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04
Abr
12

Os Melhores Álbuns de 2011

30 – Balam Acab – Wander/Wonder

Alec Koone é um jovem americano de apenas 20 anos. Talvez o caso do seu projecto musical Balam Acab seja ilustrativo dos panorama musical actual. Depois de um EP muito badalado em 2010, voltou em 2011 com um disco que pouco tinha a ver com o dubstep e o witch house com que tinha sido comparado um ano antes. Wander/Wonder é um disco discreto, frio e constante, e, apesar de ser infrutífero catalogá-lo, consegue ser definitivamente uma prova de maturidade de alguém tão novo aos controlos.

 

 

 

29 – The Necks – Mindset

Os The Necks já cá andam há tanto tempo que podemos com confiança dizer que não será este Mindset que definirá a sua herança. Provavelmente não olharão para 2011 como o seu grande ano e o seu disco de antologia, mas, como objecto de estudo, este é um álbum de tensões. A maior e mais importante delas é sem dúvida a da sua primeira faixa, Rum Jungle: um denso e desorientante evocar a imagens fortes, que a faixa seguinte, Daylights, faz questão de contradizer.

 

 

 

28 – Portable – Into Infinity

A voz colocada, quase John Mausiana, de Alan Abrahams, é talvez a estrela principal daquele que acaba por ser o seu melhor disco até à data. Quer seja como Portable ou como Bodycode, Abrahams parece ter aperfeiçoado e valorizado o medium do álbum. Into Infinity é um disco completo e variado, com uma estrutura e um propósito próprios, no qual ainda sobra espaço para brilharem números como a gélida Find Me.

 

 

 

27 – Mikal Cronin – Mikal Cronin

Descendente directo da longa família do punk com elementos de um pouco de tudo, na qual nomes como Thee Oh Sees, The Intelligence ou Ty Segall se têm conseguido destacar, Mikal Cronin tem no seu disco de estreia uma fórmula gasta, mas executada com mestria. Uma espécie de sidekick de Segall durante uma boa parte da sua carreira, Cronin surge nisto tudo já com padrinho. Mas é injusto ver o seu disco homónimo desse prisma. Consegue ser grande para lá de qualquer senão.

 

 

 

26 – Jehst – The Dragon Of An Ordinary Family

É difícil encontrar hip hop com um feel tão tradicionalista quanto este hoje em dia. Mas é isso mesmo que representa o inglês Jehst: hip hop à antiga, quase de combate. Os arranjos são mínimos, os samples são evocativos de um passado distante mas presente e o enfoque no rap é total. Com tudo isto, poder-se-iam esperar as habituais comparações com Wu-Tang Clan ou Madvillian. Mas isso não me parece propriamente algo mau.

 

 

 

25 – Pinch & Shackleton – Pinch & Shackleton

Dream Teams raramente funcionam. A música pop tem inúmeros exemplos disso mesmo. Por isso, é apenas natural que se desconfie de uma equipa formada por dois dos grandes inovadores de música electrónica da última década. Creditados com o aparecimento e formação do dubstep quando este ainda não significava o que significa hoje, Pinch e Shackleton já não são propriamente novos nestas andanças. E talvez seja mesmo a capacidade de cada um saber reconhecer o espaço que tem que ocupar quando trabalham juntos que fez do seu disco homónimo um inesperado, mas em retrospectiva previsível sucesso.

 

 

 

24 – Ty Segall – Goodbye Bread

Claro que Ty Segall lançou um disco este ano. Mas desta feita é diferente. Goodbye Bread não é mais uma adição ao cânone de pop-punk melódico que Ty tem desenvolvido. E provavelmente essa é uma boa decisão. Seria difícil seguir o impressionante marco que foi Melted. E isso nota-se logo no tema-título que abre o álbum de forma peculiar, leve e desgarrada. Goodbye Bread está recheado de músicas com estruturas bizarras para o punk. E mesmo sem refrões, é de notar que qualquer disco que Segall lance consiga ser interessante.

 

 

 

23 – Kuedo – Severant

Severant não é um disco tremendamente original. Não inspirou os avisos de revolução que outros álbuns como Glass Swords de Rustie, por exemplo, inspiraram. Mas, ao não reinventar a roda, Jamie Teasdale pega no já saturado género retro-futurista que muita quilometragem tem em cima nos últimos dois anos e confere-lhe um sentido pragmático. Com faixas que projectam tantas imagens como carregam um ritmo e um propósito muito característicos, Severant consegue inovar, não inovando.

 

 

 

22 – Atlas Sound – Parallax

Parallax representou, sem margem para dúvidas, uma espécie de mini-comeback de Bradford Cox este ano. E fê-lo às costas de duas das suas maiores inspirações dos últimos cinco anos: o estilo desgrenhado e multiforme de Neil Young e o pop com tons ligeiramente, mas marcadamente, electrónicos dos Stereolab. Acabando por ser um exercício de quase tributo aos seus próprios heróis musicais, o impressionante é que Cox consiga transmitir uma genuinidade e um feeling marcado nas suas composições. Faixas como Te Amo ou Terra Incognita são o perfeito exemplo disso mesmo.

 

 

 

21 – Twerps – Twerps

Pela forma soporífera e despreocupada que marca muita da performance vocal destes australianos Twerps, é pouco claro se estavam a espera que a sua música soasse tão ordenada e estruturada como soa. Este seu primeiro disco homónimo acaba por ser uma aula de como fazer pop de guitarra casar melodicamente com uma estética descansada e imperturbável. A peça central, Who Are You, é um case study só por si: letras como “we’ll get drunk, we’ll get stoned, we’ll get high” conseguem ter um pano de fundo um trabalho instrumental executado na perfeição. Pois, é mesmo regra.

 

 

 

20 – Sean McCann – The Capital

Realmente, Sean McCann é prolífico. Só este ano foram seis discos. Com toda esta produção, é inevitável não pensar que isto tudo não diminua um pouco o valor artístico de cada uma das suas criações. Afinal, se se conseguem fazer sete por ano, não serão todas propriamente material de antologia. A lógica faz sentido, este The Capital nem por isso. Tremendamente absorvente e avassalador, é o disco que se impõe para quem não conseguir ouvir tudo o que McCann fez este ano.

