30 – Balam Acab – Wander/Wonder
Alec Koone é um jovem americano de apenas 20 anos. Talvez o caso do seu projecto musical Balam Acab seja ilustrativo dos panorama musical actual. Depois de um EP muito badalado em 2010, voltou em 2011 com um disco que pouco tinha a ver com o dubstep e o witch house com que tinha sido comparado um ano antes. Wander/Wonder é um disco discreto, frio e constante, e, apesar de ser infrutífero catalogá-lo, consegue ser definitivamente uma prova de maturidade de alguém tão novo aos controlos.
29 – The Necks – Mindset
Os The Necks já cá andam há tanto tempo que podemos com confiança dizer que não será este Mindset que definirá a sua herança. Provavelmente não olharão para 2011 como o seu grande ano e o seu disco de antologia, mas, como objecto de estudo, este é um álbum de tensões. A maior e mais importante delas é sem dúvida a da sua primeira faixa, Rum Jungle: um denso e desorientante evocar a imagens fortes, que a faixa seguinte, Daylights, faz questão de contradizer.
28 – Portable – Into Infinity
A voz colocada, quase John Mausiana, de Alan Abrahams, é talvez a estrela principal daquele que acaba por ser o seu melhor disco até à data. Quer seja como Portable ou como Bodycode, Abrahams parece ter aperfeiçoado e valorizado o medium do álbum. Into Infinity é um disco completo e variado, com uma estrutura e um propósito próprios, no qual ainda sobra espaço para brilharem números como a gélida Find Me.
27 – Mikal Cronin – Mikal Cronin
Descendente directo da longa família do punk com elementos de um pouco de tudo, na qual nomes como Thee Oh Sees, The Intelligence ou Ty Segall se têm conseguido destacar, Mikal Cronin tem no seu disco de estreia uma fórmula gasta, mas executada com mestria. Uma espécie de sidekick de Segall durante uma boa parte da sua carreira, Cronin surge nisto tudo já com padrinho. Mas é injusto ver o seu disco homónimo desse prisma. Consegue ser grande para lá de qualquer senão.
26 – Jehst – The Dragon Of An Ordinary Family
É difícil encontrar hip hop com um feel tão tradicionalista quanto este hoje em dia. Mas é isso mesmo que representa o inglês Jehst: hip hop à antiga, quase de combate. Os arranjos são mínimos, os samples são evocativos de um passado distante mas presente e o enfoque no rap é total. Com tudo isto, poder-se-iam esperar as habituais comparações com Wu-Tang Clan ou Madvillian. Mas isso não me parece propriamente algo mau.
25 – Pinch & Shackleton – Pinch & Shackleton
Dream Teams raramente funcionam. A música pop tem inúmeros exemplos disso mesmo. Por isso, é apenas natural que se desconfie de uma equipa formada por dois dos grandes inovadores de música electrónica da última década. Creditados com o aparecimento e formação do dubstep quando este ainda não significava o que significa hoje, Pinch e Shackleton já não são propriamente novos nestas andanças. E talvez seja mesmo a capacidade de cada um saber reconhecer o espaço que tem que ocupar quando trabalham juntos que fez do seu disco homónimo um inesperado, mas em retrospectiva previsível sucesso.
24 – Ty Segall – Goodbye Bread
Claro que Ty Segall lançou um disco este ano. Mas desta feita é diferente. Goodbye Bread não é mais uma adição ao cânone de pop-punk melódico que Ty tem desenvolvido. E provavelmente essa é uma boa decisão. Seria difícil seguir o impressionante marco que foi Melted. E isso nota-se logo no tema-título que abre o álbum de forma peculiar, leve e desgarrada. Goodbye Bread está recheado de músicas com estruturas bizarras para o punk. E mesmo sem refrões, é de notar que qualquer disco que Segall lance consiga ser interessante.
23 – Kuedo – Severant
Severant não é um disco tremendamente original. Não inspirou os avisos de revolução que outros álbuns como Glass Swords de Rustie, por exemplo, inspiraram. Mas, ao não reinventar a roda, Jamie Teasdale pega no já saturado género retro-futurista que muita quilometragem tem em cima nos últimos dois anos e confere-lhe um sentido pragmático. Com faixas que projectam tantas imagens como carregam um ritmo e um propósito muito característicos, Severant consegue inovar, não inovando.
