Arquivo de Autor de harvestbreed

07
Nov
09

As 10 Bandas Mais Consistentes Da Década

Com a facilidade que hoje em dia o ouvinte comum tem para mudar de objecto de audição, torna-se cada vez mais complicado ouvirmos bandas e artistas que primem pela consistência, seja por se terem estabelecido numa identidade sónica particular que executam com mestria ou por terem experimentado várias sonoridades sempre com o mesmo rótulo de qualidade. Aqui, celebramos aqueles cujo nome na capa de um disco só por si assegurou qualidade na década que passou:

 

10 – Grouper

Viajando sempre entre o folk abstracto e um shoegaze ambiental poderoso e assustador, Grouper serve de pseudónimo para Liz Harris de Portland desenvolver uma estética musical muito específica. Uma estética que não só gira à volta de uma particular noção de mistério e assombro, mas também de hipnotismo, e que na década passada se traduziu em três discos sólidos, a sua estreia Way Their Crept, o surreal Wide e o meditativo Cover The Windows And The Walls, bem como o corolário do seu desenvolvimento, o excepcional Dragging A Dead Deer Up A Hill de 2008. Apesar deste último se destacar dos demais, não deixa de ser admirável todo o trabalho silencioso que o fez acontecer. Aqui deixamos Heavy Water/I’d Rather Be Sleeping, um dos grandes pontos altos deste último disco:

 

9 – Liars

Nada como os nova-iorquinos/berlinenses Liars para exemplificar o sentido da palavra diversidade. De álbum para álbum, a banda foi ganhando impulso para ir trocando de estilos como quem troca de casacos. Tendo sido inicialmente conotada com uma nova vaga de revivalismo pós-punk no início da década depois do lançamento do seu registo de estreia They Threw Us All In A Trench And Stuck A Monument On Top, a banda virou-se depois para o estranho experimentalismo, menos focado em melodias e mais no fascínio da percussão a banda produziu They Were Wrong So We Drowned com Dave Sitek e o estrondosamente ambicioso e denso Drum’s Not Dead. Com o seu disco homónimo de 2007, a banda completou o ciclo de reconciliação com o seu histórico, mas foi Drum’s Not Dead que se estabeleceu como a grande jóia da coroa dos Liars. Aqui fica um dos seus temas de eleição, A Visit From Drum:

 

8 – Manitoba/Caribou

Assumindo-se como o matemático do indie nos últimos dez anos, Dan Snaith construiu uma reputação por pop característico e dócil, cada registo quase ao estilo de uma mixtape, sempre a um nível apreciável e distinto. Começando sob a designação de Manitoba, Snaith lançou Start Breaking My Heart, a sua promissora estreia, e o magnífico Up In Flames de 2003, um disco que registou uma recepção calorosa à conta dos floreados pop delicados e pensados envoltos de instrumentação livre e electrizante. No seguimento de uma ameaça de processo em tribunal, Snaith viu-se forçado a mudar de pseudónimo para Caribou, e foi sob este que lançou mais dois discos, o ambicioso The Milk Of Human Kindness e o delicado e bem-comportado Andorra, talvez o seu disco com maior aceitação. Up In Flames assume-se ainda como um disco de assinalável génio, dele tendo-se extraído este Jacknuggeted para um EP sob nome próprio:

 

7 – Field Music/The Week That Was/School Of Language

Inicialmente conotados com comparações com as lendas britânicas de pop alternativo XTC, o colectivo Field Music rapidamente se estebeleceu como uma parceria completa e rica de composição e mais tarde afirmando-se também com os seus dois membros principais a solo. Com o disco homónimo de estreia em 2005, os irmãos David e Peter Brewis iniciaram uma carreira que se pautaria essencialmente pela impressionante capacidade de construir pop inteligente, divertido e bem composto sem nunca ter recebido o crédito devido. Com talvez o ponto alto do seu percurso até ao momento tendo sido o segundo disco sob a designação Field Music, Tones Of Town, Peter Brewis partiu a solo sob o nome The Week That Was enquanto o seu irmão David ofereceu um igualmente sólido desempenho a solo com School Of Language. Este ano voltam os dois a juntar-se para mais um disco, Measure. Entretanto, recordemos a sua fantástica compilação de lados-B, Write Your Own History, com a óptima You’re Not Supposed To:

 

6 – Fennesz

Chegados ao fim da década e talvez não encontraremos outro nome que se possa dizer que encaixe tanto como uma luva como sinónimo de música ambiente electrónica e experimental como o do autríaco Christian Fennesz. Tendo aparecido no final da década de 90 ainda navegando a onda do boom da música IDM, foi nos últimos dez anos que Fennesz se estabeleceu definitivamente como nome incontornável dentro do género, deixando a sua marca característica em todos os seus trabalhos aliando texturas que navegam ao sabor da maré, ora definindo ambientes envolventes e delicados ora hipnóticos e periclitantes, com sensibilidades pop muito pouco comuns dentro do género. Foi tudo isto que ajudou a estabelecer Fennesz como um nome essencial da música moderna. Em 2001 com o registo de culto Endless Summer, em 2004 com o subvalorizado Venice e no ano passado com o sólido Black Sea. Mas vale pouco a pena descrever o que não pede descrição, esta é a fabulosa Caecilia de Endless Summer:

 

5 – Radiohead

Era inevitável, não era? Afinal de contas são os pais da música alternativa moderna. Influenciaram e continuarão a influenciar muito músico creativo que procura fazer algo diferente, compenetrante e ambicioso. Pela segunda vez nos últimos vinte anos, a banda de Thom Yorke acaba uma década com um saldo largamente positivo. É certo que muitos dirão que Hail To The Thief será um álbum menor com a companhia que tem junto do resto da discografia de uma banda intemporal, e provavelmente não deixarão de ter razão, mas importa relembrar que, para uma banda que entrou no novo milénio profundamente dividida e a braços com a aversão à fama do seu líder, acabou por sair com a sua reputação como ‘game-changers’ definitivamente reforçada, tendo ainda pelo meio revolucionado a forma como funciona a indústria discográfica. Everything In Its Right Place:

 

4 – Sufjan Stevens

Foi sem dúvida a surpresa da década, e sem dúvida o que a música da nova década mais precisava. Um músico prodigioso e precoce, ridiculamente ambicioso, a certa altura com um projecto em mãos de fazer um disco sobre cada um dos 50 estados americanos, com um dom especial de fazer música alternativa, desafiante, diversa, mas simultaneamente intensa e profundamente pessoal. Com um total de oito discos de estúdio, não é preciso um matemático para descobrir que Stevens foi um dos músicos mais prolíficos da década. Mas quando a essa produtividade se associam registos de eleição como Michigan ou Illinois, ambiciosos, orquestrais e eclécticos com outros como o acústico, sentido e emocional Seven Swans ou o experimental Enjoy Your Rabbit, o que resulta é uma década de afirmação cabal, definitiva e inegável, independentemente do que resultarão os próximos dez anos para um músico sem medo de arriscar e falhar. Fica a lindíssima For the Widows in Paradise, For the Fatherless in Ypsilanti, de Michigan, o seu estado natal e o seu terceiro álbum:

 

3 – Deerhunter/Atlas Sound/Lotus Plaza

É também sem surpresas que a década fica definitivamente marcada pelo shoegaze distorcido de Bradford Cox, Lockett Pundt, Josh Fauver, Moses Archuleta e do ex-guitarrista Colin Mee, vulgo Deerhunter. Esta acabou por ser uma marca que deixou as suas impressões digitais num total de seis discos durante toda a década, três sob a designação de Deerhunter, um deles duplo, dois de Cox a solo com Atlas Sound e um de Pundt também a solo com Lotus Plaza. Por quase todos estes registos se difunde a sonoridade etérea bem característica do conjunto especialmente desde que Pundt é adicionado à formação oficial antes do segundo disco dos Deerhunter, Cryptograms. Esta acabou mesmo por ser uma decisão vital para o futuro de um conjunto que chegou a ponderar o seu fim antes sequer do lançamento de Cryptograms. A partir daí, as coisas aconteceram de forma quase automática: Cryptograms motivou grande resposta da comunidade musical e lançou a banda para um grande terceiro disco, pleno de sensibilidades pop, em 2008 com Microcastle e abriu caminho para os felizes projectos a solo de Cox e Pundt. Mas foi efectivamente com Microcastle que a banda acabou por capturar o imaginário dos fãs de bom shoegaze melódico, e Agoraphobia, com Pundt a tomar responsabilidades vocais, acabou por ser uma das faixas da década:

 

2 – The Clientele

A década para os The Clientele acabou por ser silenciosa e simplesmente trabalhadora. A sua música não é tremendamente ambiciosa nem procura desenvolver nenhum tema fracturante, mas o que consegue ser é despretensiosa, emocional, sentida e compenetrante com a simples força da sua composição. Composição essa, maioritariamente a cargo do seu misterioso e criativo líder Alasdair MacLean, que privilegia estruturas simples, mas de beleza desarmante e de afectação imediata. Se há alguma palavra que possa descrever com sucesso em que consiste a música destes ingleses é mesmo afectante. É impossível ficar indiferente à guitarra rodopiante e sentimental de MacLean, à sua perfeitamente sincronizada secção rítmica e aos arranjos de cordas que, nunca procurando o épico ou o grandioso encontram sempre o coração. Suburban Light, lançado ao virar do século encapsula na perfeição todas as fortalezas de um conjunto de singles que souberam aliar uma produção lo-fi saudosista, plena de reverberação, a uma simplicidade enfeitiçante. De facto esta viria a ser a fórmula de eleição para o grupo de MacLean: simplicidade, sentimento e afectação. Uma que se transportou para os discos que se seguiram, nomeadamente The Violet Hour, Strange Geometry ou o mais acessível e imediato God Save The Clientele, aos quais se junta ainda Bonfires On The Heath deste ano. Para recordar ficou Suburban Light e o meu favorito pessoal, We Could Walk Together:

 

1 – Spoon

Com a mudança de rumo que marcou o virar o século para os Spoon e que viu a banda afastar-se do rock alternativo com fortes traços de Pixies para uma abordagem mais imediata e acessível, tendo incorporado elementos como o piano ou os teclados na sua música, os Spoon ganharam uma nova vida. Com Telephono e A Series Of Snakes a banda tinha dois óptimos discos de puro rock, e com a década que se seguiu o conjunto de Austin seguiu em busca de uma acessibilidade ainda que marcadamente alternativa que lhe garantiu notoriedade. A sucessão de discos entre Girls Can Tell de 2001 e Ga Ga Ga Ga Ga de 2007 é virtualmente imaculada, de tal forma que se torna difícil escolher favoritos e observar grandes diferenças de qualidade. Com Kill The Moonlight em 2002, os Spoon conseguiram a aclamação crítica e popular que ainda não haviam granjeado, com a força de números como The Way We Get By, Vittorio E. ou Paper Tiger, aclamação essa que depois viriam a confirmar no seu último disco até à data com sucessos mesmo mainstreamizados com The Underdog ou You Got Yr Cherry Bomb. Para a posteridade, fica a simplicidade e a genialidade de I Summon You de Gimme Fiction:

Harvest Breed.

03
Nov
09

A Década

1 – Radiohead – Kid A

2 – Wilco – Yankee Hotel Foxtrot

3 – Unwound – Leaves Turn Inside You

4 – Sufjan Stevens – Illinois

5 – The National – Alligator

6 – The Strokes – Is This It

7 – Liars – Drum’s Not Dead

8 – The Exploding Hearts – Guitar Romantic

9 – The Walkmen – Everyone Who Pretended To Like Me Is Gone

10 – Björk – Vespertine

11 – Deerhunter – Cryptograms

12 – Animal Collective – Feels

13 – The Avalanches – Since I Left You

14 – Mclusky – Mclusky Do Dallas

15 – LCD Soundsystem – Sound Of Silver

16 – The Knife – Silent Shout

17 – The Radio Dept. – Lesser Matters

18 – Broadcast – Haha Sound

19 – Junior Boys – Last Exit

20 – Life Without Buildings – Any Other City

21 – Modest Mouse – The Moon & Antarctica

22 – Daft Punk – Discovery

23 – Spoon – Girls Can Tell

24 – The Microphones – The Glow, Pt. 2

25 – Panda Bear – Person Pitch

26 – Boards Of Canada – Geogaddi

27 – Grizzly Bear – Veckatimest

28 – TV On The Radio – Return To Cookie Mountain

29 – Blur – Think Tank

30 – Sufjan Stevens – Seven Swans

31 – Radiohead – Amnesiac

32 – Animal Collective – Meriweather Post Pavillion

33 – Wild Beasts – Two Dancers

34 – Dismemberment Plan – Change

35 – The Clientele – Suburban Light

36 – Godspeed You! Black Emperor – Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven

37 – Deerhunter – Microcastle

38 – Grizzly Bear – Yellow House

39 – Phoenix – It’s Never Been Like That

40 – Battles – Mirrored

41 – The National – Boxer

42 – Low – Things We Lost In The Fire

43 – Manitoba – Up In Flames

44 – Junior Boys – So This Is Goodbye

45 – Iron & Wine – The Creek Drank The Cradle

46 – Paavoharju – Laulu Laakson Kukista

47 – Andrew Bird – The Mysterious Production Of Eggs

48 – The Flaming Lips – Embryonic

49 – British Sea Power – The Decline Of British Sea Power

50 – Micah P. Hinson – And The Gospel Of Progress

Harvest Breed.