 

 

 

19 – Jonathan Wilson – Gentle Spirit

De todos os álbuns lançados este ano, poucos serão tão voluntariosos quanto Gentle Spirit de Jonathan Wilson. O seu folk intenso entra várias vezes no campo improvisacional com resultados variados e, por vezes, alongando-se em demasia. Mas a sua intenção está claramente no lugar certo. E é ela que mais se faz impor quando ouvimos este disco. Não se lhe peça concisão, mas peça-se-lhe coração.

 

 

 

18 – Patten – GLAQJO XAACSSO

Sendo tão complicado descobrir um fio condutor na música deste misterioso Patten e o seu impronunciável segundo disco, é igualmente difícil caracterizá-lo. Já para não falar na inevitável catalogação. E tentaram-se vários rótulos. Hip-hop instrumental, agora muito em voga, não se lhe adequa. Experimental evoca música que não é bem a sua. Abstracta não será. Techno também não. Uma coisa é certa: Patten, tal como o seu segundo disco, são e serão resistentes.

 

 

 

17 – Bill Callahan – Apocalypse

Não haja dúvida que Bill Callahan escolheu uma forma peculiar de seguir aquele que ainda consta na sua discografia como o disco mais acessível e user-friendly do seu cânone. Apocalypse é um bicho estranho. Não segue o seu trabalho anterior, enquanto Smog, mas também não se pode dizer que tenha uma estética similar a Sometimes I Wish We Were An Eagle. E enquanto alguma da sua música tem o seu quê de familiar, é em Apocalypse que podemos apreciar a imprevisibilidade e a versatilidade de Callahan.

 

 

 

16 – Surgeon – Breaking The Frame

Poucos discos terão passado tão debaixo do radar quanto este poderosíssimo exercício de homenagem techno do inglês Surgeon, nascido Anthony Child. O seu estilo vagamente, mas definitivamente Detroitiano apenas consegue ser característico pelo trabalho que transpira de cada uma das suas faixas. Tudo neste Breaking The Frame é cuidadosamente planeado até ao mais ínfimo detalhe. O resultado soa a obra-prima de uma carreira. Pelo menos para já.

 

 

 

15 – Grouper – A I A

Quando Liz Harris anunciou, no princípio de 2011, que lançaria um duplo-álbum na Primavera, a expectativa era a de que aí viria um magnum opus. Uma espécie de tour de force que capturasse tudo o que o nom de guerre Grouper significava. As reacções foram mornas. AIA não é propriamente nada disto: não tem as ligações melódicas de Dragging a Dead Deer Up a Hill nem as idiossincrasias distintas dos trabalhos que o antecederam. Mas não deve ser malogrado por isso. Não quando Dream Loss e Alien Observer conseguem criar uma complementaridade e evocar uma imagem comum pelo menos tão forte quanto qualquer outro trabalho seu.

 

 

 

14 – Kendrick Lamar – Section 80

Por falar em old school. Section 80, o primeiro álbum propriamente dito do californiano Kendrick Lamar, representa uma nova forma de fundir sensibilidades sónicas de uma nova forma de pensar as batidas e a ligação pop do hip hop, muito ligada a alguns artistas de hip hop instrumental que têm pontificado no último par de anos com as preocupações sociais e políticas do rap dos anos 80 e 90. Com uma contrucção de um ambiente à volta da fogueira, Fuck Your Ethnicity estabelece esse mesmo paradigma, enquanto que a memorável Hiiipower coloca um ponto de exclamação no seu fim.

 

 

 

13 – Thee Oh Sees – Carrion Crawler/The Dream

Com a adição do carismático frontman dos The Intelligence, Lars Finberg, ao comando da bateria, é inegável que a sonoridade desafectada e propulsiva dos Thee Oh Sees ganha toda uma nova dimensão. Mais do que em qualquer outro aspecto, são até os interlúdios instrumentais, não muito comuns no catálogo da banda, que fazem questão de sublinhar a validade dessa aquisição. Carrion Crawler/The Dream, com o inesgotável músculo que demonstra, é talvez a obra prima que o punk lo-fi da última meia-década estava à espera há já muito tempo. E é cortesia, porventura sem surpresa, dos Thee Oh Sees.

 

 

 

12 – Pete Swanson – Man With Potential

De todos os discos que surgem neste rol, este Man With Potential, de Pete Swanson dos infelizmente defuntos Yellow Swans, que talvez tenha tido a reacção mais peculiar. Apesar de não ter sido alvo de muita atenção, a que teve veio com a afirmação de que aqui se desenvolvia uma nova forma de fazer noise, uma forma que combinava sensibilidades do techno progressivo com as já esperadas afectações intensas que tínhamos ouvido na obra dos Yellow Swans. Com tanto material a ser lançado neste género, talvez mais que qualquer outro, é raro, de facto, ouvir algo a soar tão fresco quanto Man With Potential.

 

 

 

11 – Steffi – Yours & Mine

Preciso e calculado, este Yours and Mine, da alemã Steffi é o álbum absolutamente essencial de house do ano. Não é um disco para quem queira ouvir variações ao modelo ou experimentações bem sucedidas com novas formas de fazer música, é um disco para completistas, um compêndio de bem fazer o estilo, um verdadeiro manual de instrucções para o universo do house profundo. Talvez por isso, muito do que daqui consta são produções herméticas, fechadas e sem arranjos complicados. Pode perder em complicação, mas Yours and Mine tenta, com o inevitável mas glorioso falhanço, atingir a perfeição da forma, e por isso deve ser celebrado.

 

 

 

10 – Oneohtrix Point Never – Replica

Com a sua interminável busca de sons perdidos no tempo para os encaixar nas composições experimentais de Oneohtrix Point Never, no pop distorcido dos seus mashups de Youtube ou até no electro retro de Ford & Lopatin, Daniel Lopatin foi ganhando fama de reformulador por excelência. Por entre acusações de falta de originalidade, se algo que Lopatin sempre tem prezado é a variação. Replica, talvez por isso, soa, mais que nunca, ao melhor de Lopatin, mais consistente que Rifts e menos abrasivo que Returnal.

