Não deixa de ser estranho e quase contra-natura quando uma banda reconhecida pela sua vertente pop lança um álbum frio e introspectivo durante o verão, mas acaba por funcionar quase como uma pedrada no charco. Não que obviamente a banda jogue deliberadamente com isso, a música acaba sempre por falar por si se for de qualidade. Seja como for, os ingleses Wild Beasts de Kendal conseguiram alguma, ainda que peque por defeito, aclamação com o seu fabuloso disco de estreia Limbo, Panto: um álbum que se destacava pela pura inventividade dos recursos utilizados para criar música pop imediata, mas incrivelmente variada e irrequieta. Quase como um registo de um conjunto de quatro indivíduos tipicamente britânicos, mas completamente enfadados com a música pop que se faz no seu país e com algum tipo de síndrome de défice de atenção. Uma fórmula que acabou por produzir um dos discos mais subvalorizados do ano passado e que num mundo ideal teria produzido diversos singles para o top-10 de vendas. Há sempre um ‘mas’ neste tipo de equações, e neste caso não é difícil de chegar à conclusão, depois de se ouvir a música dos Wild Beasts, que talvez o maior factor que poderá afastar ouvintes desta banda é o falsetto espalhafatoso de Hayden Thorpe, vocalista.

No fundo é difícil culpar as pessoas por isso. Mas é absolutamente chave que se encare o estilo de vocalização de Thorpe como uma muleta à fabulosa música que a sua banda produz, e nunca como algo do qual o ouvinte se deverá abstraír. Muita da sua entrega à performance foi determinante para cozer números que soam ao mesmo tempo tão trabalhados e tão naturais, como The Devil’s Crayon ou The Club Of Fathomless Love. Mas o segundo registo dos ingleses tem um condão mais pessoal que propriamente dançável, o que com qualquer outra banda poderia dar algo desde o fastidioso até ao simplesmente insuportável. Dá a ideia que com Two Dancers, os Wild Beasts tentam testar até onde irá a sua própria capacidade de inovação e inquietude criativa, e a resposta é cabal. Trata-se de um disco de autoconfiança suprema que, mesmo trocando a fanfarra e a explosividade pelo intimismo e por delicadeza, continua a ser um magnífico registo pop. Até porque todos os elementos que tornaram a estreia dos Wild Beasts tão especial ou estão lá ou aparecem ainda mais amadurecidos e aprimorados.

Tomemos como exemplo The Fun Powder Plot, a faixa de abertura de Two Dancers que, com mais de cinco minutos e meio, acaba por ser a mais longa que a banda já gravou: desdobrando-se por entre entrelaçantes teclados, vai abrindo espaço para voz inconfundível de Thorpe que nos vai guiando por entre o ritmo a fazer lembrar as bandas da DFA e a precisão da guitarra de Ben Little. É notória a mudança de paisagem sonora de Limbo, Panto para aqui. Mudança essa que sai ainda mais reforçada com Hooting & Howling, o single de apresentação de Two Dancers, que pelo nome poderia ser uma continuação da atmosfera festiva do primeiro álbum, mas sai uma provocante marcha sensual minimalista e de produção cristalina abrilhantada pelo falsetto solitário de Thorpe e pela guitarra de Little. Contudo, Two Dancers mostra também um papel reforçado para o segundo vocalista da banda, o baixista Tom Fleming e o seu barítono distinto, seguindo a deixa de The Devil’s Crayon, e funcionando como o perfeito complemento ao falsetto de Thorpe, evidenciado em faixas como All The King’s Men, The Empty Nest ou o tema-título. Qualquer lançamento de uma banda com o talento dos Wild Beasts seria sempre de assinalar, mas arrisco dizer que poucos estariam à espera de algo tão simultaneamente consistente e ousado de um álbum que tão pouco tempo demorou a produzir como é o caso com este Two Dancers, o que só atesta ainda mais da capacidade desta banda.
Tracklist:
- The Fun Powder Plot
- Hooting & Howling
- All The King’s Men
- When I’m Sleepy
- We Still Got The Taste Dancing On Our Tongues
- Two Dancers
- Two Dancers II
- This Is Our Lot
- Underbelly
- The Empty Nest
Harvest Breed.
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