28
Out
09

Novos Lançamentos: Surfer Blood – Astro Coast

Hoje em dia somos todos surfistas. A verdadeira onda revivalista de rock surfista que os Pixies celebrizaram no início da década de 90 agora não só parece voltar à baila como também aparenta ter vindo para ficar. Como se os avisos não fossem suficientes, é mesmo disso que nos informa John Paul Pitts, vocalista dos Surfer Blood, na primeira faixa do seu disco de estreia: “If you’re moving out to the west, then you’d better learn how to surf”. Não seria só por aqui que uma banda como os Surfer Blood se distinguiria dos seus inúmeros pares, mas a verdade é que o faz por intermédio do seu apurado olho para as melodias pop, da sua pouco comum aliança com a escola lo-fi, até aqui mais aplicada a uma lógica de rock de garagem que propriamente ao pop alternativo, e da naturalidade com que o seu som emerge do emaranhado de influências e posturas em que se mergulha. Vindos de West Palm Beach na Flórida, mais surfista só mesmo na Califórnia, o quinteto define-se mesmo no seu myspace como “pop, pop, pop”, um auto-retrato refrescante e desarmante face a todo o poseurismo que ainda caracteriza muito do que é feito sob esta égide do lo-fi. Não que Astro Coast, o registo que marca a estreia dos Surfer Blood, leve esta lógica ao extremo como alguns dos seus companheiros, mas enquanto a sua matriz sónica não deriva muito do power pop, a forma tradicionalista com que são tratados em estúdio os seus intermináveis riffs e melodias pop dão à banda algo que poucos neste meio têm.

Fazendo do compromisso para com esses riffs e melodias pop acessíveis e viciantes um estandarte e um ponto de honra, Astro Coast marca uma sonoridade que junta esse background pop a um estilo marcadamente lo-fi que definia uma banda como os The Shins antes de estes se virarem em definitivo para o indie pop precioso e inofensivo. Também é muito provável que viremos a ouvir bastas vezes repetido que este é um disco gravado na sua íntegra no seu dormitório da universidade em que estudam, o que certamente lhes valerá subir alguns pontos na consideração de alguns e descer outros tantos na consideração de outros. A única informação que necessitamos de saber sobre Astro Coast é mesmo a de que é uma das pérolas pop do ano, seja em que revivalismo incorrer, fazendo ora lembrar bandas de new wave dos anos 80, os Weezer a tocarem a Buddy Holly em meados da década de 90 ou as guitarras surf que se fizeram ouvir um pouco por todo o lado por essa altura. Talvez aquilo que acaba por confirmar essa premissa é mesmo o primeiro single retirado de Astro Coast: Swim (To Reach The End), que retira uma boa fatia de sonoridade bombástica do new wave dos anos 80, a ela aliando um refrão que fica no ouvido, harmonias vocais escolhidas com critério e aplicadas na perfeição, uma voz num registo superlativo que dá um bocado de glam à coisa e temos uma faixa viciante.

A introdução a Astro Coast faz-se ao som da já anteriormente citada Floating Vibes, que entrelaça vários riffs à volta de si mesmo e de uma linha vocal que se vai alterando aqui e ali, sempre mantendo a mesma frescura e o mesmo sentido de novidade. É também este estilo de power pop com sentido de inovação e inquietude que faz deste disco uma vitória tão grande para uma banda tão nova. Floating Vibes faz-se seguir por Swim (To Reach The End), o single, e por Take It Easy, uma espécie de Cape Cod Kwassa Kwassa de power pop, que acaba por resultar em pleno não só pela novidade, mas por fazer aquilo que a faixa dos Vampire Weekend não consegue fazer: acomodar essas influências em algo mais do que apenas vocalizações preciosas. Tudo isto serve de prelúdio para aquele que acaba por ser o momento mais forte de Astro Coast, a ambiciosa Harmonix, mais uma vez marcada pela versatilidade com que muda de tons e de ambiências num fabuloso trabalho da guitarra de Thomas Fekete e de destreza vocal de John Paul Pitts. Mais lá para a frente encontramos as duas propostas mais extensas do disco sob a forma de Slow Jabroni e Anchorage. A primeira está nas linhas de algo mais pensativo e tenso como aquilo que já ouvimos este ano de uns Japandroids, sem a estética tão declaradamente pesada e lo-fi, já a segunda acaba por ser a extensão natural de uma faixa-tipo da banda, ramificando-se por vários caminhos, obtendo várias dimensões, sempre com a mesma linha pop no horizonte. Astro Coast representa o crescimento de uma banda incrivelmente nova que também faz disso a sua principal arma, um relato de um dos acontecimentos pop do ano, sem precisar de poseurismo nem desculpas.

Tracklist:

  1. Floating Vibes
  2. Swim (To Reach The End)
  3. Take It Easy
  4. Harmonix
  5. Neighbor Riffs
  6. Twin Peaks
  7. Fast Jabroni
  8. Slow Jabroni
  9. Anchorage
  10. Catholic Pegasus

Harvest Breed.

22
Out
09

Gira-Discos: Life Without Buildings – Any Other City

Pesquise-se pelo termo “cult status” no google e temos mais de 21 milhões de resultados. A definição que o dicionário dá para o termo é “a popular person or thing having strong enduring appeal and elevated to worship by some”, leia-se, uma uma pessoa ou coisa popular, com apelo forte e duradouro, e elevada ao estatuto de objecto de culto por alguns. No caso da banda escocesa de Glasgow Life Without Buildings o termo a sublinhar é mesmo o ‘alguns’. Os poucos que são, são-o certamente ruidosos, mas não deixam de ser poucos. Com um background elitista e artístico que se calhar hoje, quase dez anos depois do seu disco de estreia, provocaria alguns olhares de soslaio, os Life Without Buildings fazem lembrar um qualquer tesourinho que descobriríamos à procura de bandas semi-desconhecidas da explosão do pós-punk em Manchester. Com uma estética declaradamente própria do estilo, a construção de ritmos tensos, a focalização numa secção rítmica proeminente, a banda cedo se notabilizou por duas coisas: os seus espectáculos ao vivo e a sua vocalista. Na realidade, os dois não podiam estar mais ligados. Sue Tompkins hoje trabalha numa galeria de arte, muitas vezes coordenando ainda projectos de impacto musical no mundo artístico, mas deixou para trás a sua encarnação passada como frontwoman dos Life Without Buildings. O que é facto é que grande parte do magnetismo que atraía as pessoas à banda se devia ao carisma, personalidade e peculiaridade de Tompkins. E não creio estar a ser presunçoso quando digo que ouvindo o seu repertório, que neste caso infelizmente se resume apenas a um disco, facilmente conseguimos imaginar porque é que os concertos dos Life Without Buildings se tornaram coisa de mito.