 

 

 

9 – Legowelt – The Teac Life

A peculiar foto de Danny Wolfers, o holandês por detrás da marca Legowelt, que adorna a capa do seu terceiro álbum apenas neste ano parece querer dizer-nos algo sobre a abordagem clássica mas idiossincrática de The Teac Life. Descrito pelo próprio como “deep tape saturated forest-techno”, The Teac Life é um disco complexo e compreensivo, de batidas incessantes e incursões várias pelos caminhos do techno à moda de Detroit. Num ano em que os lendários Drexciya voltaram às edições, ainda que re-edições, The Teac Life é um bom lembrete das razões que nos levaram a apaixonar por aquela sonoridade.

 

 

 

8 – Wild Beasts – Smother

Foi particularmente complicado admitir que este Smother simplesmente não é o que foi Two Dancers. O segundo dos ingleses Wild Beasts foi um verdadeiro wake up call que poucos estariam à espera, especialmente vindo de uma banda com um historial relativamente colorido. Mas quanto mais cedo se instala essa realização da diferença entre os dois, mais facilmente podemos apreciar Smother: um disco de trato relativamente gentil, sem as guitarras a assumirem um papel tão central, mas seguindo uma linha lógica e coerente, talvez ainda mais do que Two Dancers.

 

 

 

7 – Royal Headache – Royal Headache

Antes de escrever este pequeno texto sobre o disco de estreia dos australianos Royal Headache, passou-me muitas vezes pela cabeça aquilo que os malogrados The Exploding Hearts representaram para o punk moderno. Depois pensei que não seria nem prudente nem justo associar as duas bandas. E não é. Royal Headache é um disco que vale por si: uma performance vocal fortíssima, incomum no meio, associada a uma sonoridade com uma aptidão melódica praticamente inata. Não deixa de ser impossível não pensar que algures um quarteto de rapazes de Portland não regatearia um aceno de aprovação a temas como Never Again ou Distant and Vague.

 

 

 

6 – Sandro Perri – Impossible Spaces

Sandro Perri sempre fez música de fato e gravata. Polida e distinta, própria para festas de cocktail e fraque. Tanto quando editava enquanto Polmo Polpo, como quanto agora a nome próprio. Impossible Spaces consegue, ainda assim, ter um distinto feel a jam session que não deve ser fácil de conferir a música com esta abertura e a já mencionada distinção. Mas acaba por ser precisamente essa ideia de jam session polida e trabalhada que atrai neste disco, as melodias que se parecem arrancar quase a ferros em temas como Changes ou How Will I?.

 

 

 

5 – Lee Noble – No Becoming

Apesar de não faltaram por esse mundo fora bandas a fazer música alegre e solarenta, 2011 parece ter sido o ano ideal para amantes de sonoridades pessimistas e depressivas. James Kirby, The Caretaker, lançou o que pareceu ter sido uma torrente de música claustrofóbica e sombria, mas nenhum outro disco do ano que passou teve a envolvência e o puro impacto que este No Becoming de Lee Noble na Sweat Lodge Guru, nem mesmo os dois outros lançamentos de Noble em 2011. E talvez o mais impressionante seja mesmo a forma como Noble consegue fazer casar elementos verdadeiramente orgânicos som todos os outros sons que não parecem ter proveniência certa.

 

 

 

4 – Reel By Real – Surkit Chamber: The Melding

Não é particularmente claro o que faz uma lenda do Detroit Techno como Martin Bonds aparecer praticamente sem aviso quase vinte anos depois dos seus lançamentos chave. E não é que o seu regresso tenha sido recebido com grande pompa e circunstância, mas não faltou quem agradecesse. Surkit Chamber: The Melding é um registo que não parece ter perdido nem a vivacidade nem o sentido de urgência de uma sonoridade que marcou uma era nos anos 90, e também por isso não estranharia que tivesse sido produzido por alguém mais jovem e publicitável hoje em dia. Mas não foi. Foi Martin Bonds, e em boa hora.

 

 

 

3 – Real Estate – Days

Era inevitável. De facto, é impossível não pensar que cada vez mais, e à medida que o tempo se vai encarregando de familiarizar o vocalista Martin Courtenay com o homem de todos os ofícios Matt Mondanile, a música dos Real Estate se vai tornando mais automática, quase como que uma produção em série. O que, pelo menos em teoria, não devia ser nada bom. O que ainda torna mais complicado explicar porque é que este Days nada fica a dever àquele que foi um dos mais notáveis álbuns de estreia da última década em Real Estate. O que esse disco ganhava em novidade e na surpresa do primeiro impacto, Days parece compensar com consistência e um verdadeiro sentido de objectivo.

 

 

 

2 – Andy Stott – Passed Me By/We Stay Together

Pode não parecer à primeira audição, mas este combo de EPs do inglês Andy Stott foi um dos álbuns mais controversos do ano. O seu único álbum , Merciless de 2006, foi um exercício em frieza e fidelidade à forma do techno e do ambient, pelo que poucos estariam preparados para o emaranhado de sons que faz de Passed Me By e de We Stay Together um affaire de dubstep negro com vozes e batidas intermitentes. As acusações de cedência ao popular até se poderão adaptar, mas quando o trabalho e a minúcia são tão evidentes, é díficil preocuparmo-nos com modas.

 

 

 

1 – Machinedrum – Room(s)

Machinedrum, aka Travis Stewart, tem este aspecto. Só tirar isso do caminho logo à partida. Já com mais de uma década de actividade sob vários pseudónimos, Stewart passou toda uma carreira a tentar fazer o cruzamento entre sonoridades caracteristicamente urbanas como o hip hop e as mais declaradamente cerebrais como o techno, o glitch e até a música palpitante e experimental de Aphex Twin, LFO ou o primeiro material de Autechre. E apesar do seu demeanor menos gangsta do que muitos dos representantes da última vaga de hip hop instrumental e experimental, é inegável que este Room(s) representa a sua obra prima: um trabalho complexo, com um apelo crossover característico, de electrónica vibrante, actual e relevante.

 

Harvest Breed.

