Iron And Wine, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
No dia seguinte, com a nossa genitália já recuperada do concerto de No Age, começámos suavemente com o folk de Iron And Wine. Já nas arenas ao ar livre, o recinto estava outra vez cheio. Como esperávamos, Iron And Wine apresentaram versões criativas dos temas da sua discografia, bastante mais funky e groovy, com a ocasional jam. Contudo, nada disto tirou o carácter doce e pessoal da voz de Sam Beam nem a sua interpretação apaixonada das letras. Enquanto que os discos de Iron And Wine mostram uma intimidade grande com o singer/songwriter, ao vivo consegue-se ver melhor o que é possível fazer com a sua música tendo uma banda competente, imaginativa e sensível com mais liberdade e preponderância.
The Sonics, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Os The Sonics eram uma banda que fazia parte da onde de garage rock americano de princípios e meados dos anos ‘60. Para nossa grande surpresa, encontramos-los no cartaz, aparentemente a fazer uma espécie de digressão de reunião. The Sonics foram citados como influências importantes por pessoas como Kurt Cobain, James Murphy, Thurston Moore e outros. Ao vivo em 2008, é mais que óbvio que a idade já lhes está a pesar um bocado – não são propriamente animais de palco, têm uma postura e linguagem que evidencia um bocado o facto de terem idade para serem avôs da maioria das pessoas na plateia. Contudo, transmitiam a ideia de que estavam a gostar mesmo muito do que estavam a fazer, e que estavam com vontade de entusiasmar e conhecer melhor o público. Para uma banda com cerca de 40 anos de idade estavam surpreendentemente bem rotinados, enérgicos e genuinamente motivados. Mas o mais surpreendente de tudo era o seu som de guitarra – forte, distorcido e num estilo característico, roçava o punk e parecia extremamente actual. Um concerto agradável e inesperado.
Franz Ferdinand, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage
Não se trata de uma banda que nunca esteve ou nunca vai estar em Portugal, mas foi um concerto interessante para ver. Na Suécia, Franz Ferdinand têm um público-alvo um bocado diferente do que em Portugal – os espectadores eram esmagadoramente raparigas adolescentes que pareciam perder um pouco de fulgor quando a banda tocava canções que não eram singles. Foi muito mais estimulante ouvi-los tocar as músicas do novo álbum que o público conhecia menos bem. Em palco, a banda foi igual a si própria e fez uma performance sólida e motivada, quer estivesse a tocar a Take Me Out ou qualquer coisa menos conhecida. Apesar do factor N’Sync, foi um bom concerto.
Okkervil River, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Tal como No Age, mais cedo esperamos ver Jesus Cristo em Portugal do que Okkervil River em Portugal. Contudo, e novamente como em No Age, o público era muito numeroso e aderia em massa. Cheios de energia e convicção, Okkervil River entregaram uma performance excelente e tocaram um cover muito bem conseguido de Sloop John B dos Beach Boys. O estilo da actuação, indie pop enérgico, trouxe à memória concertos memoráveis de The Arcade Fire. Deixaram o apetite da plateia aberto para um regresso aos palcos suecos em Outubro. Muito infelizmente, por estas partes vamos continuar a segui-los apenas à distância.
Sonic Youth, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage
Com Thurston Moore a envergar uma t-shirt de The Sonics, que haviam tocado pouco antes, a expectativa para ver Sonic Youth era muita. Contudo, e ao contrário dos The Sonics que esconderam bem a sua idade com entusiasmo e comunicação, os Sonic Youth pareciam bem mais velhos, cansados e desinteressados. A música que tocaram não trouxe mais para quem já os conhecia, nem despertou interesse para quem os conhece menos bem. A sua postura em palco foi estática, indulgente e distante. Com um público cheio de fanboys, acabou por não ser uma catástrofe como certamente teria sido se fosse outro artista noutro país.
The National, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Bom, sendo a terceira vez que vemos The National ao vivo este ano, não sei muito bem que mais se pode dizer. Não foi uma actuação tão especial e íntima como o concerto da Aula Magna em Lisboa, mas foi consideravelmente melhor e mais entusiasmante do que o espectáculo no Optimus Alive. O alinhamento foi praticamente igual àquele que apresentaram no Alive, mas Matt Berninger apareceu muito menos alcoolizado e mais concentrado. The National, pela natureza introspectiva e pensativa da sua música, definitivamente são uma banda que ao vivo funciona melhor num concerto a título individual – e menos bem inserida em festivais. Contudo, a resposta do público foi muito melhor que a do público do Alive, e o facto de estarem a tocar num recinto coberto ajudou também a criar uma sensação de intimidade que lhes favorece muito. No geral, foi um concerto sentido, concentrado e bem executado, que transpareceu bem aquilo que é a música deles sem produzir um espectáculo extraordinário.
