Apesar de já acompanhar o seu percurso desde que começaram, confesso que fiquei impressionado quando cheguei à conclusão que se há disco ao qual tenho destinado mais audições ultimamente esse será mesmo o novo dos Sunset Rubdown. Leia-se impressionado, mas não surpreendido. A banda de Spencer Krug tem um repertório bastante respeitável, sendo este o seu quarto registo, mas ainda assim repertório esse que até parece magro quando o comparamos com o do seu líder, vocalista e compositor. De facto, Krug conta com um trabalho recente tão intenso quanto invejável e que faria corar qualquer outro músico que não seja Robert Pollard. Por entre lançamentos dos Sunset Rubdown, Krug desdobra-se, sem grande quebra de qualidade, pelos seus outros projectos, que assumem a forma dos Swan Lake (com Dan Bejar e Carey Mercer) e dos mais populares Wolf Parade (com Dan Boeckner e Dante DeCaro). Apenas em pouco menos de um ano, Krug e os seus variados projectos produziram nada menos que três álbuns: At Mount Zoomer, segundo dos Wolf Parade, Enemy Mine dos Swan Lake e agora Dragonslayer dos Sunset Rubdown. E apesar dos dois primeiros provavelmente não figurarem nos melhores lançamentos a contar com o envolvimento de Krug, não deixaram de ser propostas bastante respeitáveis.

O que nos leva de novo a Dragonslayer e aos Sunset Rubdown. De facto, desafia a lógica que apenas um músico tenha tanto talento a sair-lhe dos poros ao ponto de ser criativamente assustador. Ainda assim, podemos dizer com confiança que é com os Sunset Rubdown que Krug se consegue exprimir mais facilmente e mais livremente, ainda que assumindo-se como o único compositor da banda, o que desde já não invalida participações importantes de todos os membros. Porque é talvez com Dragonslayer, o sucessor do épico Random Spirit Lover de 2007, que a banda soa mais crua e orgânica desde o seu disco de estreia, Snake’s Got A Leg. A marca que os Sunset Rubdown deixam é uma de inquietude criativa. Frequentemente encontramos nas composições de Krug estruturas ridiculamente diversas, passando até por várias bridges e refrões em lugares inesperados. O que não deve ser confundido com inacessibilidade. Quanto a mim, Krug não será outra coisa que não um compositor pop, ainda que com uma visão peculiar, ou melhor dizendo, particular, do pop. Dragonslayer reforça essa ideia, à qual também muito ajuda o facto dos Sunset Rubdown funcionarem como uma verdadeira banda, apesar da preponderância de Krug. Aqui destacam-se claramente as contribuições de Camilla Wynne Ingr nas melodias vocais, e de Michael Doerksen nas linhas de baixo. Tudo isto sublinha Dragonslayer como um dos mais eclécticos discos de 2009.

Sendo certo que Random Spirit Lover conquistou muita da sua boa publicidade com números bastante infecciosos e marcantes, como The Mending Of The Gown ou The Courtesan Has Sung, em Dragonslayer provavelmente não encontraremos algo tão contagiante, mas certamente encontramos tanto ou mais divertimento com repetidas audições. Uma das provas disso mesmo é o primeiro single: com mais de seis minutos, duas bridges e várias mutações estruturais, Idiot Heart parece ser uma fonte inesgotável de ideias. Liricamente, Krug é igualmente único, seja trovando sobre mitologia, deuses e dragões, seja sobre algo mais corriqueiro. Um dos pontos altos, Apollo And The Buffalo And Anna Anna Anna Oh!, funde esses dois mundos na perfeição, passando pela nostalgia de “my god, i miss the way we used to be / so here’s a photograph for you to hold / it’s my picture right before I got old”, até à coda final de “You Hunter”, tudo com pano de fundo de excelentes trabalhos de teclados e delicadas e ensombrantes guitarras. Noutro lado encontramos Paper Lace, onde Krug faz um cover da sua própria música para os Swan Lake, transformando-a em algo mais preguiçoso e provocante, acabamos por concordar com ele quando no fim sussurra “that’s as good as it’ll get”. Encontramos mais uma amostra da diversidade da banda em Nightingale/December Song, com a sua percussão tribal e tensa a construir um clímax forte e sentido acompanhado por órgão. Dragonslayer perfaz uma belíssima adição a um repertório já forte dos Sunset Rubdown, mas a sua natureza faz deste álbum uma excelente porta de entrada para quem não conhece a banda.
Tracklist:
- Silver Moons
- Idiot Heart
- Apollo And The Buffalo And Anna Anna Anna Oh!
- Black Swan
- Paper Lace
- You Go On Ahead (Trumpet Trumpet II)
- Nightingale/December Song
- Dragon’s Lair
Harvest Breed.
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