13
Dez
11

As 20 Melhores Músicas de 2011

 

20 – Actress – Rainy Dub [Rainy Dub 12'']

É complicado explicar porque é que se gosta de algo assim. O que é, aliás, um sentimento normal ao ouvir Actress. Rainy Dub parece material tirado mais dos seus tempos antigos do que a sua produção recente, mas para uma faixa que se afiguraria relativamente dispensável, é perturbadoramente viciante.

 

19 – Mikal Cronin – The Way Things Go [Mikal Cronin]

Companheiro de luta de Ty Segall, Mikal Cronin lançou finalmente o seu disco de estreia este ano, com pouca pompa e ainda menos circunstância. The Way Things Go é uma faixa de conclusão se alguma vez ouvimos alguma: o seu feel de fim de festa e os seus assobios castiços devem atrair os amantes do rock throwback quanto baste.

 

18 – Blu – Hours [No York!]

Na maré de produtores caseiros de hip hop agora a a enfrentar uma era de absoluto reconhecimento, Blu tem passado relativamente despercebido. No seu Hours não há nada que não aconteça: samples uns em cima dos outros, vozes indiscerníveis que se vão revelando. Um pouco como este tema.

 

17 – DJ Rashad – Love U Found [Just A Taste]

Na sua cidade natal de Chicago, DJ Rashad é o que chamaríamos um verdadeiro herói local. Pioneiro do footwork e lutador incansável pelo seu reconhecimento, Rashad não deixa de estar aberto a desvios da forma como poucos outros estão. Com um sample de Michael Jackson, esta música é um fantástico exemplo disso mesmo.

 

16 – Sepalcure – Pencil Pimp [Sepalcure]

A colaboração entre Travis Stewart (Machinedrum) e Praveen Sharma pode ter oferecido resultados inconsistentes, mas o talento junto é mais que suficiente para criar pérolas como Pencil Pimp. Uma produção cuidadosa e um sample vocal a fazer lembrar o trabalho a solo de Stewart são mesmo mais que suficientes.

 

15 – Old Apparatus – Side A [Old Apparatus]

Old Apparatus é um projecto relativamente desconhecido que acabou por surgir nos radares de muitos com este 12”. Com uma capacidade admirável para fazer confluir o ambientalismo doom de uns Demdike Stare ao mais tradicional da batida dance fragmentada, este Side A é uma das boas surpresas do ano.

 

14 – Royal Headache – Never Again [Royal Headache]

Australianos com um pendor por rock de garagem revivalista não tem muitas oportunidades para se dar a conhecer. Mas o que faz deste Never Again uma das melhores músicas de rock dos últimos anos é a voz cristalina, quase croon, do frontman Shogun. E uma composição como mandam as regras.

 

13 – Peverelist – Dance Til The Police Come [Dance Til The Police Come 12'']

Dance Til The Police Come é uma das faixas mais interessantes do ano. Habitando vários estilos e géneros em simultâneo, acaba no fim por não se ficar por nenhum: a batida jungle inicial junta-se aos laivos de dubstep mais à frente e a um sintetizador declaradamente house.

 

12 – Sun Araw – Impluvium [Ancient Romans]

Apesar dos quase sete discos em apenas três anos, o californiano Cameron Stallones acaba por conseguir, com o seu mais recente disco Ancient Romans, apagar a imagem tépida do seu antecessor, On Patrol. Como peça central, Impluvium é um verdadeiro jam.

 

11 – Wilco – The Art Of Almost [The Whole Love]

Não é propriamente novidade, mas é bom saber que os Wilco ainda são capazes de fazer álbuns como este e especialmente músicas como esta. Aqui se junta o ouvido melódico de Jeff Tweedy com o baixo profundo de John Stirratt, a bateria invulgar de Glenn Kotche e os solos de guitarra devastadores de Nels Cline.

 

10 – Deadboy – Ain’t Gonna Lie [Here 12'']

Deadboy conseguiu algum reconhecimento com este 12”, mas muito desse reconhecimento acabou por recair no também impressionante Wish You Were Here. Ainda assim, é no lado B, Ain’t Gonna Lie, um número frio e pleno de soul, que está o prémio.

 

9 – Atlas Sound – Terra Incognita [Parallax]

Apesar de uma evidente homenagem aos Stereolab e a Trish Keenan dos Broadcast, a quem, de resto, dedica Parallax, Bradford Cox consegue mais uma vez ocupar um espaço já ocupado sem parecer que o faça. Terra Incognita faz de uma coda sonhadora e uma performance vocal peculiar o ponto alto de Parallax.

 

8 – Kahn – Like We Used To [Like We Used To 12'']

O single de estreia de Joseph McGann, Kahn, para a Punch Drunk fê-lo voltar às suas origens: uma tradicional faixa de um dubstep fracturado e distante, com samples vocais meticulosamente trabalhados. A certa altura surpreende-nos.

 

7 – Oneohtrix Point Never – Replica [Replica]

O fascínio de Daniel Lopatin pela memória humana assume muitas facetas na sua música. Às vezes faz-se de revivalismo pop, como em Games ou em Ford & Lopatin, mas no seu projecto pessoal faz-se acima de tudo de um emaranhado de novelos avulsos e imprevisíveis. Este Replica está tão longe da sua faixa de abertura para Returnal, Nil Admirari, como nunca outra faixa sua esteve.

 

6 – Bill Callahan – Riding For The Feeling [Apocalypse]

E assim continua o casamento de Bill Callahan com uma produção mais polida. Apesar de não ser uma condição imprescindível para apreciar músicas como Riding For The Feeling, a frieza subreptícia da sua música sai valorizada como nunca antes. Ajuda que Callahan não tenha perdido o jeito.

 

5 – Wild Beasts – End Come Too Soon [Smother]

A gradual transição de banda de cabaret inclassificável que os Wild Beasts eram em Limbo, Panto para a fria máquina de pacientes clímaxes de guitarra como é aqui com este End Come Too Soon pareceu ter sido feita quase da noite para o dia, mas é complicado encontrar alguém a fazer isto tão bem nos dias que correm.

 

4 – Machinedrum – Come1 [Room(s)]

Talvez não haja outro álbum tão desafiante quanto Room(s), lançado neste ano. Come1 é quase um exhibit A nesse sentido. Samples que surgem das proveniências mais improváveis, viragens de ritmo súbitas e periclitantes, o James Brown, pianos insistentes, outros complexos e um suave final. Chega.

