Arquivo de Outubro, 2011

29
Out
11

Novos Lançamentos: Sandro Perri – Impossible Spaces

Quando, em 2003, Sandro Perri (Polmo Polpo) lançou o seu agora disco de culto Like Hearts Swelling, a tendência foi para que se perdesse no ruído de tudo o que a etiqueta canadiana Constellation estava a lançar na altura. Bandas como Godspeed You! Black Emperor ou Thee Silver Mt. Zion dominavam muito do que era a mensagem que saía da música canadiana. Nesse aspecto, Like Hearts Swelling foi, desde o início, um disco à frente do seu tempo. Juntava o minimalismo e a direcção ambiental do muito falado projecto do alemão Wolfgang Voigt, Gas, que na altura veria o muito merecido reconhecimento pelo seu último disco, Pop, aparecer, a algo mais. Um ‘algo mais’ que levou, tal como com Pop, uns anos a que fosse perfeitamente compreendido. Lentamente, Like Hearts Swelling não só veio a representar algo de perfeitamente único no catálogo da Constellation como algo de único na música contemporânea. Ecléctico e diversificado, Polmo Polmo era sinal de música verdadeiramente excitante, combinado o minimalismo techno com elementos orgânicos, de uma destreza fora do vulgar que se dava a uma execução técnica de instrumentais complexos mas envolventes.

Quase dez anos e três álbuns depois, Sandro Perri, já deixando para trás o nome de Polmo Polpo, continua a dar asas ao mesmo ecletismo e destreza que já ouvimos antes, mas agora numa dimensão mais abertamente pop. Ainda que, ao mesmo tempo, com estruturas musicais mais desalinhadas e incomuns. Em Impossible Spaces, o seu quarto disco em seu próprio nome, nono no total, Perri encontra para si mesmo um verdadeiro espaço que parecia pouco provável já de si: música doce e, sem margem para dúvidas, pop, que se casa com uma musicalidade expansiva, estruturas bizarras e complicadas e orquestração deslumbrante. Nesse aspecto, Impossible Spaces não é algo que possa ser directamente comparado com Like Hearts Swelling, mas podemos traçar a sua genealogia a partir daí. Quanto mais não seja, Perri demonstra aqui uma confiança inabalável na sua capacidade de composição que lhe dá a ele, e nós enquanto ouvintes, a sensação de que tudo poderá fazer e tudo poderá acontecer a qualquer altura. O mais impressionante nisto tudo, e aquilo que acaba por ser a peça central do disco, é a voz de Perri. Expressiva e com um alcance praticamente ilimitado, é dela que parte grande parte da saudável musicalidade que respira Impossible Spaces. Mas é também ela que nos indica que estamos perante algo pop, melódico e acessível.

O maior exemplo é a faixa de abertura Changes, que se apoia numa discreta mas invulgar linha de guitarra, que se expande numa mini-composição clássica. Acaba por ser no seu classicismo terminantemente anti-retro que tudo aqui assenta. A sua música é declaradamente orgânica, já sem os elementos techno que marcava o trabalho de Perri enquanto Polmo Polpo, a certas alturas fazendo lembrar os momentos mais leves dos últimos três discos de Talk Talk, mas faz-se de uma boa disposição inabalável. Essa é uma boa disposição que não perde tempo em transformar peças dispersas em algo melódico, um pouco como o ritmo de quase bossanova de um número como Love & Light, que dá lugar a uma coda peculiar mas estranhamente afectante, parece ser transformado em algo coerente pela invulgar facilidade vocal de Perri. Wolfman, a mais longa e chamativa faixa do álbum, segue uma fórmula semelhante a Changes: uma guitarra soluçante, letras desconjuntadas, teclados que vão aparecendo, uma espécie de caos pensado. Ainda assim, muitos dos elementos que à primeira vista parecem estar desconjuntados e dar a sensação de jam session também acabam por servir para levar muitas das melodias para lugares simplesmente esquisitos. E quanto mais cedo nos deixarmos levar por eles melhor.

Tracklist:

  1. Changes
  2. Love & Light
  3. How Will I?
  4. Futureactive Kid (Part I)
  5. Futureactive Kid (Part II)
  6. Wolfman
  7. Impossible Spaces

Harvest Breed.