Sigur Rós, 8 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage
Depois de The National, ficámos curiosos para ver como se comportariam Sigur Rós num contexto de festival de música. Começando a tocar ao anoitecer, a banda fez-se ao palco com uma entourage enorme (aquilo que parecia ser toda a população com formação musical da Islândia) e com um guarda-roupa e decoração de palco originais começaram o alinhamento com Svefn-G-Englar, de Agaetis Byrjun. Mesmo fazendo música introspectiva, quando se tem em palco um exército de músicos e se aposta no grandeur, um concerto de festival conseguiu multiplicar a música de Sigur Rós. Novamente, o público mostrou-se unanimemente interessado e encorajador, e a banda respondeu com uma performance imponente que faz jus àquilo que se ouve nos seus discos. Foram sinceros e compenetrados nas passagens calmas e sentidas, e intensos e expressivos nos grandes clímaxes que são sua imagem de marca. O alinhamento terminou com Gobbledigook, com grande adesão dos espectadores, fechando a actuação com chave de ouro.
Dengue Fever, 8 de Agosto de 2008, bar Pustervik
De volta ao bar Pustervik onde na noite anterior vimos No Age, Dengue Fever abriu o palco. Honestamente, nunca tínhamos ouvido falar deles e não sabíamos muito bem o que esperar. Pelo que estavamos a constatar da organização e da escolha de artistas para o cartaz, parecia-nos que eles sabiam o que estavam a fazer e que certamente Dengue Fever não foram escolhidos para abrir para The Dodos só por acaso. Mas Dengue Fever foi estranho. Não foi mau, foi simplesmente estranho. A música deles era bastante acessível e fácil de ouvir, mas o conceito por detrás da banda era pura e simplesmente estranho. Imaginem Vampire Weekend (com todos os seus méritos e deméritos) presos num filme de Bollywood. Dengue Fever faz um tipo de pop muito standard, happy e convencional, tudo muito bem executado, e apostam sobretudo na diversidade étnica da banda para dar um twist diferente à música que fazem. Da bateria, baixo e até certo ponto também da guitarra, a banda é tradicionalmente pop anglo-saxónico bem executado e sem invenções. Mas com as escalas árabes e norte-africanas dos orgãos e o estilo livre, puxado e agudo da voz, que é claramente modelada para soar às vozes nos discos de música tradicional indiana, a banda joga a sua carta de diferenciação. Mesmo apesar de maioria das letras serem sobre amor em inglês, e terem a clássica estrutura verso-refrão-verso. A nós mortais, Dengue Fever não nos pareceu mais do que uma banda pop sólida e standard com um gimmick da diversidade cultural. Quanto ao concerto em si, a banda pareceu extremamente bem disposta, pronta a pôr o público a cantar e aos saltos, com o seu baixista enorme (de uns 2 metros de altura) que não canta a ser mais interventivo e falador com o público do que a sua diminuta vocalista cambodiana de 1,5m.
The Dodos, 8 de Agosto de 2008, bar Pustervik
Um dos grandes momentos do dia. Desde que decidimos que viríamos a este festival que estávamos com muita expectativa para ver The Dodos. Uma das nossas grandes bandas do momento, não acreditamos que The Dodos tenham público que justifique uma vinda ao nosso país. Tal como em No Age, estávamos um bocado reticentes se haveria interesse suficiente do público. E tal como em No Age, não ficámos desiludidos. The Dodos assumiram uma postura extremamente humilde, transparente e sinceramente sentida em palco, e enterpretaram a sua música bem à altura daquilo que deles conhecemos em estúdio. Sozinho, o vocalista Meric Long parece um hábil jovem músico blues a tocar originais nos metros de Nova Iorque, e a abordagem inventiva e original do resto da banda à percussão e uso de teclados traz um elemento especial e diferente ao som de The Dodos ao vivo. Entre a guitarra embriagada e tensa, as vocalizações doces sobre coisas óbvias e não tão óbvias, e entre as percussões que são tribais e primais sem serem brutais, algures está a magia e simplicidade na música de The Dodos. Algo de apaixonante de ouvir, algo que vendo em pessoa sabemos que estamos a ver algo de muito belo e muito raro, que no próprio momento sabemos que não voltaremos a ouvir e que só fará mesmo sentido para quem lá esteve.
Which Will.