Tendo assistido a diversos concertos em Inglaterra durante 2 anos, e depois de regressar de um festival na Suécia, ocorreu-me fazer uma reflexão sobre a atitude das pessoas perante música ao vivo nos diferentes países. Costuma dizer-se que as pessoas no Norte da Europa são geralmente mais frias e menos expressivas do que no Sul e que isso reflecte-se em ambientes de concertos. Costuma, também, dizer-se que o público português “ou ama ou odeia”. Será mesmo assim?
Antes de mais, o que é que leva as pessoas destes países a vir a concertos? Em Londres, há genuinamente uma cultura de “sair à noite para ir ver música ao vivo”. Mais, o conceito de banda de covers é geralmente circunscrito a eventos como casamentos, festas de aniversários e coisas do género. Esta ideia é uma coisa que se tem cimentado desde os anos 60 e a chamada “british invasion” de música pop/rock. Tradicionalmente, sai-se à noite relativamente cedo para pubs, que podem ir desde pubs chic com decoração elaborada e vinhos franceses até buracos pegajosos à pinha com miudos malcheirosos descalços e cerveja morna. Cerca de metade de todos os pubs na capital inglesa possuem uma sala à parte cuja entrada é cobrada, onde se pode assistir a música ao vivo. Tendo em conta que estamos a falar de imensos pubs, este tipo de prática só existe porque há mesmo um substancial número de pessoas que estão dispostas a pagar dinheiro para ver música ao vivo, mesmo sabendo que vão ver bandas sem contrato, sem notoriedade cuja música provavelmente nem conhecem muito bem. Ou seja, as pessoas têm mesmo um desejo de ver música ao vivo num sentido de a descobrirem.
Como é que isso se reflecte na atitude do do público durante o espectáculo? Bom, se imaginarmos uma sala pequena onde as pessoas pagaram para entrar e provavelmente muitas delas estão entre o “ligeiramente tocadas” até ao “a uma uva de um coma alcóolico”, muitas reacções são compreensíveis. Para já, há uma grande proximidade entre o artista e o público, quer pelo espaço em si, quer pelo carácter aberto e frugal do espectáculo. O facto de haver muito álcool à mistura (na mais fina tradição britânica) também serve para desinibir muita gente para mostrar o que pensa mesmo da música e da banda. Não é difícil uma pessoa sujeitar-se a ser enxovalhada, a este nível.
Tendo em conta que apenas fui a um festival na Suécia, as minhas conclusões sobre os públicos escandinavos valem pelo que valem. Mas notei uma similaridade muito importante com o público inglês: muita gente foi assistir a concertos de bandas semi-obscuras apenas e só por recomendação de outros. E não se trata de aparecer em concursos de bandas de amigos em juntas de freguesia com entrada livre, estamos a falar de ficar em filas de 100 metros à porta de sítios que cobram bem mais do que 5 euricos à entrada.
Em termos de “personalidade da plateia”, os suecos são muito mais expectantes do que quer os ingleses ou os portugueses. No geral, tentam apreciar a música e o espectáculo sem incomodar o vizinho do lado, especialmente quando a música não é bem banda sonora de mosh – e especialmente quando estão em missão de descobrir música nova. Não se coibem de andar aos saltos e moshar se a música assim o requer, mas não são abertamente interventivos ao ponto de espontaneamente interagir com os artistas como os portugueses ou os ingleses.
Então e os portugueses? Não é novidade para ninguém que cá não existe a tradição britânica de voluntariamente querer sair regularmente para ouvir bandas de originais anónimas. Um conhecido costuma dizer que “quem só vê os jogos do Benfica não gosta de futebol – gosta apenas do Benfica”. Será que isto quer dizer que os portugueses não gostam mesmo de música mas sim apenas das suas bandas preferidas e estabelecidas?
Historicamente, Portugal tem uma tradição muito reduzida (praticamente insignificante) de bandas e música pop/rock. Não somos como os ingleses que tiveram The Beatles e The Rolling Stones, ou como os suecos que tiveram Abba. O que explica que não sejamos um país de onde se espera grandes novidades ou revoluções musicais. E o público português é o primeiro a não esperar grandes coisas dos seus artistas compatriotas. Conta-se pelos dedos de uma mão os sítios em Lisboa onde as bandas de originais podem regularmente tocar ao vivo, sem ser a uma segunda-feira à noite, para 6 ou 7 conhecidos da banda. A tradição lisboeta de espectáculo ao vivo sempre foi a cena do fado, que agora está praticamente reduzida a turistas e um punhado de aficionados, prática pouco transmitida aos públicos jovens.
Não sendo Portugal uma paragem importante das digressões dos grandes artistas anglo-saxónicos, a maioria dos portugueses raramente vai a concertos, quer devido a qualidade quer devido a quantidade. Tendo também em conta que os preços de bilhetes se tornaram algo proibitivos para muitos, os portugueses perderam muito o hábito de ver música ao vivo em comparação com outros países ocidentais. Isso revela-se um bocado em atitudes menos louváveis de alguns espectadores: no Optimus Alive, um autêntico batalhão de fãs de Rage Against The Machine alojou-se directamente em frente ao palco principal no príncipio do festival (RATM foi a última banda a tocar). Durante os concertos de 3 ou 4 bandas ficaram sentados ou deitados em grandes grupos directamente à frente do palco, impediram outros que queriam apreciar os espectáculos de perto e à vontade e nalguns casos insultaram os artistas – tudo porque só ali estavam para ouvir RATM, mais nada, queriam a todo o custo um lugar privilegiado e não lhes interessava minimamente a música que outros pudessem ter para oferecer.
Contudo, quando em número suficiente e convenientemente motivado, o público português é muito participativo. Em bastantes aspectos, comporta-se muito como uma assistência de um jogo de futebol: têm cânticos, cantam letras das músicas que querem ouvir entre as canções, muitas vezes fazem mais barulho do que os próprios artistas (que o diga outros que viram recentemente José González na Aula Magna). Isto reforça a ideia de que os portugueses não estão lá propriamente para ouvir música em si mas mais pela experiência de estar num ambiente de concerto. A sensação de que se fica é que os portugueses ou são conhecedores e assistem ao espectáculo de uma forma fria, desligada e “sou demasiado cool para andar aos saltos e cantar a letra”, ou não gostam mesmo de música em geral e estão a assistir a um concerto para ouvir o seu artista mais-que-tudo debitar aquelas canções predilectas num ambiente ao vivo, pelo mesmo motivo que alguém vai ver um Sporting – Benfica ao vivo em vez de o ver pela televisão em casa. Isto suporta a proliferação de bandas de covers neste país – muitos músicos portugueses dizem-me que se eu quero dar concertos e fazer algum dinheiro que seja com música neste país, tenho de tocar numa banda de covers. Ou seja, só se toca ao vivo regularmente se se estiver a tocar música que o público já conhece e gosta. As pessoas certamente argumentarão “mas porque é que hei-de ir ouvir música que não conheço?”; eu pergunto “mas porque hei-de ouvir música que já ouvi mil vezes em casa e na rádio?”.
Which Will.