28
Out
11

Novos Lançamentos: Kuedo – Severant

Não é incomum, nos dias que correm, ver alguém a fazer música completamente distinta, quer em forma quer em estilo, a solo em relação àquilo que fazia ou viria a fazer em grupo. Afinal, os meios são amplos e as influências não faltam. Durante seis anos, o londrino Jamie Teasdale foi uma das metades do duo que assinava, sob a forma de Vex’d, música perfeitamente sinistra e claustrofóbica. Mas mais que isso: os Vex’d representaram uma nova forma de fazer música à base de batidas fugazes e secas que, em especial com o seu disco de 2005 Degenerate, fazia começar o rufar dos tambores de guerra na grande comoção que se viria a formar nos anos seguintes à volta da ideia de dubstep. Apesar de ser admitidamente injusto classificar Degenerate dessa forma, a sua disposição quase industrial lançava uma manta de tensão sobre tudo o que por baixo dela era feito, desde trabalho de ambiência a batidas de cadência sepulcral, de tal forma que é possível compreender o porquê de se apontar o nome dos Vex’d como um dos primordiais catalisadores daquilo que, por volta de 2007, viria a ser conotado com o dubstep.

A solo, num trabalho que vinha a preparar há vários anos, Teasdale volta agora para lançar o seu primeiro álbum sob o nome de Kuedo, Severant. E mais do que uma parte da música de Vex’d, que ainda podemos encontrar aqui e ali, Severant retrata um músico num espaço artístico completamente diferente a produzir sonoridades que reflectem outra era. Literalmente outra era. Severant funciona um pouco como um conceito ambicioso de produzir uma banda sonora para um filme futurista dos anos 80. Se a ideia soa já por si requentada, é porque efectivamente é mesmo. Talvez agora mais que nunca nos deparemos com mais projectos musicais que se façam exprimir numa componente eminentemente teatral, até mesmo cinematográfica (um dos bons exemplos deste ano partiu do Lynchianismo quase enfermo do sino-canadiano Dirty Beaches, inspirado pelo Futuro da Nostalgia como definido pela autora Svetlana Boym). Mas Severant é produto de algo mais que apenas nostalgia. O seu espaço emocional está algures num vácuo que não conseguimos definir ao certo, mas que se faz expressar no verdadeiro maciço musical que são os cerca de três quartos de hora de Severant.

Em nenhum momento sentimos que a música de Kuedo se deixa espaço a si própria para respirar, nunca deixando de pintar um quadro tingido a tons de retro-futurismo Kubrickiano, e o resultado é um disco que não deixa respirar o ouvinte. Um bom exemplo da mudança que se fez sentir na música de Teasdale é Visioning Shared Tomorrows, um feito só por si: algo tão grandioso e aspirante na face do que antes tinha sido a música fechada e negra de Vex’d, não deixando de ser brutalmente simples. Ainda assim, é da fantástica tendência de criação de tensão do antigo conjunto de Teasdale que ele consegue retirar uma paisagem coerente para Severant, e é precisamente por isso que nele tem um triunfo arrebatador. As batidas ensurdecedoras e omnipresentes fazem-se sentir em faixas como Scissors ou Vectoral, casando, em poucos minutos e sem que a transição pareça pouco natural, com a tensão sublimadora de Ascension Phase ou da poderosa Flight Path. A ambição que fica patente em Severant é a de fazer algo que pegue naquilo que já fazia de Teasdale um dos produtores mais absorventes da electrónica actual e o eleve a patamares não tanto bombásticos quanto elegantes, graciosos e gloriosos. Tudo isso faz com que os tais três quartos de hora se fundam numa gigante composição de retro-originalidade: uma espécie de redefinir do que exactamente significavam as visões do futuro dos anos 80 e as aspirações do que estaria para vir.

Tracklist:

  1. Visioning Shared Tomorrows
  2. Ant City
  3. Whisper Fate
  4. Onset (Escapism)
  5. Scissors
  6. Truth Flood
  7. Reality Drift
  8. Ascension Phase
  9. Salt Lake Cuts
  10. Seeing The Edges
  11. Flight Path
  12. Shutter Light Girl
  13. Vectoral
  14. As We Lie Promising
  15. Memory Rain

Harvest Breed.

27
Out
11

Cachet 0, Vol. 19

Há uns dias atrás, enviei um link de videoclip no youtube a um colega de banda. Era um clip de rapper americano, filmado no seu bairro, com letras sobre o seu bairro. Mostrei-lhe porque sei que ele gosta de hip hop, e eu gosto muito deste rapper em particular. O comentário dele foi “Isto é para o lol?”.