 

3 – Blawan – Getting Me Down [Getting Me Down 12'']

Não vale a pena dar a volta ao assunto: grande parte do que esta faixa consegue ser é produto do seu sample vocal furioso e orelhudo. Ainda assim, é depois de ouvirmos o original, uma balada R&B dos anos 90 da cantora Brandy, I Wanna Be Down, que ganhamos um renovado respeito pelo trabalho de Blawan nesta faixa. Uma descoberta impressionante e uma roupagem que se aproveita dela.

 

2 – Burial – Stolen Dog [Street Halo EP]

O regresso de Burial, de tão aguardado que era, acabou por não ter sido em formato de álbum nem parece que vá ser tão cedo, anunciado que está outro EP para o início de 2012. Sim, Stolen Dog é mesmo um lado B da mais convencional Street Halo, uma faixa que acaba por nos levar mais aos primórdios de Will Bevan enquanto produtor. Mas talvez seja este o seu trabalho mais conseguido até à data. Mais do que tudo o resto, evidencia a maturidade que não tinha antes, nem mesmo em Untrue.

 

1 – Kendrick Lamar – Hiiipower [Section 80]

“A lot of people don’t understand. They think it’s just a song. It’s really a big movement that we’ve got in L.A. that’s spreading like wildfire. Hiiipower: the three i’s represent heart, honor and respect. That’s how we carry ourselves in the streets, and just in the world, period. Hiiipower, it basically is the simplest form of representing just being above all the madness, all the bullshit. No matter what the world is going through, you’re always going to keep your dignity and carry yourself with this manner that it don’t phase you. Whatever you think negative is in your life. Overcoming that and still having that self-respect.”

 
Harvest Breed.

29
Out
11

Novos Lançamentos: Sandro Perri – Impossible Spaces

Quando, em 2003, Sandro Perri (Polmo Polpo) lançou o seu agora disco de culto Like Hearts Swelling, a tendência foi para que se perdesse no ruído de tudo o que a etiqueta canadiana Constellation estava a lançar na altura. Bandas como Godspeed You! Black Emperor ou Thee Silver Mt. Zion dominavam muito do que era a mensagem que saía da música canadiana. Nesse aspecto, Like Hearts Swelling foi, desde o início, um disco à frente do seu tempo. Juntava o minimalismo e a direcção ambiental do muito falado projecto do alemão Wolfgang Voigt, Gas, que na altura veria o muito merecido reconhecimento pelo seu último disco, Pop, aparecer, a algo mais. Um ‘algo mais’ que levou, tal como com Pop, uns anos a que fosse perfeitamente compreendido. Lentamente, Like Hearts Swelling não só veio a representar algo de perfeitamente único no catálogo da Constellation como algo de único na música contemporânea. Ecléctico e diversificado, Polmo Polmo era sinal de música verdadeiramente excitante, combinado o minimalismo techno com elementos orgânicos, de uma destreza fora do vulgar que se dava a uma execução técnica de instrumentais complexos mas envolventes.

Quase dez anos e três álbuns depois, Sandro Perri, já deixando para trás o nome de Polmo Polpo, continua a dar asas ao mesmo ecletismo e destreza que já ouvimos antes, mas agora numa dimensão mais abertamente pop. Ainda que, ao mesmo tempo, com estruturas musicais mais desalinhadas e incomuns. Em Impossible Spaces, o seu quarto disco em seu próprio nome, nono no total, Perri encontra para si mesmo um verdadeiro espaço que parecia pouco provável já de si: música doce e, sem margem para dúvidas, pop, que se casa com uma musicalidade expansiva, estruturas bizarras e complicadas e orquestração deslumbrante. Nesse aspecto, Impossible Spaces não é algo que possa ser directamente comparado com Like Hearts Swelling, mas podemos traçar a sua genealogia a partir daí. Quanto mais não seja, Perri demonstra aqui uma confiança inabalável na sua capacidade de composição que lhe dá a ele, e nós enquanto ouvintes, a sensação de que tudo poderá fazer e tudo poderá acontecer a qualquer altura. O mais impressionante nisto tudo, e aquilo que acaba por ser a peça central do disco, é a voz de Perri. Expressiva e com um alcance praticamente ilimitado, é dela que parte grande parte da saudável musicalidade que respira Impossible Spaces. Mas é também ela que nos indica que estamos perante algo pop, melódico e acessível.

O maior exemplo é a faixa de abertura Changes, que se apoia numa discreta mas invulgar linha de guitarra, que se expande numa mini-composição clássica. Acaba por ser no seu classicismo terminantemente anti-retro que tudo aqui assenta. A sua música é declaradamente orgânica, já sem os elementos techno que marcava o trabalho de Perri enquanto Polmo Polpo, a certas alturas fazendo lembrar os momentos mais leves dos últimos três discos de Talk Talk, mas faz-se de uma boa disposição inabalável. Essa é uma boa disposição que não perde tempo em transformar peças dispersas em algo melódico, um pouco como o ritmo de quase bossanova de um número como Love & Light, que dá lugar a uma coda peculiar mas estranhamente afectante, parece ser transformado em algo coerente pela invulgar facilidade vocal de Perri. Wolfman, a mais longa e chamativa faixa do álbum, segue uma fórmula semelhante a Changes: uma guitarra soluçante, letras desconjuntadas, teclados que vão aparecendo, uma espécie de caos pensado. Ainda assim, muitos dos elementos que à primeira vista parecem estar desconjuntados e dar a sensação de jam session também acabam por servir para levar muitas das melodias para lugares simplesmente esquisitos. E quanto mais cedo nos deixarmos levar por eles melhor.

Tracklist:

  1. Changes
  2. Love & Light
  3. How Will I?
  4. Futureactive Kid (Part I)
  5. Futureactive Kid (Part II)
  6. Wolfman
  7. Impossible Spaces

Harvest Breed.

