02
Jul
09

Cachet 0, Vol. 6

Em Inglaterra, trabalhei num estúdio que recebeu a Madonna para gravar um álbum recente. Nunca tinha visto uma estrela pop na minha vida, e dificilmente alguém poderá imaginar um artista pop vivo maior do que a Madonna. Nos dias antes de ela chegar, pensei que como seria ela: a Madonna é uma personagem tão enorme que por vezes é difícil vê-la como uma pessoa. Quando ela apareceu e começou a trabalhar, descobri que ela era uma mulher aparentemente fria, concentrada, diligente, exigente e para minha grande surpresa não menos humana do que muitas mulheres workaholics de sucesso que já conheci na vida. Tinha era uma particularidade de arrastar à volta dela um circo incrível de fotógrafos, guarda-costas, assistentes obsessivos e uma aura intimidatória, de eminência quase papal. Tudo isto já lhe era praticamente indiferente.

Pouco após a morte de Michael Jackson, as relações públicas de Madonna emitiram um comunicado revelando que ela está tão transtornada que não consegue parar de chorar. Eu não deixei de achar isto um pouco estranho. Será que aquela mulher tão tenaz, distante e objectiva esteve literalmente a chorar durante horas pela morte de uma outra mega-estrela? Ou será que foi uma hipérbole considerada adequada pelos conselheiros de relações públicas da “instituição Madonna”?

Perguntei-me se esta condição agridoce de ser uma superstar gera uma espécie de compaixão mútua – se era possível que Madonna, de uma estranha forma, conseguisse compreender melhor do que os outros a tragédia da vida pessoal de Jackson, e que a sua morte a magoasse profundamente. Mas Jackson foi de certa forma obrigado a ser um entertainer desde os 5 anos de idade, ao passo que Madonna voluntariamente procurou a fama e estrelato desde jovem adulta. Quando se é rico, um acto de insanidade mental ou de desespero é sempre visto como uma excentricidade e não pelo aquilo que é. Não sei se Madonna chorou como uma madalena por Jackson, mas um dia alguma superstar estará a emitir um comunicado parecido por ela.

Which Will.


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