Não percebeu. Achou que era um video viral. A coisa mais tradicional do hip hop é um rapper a falar sobre a vida no seu bairro, mas isto não ressoou com ele. Julgava que estava a ser “irónico”. A “ironia” tornou-se uma estranha forma de moda, e por associação, levar as coisas a sério tornou-se estranhamente passé. Há umas semanas atrás, aborreci uma amiga quando tentei perceber porque é que ela usava óculos grandes de massa se ela nunca precisou de óculos para ver. Nem sequer perguntei pelas calças justinhas, ou os sapatos mocassin – estamos a falar de uma mulher de 21 anos, não estamos a falar alguém com 65 anos ou de um desenho animado da década de 50. Respeito um gosto diferente, mas não entendo este gosto. Parece que o objectivo é deliberadamente de parecer o mais imbecil possível. Mas “ironicamente” imbecil, passo o “sarcasmo”.

Modas são modas, suponho eu, e raramente uma moda é bonita aos olhos de quem não padece dela. Contudo, é interessante ver como a “ironia” está a povoar o panorama musical português: bandas e artistas solo vestidos como personagens Disney, a cantar letras ligeirinhas em português, a tocar canções simples na viola, gravadas no sótão em casa, levando terrivelmente a sério a maneira de estar mas não a música. Tornou-se moda não querer fazer a diferença, tornou-se moda esperar que a música não seja mais que o veículo descartável para um estilo de vida. Querer escrever música para mudar as pessoas tornou-se um objectivo imbecil. Porque a tendência em Portugal é de que a música não seja feita para fazer a diferença.

Which Will.

21
Out
11

Cachet 0, Vol. 18

As coisas estão difíceis. A distribuidora está atrasada e desinteressada, o disco teima em não aparecer nalgumas lojas apesar de já ter sido oficialmente lançado há quase um mês. Continuamos com uma dívida pesada à nossa promotora, que só devemos conseguir saldar no fim do ano. Estamos com grandes dificuldades em arranjar concertos em que nós não acabemos a pagar para tocar, e a este ritmo vamos precisar de 5 ou 6 anos para juntar dinheiro suficiente para gravar um segundo disco. Conseguimos arranjar dinheiro do nosso bolso para lançar o primeiro, mas já não temos ajudas e condições pessoais para fazer a mesma coisa outra vez. Seja culpa da crise económica ou não, há muitos problemas sérios para os quais nós não temos qualquer tipo de ideia como resolver… E quando a poeira da promoção do disco de estreia assentar, vamos ter de ter soluções ou a banda afunda com apenas um disco lançado.

No fim de semana passado tivemos 2 concertos no Sul, o que implicou passarmos todos 2 noites na estrada. O primeiro concerto foi um daqueles que bateu onde doi mais. A banda da primeira parte atrasou-se quase 2 horas, e nós entramos muito tarde no palco. Durante o concerto, fomos fustigados com problemas técnicos. Estavam 20 pessoas na plateia, numa cidade em que nós sempre julgámos que tinhamos um following enorme. No fim, o representante da sala de espectáculos não nos queria dar todo o cachet que havia combinado connosco. Depois, um grupo de 4 bêbados com mau aspecto ameaçou o R. quando estava sozinho a arrumar material no carro (felizmente ficou por aí). Nada correu bem. Fomos no carro a olhar para as ruas sujas em silêncio, cada um de nós a pensar à sua maneira onde é que as coisas descambaram para nós. Cansados, sem dinheiro, sem público, sem respeito, só queriamos uma cama onde cair – e mais do que querer que o concerto do dia seguinte fosse bom, nós precisávamos que o concerto do dia seguinte fosse bom.

O concerto do dia seguinte tinha o soundcheck invulgarmente marcado para muitas horas antes do abrir de portas, o que nos deu tempo para vaguear um bocado pela cidade. Comprámos umas garrafas de vinho alentejano (o mais barato que havia), e fizemos uma coisa que já não fazíamos há anos. Passámos tempo juntos. Sem ninguém alguma vez falar de ensaios, concertos, entrevistas, agentes, canções ou da indústria musical, e nessa altura percebemos que já não faziamos isso há muito tempo. Esquecemos essa parte fundamental de tocar numa banda, de ser divertido. De que uma banda é mais do que a música que faz e a relevância artística, que isso está no centro esquecido daquilo que fazemos. No fim do dia, fez-nos melhor essa realização do que um bom concerto.

