que tivemos a sorte de ver grandes artistas que dificilmente viriam a Portugal nas circunstâncias actuais – alguns deles já seguíamos há algum tempo, outros apenas tínhamos alguns conhecimentos soltos. Podem encontrar o cartaz completo do festival em http://wayoutwest.se/english .

No Age, 7 de Agosto de 2008, no bar Pustervik

O primeiro concerto que assistimos do WOW trouxe a banda de Los Angeles No Age a um bar escuro e mal ventilado da cidade. Tendo em conta o facto de ser a primeira noite do festival, numa noite chuvosa, com uma banda indie/hardcore semi-obscura a ser cabeça de cartaz num barzeco, esperávamos um público de não mais de 30 curiosos sem muito entusiasmo – o que seria o mais provável acontecer em Portugal. Estávamos tão enganados. Contávamos poder ver a primeira parte com Mae Shi e Health, mas o bar estava sobrelotado e a fila para entrar quase dava a volta ao quarteirão. Costuma dizer-se que os públicos nórdicos são frios e pouco expressivos – as primeiras palavras de No Age ao subir a palco foram “We’re gonna need you to fuck shit up tonight”, e foi isso que aconteceu. O mosh só parava para se aplaudir entre as músicas e com a banda a menos de 1 metro do público, voava suor, guitarras, cerveja e pessoas num sitio onde sequer respirar era difícil. Imaginámos que era impossível que toda a gente que ali estava conhecesse a discografia de No Age, mas isso era irrelevante – toda a gente naquele bar completamente cheio estava a apreciar a música como se fossem fãs de longa data. Vimos um sueco calvo e maneta a fazer stage diving de tronco nu – duas vezes. Foi o tipo de concerto que fazem lendas.

Which Will.