Ainda recentemente a sua etiqueta, presumivelmente numa tentativa de manter viva a fama dos concertos da banda, lançou um disco gravado ao vivo no hotel Annandale em Sydney na Austrália, que apesar de já numa era de downloads mais favorável à notoriedade de bandas como os Life Without Buildings foi recebido ainda com indiferença. Seja como for, e afastada que está definitivamente a hipótese de os ver ao vivo, celebrar o seu primeiro e único disco Any Other City, datado de 2001, impõe-se. Para um conjunto que vai buscar o nome a um lado-b de Japan, a sua sonoridade é impressionantemente fiel de uma estética de música alternativa americana do princípio da década de 90. Uma em que as guitarras desprovidas de qualquer efeito ou tratamento especial de estúdio se encontram no centro da música que ainda assim retêm todos os tratos do revivalismo pós-punk que conseguiu protagonismo ao virar do século. Nela, Sue Tompkins tem o pano de fundo perfeito para fazer o que sabe fazer melhor. Na verdade, é complicado de dizer ao certo, e por palavras coerentes e inteligíveis, aquilo que ela faz em concreto, mas o que é facto é que, e para usar uma expressão comum no futebol, acontece. Frequentemente adoptando uma espécie de discurso em que sai cá para fora tudo o que vem à cabeça, Tompkins parece ter mais para dizer do que o que a duração de cada faixa permite. Cada uma com a sua história particular, cada uma com o seu dilema críptico para decifrar.

O primeiro dá-se logo com a primeira música, PS Exclusive. Começando com um ritmo propulsivo e decidido, rapidamente somos sugados para a realidade paralela de Tompkins. Por extenso, os primeiros versos são qualquer coisa nestas linhas: “No details but i’m gonna persuade you / the right stuff / the right stuff / the right stuff / the right stuff / the right stuff / in the red villa / the right stuff / the right stuff / the right stuff”. Não sendo a primeira vez que encontro dificuldades para descrever exactamente o que se passa neste disco, seria agora que dava a achega para o rotineiro ’só mesmo ouvindo’. Ainda assim, não podemos deixar passar o trabalho de corporização absolutamente vital que é feito por Will Bradley na bateria, por Chris Evans no baixo, ambos formando uma secção rítmica de perfeita sintonia, e pela harmoniosa e delicada guitarra nas mãos de Robert Johnston. Onde tudo se parece encaixar na perfeição é na dupla Juno e The Leanover. Ambas com um tom quase saudosista, penando por amores passados, puxando a personalidade fogosa de Tompkins para o protagonismo e para terrenos mais delicados e ambiciosos, o resultado, mais do que interessante, é mesmo enfeitiçante. “I like you mostly late at night”, suspira Tompkins em The Leanover, o retrato do que certamente se poderá dizer que é uma banda para se ouvir com headphones, à noite e de uma forma muito pessoal. Ao longo dos mais de oito anos que se passaram desde o lançamento de Any Other City, os Life Without Buildings separaram-se e para trás deixaram a vida de músicos, por certo centenas de fãs adoradores que os verão como o seu pequeno grande segredo pessoal e umas quantas figuras no mundo musical que hoje em dia os recordam com brilho nos olhos.

Tracklist:

  1. PS Exclusive
  2. Let’s Get Out
  3. Juno
  4. The Leanover
  5. Young Offenders
  6. Phillip
  7. Envoys
  8. 14 Days
  9. New Town
  10. Sorrow
  11. Daylighting

Harvest Breed.

19
Out
09

Novos Lançamentos: A Sunny Day In Glasgow – Ashes Grammar

O ano tem sido pródigo em discos ambiciosos. Começando no regresso dos Circulatory System de Will Cullen Hart com Signal Morning, ou no triunfal Embryonic dos Flaming Lips, é preciso não esquecer que em 2007 apareceu uma banda relativamente desconhecida de shoegaze moderno com o estranho nome de A Sunny Day In Glasgow tendo por cartão de visita o interessante, inteligente e, em última análise, subvalorizado Scribble Mural Comic Journal. Nativos de Philadelphia e tendo nos irmãos Ben, Lauren e Robin Daniels as principais forças compositoras, o primeiro como grande mentor da sonoridade e dos arranjos de produção, as duas últimas como responsáveis pelas linhas e arranjos vocais à sua volta, Ashes Grammar, o seu segundo registo, marca a passagem dos A Sunny Day In Glasgow do estatuto normal de banda como é regularmente apreendido na música pop, para algo que se possa designar como colectivo, à semelhança dos Circulatory System. A banda reconheceu a integração e a maior importância de outros membros fora do círculo fraternal dos Daniels. Não só pela primeira vez os trabalhos vocais passam a estar a cargo não apenas das irmãs Daniels, mas também da multi-instrumentista Annie Fredrickson, como a secção de rítmica de Josh Meakim na bateria e Brice Hickey no baixo tem um papel mais central em Ashes Grammar. Ainda assim, não se pode dizer que Ashes Grammar não seja o corolário decorrente de Scribble Mural Comic Journal. A sua estrutura é muito semelhante àquilo que apelidaríamos de mixtape, um conjunto de ideias que se vão sucedendo, sempre com um motivo de fundo e uma estética à qual obedecem e vão acrescentando, e a sua sonoridade representa a continuação e o desenvolvimento de uma forma particular de abordagem ao shoegaze e ao dream pop que a banda já tinha começado no disco de estreia.

Ashes Grammar é mais ambicioso, quer em conteúdo quer em forma, mais acessível, mais melódico e mais confiante que Scribble Mural Comic Journal. Com a adição de novos membros e a natural progressão sónica do conjunto, não é de surpreender que desta feita o resultado seja mais orgânico e natural e mais o produto de uma banda na verdadeira acepção da palavra. Com Scribble Mural Comic Journal, os A Sunny Day In Glasgow tinham apostado em algo que se podia definir literalmente como bedroom pop. Todas as batidas são de drum machines e o disco está povoado de samples e trechos de programação digital. Ainda assim, um registo assim tão forte como de facto acaba por ser Ashes Grammar não teria sido possível sem um decisivo passo em frente a respeito de composição, e isso é notório desde o ínicio, mesmo em faixas diminutas que servem o propósito de emprestar continuidade ao processo de audição. Não só a nível instrumental, mas também a nível de linhas vocais, mesmo dentro dos cânones de vocalizações distantes e desligadas próprias do shoegaze moderno. De facto, há todo um estado de espírito que se atinge com audições repetidas de Ashes Grammar que se presume ser a real intenção do conjunto de Philadelphia. Apesar disso a identidade shoegaze não é algo que faça ensombrar a banda, como fez questão de sublinhar Ben Daniels numa entrevista recente: “I do like that a lot, My Bloody Valentine stuff… but, I feel like a lot of the bands that are usually “shoegaze” or “dream pop” are just very, probably a criticism people we’ll give us, but, very derivative… and not very interesting”. Algo que a banda pretende construir passa mais pelo sentimento de desassociação e de transcendência que é normalmente atribuído ao shoegaze e não tanto pela nomenclatura em si, tanto banalizada que está.