Which Will.

12
Out
11

Cachet 0, Vol. 17

“Olá, eu sou a Kdvssbvjsfib”. Seguro um microfone e digo o meu nome, o nome da minha banda e o nome da publicação (descobri eu que isto se chama “fazer um ID”). É assim que começa mais uma entrevista, num jardim da cidade. Já demos dezenas de entrevistas mas eu quase nunca fixo o nome dos jornalistas que nos entrevistam. Não faço isto por desinteresse, gostava mesmo de me recordar dos nomes deles todos, parecem-me simpáticos. Mas a minha memória para nomes não é grande coisa, e desconfio que eles também não vão memorizar o meu nome. Após mais uma entrevista, ocorreu-me que todos os jornalistas que nos abordam normalmente caem numa de 3 categorias: jornalistas que não ouviram o nosso disco nem leram o nosso press release, jornalistas que leram o nosso press release em 2 minutos mas não ouviram o nosso disco, e jornalistas que leram o press release e ouviram mesmo o disco.

Contrário àquilo que se calhar se pode pensar, muito poucos leram o press release e ouviram o disco. A maneira como eles encaram o trabalho deles não me diz respeito, mas acaba por me prejudicar: se estiver a ser entrevistado por uma pessoa que não ouviu o nosso disco, é natural que me faça perguntas que não têm nada a ver com a música. E nós vamos parecer imbecis que perdemos tempo a falar sobre peripécias na estrada, a origem do nome da banda e coisas tantas, em vez de falarmos sobre música. Sinto-me por vezes como o futebolista a quem todas as semanas lhe perguntam “como se sente?” depois de correr durante 90 minutos atrás de uma bola, e que faz um esforço para tentar dizer qualquer coisa mais inteligente do que “sinto-me cansado”.

Fora das entrevistas, dois jornalistas recentemente fizeram-nos críticas ambivalentes, classificando o disco como tendo mais ou menos algum interesse. Citam apenas e só as influências que nós lhes enviámos no press release, falam de como essas bandas estão demodé e não falam quase nada sobre as canções no disco, não dizem sequer se é um disco de hip hop ou de black metal. A crítica musical é um juiz, juri e carrasco – o músico não tem direito a contraditório, e o objectivo é apenas e só alguém dizer-nos que a nossa música é boa ou má. Porque é que um jornalista vai entrevistar uma banda ou escrever sobre ela se não ele quer falar da música? Fico sem perceber se são os seus leitores/editores que já não têm interesse em ouvir falar de música, ou se é uma cultura estabelecida nos media que já não interessa falar de música. De qualquer modo, tento não me preocupar muito com críticas desfavoráveis. Nas palavras de D., “Uma banda nunca deve tentar ser o seu maior defensor”.

O ponto positivo é que é extremamente gratificante ter uma entrevista/crítica com alguém que realmente ouviu o disco com atenção, e que quer ouvir falar da nossa música. Até pode não ser a música preferida do jornalista, mas nós temos a oportunidade de explicar o que queremos fazer, e os ouvintes depois decidem sozinhos se é bom ou mau. Desses jornalistas, eu nunca me esqueço o nome.

Which Will.

05
Out
11

Novos Lançamentos: Real Estate – Days

De qualquer desafio que se possa colocar a uma banda numa altura em que o consumo musical é efémero e hiperactivo, nenhum poderá ser mais difícil de alcançar que a memória. Memórias de lugares onde estivemos ou julgamos ter estado, de situações que vivemos ou pensamos ter vivido. Música que passamos a associar a recordações que nem sempre parecem reais quando nos lembramos delas. O conceito de memória é tão vital na música dos Real Estate como em nenhuma outra banda actualmente, mesmo quando géneros musicais inteiros parecem ser formados e sobrecarregados à volta dele. Mas, afinal, o que faz desta banda alguma coisa de especial? O que é que a faz derivar da perigosa tangente que parece continuadamente estar a pisar com o nebuloso terreno do indie pop descartável? A sua inspiração sónica que nasce declaradamente das guitarras preguiçosas de Here, do disco de estreia dos Pavement, caminha em leve passada com a imagem slacker da época. Mas a música dos Real Estate não nos leva de volta a 1992. Tal viagem seria dispensável. De facto, ficamos com a cabeça em 2011 a perguntar se não será mesmo este o futuro do pop.