22 – Atlas Sound – Parallax
Parallax representou, sem margem para dúvidas, uma espécie de mini-comeback de Bradford Cox este ano. E fê-lo às costas de duas das suas maiores inspirações dos últimos cinco anos: o estilo desgrenhado e multiforme de Neil Young e o pop com tons ligeiramente, mas marcadamente, electrónicos dos Stereolab. Acabando por ser um exercício de quase tributo aos seus próprios heróis musicais, o impressionante é que Cox consiga transmitir uma genuinidade e um feeling marcado nas suas composições. Faixas como Te Amo ou Terra Incognita são o perfeito exemplo disso mesmo.
21 – Twerps – Twerps
Pela forma soporífera e despreocupada que marca muita da performance vocal destes australianos Twerps, é pouco claro se estavam a espera que a sua música soasse tão ordenada e estruturada como soa. Este seu primeiro disco homónimo acaba por ser uma aula de como fazer pop de guitarra casar melodicamente com uma estética descansada e imperturbável. A peça central, Who Are You, é um case study só por si: letras como “we’ll get drunk, we’ll get stoned, we’ll get high” conseguem ter um pano de fundo um trabalho instrumental executado na perfeição. Pois, é mesmo regra.
20 – Sean McCann – The Capital
Realmente, Sean McCann é prolífico. Só este ano foram seis discos. Com toda esta produção, é inevitável não pensar que isto tudo não diminua um pouco o valor artístico de cada uma das suas criações. Afinal, se se conseguem fazer sete por ano, não serão todas propriamente material de antologia. A lógica faz sentido, este The Capital nem por isso. Tremendamente absorvente e avassalador, é o disco que se impõe para quem não conseguir ouvir tudo o que McCann fez este ano.
19 – Jonathan Wilson – Gentle Spirit
De todos os álbuns lançados este ano, poucos serão tão voluntariosos quanto Gentle Spirit de Jonathan Wilson. O seu folk intenso entra várias vezes no campo improvisacional com resultados variados e, por vezes, alongando-se em demasia. Mas a sua intenção está claramente no lugar certo. E é ela que mais se faz impor quando ouvimos este disco. Não se lhe peça concisão, mas peça-se-lhe coração.
18 – Patten – GLAQJO XAACSSO
Sendo tão complicado descobrir um fio condutor na música deste misterioso Patten e o seu impronunciável segundo disco, é igualmente difícil caracterizá-lo. Já para não falar na inevitável catalogação. E tentaram-se vários rótulos. Hip-hop instrumental, agora muito em voga, não se lhe adequa. Experimental evoca música que não é bem a sua. Abstracta não será. Techno também não. Uma coisa é certa: Patten, tal como o seu segundo disco, são e serão resistentes.
17 – Bill Callahan – Apocalypse
Não haja dúvida que Bill Callahan escolheu uma forma peculiar de seguir aquele que ainda consta na sua discografia como o disco mais acessível e user-friendly do seu cânone. Apocalypse é um bicho estranho. Não segue o seu trabalho anterior, enquanto Smog, mas também não se pode dizer que tenha uma estética similar a Sometimes I Wish We Were An Eagle. E enquanto alguma da sua música tem o seu quê de familiar, é em Apocalypse que podemos apreciar a imprevisibilidade e a versatilidade de Callahan.
16 – Surgeon – Breaking The Frame
Poucos discos terão passado tão debaixo do radar quanto este poderosíssimo exercício de homenagem techno do inglês Surgeon, nascido Anthony Child. O seu estilo vagamente, mas definitivamente Detroitiano apenas consegue ser característico pelo trabalho que transpira de cada uma das suas faixas. Tudo neste Breaking The Frame é cuidadosamente planeado até ao mais ínfimo detalhe. O resultado soa a obra-prima de uma carreira. Pelo menos para já.
15 – Grouper – A I A
Quando Liz Harris anunciou, no princípio de 2011, que lançaria um duplo-álbum na Primavera, a expectativa era a de que aí viria um magnum opus. Uma espécie de tour de force que capturasse tudo o que o nom de guerre Grouper significava. As reacções foram mornas. AIA não é propriamente nada disto: não tem as ligações melódicas de Dragging a Dead Deer Up a Hill nem as idiossincrasias distintas dos trabalhos que o antecederam. Mas não deve ser malogrado por isso. Não quando Dream Loss e Alien Observer conseguem criar uma complementaridade e evocar uma imagem comum pelo menos tão forte quanto qualquer outro trabalho seu.