Alguns dirão que aqui está um disco que tanto podia ter sido transformado num conjunto de ideias numa faixa só, como podia ter sido emagrecido para uns convenientes dez longos e elaborados temas, mas isso seria não perceber a sua essência. Ashes Grammar pega onde Scribble Mural Comic Journal tinha deixado as coisas, entrelaçando samples com arranjos delicados e maioritariamente virados para a definição de atmosfera. A primeira realização de conjunto dá-se com a eferverscente Failure, uma amálgama de percussão quase tribal ligada por uma discreta e eficiente guitarra acústica e um refrão onde ouvimos as irmãs Daniels repetir “Fall forward / Feel failure”. Close Chorus oferece uma componente dançável pouco comum no estilo, apesar dos seus seis minutos e quase outros tantos interlúdios e bridges que fluem sem que ninguém repare por isso, enquanto que Shy dá imediato seguimento às tendências mais melódicas e imediatas com sublime efeito, evocando ainda imagens dos Caribou por altura do fantástico Up In Flames. A diversidade de Ashes Grammar dá para passar do imediatismo de possíveis singles para temas de cariz mais atmosférico e tenso. Nitetime Rainbows é um perfeito exemplo disso, com as suas guitarras rústicas e as suas transições acompanhadas de vozes sussurantes e palmas. No verdadeiro sentido da noção de mixtape com que comecei este texto, este é um álbum verdadeiramente intemporal pelo simples volume e diversidade de ideias ebulientes que aqui aparecem, um absolutamente definitivo must have não só do ano, mas para todos os amantes do novo, moderno e inventivo shoegaze.

Tracklist:

  1. Magna For Annie, Josh & Robin
  2. Secrets At The Prom
  3. Slaughter Killing Carnage (The Meaning Of Words)
  4. Failure
  5. Curse Words
  6. Close Chorus
  7. Shy
  8. Lights
  9. Passionate Introverts (Dinosaurs)
  10. West Philly Vocoder
  11. Evil, With Evil, Against Evil
  12. The White Witch
  13. Nitetime Rainbows
  14. Canalfish
  15. Loudly
  16. Blood White
  17. Ashes Grammar
  18. Ashes Maths
  19. Miss My Friends
  20. Starting At A Disadvantage
  21. Life’s Great
  22. Headphone Space

Harvest Breed.

16
Out
09

Gira-Discos: Wipers – Youth Of America

No seguimento do advento do pós-punk em finais da década de 70 e princípios da década de 80, a fase de mudança que agora entrava na cena punk obrigou a que muitas das bandas que tinham construído carreira à volta de filosofias de combate, fundidas com a tradicional explosividade melódica de um ou dois minutos por música, repensassem a sua abordagem à sonoridade punk. Uma dessas bandas foram os norte-americanos Wipers, de Portland. Liderados pelo carismático Greg Sage, que mais tarde viria a ser aclamado por Kurt Cobain como um dos seus heróis pessoais e uma das suas maiores influências, a banda enfrentava desde logo uma dificuldade geográfica. Sendo que a maioria da explosão punk nos Estados Unidos se tinha centrado à volta de outros núcleos bem mais afastados de Portland, os Wipers viram-se desde logo conferidos a um certo estatuto de outsiders. Mas o que é facto é que nem por isso o seu compromisso com a filosofia ‘do it yourself’ do punk era menor. Na verdade, a banda acabou por ser formada com a premissa de renegar o conceito de espectáculo ao vivo, aliás a visão inicial é mesmo a de apostar tudo no lançamento de quinze discos de estúdio em dez anos de actividade, e na completa e pura ausência de concertos, um plano que hoje em dia provavelmente esbarraria com contingências financeiras. Assim, os Wipers sempre conseguiram levar a cabo uma atitude inerentemente anti-comercial que levava um passo à frente a atitude anti-sistema com que o punk apareceu inicialmente.

Assim sendo, depois da estreia eminentemente e classicamente punk da banda com o viciante Is This Real?, que viu Sage apostar em métodos profissionais de gravação junto de um estúdio efectivamente profissional, Youth Of America, o segundo registo dos Wipers, editado em 1981, é uma proposta inteiramente diferente. Desta feita gravado em estilo de combate em casa pelo próprio Sage, Youth Of America é um autêntico vendaval musical, sustentado por faixas mais compridas e estruturadas. Aquilo que acabou por surgir desta nova encarnação da banda não foi propriamente o que se possa apelidar de pós-punk, antes uma visão épica e ambiciosa do que devia ser o punk dos primórdios da década de 80, mas que por alguma razão em particular poucas ou mesmo nenhuma banda se tinha aventurado a abraçar. O sentimento geral de Youth Of America também muda drasticamente do que seria convenção de um disco punk da era, optando marcadamente por ambientes mais claustrofóbicos e psicóticos que evocavam uma espécie de psicadelismo punk que pedia emprestada a face sombria dos Joy Division com barragens sonoras de guitarras. E o efeito final redundou num dos trabalhos mais venerados do movimento punk hoje em dia, seja por críticos, seja pelo seguimento que foi dado por outros músicos e bandas, e aqui poderíamos falar desde os Dinosaur Jr. até aos Jesus And Mary Chain, seja até pela nova legião de fãs que conseguiu atrair à conta de simples passa-a-palavra. Reconhecimento esse que, aliás, a banda nunca conseguiu granjear pela altura do lançamento de Youth Of America, e o seu distanciamento daquilo que era entendido como a explosão punk assim o obrigou.