O seu disco homónimo de estreia conseguiu criar um lugar em que riffs pop e canções orelhudas se enrolam num manto de incerteza e confusão ordenada. Tão ordenada que seria capaz de produzir momentos como Suburban Beverage, onde um desenho aparentemente interminável de guitarras se construía para o ouvinte se lembrar sei lá do quê que aconteceu sei lá quando. É no meio dessa capacidade peculiar de puxar pela memória que os Real Estate chegam aqui, o antecipado/temido segundo álbum: Days. Contudo é a memória de Beach Comber, a abertura perfeita do seu disco homónimo, que nos vem à cabeça primeiro. Easy não afina pelo mesmo diapasão e, apesar do desvio sónico de Days ser mínimo em relação ao seu antecessor, o contraste entre os dois temas parece ilustrar a evolução desse mesmo desvio: os Real Estate estão uma banda mais directa e urgente, não perdendo tempo a evoluir de uma fantástica linha de guitarra para um refrão tenso carregado pela voz do seu vocalista habitual, Martin Courtney. Diga-se habitual, porque também na constituição os Real Estate estão diferentes, deixando para trás o invulgar e carismático baterista Etienne Pierre Duguay, mas com tarefas de composição aparentemente mais divididas, com Alex Bleeker, baixista a tempo inteiro, a ter direito a Wonder Years, um número directo e estranhamente propulsivo, só para si.

Ainda assim, Days adiciona ao catálogo dos Real Estate um cunho de maior versatilidade ao nível das imagens que evoca. Não mais nos é pintado um quadro de praia eterna e sol até à morte, por muito atraente que seja. Somos antes deparados com verdadeiras ‘curveballs’ como Green Aisles, talvez o maior exemplo de uma produção mais afinada que complementa a nostalgia declaradamente cinzenta das “wasted miles” e “aimless drives” e que acaba por sair vitoriosa (“our careless lifestyle, it was not so unwise”), ou Municipality, talvez a peça central de Days a par do fantástico single recuperado do ano passado Out Of Tune, a imagem das conduções nocturnas de um a complementar as “sharping knives” que cortam com a confusão e a desorientação de viagem. Não há, de facto, falta de momentos de viagem e de transição no disco, mostrando-se sempre adepto de ir mudando a passada dos acontecimentos conforme lhe dá na gana. Pela altura em que a regravada Younger Than Yesterday, já presente no EP Reality, aqui com uma roupagem mais polida e bem definida, a grande curiosidade acaba por ser a forma com que o álbum se projecta para a sua conclusão: uma espécie de filho bastardo de Snow Days e Suburban Beverage, All The Same entra nervoso e sai em cima de um coda periclitante, quase kraut, até que parece tomar o pulso de si mesmo e abrandar até à morte. Se há algo que se pode apontar a Days é a sua falta de tempo para pausar e abrandar como números como Suburban Dogs faziam no seu antecessor, mas não é por isso que a aura de confiança relaxada deixa os Real Estate em algum ponto deste disco. Apenas o torna num triunfo da continuidade e da clareza.

Tracklist:

  1. Easy
  2. Green Aisles
  3. It’s Real
  4. Kinder Blumen
  5. Out Of Tune
  6. Municipality
  7. Wonder Years
  8. Three Blocks
  9. Younger Than Yesterday
  10. All The Same

Harvest Breed.

05
Out
11

Feedback, Vol. 5

O Shuffle. Todos os anos há um debate que aparece na indústria musical com mais insistência do que qualquer outro, mais até que a interminável saga dos downloads ilegais. Esse debate é o da morte do álbum como formato. Não faltam regularmente bandas que vão anunciando o seu abandono aos LPs a favor dos singles, dos lançamentos online ou dos EPs. Da mesma maneira que não falte quem aponte o dedo a possíveis culpados. Mas mais do que os downloads ilegais, o grande culpado é a função de Shuffle. Temas ao acaso, cortados à machadada dos seus álbuns, para satisfazer os défices de atenção de fãs impacientes de música, numa versão musical do Totoloto. Em Feedback, periodicamente desafiamos o Shuffle a escolher cinco temas ao acaso e escrutinamos os resultados.

The New Pornographers – [Twin Cinema #04] The Bleeding Heart Show [4:27] [2005]

  • Uma espécie de swansong para uma banda que fazia com Twin Cinema o seu trio de álbuns sólidos como não mais conseguiu desde então. Mais que isso, um admirável ponto alto: uma balada simples transformada numa coda em enérgica, com pontos extra pelo envolvimento bem sucedido de boa parte dos membros da banda.