28
Out
11

Novos Lançamentos: Kuedo – Severant

Não é incomum, nos dias que correm, ver alguém a fazer música completamente distinta, quer em forma quer em estilo, a solo em relação àquilo que fazia ou viria a fazer em grupo. Afinal, os meios são amplos e as influências não faltam. Durante seis anos, o londrino Jamie Teasdale foi uma das metades do duo que assinava, sob a forma de Vex’d, música perfeitamente sinistra e claustrofóbica. Mas mais que isso: os Vex’d representaram uma nova forma de fazer música à base de batidas fugazes e secas que, em especial com o seu disco de 2005 Degenerate, fazia começar o rufar dos tambores de guerra na grande comoção que se viria a formar nos anos seguintes à volta da ideia de dubstep. Apesar de ser admitidamente injusto classificar Degenerate dessa forma, a sua disposição quase industrial lançava uma manta de tensão sobre tudo o que por baixo dela era feito, desde trabalho de ambiência a batidas de cadência sepulcral, de tal forma que é possível compreender o porquê de se apontar o nome dos Vex’d como um dos primordiais catalisadores daquilo que, por volta de 2007, viria a ser conotado com o dubstep.

A solo, num trabalho que vinha a preparar há vários anos, Teasdale volta agora para lançar o seu primeiro álbum sob o nome de Kuedo, Severant. E mais do que uma parte da música de Vex’d, que ainda podemos encontrar aqui e ali, Severant retrata um músico num espaço artístico completamente diferente a produzir sonoridades que reflectem outra era. Literalmente outra era. Severant funciona um pouco como um conceito ambicioso de produzir uma banda sonora para um filme futurista dos anos 80. Se a ideia soa já por si requentada, é porque efectivamente é mesmo. Talvez agora mais que nunca nos deparemos com mais projectos musicais que se façam exprimir numa componente eminentemente teatral, até mesmo cinematográfica (um dos bons exemplos deste ano partiu do Lynchianismo quase enfermo do sino-canadiano Dirty Beaches, inspirado pelo Futuro da Nostalgia como definido pela autora Svetlana Boym). Mas Severant é produto de algo mais que apenas nostalgia. O seu espaço emocional está algures num vácuo que não conseguimos definir ao certo, mas que se faz expressar no verdadeiro maciço musical que são os cerca de três quartos de hora de Severant.

Em nenhum momento sentimos que a música de Kuedo se deixa espaço a si própria para respirar, nunca deixando de pintar um quadro tingido a tons de retro-futurismo Kubrickiano, e o resultado é um disco que não deixa respirar o ouvinte. Um bom exemplo da mudança que se fez sentir na música de Teasdale é Visioning Shared Tomorrows, um feito só por si: algo tão grandioso e aspirante na face do que antes tinha sido a música fechada e negra de Vex’d, não deixando de ser brutalmente simples. Ainda assim, é da fantástica tendência de criação de tensão do antigo conjunto de Teasdale que ele consegue retirar uma paisagem coerente para Severant, e é precisamente por isso que nele tem um triunfo arrebatador. As batidas ensurdecedoras e omnipresentes fazem-se sentir em faixas como Scissors ou Vectoral, casando, em poucos minutos e sem que a transição pareça pouco natural, com a tensão sublimadora de Ascension Phase ou da poderosa Flight Path. A ambição que fica patente em Severant é a de fazer algo que pegue naquilo que já fazia de Teasdale um dos produtores mais absorventes da electrónica actual e o eleve a patamares não tanto bombásticos quanto elegantes, graciosos e gloriosos. Tudo isso faz com que os tais três quartos de hora se fundam numa gigante composição de retro-originalidade: uma espécie de redefinir do que exactamente significavam as visões do futuro dos anos 80 e as aspirações do que estaria para vir.

Tracklist:

  1. Visioning Shared Tomorrows
  2. Ant City
  3. Whisper Fate
  4. Onset (Escapism)
  5. Scissors
  6. Truth Flood
  7. Reality Drift
  8. Ascension Phase
  9. Salt Lake Cuts
  10. Seeing The Edges
  11. Flight Path
  12. Shutter Light Girl
  13. Vectoral
  14. As We Lie Promising
  15. Memory Rain

Harvest Breed.

05
Out
11

Novos Lançamentos: Real Estate – Days

De qualquer desafio que se possa colocar a uma banda numa altura em que o consumo musical é efémero e hiperactivo, nenhum poderá ser mais difícil de alcançar que a memória. Memórias de lugares onde estivemos ou julgamos ter estado, de situações que vivemos ou pensamos ter vivido. Música que passamos a associar a recordações que nem sempre parecem reais quando nos lembramos delas. O conceito de memória é tão vital na música dos Real Estate como em nenhuma outra banda actualmente, mesmo quando géneros musicais inteiros parecem ser formados e sobrecarregados à volta dele. Mas, afinal, o que faz desta banda alguma coisa de especial? O que é que a faz derivar da perigosa tangente que parece continuadamente estar a pisar com o nebuloso terreno do indie pop descartável? A sua inspiração sónica que nasce declaradamente das guitarras preguiçosas de Here, do disco de estreia dos Pavement, caminha em leve passada com a imagem slacker da época. Mas a música dos Real Estate não nos leva de volta a 1992. Tal viagem seria dispensável. De facto, ficamos com a cabeça em 2011 a perguntar se não será mesmo este o futuro do pop.

O seu disco homónimo de estreia conseguiu criar um lugar em que riffs pop e canções orelhudas se enrolam num manto de incerteza e confusão ordenada. Tão ordenada que seria capaz de produzir momentos como Suburban Beverage, onde um desenho aparentemente interminável de guitarras se construía para o ouvinte se lembrar sei lá do quê que aconteceu sei lá quando. É no meio dessa capacidade peculiar de puxar pela memória que os Real Estate chegam aqui, o antecipado/temido segundo álbum: Days. Contudo é a memória de Beach Comber, a abertura perfeita do seu disco homónimo, que nos vem à cabeça primeiro. Easy não afina pelo mesmo diapasão e, apesar do desvio sónico de Days ser mínimo em relação ao seu antecessor, o contraste entre os dois temas parece ilustrar a evolução desse mesmo desvio: os Real Estate estão uma banda mais directa e urgente, não perdendo tempo a evoluir de uma fantástica linha de guitarra para um refrão tenso carregado pela voz do seu vocalista habitual, Martin Courtney. Diga-se habitual, porque também na constituição os Real Estate estão diferentes, deixando para trás o invulgar e carismático baterista Etienne Pierre Duguay, mas com tarefas de composição aparentemente mais divididas, com Alex Bleeker, baixista a tempo inteiro, a ter direito a Wonder Years, um número directo e estranhamente propulsivo, só para si.