Talvez mais memoravelmente, a faixa que definiu o legado dos Wipers de Sage em Youth Of America foi a épica e colossal faixa homónima. Com para cima de dez minutos, Youth Of America foi uma pedrada no charco naquilo que se esperaria de uma banda punk. Arranhando uma identidade sónica virada para o psicadelismo, a faixa acaba por ser uma ode ao desespero e à desilusão com o conformismo da juventude americana. Um sentimento marcadamente punk espelhado por letras como “Youth of America/It’s living in the jungle/Fightin’ for survival, but there’s no place to go”, ligado ao que menos se esperaria ouvir uma banda punk a reproduzir: um verdadeiro assalto auditivo, marcado por vários interlúdios ora assustadores ora simplesmente violentos, chegando ao ponto do próprio Sage admitir a presença de “umas 50 guitarras em simultâneo a certa altura”. Ainda assim, o tema título não é a única incursão pelo inconvencional aqui. Também na densa When It’s Over, com mais de seis minutos, a banda opta por algo menos hipnótico, mas mais propulsivo e enérgico, servindo-se da sua magnífica secção rítmica para gerar uma faixa poderosíssima, ainda que essencialmente instrumental. Ouvindo Taking Too Long agora, é impossível minimizar o volume de bandas que isto conseguiu influenciar, enquanto que No Fair é mais uma vez a antítese do que seria considerado punk por esta altura, fosse pela sua performance vocal característica, fosse mesmo pela sua bridge cortante.

Reeditado e remasterizado em 2001 sob a forma de um box set, Youth Of America é um disco indispensável para quem goste de rock sem pedir licença nem desculpa. E apesar de mesmo hoje em dia não poder reclamar o crédito que merece, ouvimos os Wipers e o espírito inovador e desafiante de Greg Sage em muito do que se faz no punk e até no pós-punk actualmente.

Tracklist:

  1. Taking Too Long
  2. Can This Be?
  3. Pushing The Extreme
  4. When It’s Over
  5. No Fair
  6. Youth Of America

Harvest Breed.

15
Out
09

Novos Lançamentos: Johnny Foreigner – Grace And The Bigger Picture

Tudo, ou quase tudo, acerca desta banda consegue ser incrivelmente infantil. Desde o seu artwork, que retrata fantasmas desenhados por criançada, até à sua sonoridade estilo síndrome de défice de atenção que não fica muito tempo no mesmo sítio, passando até pelos títulos das suas músicas, não me consigo lembrar de alguma outra banda com um espírito tão infantil em relação à forma como aborda a música e os seus fãs como os ingleses Johnny Foreigner. O seu primeiro disco não se pode dizer que tenha tido grande impacto, e a indiferença com que foi recebido não deve contrastar muito com a forma como o seu segundo trabalho deverá ser. Waited Up ‘Til It Was Light foi um disco de intensidade insuperável, e aí recaía a sua maior virtude e a sua maior fraqueza. Onde o álbum florescia com riffs e estruturas pop viciantes, também conseguia exagerar na forma como preenchia sem descanso todos os espaços vazios e intervalos que a música pedia que aparecessem, mas que por esta ou aquela razão simplesmente não surgiam. Produzido por Machine, reconhecido pelo seu trabalho em bandas pop punk como os Gym Class Heroes ou os Fall Out Boy, em New Jersey, que depois viria a fazer um trabalho semelhante com a desapontante estreia dos escoceses Dananananaykroyd, Waited Up ‘Til It Was Light podia ter sido mais do que foi, um disco onde as sensibilidades melódicas apareciam, mas não foram tratadas como mereciam.

Talvez por isso, o segundo disco dos nativos de Birmingham, Grace And The Bigger Picture, parece mais um registo desesperado e, sobretudo, urgente. Assim, alistaram para trabalhos de produção Alex Newport, ligado ao hardcore e até ao metal, mas também já tendo trabalhado com propostas mais ligadas ao meio alternativo como os Death Cab For Cutie ou os Two Gallants. Não que a sonoridade que os Johnny Foreigner vincam em estúdio seja remotamente aproximada de alguma destas bandas, mas desta vez a abordagem é marcadamente diferente. Alexei Berrow, guitarrista e vocalista, e Kelly Southern, baixista e vocalista, constituem o grosso da dinâmica de cumplicidade que o conjunto mostra em gravações de estúdio, e aqui isso é transposto de uma forma mais variada e fluente, mas também com faixas mais curtas e directas, proporcionando outro tipo de meio de expressão às suas sempre irrequietas ideias. Não é, por isso, surpresa que ouvir este disco seja uma experiência menos abrasiva como tinha sido com o anterior registo. Mas nota-se também uma maior diversidade de composição, o que leva a que cada audição repetida se descubram pormenores que não descobrimos na anterior.

Em menos de dois minutos se faz a história da faixa de abertura, Choose Yr Side and Shut Up!, com o habitual título característico, as guitarras perfurantes, a sonoridade de ataque aos sentidos, casados com uma peculiar visão de pop alternativo e acabando num óptimo floreado da guitarra de Berrow. À primeira audição, há sons que se misturam com outros e que fazem com que o disco tenha um agradável sentimento de confusão ou até de mixtape, mas desta vez o melhor impacto não é necessariamente o primeiro. Criminals, o single de apresentação do disco acaba por ser perfeitamente representativo da identidade sónica da banda, mas ao mesmo tempo dos maiores temas do disco. Também bem vindos são alguns números mais contidos e minimalistas, como em illchoosemysideandshutup, alright, onde se forma uma coda final épica, ou na mais sentida Every Cloakroom Ever. Este é um disco de evolução, mas não de formação. Dificilmente mudará as opiniões de quem não goste da banda e lá terá as suas inconsistências, mas registe-se com agrado o passo à frente mais audaz e ambicioso até que muitos dos seus pares e semelhantes.

Tracklist:

  1. Choose Yr Side and Shut Up!
  2. Security to the Promenade
  3. Ghost the Festivals
  4. Feels Like Summer
  5. illchoosemysideandshutup, alright
  6. Criminals
  7. Custom Scenes and the Parties That Make Them
  8. More Heart, Less Tongue
  9. Kingston Called, They Want Their Lost Youth Back
  10. He Awoke On A Beach In Aberystwyth
  11. (Graces)
  12. Dark Harbourzz
  13. Every Cloakroom Ever
  14. More Tongue, Less Heart
  15. The Coast Was Always Clear

Harvest Breed.

07
Out
09

Em Alta Rotação Este Mês

Compilação do Mês de Outubro:

  1. Tubelord – Propeller [Our First American Friends]
  2. Built To Spill – Aisle 13 [There Is No Enemy]
  3. Ramona Falls – Always Right [Intuit]
  4. Julian Casablancas – 11th Dimension [Phrazes For The Young]
  5. The Flaming Lips – The Ego’s Last Stand [Embryonic]
  6. Tomutonttu – Tomutonto 8 [Tomutonto]
  7. Cold Cave – Love Comes Close [Love Comes Close]
  8. The Fresh & Onlys – Dude’s Got A Tender Heart [Grey-Eyed Girls]
  9. Headlights – Get Going [Wildlife]
  10. Basement Jaxx – My Turn (feat. Lightspeed Champion) [Scars]
  11. Girls – Summertime [Album]
  12. Joy Orbison – Hyph Mngo [Hyph Mngo]
  13. To Kill A Petty Bourgeoisie – The Needle [Marlone]
  14. Q-Tip – Barely In Love [Kamaal The Abstract]
  15. Hudson Mohawke – Fuse [Butter]
  16. Thee Oh Sees – I Can’t Pay You To Disappear [Dog Poison]
  17. Lake Heartbeat – Southbound [Trust In Numbers]
  18. Thom Yorke – FeelingPulledApartbyHorses [FeelingPulledApartbyHorses/The Hollow Earth]

Download

Harvest Breed.