14 – Kendrick Lamar – Section 80
Por falar em old school. Section 80, o primeiro álbum propriamente dito do californiano Kendrick Lamar, representa uma nova forma de fundir sensibilidades sónicas de uma nova forma de pensar as batidas e a ligação pop do hip hop, muito ligada a alguns artistas de hip hop instrumental que têm pontificado no último par de anos com as preocupações sociais e políticas do rap dos anos 80 e 90. Com uma contrucção de um ambiente à volta da fogueira, Fuck Your Ethnicity estabelece esse mesmo paradigma, enquanto que a memorável Hiiipower coloca um ponto de exclamação no seu fim.
13 – Thee Oh Sees – Carrion Crawler/The Dream
Com a adição do carismático frontman dos The Intelligence, Lars Finberg, ao comando da bateria, é inegável que a sonoridade desafectada e propulsiva dos Thee Oh Sees ganha toda uma nova dimensão. Mais do que em qualquer outro aspecto, são até os interlúdios instrumentais, não muito comuns no catálogo da banda, que fazem questão de sublinhar a validade dessa aquisição. Carrion Crawler/The Dream, com o inesgotável músculo que demonstra, é talvez a obra prima que o punk lo-fi da última meia-década estava à espera há já muito tempo. E é cortesia, porventura sem surpresa, dos Thee Oh Sees.
12 – Pete Swanson – Man With Potential
De todos os discos que surgem neste rol, este Man With Potential, de Pete Swanson dos infelizmente defuntos Yellow Swans, que talvez tenha tido a reacção mais peculiar. Apesar de não ter sido alvo de muita atenção, a que teve veio com a afirmação de que aqui se desenvolvia uma nova forma de fazer noise, uma forma que combinava sensibilidades do techno progressivo com as já esperadas afectações intensas que tínhamos ouvido na obra dos Yellow Swans. Com tanto material a ser lançado neste género, talvez mais que qualquer outro, é raro, de facto, ouvir algo a soar tão fresco quanto Man With Potential.
11 – Steffi – Yours & Mine
Preciso e calculado, este Yours and Mine, da alemã Steffi é o álbum absolutamente essencial de house do ano. Não é um disco para quem queira ouvir variações ao modelo ou experimentações bem sucedidas com novas formas de fazer música, é um disco para completistas, um compêndio de bem fazer o estilo, um verdadeiro manual de instrucções para o universo do house profundo. Talvez por isso, muito do que daqui consta são produções herméticas, fechadas e sem arranjos complicados. Pode perder em complicação, mas Yours and Mine tenta, com o inevitável mas glorioso falhanço, atingir a perfeição da forma, e por isso deve ser celebrado.
10 – Oneohtrix Point Never – Replica
Com a sua interminável busca de sons perdidos no tempo para os encaixar nas composições experimentais de Oneohtrix Point Never, no pop distorcido dos seus mashups de Youtube ou até no electro retro de Ford & Lopatin, Daniel Lopatin foi ganhando fama de reformulador por excelência. Por entre acusações de falta de originalidade, se algo que Lopatin sempre tem prezado é a variação. Replica, talvez por isso, soa, mais que nunca, ao melhor de Lopatin, mais consistente que Rifts e menos abrasivo que Returnal.
9 – Legowelt – The Teac Life
A peculiar foto de Danny Wolfers, o holandês por detrás da marca Legowelt, que adorna a capa do seu terceiro álbum apenas neste ano parece querer dizer-nos algo sobre a abordagem clássica mas idiossincrática de The Teac Life. Descrito pelo próprio como “deep tape saturated forest-techno”, The Teac Life é um disco complexo e compreensivo, de batidas incessantes e incursões várias pelos caminhos do techno à moda de Detroit. Num ano em que os lendários Drexciya voltaram às edições, ainda que re-edições, The Teac Life é um bom lembrete das razões que nos levaram a apaixonar por aquela sonoridade.