Ainda assim, Days adiciona ao catálogo dos Real Estate um cunho de maior versatilidade ao nível das imagens que evoca. Não mais nos é pintado um quadro de praia eterna e sol até à morte, por muito atraente que seja. Somos antes deparados com verdadeiras ‘curveballs’ como Green Aisles, talvez o maior exemplo de uma produção mais afinada que complementa a nostalgia declaradamente cinzenta das “wasted miles” e “aimless drives” e que acaba por sair vitoriosa (“our careless lifestyle, it was not so unwise”), ou Municipality, talvez a peça central de Days a par do fantástico single recuperado do ano passado Out Of Tune, a imagem das conduções nocturnas de um a complementar as “sharping knives” que cortam com a confusão e a desorientação de viagem. Não há, de facto, falta de momentos de viagem e de transição no disco, mostrando-se sempre adepto de ir mudando a passada dos acontecimentos conforme lhe dá na gana. Pela altura em que a regravada Younger Than Yesterday, já presente no EP Reality, aqui com uma roupagem mais polida e bem definida, a grande curiosidade acaba por ser a forma com que o álbum se projecta para a sua conclusão: uma espécie de filho bastardo de Snow Days e Suburban Beverage, All The Same entra nervoso e sai em cima de um coda periclitante, quase kraut, até que parece tomar o pulso de si mesmo e abrandar até à morte. Se há algo que se pode apontar a Days é a sua falta de tempo para pausar e abrandar como números como Suburban Dogs faziam no seu antecessor, mas não é por isso que a aura de confiança relaxada deixa os Real Estate em algum ponto deste disco. Apenas o torna num triunfo da continuidade e da clareza.

Tracklist:

  1. Easy
  2. Green Aisles
  3. It’s Real
  4. Kinder Blumen
  5. Out Of Tune
  6. Municipality
  7. Wonder Years
  8. Three Blocks
  9. Younger Than Yesterday
  10. All The Same

Harvest Breed.

05
Out
11

Feedback, Vol. 5

O Shuffle. Todos os anos há um debate que aparece na indústria musical com mais insistência do que qualquer outro, mais até que a interminável saga dos downloads ilegais. Esse debate é o da morte do álbum como formato. Não faltam regularmente bandas que vão anunciando o seu abandono aos LPs a favor dos singles, dos lançamentos online ou dos EPs. Da mesma maneira que não falte quem aponte o dedo a possíveis culpados. Mas mais do que os downloads ilegais, o grande culpado é a função de Shuffle. Temas ao acaso, cortados à machadada dos seus álbuns, para satisfazer os défices de atenção de fãs impacientes de música, numa versão musical do Totoloto. Em Feedback, periodicamente desafiamos o Shuffle a escolher cinco temas ao acaso e escrutinamos os resultados.

The New Pornographers – [Twin Cinema #04] The Bleeding Heart Show [4:27] [2005]

  • Uma espécie de swansong para uma banda que fazia com Twin Cinema o seu trio de álbuns sólidos como não mais conseguiu desde então. Mais que isso, um admirável ponto alto: uma balada simples transformada numa coda em enérgica, com pontos extra pelo envolvimento bem sucedido de boa parte dos membros da banda.

Spacemen 3 – [Perfect Prescription #01] Take Me To The Other Side [4:40] [1987]

  • Não parece estar muito a acontecer aqui à primeira vista. Para lá do violento ataque sónico, que vai parando para respirar aqui e ali, as vozes perdem-se na mistura com o feel de se terem perdido também no tempo, e a tensão latente e o delírio drogado nos momentos de subidas e descidas rítmicas coloca o carimbo Spacemen 3 em cima de tudo aquilo. Seminal.

Earl Sweatshirt – [EARL #08] Moonlight Featuring Hodgy Beats [2:05] [2010]

  • No meio do hype de príncipio de ano que atraiu Tyler, The Creator ficou perdido o real grande activo do clã Odd Future, Earl Sweatshirt. EARL tem aqui um dos seus interlúdios subtis mas perturbadores que garantem a sua consistência no meio de tanto ethos abrasivo e niilista.

White Fence – [Is Growing Faith #12] Body Cold [1:51] [2011]

  • O rock imediato e cru dos White Fence acaba por inadvertidamente dar outra dimensão à fatia de moderação de Earl. Body Cold é directa, apoiada por uma linha insistente de órgão, chega rapidamente ao refrão e parece mais preocupada em sair antes que nos cansemos dela. Mas é assim mesmo que tem de ser.

Ladytron – [Velocifero #02] Ghosts [4:43] [2008]

  • Desinspirada amostra de electro numa não menos desinspirada tentativa de uma banda aparentar ter um som urgente. A urgência até parece estar lá, afogada em tanta superprodução, não se percebe bem é para onde caminha.

O veredicto:

  1. Spacemen 3 – Take Me To The Other Side
  2. The New Pornographers – The Bleeding Heart Show
  3. Earl Sweatshirt – Moonlight Featuring Hodgy Beats
  4. White Fence – Body Cold
  5. Ladytron – Ghosts

Harvest Breed.