02
Out
09

A Autenticidade Na Música Moderna

É quase escusado afirmar que a música seria hoje um lugar diferente se vivesse fora dos limites do culto da autenticidade que tem fomentado praticamente desde o aparecimento do conceito de música pop no século passado. Mas até que ponto podemos classificar música autêntica acima ou abaixo de algo mais abstracto ou inorgânico? Partimos do pressuposto que artistas com experiências de vida mais variadas partem em desvantagem em relação a artistas com vivências mais privilegiadas ou enfadonhas, simplesmente porque são presenteados com mais substância que poderão transmitir com autenticidade para a sua música. Não é uma noção recente, mas é uma preocupação crescente, não só de fãs de música, mas também, e talvez sobretudo, da indústria musical. Ela pode ser vista como uma consequência da rentabilização da música pop, onde cada vez mais os artistas mais populares são vistos com desconfiança, e até da necessidade de individualização e afirmação pessoal dos consumidores. Desde o aparecimento do real lucro na música que a autenticidade é cada vez mais prezada e glorificada. Mas a preocupação com o tema sempre pareceu encobrir a indústria discográfica como se de um fantasma se tratasse: fosse na promoção de artistas negros de proeminência country ou blues do virar do século XIX que apelavam a um público branco aristocrata pelos temas que abordavam na sua música, desde mulheres ao álcool, passando pela pobreza e até pelo racismo, fosse na exposição de fabricações artísticas em particular nos anos 90 com o único propósito de lucrar, há uma página que se vira no meio disto tudo.

Enquanto que a obsessão pelo autêntico parece ter deixado o pop algures no século XX, também passou a assumir um estigma significativo em comunidades musicais mais alternativas e impermeáveis. É impossível não associar esta mudança ao aparecimento dos downloads e do filesharing ao virar do século. A quebra de receitas de grandes conglomerados ligados à promoção da música obriga a maior critério daquilo que poderá ser considerado lucrativo do que tem acrescido potencial de risco, o que à partida invalida que mais barreiras sejam impostas a um meio que cada vez mais pede cada vez menos entraves. Por outro lado, é impossível não fugir ao sufocante clima de competitividade pela autenticidade que se vive nos meios mais alternativos. Um dos exemplos mais interessantes deste estigma talvez recaia no aparecimento dos nova-iorquinos Vampire Weekend, primeiro nos círculos alternativos, depois na sua mainstreamização e a acabar na sua reavaliação de méritos de novo como banda alternativa. Aparecendo na cena musical nova-iorquina constituídos por ex-membros dos mais respeitados Dirty Projectors e gabando-se das suas influências africanas, a banda tem a peculiaridade de contar com um passado privilegiado que opta por transpor em letras críticas de comportamentos elitistas e aristocráticos. Com a sua crescente popularidade, este passou a ser um sério problema para a banda nos círculos alternativos, críticas estas que continua a refutar. Mas mais do que pretendem transmitir nas suas letras, a sua imagem consegue mais impacto junto dos críticos, e fomentando essa imagem, a banda transparece incongruência, artificialidade e aproveitamento mediático.

Não é, portanto, de estranhar que o conceito de ’sell out’ se tenha banalizado no discurso dos fãs de música. A primeira vez que ouvi estas palavras de alguém dentro do meio musical foi pela boca de Kurt Cobain, referindo-se aos seus conterrâneos Pearl Jam que acusava de tentarem capitalizar na histeria colectiva pelo grunge ao optarem por uma versão suave, mainstreamizada e assim inautêntica do estilo, e na altura foi suficientemente polémico para forçar pessoas a decidirem com quem estavam de acordo. Desde então, o termo tem sido utilizado com crescente liberalismo: seja por uma banda de créditos reconhecidos no meio alternativo assinar um contrato com uma etiqueta de grande dimensão, seja por optar por sonoridades mais imediatamente reconhecíveis como música popular, seja por colaborar com artistas mainstream ou até por disponibilizar temas para efeitos publicitários. A autenticidade deixou de ser o assunto tabu que era em boa parte do século passado, onde na realidade se uma banda ou um artista vendia, a leitura óbvia era a de que o público, generalizado ou não, lhe reconhecia mérito, e daí o assunto não passava, para passar a ser tema de bandeira de nichos da comunidade musical ou de invocação corriqueira, quer para fãs quer para publicações. Seja porque Justin Vernon, Bon Iver, compôs um disco belíssimo numa cabana no Wisconsin sobre uma antiga relação, seja porque artistas ou bandas como Liz Phair ou Kings Of Leon lançam discos de apelo mainstream renegando aquilo que lhes notabilizou nos círculos arternativos, a noção de autenticidade aparece cada vez mais com uma dupla conotação: ora a de instrumentalização responsabilizadora, acusatória e elitista, ora a de advertência para a despersonalização da música e a santificação da composição de letras.

A consequência primária é o assumir de um papel avaliador e avalizador de intenções, carácter e motivos da parte dos artistas, pela crítica musical. Deixando de se resumir à análise do conteúdo musical, a crítica chama para si, mais do que nunca, a responsabilidade de garantir que a música com que lida não se cinja a um conjunto de sons, mas antes a um conjunto de sons reproduzidos por determinados músicos com intenções específicas, carácter específico e vivências muito particulares. O que só por si não será um resultado inesperado de uma sociedade observadora como a nossa, mas que na verdade até conduz a uma aproximação crescente e constante dos artistas que descobrimos e ouvimos na rádio ou na internet. E aqui reside o aspecto ainda mais pessoal do conceito de autenticidade. Quando a noção de estrela de rock caiu por terra algures nos últimos 20 ou 30 anos e passou a ser apenas conferida a algumas figuras acima de qualquer discussão, passou a recair o ónus no músico para ser autêntico e genuíno também ao nível do cada vez mais frequente contacto com a sua fanbase. No meio disto tudo, esta é mais uma área em que a indústria discográfica acaba por fazer o papel de intermediário e até de empecilho.

Harvest Breed.