8 – Wild Beasts – Smother
Foi particularmente complicado admitir que este Smother simplesmente não é o que foi Two Dancers. O segundo dos ingleses Wild Beasts foi um verdadeiro wake up call que poucos estariam à espera, especialmente vindo de uma banda com um historial relativamente colorido. Mas quanto mais cedo se instala essa realização da diferença entre os dois, mais facilmente podemos apreciar Smother: um disco de trato relativamente gentil, sem as guitarras a assumirem um papel tão central, mas seguindo uma linha lógica e coerente, talvez ainda mais do que Two Dancers.
7 – Royal Headache – Royal Headache
Antes de escrever este pequeno texto sobre o disco de estreia dos australianos Royal Headache, passou-me muitas vezes pela cabeça aquilo que os malogrados The Exploding Hearts representaram para o punk moderno. Depois pensei que não seria nem prudente nem justo associar as duas bandas. E não é. Royal Headache é um disco que vale por si: uma performance vocal fortíssima, incomum no meio, associada a uma sonoridade com uma aptidão melódica praticamente inata. Não deixa de ser impossível não pensar que algures um quarteto de rapazes de Portland não regatearia um aceno de aprovação a temas como Never Again ou Distant and Vague.
6 – Sandro Perri – Impossible Spaces
Sandro Perri sempre fez música de fato e gravata. Polida e distinta, própria para festas de cocktail e fraque. Tanto quando editava enquanto Polmo Polpo, como quanto agora a nome próprio. Impossible Spaces consegue, ainda assim, ter um distinto feel a jam session que não deve ser fácil de conferir a música com esta abertura e a já mencionada distinção. Mas acaba por ser precisamente essa ideia de jam session polida e trabalhada que atrai neste disco, as melodias que se parecem arrancar quase a ferros em temas como Changes ou How Will I?.
5 – Lee Noble – No Becoming
Apesar de não faltaram por esse mundo fora bandas a fazer música alegre e solarenta, 2011 parece ter sido o ano ideal para amantes de sonoridades pessimistas e depressivas. James Kirby, The Caretaker, lançou o que pareceu ter sido uma torrente de música claustrofóbica e sombria, mas nenhum outro disco do ano que passou teve a envolvência e o puro impacto que este No Becoming de Lee Noble na Sweat Lodge Guru, nem mesmo os dois outros lançamentos de Noble em 2011. E talvez o mais impressionante seja mesmo a forma como Noble consegue fazer casar elementos verdadeiramente orgânicos som todos os outros sons que não parecem ter proveniência certa.
4 – Reel By Real – Surkit Chamber: The Melding
Não é particularmente claro o que faz uma lenda do Detroit Techno como Martin Bonds aparecer praticamente sem aviso quase vinte anos depois dos seus lançamentos chave. E não é que o seu regresso tenha sido recebido com grande pompa e circunstância, mas não faltou quem agradecesse. Surkit Chamber: The Melding é um registo que não parece ter perdido nem a vivacidade nem o sentido de urgência de uma sonoridade que marcou uma era nos anos 90, e também por isso não estranharia que tivesse sido produzido por alguém mais jovem e publicitável hoje em dia. Mas não foi. Foi Martin Bonds, e em boa hora.
3 – Real Estate – Days
Era inevitável. De facto, é impossível não pensar que cada vez mais, e à medida que o tempo se vai encarregando de familiarizar o vocalista Martin Courtenay com o homem de todos os ofícios Matt Mondanile, a música dos Real Estate se vai tornando mais automática, quase como que uma produção em série. O que, pelo menos em teoria, não devia ser nada bom. O que ainda torna mais complicado explicar porque é que este Days nada fica a dever àquele que foi um dos mais notáveis álbuns de estreia da última década em Real Estate. O que esse disco ganhava em novidade e na surpresa do primeiro impacto, Days parece compensar com consistência e um verdadeiro sentido de objectivo.
2 – Andy Stott – Passed Me By/We Stay Together
Pode não parecer à primeira audição, mas este combo de EPs do inglês Andy Stott foi um dos álbuns mais controversos do ano. O seu único álbum , Merciless de 2006, foi um exercício em frieza e fidelidade à forma do techno e do ambient, pelo que poucos estariam preparados para o emaranhado de sons que faz de Passed Me By e de We Stay Together um affaire de dubstep negro com vozes e batidas intermitentes. As acusações de cedência ao popular até se poderão adaptar, mas quando o trabalho e a minúcia são tão evidentes, é díficil preocuparmo-nos com modas.
