Com a facilidade que hoje em dia o ouvinte comum tem para mudar de objecto de audição, torna-se cada vez mais complicado ouvirmos bandas e artistas que primem pela consistência, seja por se terem estabelecido numa identidade sónica particular que executam com mestria ou por terem experimentado várias sonoridades sempre com o mesmo rótulo de qualidade. Aqui, celebramos aqueles cujo nome na capa de um disco só por si assegurou qualidade na década que passou:
10 – Grouper
Viajando sempre entre o folk abstracto e um shoegaze ambiental poderoso e assustador, Grouper serve de pseudónimo para Liz Harris de Portland desenvolver uma estética musical muito específica. Uma estética que não só gira à volta de uma particular noção de mistério e assombro, mas também de hipnotismo, e que na década passada se traduziu em três discos sólidos, a sua estreia Way Their Crept, o surreal Wide e o meditativo Cover The Windows And The Walls, bem como o corolário do seu desenvolvimento, o excepcional Dragging A Dead Deer Up A Hill de 2008. Apesar deste último se destacar dos demais, não deixa de ser admirável todo o trabalho silencioso que o fez acontecer. Aqui deixamos Heavy Water/I’d Rather Be Sleeping, um dos grandes pontos altos deste último disco:
9 – Liars
Nada como os nova-iorquinos/berlinenses Liars para exemplificar o sentido da palavra diversidade. De álbum para álbum, a banda foi ganhando impulso para ir trocando de estilos como quem troca de casacos. Tendo sido inicialmente conotada com uma nova vaga de revivalismo pós-punk no início da década depois do lançamento do seu registo de estreia They Threw Us All In A Trench And Stuck A Monument On Top, a banda virou-se depois para o estranho experimentalismo, menos focado em melodias e mais no fascínio da percussão a banda produziu They Were Wrong So We Drowned com Dave Sitek e o estrondosamente ambicioso e denso Drum’s Not Dead. Com o seu disco homónimo de 2007, a banda completou o ciclo de reconciliação com o seu histórico, mas foi Drum’s Not Dead que se estabeleceu como a grande jóia da coroa dos Liars. Aqui fica um dos seus temas de eleição, A Visit From Drum:
8 – Manitoba/Caribou
Assumindo-se como o matemático do indie nos últimos dez anos, Dan Snaith construiu uma reputação por pop característico e dócil, cada registo quase ao estilo de uma mixtape, sempre a um nível apreciável e distinto. Começando sob a designação de Manitoba, Snaith lançou Start Breaking My Heart, a sua promissora estreia, e o magnífico Up In Flames de 2003, um disco que registou uma recepção calorosa à conta dos floreados pop delicados e pensados envoltos de instrumentação livre e electrizante. No seguimento de uma ameaça de processo em tribunal, Snaith viu-se forçado a mudar de pseudónimo para Caribou, e foi sob este que lançou mais dois discos, o ambicioso The Milk Of Human Kindness e o delicado e bem-comportado Andorra, talvez o seu disco com maior aceitação. Up In Flames assume-se ainda como um disco de assinalável génio, dele tendo-se extraído este Jacknuggeted para um EP sob nome próprio:
7 – Field Music/The Week That Was/School Of Language
Inicialmente conotados com comparações com as lendas britânicas de pop alternativo XTC, o colectivo Field Music rapidamente se estebeleceu como uma parceria completa e rica de composição e mais tarde afirmando-se também com os seus dois membros principais a solo. Com o disco homónimo de estreia em 2005, os irmãos David e Peter Brewis iniciaram uma carreira que se pautaria essencialmente pela impressionante capacidade de construir pop inteligente, divertido e bem composto sem nunca ter recebido o crédito devido. Com talvez o ponto alto do seu percurso até ao momento tendo sido o segundo disco sob a designação Field Music, Tones Of Town, Peter Brewis partiu a solo sob o nome The Week That Was enquanto o seu irmão David ofereceu um igualmente sólido desempenho a solo com School Of Language. Este ano voltam os dois a juntar-se para mais um disco, Measure. Entretanto, recordemos a sua fantástica compilação de lados-B, Write Your Own History, com a óptima You’re Not Supposed To:
6 – Fennesz
Chegados ao fim da década e talvez não encontraremos outro nome que se possa dizer que encaixe tanto como uma luva como sinónimo de música ambiente electrónica e experimental como o do autríaco Christian Fennesz. Tendo aparecido no final da década de 90 ainda navegando a onda do boom da música IDM, foi nos últimos dez anos que Fennesz se estabeleceu definitivamente como nome incontornável dentro do género, deixando a sua marca característica em todos os seus trabalhos aliando texturas que navegam ao sabor da maré, ora definindo ambientes envolventes e delicados ora hipnóticos e periclitantes, com sensibilidades pop muito pouco comuns dentro do género. Foi tudo isto que ajudou a estabelecer Fennesz como um nome essencial da música moderna. Em 2001 com o registo de culto Endless Summer, em 2004 com o subvalorizado Venice e no ano passado com o sólido Black Sea. Mas vale pouco a pena descrever o que não pede descrição, esta é a fabulosa Caecilia de Endless Summer:
5 – Radiohead
