Eu sempre usei os primeiros volumes da antologia dos The Beatles para me guiar sobre como uma boa banda se devia formar e evidenciar no mundo da música. Dizia George Harrison, sobre os tempos dos fab four no violento circuito de música ao vivo de Hamburgo, que o seu patrão alemão lhe dizia todas as noites que eles tinham de “mach schau” (fazer show). Depois dava-lhes speed e eles tocavam aos berros e saltos durante horas a fio, sem parar. Harrison concluiu que, apesar dos métodos pouco ortodoxos, foi assim que os The Beatles aprenderam muito sobre entusiasmar públicos (e sobre disfarçar calinadas com acenos e piscar de olhos para o público).
Suponho que há certas coisas que não mudam. Nos últimos concursos de bandas que temos participado, temos estado mais desleixados em termos de execução do que a maioria da “concorrência”. Mais, nunca somos a banda que traz os amigos todos para fazer claque, nem tão pouco a banda que tem o som mais equilibrado e certinho, ou certamente a banda que aparece com mais vontade de “ganhar”. Contudo, temos tido a felicidade de sermos apurados na grande maioria das eliminatórias em que participamos. Porquê? Porque nós em palco somos bastante físicos e agressivos, de uma maneira que a “concorrência” não é por terem de se concentrar em executar bem a sua música.
Não digo isso com arrogância à “concorrência”, digo isso com uma ponta de pena. Nós só queremos tocar, “ganhar” concursos não é de todo uma prioridade ou objectivo para nós. Nem sequer sabemos quais são os prémios, são só concertos que damos com outras bandas. A pena que tenho é basicamente porque sinto que as pessoas estão a olhar para as guitarras a voar e os saltos de kung fu, e que não estão a ouvir as nossas músicas. Nós passámos horas e horas a escrever-las e fico com a sensação que ninguém as está a ouvir, que podiamos estar a tocar todos músicas diferentes mas desde que berrássemos e saltássemos muito os “juris” iriam gostar na mesma. É irónico que, num momento em que supostamente deveriamos estar a ser avaliados como banda, a nossa negligência pareça estar a ser encorajeada em prol dum espectáculo mais visual.
Há qualquer coisa de desapontante no “mach schau”. Sinto-me como uma menina da Playboy que na entrevista insiste em mencionar que é doutorada em física quântica e que publicou vários artigos científicos sobre o assunto… Mas que na realidade sabe que está a ser apreciada de uma maneira muito mais imediata e muito menos cerebral.
Which Will.
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