1 – Machinedrum – Room(s)
Machinedrum, aka Travis Stewart, tem este aspecto. Só tirar isso do caminho logo à partida. Já com mais de uma década de actividade sob vários pseudónimos, Stewart passou toda uma carreira a tentar fazer o cruzamento entre sonoridades caracteristicamente urbanas como o hip hop e as mais declaradamente cerebrais como o techno, o glitch e até a música palpitante e experimental de Aphex Twin, LFO ou o primeiro material de Autechre. E apesar do seu demeanor menos gangsta do que muitos dos representantes da última vaga de hip hop instrumental e experimental, é inegável que este Room(s) representa a sua obra prima: um trabalho complexo, com um apelo crossover característico, de electrónica vibrante, actual e relevante.
Harvest Breed.



Contando como um terço dos pioneiros do noise krautrockiano e da experimentação electrónica Emeralds, Mark McGuire é o virtuoso guitarrista, ainda que não no sentido lato da palavra, que transmite algum sentido orgânico ao projecto. A solo, essa condição é demonstrada com uma sonoridade mais natural e menos penetrante que a da sua banda. Este Tidings/Amethyst Waves é apenas um dos discos que lançou este ano, mas será porventura o mais forte, capaz de momentos tão cabais como os que a sua banda produz, mas também de transições suaves e subtis.
How I Got Over pode até nem ser o disco de hip hop mais espalhafatoso do ano, ou o mais ambicioso, ou até o mais surpreendente. Mas é sem dúvida o mais consistente. De um conjunto já viajado e experimentado, e que agora se vê a servir de banda residente no programa de Jimmy Fallon, espera-se sempre precisamente consistência. É isso que têm mostrado toda a sua carreira. Não se pode dizer que How I Got Over tenha algum single gigantesco, ainda que Radio Daze e Right On cheguem lá perto, mas é precisamente esse o seu maior ponto forte.
Depois de assinar, em 2008, pela label de James Holden, a Border Community, o produtor oriundo de Norwich Luke Abbott apenas este ano editou o seu disco de estreia. Jogando com diferentes tipos de sons sintetizados, Abbott consegue criar em Holkham Drones uma espécie de krautrock com cheiro a dancehall. Não é raro ouvir, neste disco, algo tão distinto como a repetição kosmische em união com algo mais diferente e fora do padrão comum do som normalmente associado a este tipo de música electrónica.
Talvez não haja álbum mais denso lançado este ano que este Where Does Your Mind Go?. O produtor Justin Wright, em conjunção com Matt Hill, leva o ouvinte por uma viagem muito bem acompanhada à arte do minimal. Tudo é pensado e tudo soa original e ambicioso, apesar do disco ter sido gravado em apenas uma noite. Ainda assim, é possível detectar influências que nunca se apresentam suficientemente derivativas ao ponto de prejudicarem o curso da experiência, preenchendo sempre espaços vazios com algo fora do normal.
Já por aqui tínhamos falado antes honestidade retro de Paul Cary e é com previsibilidade que o vemos entrar nesta lista. Injustamente ignorado um pouco por todo o lado, Ghost Of A Man ilustra os altos e baixos de ser um músico rock no século XXI, falando de amores e desamores por entre guitarras pouco comuns, mas imensamente trabalhadas, e arranjos à antiga, conforme mandam as regras. Uma espécie de álbum conceptual retratando um western moderno sobre o homem moderno.
Num ano em que se assistiu à coroação de Pantha Du Prince com um óptimo disco, sob a forma de Black Noise, têm passado debaixo do radar álbuns como este: do talentoso, e já reconhecido pelas suas remisturas, produtor de Cleveland John Roberts, este Glass Eights é talvez o trabalho mais coeso em electrónica este ano que honra o formato do LP. Roberts demonstra uma facilidade estonteante para criar drama, com batidas pulsantes, e para fazer algo dançável sob uma só bandeira. Glass Eights é um trabalho completo.