Spacemen 3 – [Perfect Prescription #01] Take Me To The Other Side [4:40] [1987]

  • Não parece estar muito a acontecer aqui à primeira vista. Para lá do violento ataque sónico, que vai parando para respirar aqui e ali, as vozes perdem-se na mistura com o feel de se terem perdido também no tempo, e a tensão latente e o delírio drogado nos momentos de subidas e descidas rítmicas coloca o carimbo Spacemen 3 em cima de tudo aquilo. Seminal.

Earl Sweatshirt – [EARL #08] Moonlight Featuring Hodgy Beats [2:05] [2010]

  • No meio do hype de príncipio de ano que atraiu Tyler, The Creator ficou perdido o real grande activo do clã Odd Future, Earl Sweatshirt. EARL tem aqui um dos seus interlúdios subtis mas perturbadores que garantem a sua consistência no meio de tanto ethos abrasivo e niilista.

White Fence – [Is Growing Faith #12] Body Cold [1:51] [2011]

  • O rock imediato e cru dos White Fence acaba por inadvertidamente dar outra dimensão à fatia de moderação de Earl. Body Cold é directa, apoiada por uma linha insistente de órgão, chega rapidamente ao refrão e parece mais preocupada em sair antes que nos cansemos dela. Mas é assim mesmo que tem de ser.

Ladytron – [Velocifero #02] Ghosts [4:43] [2008]

  • Desinspirada amostra de electro numa não menos desinspirada tentativa de uma banda aparentar ter um som urgente. A urgência até parece estar lá, afogada em tanta superprodução, não se percebe bem é para onde caminha.

O veredicto:

  1. Spacemen 3 – Take Me To The Other Side
  2. The New Pornographers – The Bleeding Heart Show
  3. Earl Sweatshirt – Moonlight Featuring Hodgy Beats
  4. White Fence – Body Cold
  5. Ladytron – Ghosts

Harvest Breed.

05
Out
11

Cachet 0, Vol. 16

Noutro dia disseram-me que nós, por nos darmos ao trabalho de fazer um videoclip, uma sessão fotográfica, de arranjarmos uma promotora e por darmos muito dinheiro para gravarmos um disco, deixámos de ser uma banda que existe pelo prazer de fazer música e passámos a ser uma banda que existe para procurar fama. O argumento era que, se a música era o que realmente interessava para nós, nós devíamos estar mais preocupados em escrever música nova em vez de estarmos a investir tanto tempo, dinheiro, trabalho e paciência em coisas acessórias à música. Não consegui deixar de pensar que era um argumento com alguma lógica. Então se uma banda está a fazer o trabalho de um manager e uma editora ao mesmo tempo, como é tem tempo e força para fazer música também? Ninguém nos obriga a fazermos mais do que música, só fazemos tudo o resto porque queremos (embora muitas vezes eu me questione porque é que o queremos fazer).

Nos anos 80 e 90, quando ainda haviam editoras discográficas a assinar bandas, havia uma indústria inteira por detrás de uma banda. O músico só tinha de fazer música e dar concertos. Agora, essa já não é a realidade – se o músico só fizer música, ninguém a irá ouvir, ele terá de ser enterpreneur também. Já não há muitos managers a orientar carreiras ou agentes a marcar concertos, e na esmagadora maioria das vezes uma banda tem de fazer esse trabalho, sob pena de dar por si a fazer música boa que nunca ninguém vai ouvir. A internet possibilitou os músicos de se tornarem managers, promotores e agentes, mas dizimou os managers, promotores e agentes que haviam.

Por vezes sinto que essa divisão está lentamente a tirar-nos o prazer de continuarmos a fazer isto. Quase todos nós temos empregos, e o objectivo de ter uma banda é de nos divertirmos e não termos um segundo emprego. Às vezes imagino o que deve sentir um soldado a caminho para uma batalha, olhando em volta pensando qual dos seus companheiros vai cair primeiro, ou se ele próprio será a primeira baixa. Já lá vai quase 1 ano e meio desde que só fazemos telefonemas, e-mails e burocracias, sem escrever uma única canção nova – quando sinto o desapontamento de algumas das outras pessoas na banda, penso para mim se irei perder alguém em breve.

Which Will.




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