Era inevitável, não era? Afinal de contas são os pais da música alternativa moderna. Influenciaram e continuarão a influenciar muito músico creativo que procura fazer algo diferente, compenetrante e ambicioso. Pela segunda vez nos últimos vinte anos, a banda de Thom Yorke acaba uma década com um saldo largamente positivo. É certo que muitos dirão que Hail To The Thief será um álbum menor com a companhia que tem junto do resto da discografia de uma banda intemporal, e provavelmente não deixarão de ter razão, mas importa relembrar que, para uma banda que entrou no novo milénio profundamente dividida e a braços com a aversão à fama do seu líder, acabou por sair com a sua reputação como ‘game-changers’ definitivamente reforçada, tendo ainda pelo meio revolucionado a forma como funciona a indústria discográfica. Everything In Its Right Place:
4 – Sufjan Stevens
Foi sem dúvida a surpresa da década, e sem dúvida o que a música da nova década mais precisava. Um músico prodigioso e precoce, ridiculamente ambicioso, a certa altura com um projecto em mãos de fazer um disco sobre cada um dos 50 estados americanos, com um dom especial de fazer música alternativa, desafiante, diversa, mas simultaneamente intensa e profundamente pessoal. Com um total de oito discos de estúdio, não é preciso um matemático para descobrir que Stevens foi um dos músicos mais prolíficos da década. Mas quando a essa produtividade se associam registos de eleição como Michigan ou Illinois, ambiciosos, orquestrais e eclécticos com outros como o acústico, sentido e emocional Seven Swans ou o experimental Enjoy Your Rabbit, o que resulta é uma década de afirmação cabal, definitiva e inegável, independentemente do que resultarão os próximos dez anos para um músico sem medo de arriscar e falhar. Fica a lindíssima For the Widows in Paradise, For the Fatherless in Ypsilanti, de Michigan, o seu estado natal e o seu terceiro álbum:
3 – Deerhunter/Atlas Sound/Lotus Plaza
É também sem surpresas que a década fica definitivamente marcada pelo shoegaze distorcido de Bradford Cox, Lockett Pundt, Josh Fauver, Moses Archuleta e do ex-guitarrista Colin Mee, vulgo Deerhunter. Esta acabou por ser uma marca que deixou as suas impressões digitais num total de seis discos durante toda a década, três sob a designação de Deerhunter, um deles duplo, dois de Cox a solo com Atlas Sound e um de Pundt também a solo com Lotus Plaza. Por quase todos estes registos se difunde a sonoridade etérea bem característica do conjunto especialmente desde que Pundt é adicionado à formação oficial antes do segundo disco dos Deerhunter, Cryptograms. Esta acabou mesmo por ser uma decisão vital para o futuro de um conjunto que chegou a ponderar o seu fim antes sequer do lançamento de Cryptograms. A partir daí, as coisas aconteceram de forma quase automática: Cryptograms motivou grande resposta da comunidade musical e lançou a banda para um grande terceiro disco, pleno de sensibilidades pop, em 2008 com Microcastle e abriu caminho para os felizes projectos a solo de Cox e Pundt. Mas foi efectivamente com Microcastle que a banda acabou por capturar o imaginário dos fãs de bom shoegaze melódico, e Agoraphobia, com Pundt a tomar responsabilidades vocais, acabou por ser uma das faixas da década:
2 – The Clientele
A década para os The Clientele acabou por ser silenciosa e simplesmente trabalhadora. A sua música não é tremendamente ambiciosa nem procura desenvolver nenhum tema fracturante, mas o que consegue ser é despretensiosa, emocional, sentida e compenetrante com a simples força da sua composição. Composição essa, maioritariamente a cargo do seu misterioso e criativo líder Alasdair MacLean, que privilegia estruturas simples, mas de beleza desarmante e de afectação imediata. Se há alguma palavra que possa descrever com sucesso em que consiste a música destes ingleses é mesmo afectante. É impossível ficar indiferente à guitarra rodopiante e sentimental de MacLean, à sua perfeitamente sincronizada secção rítmica e aos arranjos de cordas que, nunca procurando o épico ou o grandioso encontram sempre o coração. Suburban Light, lançado ao virar do século encapsula na perfeição todas as fortalezas de um conjunto de singles que souberam aliar uma produção lo-fi saudosista, plena de reverberação, a uma simplicidade enfeitiçante. De facto esta viria a ser a fórmula de eleição para o grupo de MacLean: simplicidade, sentimento e afectação. Uma que se transportou para os discos que se seguiram, nomeadamente The Violet Hour, Strange Geometry ou o mais acessível e imediato God Save The Clientele, aos quais se junta ainda Bonfires On The Heath deste ano. Para recordar ficou Suburban Light e o meu favorito pessoal, We Could Walk Together:
1 – Spoon
Com a mudança de rumo que marcou o virar o século para os Spoon e que viu a banda afastar-se do rock alternativo com fortes traços de Pixies para uma abordagem mais imediata e acessível, tendo incorporado elementos como o piano ou os teclados na sua música, os Spoon ganharam uma nova vida. Com Telephono e A Series Of Snakes a banda tinha dois óptimos discos de puro rock, e com a década que se seguiu o conjunto de Austin seguiu em busca de uma acessibilidade ainda que marcadamente alternativa que lhe garantiu notoriedade. A sucessão de discos entre Girls Can Tell de 2001 e Ga Ga Ga Ga Ga de 2007 é virtualmente imaculada, de tal forma que se torna difícil escolher favoritos e observar grandes diferenças de qualidade. Com Kill The Moonlight em 2002, os Spoon conseguiram a aclamação crítica e popular que ainda não haviam granjeado, com a força de números como The Way We Get By, Vittorio E. ou Paper Tiger, aclamação essa que depois viriam a confirmar no seu último disco até à data com sucessos mesmo mainstreamizados com The Underdog ou You Got Yr Cherry Bomb. Para a posteridade, fica a simplicidade e a genialidade de I Summon You de Gimme Fiction:
Harvest Breed.