É complicado colocar os Menomena, e em particular este seu último disco, numa qualquer caixa do rock alternativo geral. A banda desafia classificação mesmo na sua essência. E Mines espelha isso na perfeição. Recusando a quietude, vai saltando de música em música, de disposição em disposição, sempre da forma que achar que melhor se adequa à sua própria criatividade. Porque essa, já o sabíamos mesmo antes de Mines, para os Menomena não tem limites. Sem um single porta-estandarte acaba por passar debaixo do radar, mas provavelmente foi assim que a banda o quis.
Há pouco a dizer da consistência quase mecânica desta banda. Mas à medida que o tempo vai passando, e sem que ninguém tenha clamado por isso, a verdade é que os The Walkmen vão mudando. Em Lisbon, voltaram os singles enérgicos (Angela Surf City), mantiveram-se os números de grandiosidade orquestral (Stranded, Torch Song) e encurtou-se o tempo de duração. Talvez por isso, o primeiro disco que Lisbon evoca é Bows + Arrows. E isso só pode ser boa coisa. É provável que outras cidades portuguesas se sigam.
Personificando o epíteto de one-man-band na perfeição, Ty Segall é o músico que faz tudo. Mesmo que a sua música não envolva assim tanto ao mesmo tempo. Segall sabe como deixar a marca da sonoridade de Detroit, o punk áspero e eufórico envolto em músicas simples e que ficam na cabeça por muito tempo. Seja em My Sunshine, no single Caesar ou em Imaginary Person, Melted é um álbum curto, que vai directo ao assunto e que não tenta fazer perder tempo a ninguém. Para quem gosta do seu punk viciante.
A saturação sónica do shoegaze faz com que, por natureza, seja um meio no qual é complicado introduzir o elemento da novidade, mas também um em que a produção assume lugar vital. The Waves, disco de estreia do duo sediado em São Francisco Tamaryn, faz isso mesmo. E esse elemento de novidade acaba por ser introduzido quase imperceptivelmente, precisamente por pequenos toques de produção aqui e ali: a abertura de Sandstone, o falso refrão de Love Fade, o tom optimista de Dawning.
Construir uma carreira à volta de tentativas de recriação da sonoridade das distintas pocket symphonies de Brian Wilson não é a pior coisa no mundo. A pior coisa no mundo é fazê-lo mal. Aceitando o fim dos Sound Team depois de uma crítica da Pitchfork, Bill Baird tem passado o seu tempo desde então a formar uma etiqueta e a introduzir um toque de confusão à precisão suíça das composições dos Beach Boys. Desta feita, em Loveshines But The Moon Is Shining Too consegue fazê-lo na plenitude, criando um disco de uma simples beleza assinalável.
É de assinalar a vontade cada vez maior que Kristian Matsson tem de sair da enorme sombra que Bob Dylan faz sobre o seu trabalho. A questão não é tanto daquilo que faz musicalmente quanto é da sua forma vocal característica. No fundo, The Wild Hunt é a prova de que é possível soar distintamente a algo sem soar cansado ou até deixar de soar a novo e original. Talvez a sua melhor característica seja ainda a facilidade que tem para produzir composições clássicas e torná-las relevantes e compenetrantes. E isso viu-se especialmente no seu EP seguinte, Sometimes The Blues Is Just a Passing Bird.
Talvez por ser lançado pela própria banda, Atlantis Massif é um álbum de um risco supremo. Tudo nele está envolto numa confiança inabalável. Nem podia ser doutra forma para uma banda que faz do funk alternativo, aparentemente já pertencente ao passado indie, enterrado na mesma campa com bandas como os The Rapture ou os !!!, o seu cartão de visita. Este é um disco que usa as suas influências de forma mais fiel e ousada do que nunca, dentro do estilo, uma excelente resposta a Bay Of Biscay, de 2005.
O produtor techno germânico Rene Pawlowitz demora alegadamente pouquíssimo tempo a trabalhar nos seus discos. A sua abordagem é orgânica e quase naturalista, não fosse mesmo o facto de fazer música techno. Pawlowitz, ou Shed, tem em The Traveller um segundo disco triunfal que deve tanto às suas batidas quanto às ambiências que vai criando à sua volta. Não só as transições são feitas sem que o ouvinte se dê por isso, como o produto final resulta numa impressionante vitória do formato álbum.