30
Set
09

Pukkelpop 2009 @ Hasselt/Kiewit, Bélgica (Dia 3)

Telepathe @ Chateau, 11:55-12:35

Parecendo que não, dois dias de festival de manhã à noite deixam marcas e custam a levantar da cama no terceiro dia. Da mesma ressaca padecia o duo nova-iorquino Telepathe, que batalhou com dificuldades técnicas, passando por graves que literalmente abanavam a tenda, até uma actuação de pára-arranca. Ainda assim, com material do seu disco de estreia, a banda lutou como pôde com o horário que lhe saiu na rifa.

Nota: 7

The Temper Trap @ Marquee, 12:35-13:15

A toada morna continuou com os neozelandeses The Temper Trap, com a agravante desta banda ser incrivelmente desinteressante. Apostando em sonoridades testadas e gastas ao estilo de uns Keane ou uns Coldplay, a sua abordagem inofensiva nunca deu para fazer aquecer os motores.

Nota: 6

Noisia @ Boiler Room, 13:00-14:30

A segunda passagem do fim de semana pelo massivo Boiler Room fez-se ao som dos ilustres do drum ‘n bass, os holandeses Noisia. Embora ser o primeiro a reconhecer o meu primitivo conhecimento do género, é um facto que o conjunto atraiu uma multidão bem apreciável para uma hora ainda difícil, enquanto o Boiler Room produzia graves que se ouviam no outro lado do recinto.

Nota: 7.5

Micachu & The Shapes @ Club, 14:00-14:40

Mica Levi e os seus The Shapes são talvez o epítome do lo-fi. Quase ao ponto de parecer tudo improvisado, até como resultado da postura descontraída do trio em palco, a banda consegue manter os procedimentos melódicos e interessantes. Abrindo com Curly Teeth e conseguindo apreciáveis respostas do público presente em faixas como Lips, ainda assim o set soou a curto.

Nota: 8

Hudson Mohawke @ Chateau, 14:40-15:20

O jovem precoce escocês Hudson Mohawke é uma das últimas apostas da mítica Warp para capitalizar no relativo sucesso de Flying Lotus, mas não sejamos redutores: o miúdo sabe o que faz. A sua música é propulsiva e dançável e o seu espectáculo visual é bastante atractivo.

Nota: 8

Deerhunter @ Marquee, 15:25-16:10

Depois do inspirado e extremamente pessoal concerto no Lux em Junho, não é de surpreender que os Deerhunter optem por uma abordagem muito mais industrial nos fesivais de verão. E isso faz com que toquem mais música, entrando desta feita mesmo em diversas faixas de quase todos os seus lançamentos. O resultado é enfeitiçante, mas não pareceu impressionar os miúdos ingleses de 13 anos que esperavam o concerto dos Enter Shikari que se seguia.

Nota: 9.5

Rolo Tomassi @ The Shelter, 16:10-16:55

Sem dúvida dos espectáculos ao vivo mais bizarros que assisti, o concerto daquela tarde dos Rolo Tomassi acabou com um mosh pit absurdamente volumoso e com a banda a descer ao público. Misturando relâmpagos de hardcore com interlúdios jazz, a banda terá sido das que mais bom impacto causou ao público dos três dias.

Nota: 9.5

Dinosaur Jr. @ Main Stage, 17:40-18:30

Em mais nenhum lado se verá a estranheza que é a banda de J Mascis e Lou Barlow abrir para 50 Cent, mas pouco importou para os fidelíssimos fãs da banda que inundaram o Main Stage. Abrindo com um cover de The Cure e recaíndo sobretudo em material do seu novíssimo Farm, os Dinosaur Jr. comprovaram que ninguém pode morrer sem os ver ao vivo.

Nota: 9.5

Florence And The Machine @ Club, 18:35-19:25

Depois da mega-enchente de Bon Iver no primeiro dia, foi a vez de Florence And The Machine beneficiar de um banho de multidão, desta feita maioritariamente feminino, que até complicava a entrada na tenda. Ainda assim, visivelmente emocionada com a recepção, Florence berrou a plenos pulmões, ensaiou coreografias com o público e até aproveitou para fazer um cover de Fever Ray. Tudo sobre Florence é inflacionado, empolado e inchado, mas isso nem sempre é bom.

Nota: 7.5

Klaxons @ Marquee, 20:20-21:10

Complicações com o novo álbum e tudo, os Klaxons continuam a ser uma banda entusiasmante ao vivo, capitalizando não só no seu popular primeiro disco bem como no seu muito apreciável novo material. Embora sem o fulgor de Lisboa quando visitaram o festival Alive este ano, é indesmentível a força que números como Magick, Golden Skans ou Gravity’s Rainbow ainda têm.

Nota: 8

Ellen Allien @ Boiler Room, 21:00-23:00

Não sei bem se seria intenção da organização colocar a rainha da BPitch Control, Ellen Allien, neste horário a entrar na recta final do festival, mas provocou uma interessante mudança de tom no Boiler Room. Allien renega o genérico e o banal para fazer um set pleno das complicações agradáveis que compoem a sua música.

Nota: 8

Tortoise @ Club, 22:15-23:15

É impossível ver os Tortoise ao vivo e não ficar intimidado com o seu nível de capacidade e execução técnica, onde cada membro muda de instrumento e a banda prossegue mostrando a sua destreza no seu elemento característico atmosférico ou mesmo nas suas digressões pelo jazz. Com material maioritariamente de Beacons Of Ancestorship, a banda mostra-se intemporal, mas nem sempre consistente.

Nota: 8.5

Arctic Monkeys @ Main Stage, 23:20-00:35

E então, coube assim aos mega-populares Arctic Monkeys o fecho do Pukkelpop 2009. Tocando para um público maioritariamente expectante de material dos seus primeiros dois registos, a banda transpôs a sua nova direcção musical para tudo o que faz, desde a atitude em palco, até aos elementos visuais que procura conjugar ao vivo, passando até pelos cortes de cabelo. Acabou por não ser grande surpresa que o quarteto de Sheffield acabou por povoar o set de material do novo Humbug, começando pela dupla entrada da stoner My Propeller e do cover de Nick Cave, Red Right Hand. A verdade é que, de qualquer maneira que queiramos ver as coisas, os Arctic Monkeys fazem uma óptima banda ao vivo, e nesse aspecto Humbug é uma feliz adição ao seu inspirado catálogo. Ainda assim, enquanto fãs da velha guarda suspirarão pela omissão de When The Sun Goes Down ou A Certain Romance do set, outros apreciarão a emoção extrovertida de Secret Door e a enfeitiçada beleza simples de Cornerstone, não esquecendo óbvios favoritos como Brianstorm ou Fluorescent Adolescent.

Nota: 9

Harvest Breed.