Há a distinta sensação no ethos actual que uma banda destas precisa de fazer algo mais para provar a sua valia. A era dos revivalismos de pós-punk parece ter-nos abandonado de vez e, agora, cada banda vê-se na condição de ter de justificar a sua visibilidade. Os Pomegranates fazem-no apostando num disco que tem tanto do tradicional histriónico pós-punk como de oportunos momentos introspectivos e ambientais que não só são essenciais para introduzir cada música como são grandes momentos só por si neste One Of Us.
Vejo-me sempre mais atraído por casos de regularidade do que por fenómenos de supernova. Os californianos The Fresh & Onlys já têm mostrado ser dos valores mais seguros no rock de garagem do momento, e em Play It Strange têm provavelmente aquela que será considerada a sua obra prima. Não que faça algo de tremendamente inovador, nem o estilo se compadece a isso, mas arranja maneira de atingir todas as necessidades dos amantes do género. E nem precisa de muito tempo para apaixonar o ouvinte: só os primeiros dez minutos do disco chegam.
Apesar de ser apenas metade do duo que compõe oficialmente a ‘marca’ Digital Mystikz, Mark Lawrence, ou Mala, é a semi-lenda que apresenta sozinho este Return II Space. Álbum ou EP, EP ou álbum, este é um registo de uma força e de um significado marcantes. Talvez o próprio Mala tente fugir conscientemente à pressão de apelidar este de ‘o seu primeiro álbum’, mas o dubstepper acaba por tocar um pouco em tudo neste Return II Space: batidas pesadas, produção detalhada, uma espécie de tema cósmico subjacente a todo o disco. E um grande tema-título.
Não é difícil de perceber porque é que Big Boi, Antwan Andre Patton, demorou tanto para congeminar este seu primeiro disco a solo. É que Sir Lucious Left Foot… é acima de tudo um triunfo de uma superprodução, capaz de produzir autênticas viagens de montanha russa, como em Daddy Fat Sax ou You Ain’t No DJ, como singles de impacto imediato, no caso Shutterbug ou Follow Us, mas também números de soul perdidos pelo tempo, sob a forma de Turns Me On ou de Be Still. Sir Lucious Left Foot… é bem capaz de ficar motivar falatório durante uns bons anos.
Oriundo de dois autênticos viveiros de talento, o ambiente musical de Portland no Oregon e a histórica label Kranky, Thomas Meluch é Benoît Pioulard, que por seu turno é um especialista em encontrar melodia e harmonias vocais ou texturais por entre camadas de drones e fuzzes. Já lá vão quatro anos desde que Précis demonstrava o que Pioulard poderia vir a ser se focalizasse a sua sonoridade, e Lasted é, arrisco, o corolário disso mesmo. Digo arrisco, porque com Pioulard é mesmo uma aposta: é que já são quatro anos sempre a melhorar.
O triunvirato que compõe o conjunto apelidado de Denseland acaba por ser uma espécie de resposta Vienense à mecanização matemática dos Battles: David Moss é o estilista vocal, garantindo um ar de peculiar desconforto ao som da banda, e Hannes Strobl e Hanno Leichtmann pintam a paisagem sónica à sua volta. Só que não é assim tão simples. Chunk é um trabalho intenso, envolvente e quase herético na forma com que tenta entrar na cabeça do ouvinte. Uma coisa é certa: a recompensa pelo assalto aos sentidos é um disco verdadeiramente desconcertante.
Em Março deste ano, Dylan Ettinger editava em cassete New Age Outlaws, a que apelidava de ‘Blade Runner blues’, uma banda sonora a um filme futurista de há décadas atrás. Pouco depois, voltava ao estúdio para refazer o trabalho, apenas para mais tarde reeditá-lo em disco sob a designação de Director’s Cut. A realidade construída por Ettinger em New Age Outlaws é não só eminentemente cinemática como com um pé plantado bem firme no passado. A sua força reside nas suas recriações de (ir)realidades nunca criadas, com arranjos a combinar e especial destaque para o saxofone de Clarke Joyner.
Com o que é que lida Before Today? Talvez por ser quase uma colecção de composições anteriores da peculiar imaginação de Ariel Pink, este não é propriamente um disco que se define numa temática recorrente. Sim, Before Today tem toda a produção de nomeada que os discos anteriores de Ariel Pink não tinham e olhar só para aí pode ajudar a explicar a sua popularidade. O que nunca capta atenções é a qualidade musical da sua banda, os Haunted Graffiti, que aqui dão um passo firmemente em frente e assumem-se como um verdadeiro ás na manga de Ariel, vide apenas números como Round And Round, Revolution’s A Lie ou a humorada Butt-House Blondies.
Há poucas dúvidas da influência e importância da música de Burial em outros artistas, e talvez seja injusto referi-lo no que diz respeito ao produtor lituano Jokubas Dargis, mas apenas serve de sublinhado ao enorme talento do músico que dá corpo a Eleven Tigers. Clouds Are Mountains é um trabalho de enorme confiança e que demonstra grande cultura musical para alguém tão novo e, ainda que sediado em Londres, da Lituânia. O dubstep de Dargis é complexo e grandioso, como poucos o conseguem fazer, mas são os seus arranjos que o fazem deliciosamente denso. No bom sentido, claro.
Darren Cunningham não vê batidas, vê conceitos. Actress é o seu projecto electrónico e em Splazsh, o seu segundo álbum, cada faixa produz uma imagem distinta e irradia uma aura diferente das outras. É por isso que Hubble, fazendo jus ao nome, abre o disco com quase nove minutos de ambiências espaciais e produções extraterrestres. Ou que a trepidante Maze nos transporta para Assault on Precinct 13 de John Carpenter. É esse conteúdo cinemático tão real e tão lúcido que eleva Splazsh para o estatuto de verdadeiro clássico do género.
Your Wicked Man, segundo álbum do folkie Donovan Quinn com a sua banda The 13th Month, vive enraizado numa sonolência profunda. Os motivos que evoca são muitas vezes confusos, a forma morosa com que os apresenta ao ouvinte vai-se alterando ao ritmo de um sonho e a voz de Quinn parece sempre estar a minutos de adormecer. Ainda assim, há algo de muito desperto a acontecer em Your Wicked Man. Os arranjos são muitas vezes variados e ocupam espaços pouco comuns dentro das músicas. Sejam os teclados em Mom’s House e em Street Fighting Girls ou o baixo de Red Corona, há muita imaginação aqui.
North é um disco gélido, bem ao jeito do seu título. Ainda assim, consegue ser porventura o registo mais pop que a sua editora, a badalada Hyperdub, já lançou. E não consta que haja grande embaraço da parte da etiqueta por isso. No seu fundo, North, o primeiro disco da dupla de produtores Aiden Whalley e James Young, para além de marcar a introdução de vozes, frequentemente intermitentes, na sua música, a cargo de James Buttery, é um óptimo exemplo de como fazer introduzir estruturas pop num elemento dubstep (mas nem por isso). Sem emoções. A frio.
Este foi um daqueles disco que cresceu e cresceu à medida que o ano foi avançando. Não porque mais pessoas o ouviram, mas antes porque as pessoas que o tinham voltaram atrás para o re-ouvir. Does It Look Like I’m Here? é um álbum épico por seu próprio direito, mais do que qualquer outro disco lançado este ano. Talvez mais do que qualquer outro lançado nos anos anteriores. É isso que faz com que não seja possível ouvir apenas parte deste álbum, ou ouvir apenas faixas fragmentadas. Does It Look Like I’m Here? requer toda a atenção do ouvinte durante toda a sua duração e, sim, é a obra prima dos Emeralds.
O ‘strain’ talvez tenha ficado demasiado público este ano para os Women. Os membros da banda canadiana envolveram-se numa luta corpo a corpo durante um concerto e tudo indica que não voltem a gravar ou sequer a tocarem juntos tão cedo. Mas talvez isso dê mais poder a este já poderosíssimo Public Strain. De novo produzido pelo ‘handyman’ Chad VanGaalen, o segundo disco dos Women cumpre a promessa do primeiro e muito mais. O ambiente é pesado, as vozes são distantes, as guitarras são abrasivas e colam-se ao ouvido de quem as ouve. Este é um disco que deve, compreensivelmente, ter sido difícil de gravar. Mas os melhores são sempre assim, não é verdade? E este é o melhor do ano.