29
Jun
11

Os Melhores de Metade de 2011

  1. Andy Stott – Passed Me By
  2. Bruno Pronsato – Lovers Do
  3. Wild Beasts – Smother
  4. Lee Noble – No Becoming
  5. Fleet Foxes  – Helplessness Blues
  6. John Maus – We Must Become Pitiless Censors of Ourselves
  7. Grouper – AIA
  8. The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This World
  9. Lucy – Wordplay For Working Bees
  10. Dirty Beaches – Badlands
  11. Bill Callahan – Apocalypse
  12. Chad VanGaalen – Diaper Island
  13. Ty Segall – Goodbye Bread
  14. Telebossa – Telebossa
  15. Sean McCann – The Capital
  16. David Thomas Broughton – Outbreeding
  17. Tiago Sousa – Walden Pond’s Monk
  18. Peaking Lights – 936
  19. Niggas With Guitars – Ethnic Frenzy
  20. Radiohead – The King of Limbs

Menções Honrosas:

  • Toro Y Moi – Underneath The Pine
  • Vatican Shadow – Kneel Before Religious Icons
  • Zwischenwelt – Paranormale Aktivitat
  • Kurt Vile – Smoke Ring For My Halo
  • The Rosebuds – Loud Planes Fly Low
  • Bombino – Agadez
  • Gruff Rhys – Hotel Shampoo
  • James Blake – James Blake
  • BNJMN – Plastic World
  • The Antlers – Burst Apart
  • Ford & Lopatin – Channel Pressure
  • Cass McCombs – Wit’s End

Harvest Breed.

22
Dez
10

Os 30 Melhores Álbuns de 2010

30 – Mark McGuire – Tidings/Amethyst Waves

Contando como um terço dos pioneiros do noise krautrockiano e da experimentação electrónica Emeralds, Mark McGuire é o virtuoso guitarrista, ainda que não no sentido lato da palavra, que transmite algum sentido orgânico ao projecto. A solo, essa condição é demonstrada com uma sonoridade mais natural e menos penetrante que a da sua banda. Este Tidings/Amethyst Waves é apenas um dos discos que lançou este ano, mas será porventura o mais forte, capaz de momentos tão cabais como os que a sua banda produz, mas também de transições suaves e subtis.

 

 

 

29 – The Roots – How I Got Over

How I Got Over pode até nem ser o disco de hip hop mais espalhafatoso do ano, ou o mais ambicioso, ou até o mais surpreendente. Mas é sem dúvida o mais consistente. De um conjunto já viajado e experimentado, e que agora se vê a servir de banda residente no programa de Jimmy Fallon, espera-se sempre precisamente consistência. É isso que têm mostrado toda a sua carreira. Não se pode dizer que How I Got Over tenha algum single gigantesco, ainda que Radio Daze e Right On cheguem lá perto, mas é precisamente esse o seu maior ponto forte.

 

 

 

28 – The Budos Band – The Budos Band III

Incorporar elementos de música africana quando se é de Nova Iorque não é propriamente novo ou original, mas nos últimos anos tem sido mais usual e controverso do que nunca. Os The Budos Band vêm de Staten Island, precisamente em Nova Iorque, têm para cima de dez membros e fazem aquilo que descrevem como ‘afro-soul’. Até com um curioso cover de Day Tripper dos Beatles, este disco é um mood setter imediato, conta com uma produção rica e interessante e procura sempre ambientes e não melodias.

 

 

 

27 – Luke Abbott – Holkham Drones

Depois de assinar, em 2008, pela label de James Holden, a Border Community, o produtor oriundo de Norwich Luke Abbott apenas este ano editou o seu disco de estreia. Jogando com diferentes tipos de sons sintetizados, Abbott consegue criar em Holkham Drones uma espécie de krautrock com cheiro a dancehall. Não é raro ouvir, neste disco, algo tão distinto como a repetição kosmische em união com algo mais diferente e fora do padrão comum do som normalmente associado a este tipo de música electrónica.

 

 

 

26 – Expo ’70 – Where Does Your Mind Go?

Talvez não haja álbum mais denso lançado este ano que este Where Does Your Mind Go?. O produtor Justin Wright, em conjunção com Matt Hill, leva o ouvinte por uma viagem muito bem acompanhada à arte do minimal. Tudo é pensado e tudo soa original e ambicioso, apesar do disco ter sido gravado em apenas uma noite. Ainda assim, é possível detectar influências que nunca se apresentam suficientemente derivativas ao ponto de prejudicarem o curso da experiência, preenchendo sempre espaços vazios com algo fora do normal.

 

 

 

25 – Paul Cary – Ghost Of A Man

Já por aqui tínhamos falado antes honestidade retro de Paul Cary e é com previsibilidade que o vemos entrar nesta lista. Injustamente ignorado um pouco por todo o lado, Ghost Of A Man ilustra os altos e baixos de ser um músico rock no século XXI, falando de amores e desamores por entre guitarras pouco comuns, mas imensamente trabalhadas, e arranjos à antiga, conforme mandam as regras. Uma espécie de álbum conceptual retratando um western moderno sobre o homem moderno.

 

 

 

24 – John Roberts – Glass Eights

Num ano em que se assistiu à coroação de Pantha Du Prince com um óptimo disco, sob a forma de Black Noise, têm passado debaixo do radar álbuns como este: do talentoso, e já reconhecido pelas suas remisturas, produtor de Cleveland John Roberts, este Glass Eights é talvez o trabalho mais coeso em electrónica este ano que honra o formato do LP. Roberts demonstra uma facilidade estonteante para criar drama, com batidas pulsantes, e para fazer algo dançável sob uma só bandeira. Glass Eights é um trabalho completo.

 

 

 

23 – Menomena – Mines

É complicado colocar os Menomena, e em particular este seu último disco, numa qualquer caixa do rock alternativo geral. A banda desafia classificação mesmo na sua essência. E Mines espelha isso na perfeição. Recusando a quietude, vai saltando de música em música, de disposição em disposição, sempre da forma que achar que melhor se adequa à sua própria criatividade. Porque essa, já o sabíamos mesmo antes de Mines, para os Menomena não tem limites. Sem um single porta-estandarte acaba por passar debaixo do radar, mas provavelmente foi assim que a banda o quis.

 

 

 

22 – The Walkmen – Lisbon

Há pouco a dizer da consistência quase mecânica desta banda. Mas à medida que o tempo vai passando, e sem que ninguém tenha clamado por isso, a verdade é que os The Walkmen vão mudando. Em Lisbon, voltaram os singles enérgicos (Angela Surf City), mantiveram-se os números de grandiosidade orquestral (Stranded, Torch Song) e encurtou-se o tempo de duração. Talvez por isso, o primeiro disco que Lisbon evoca é Bows + Arrows. E isso só pode ser boa coisa. É provável que outras cidades portuguesas se sigam.

 

 

 

21 – Ty Segall – Melted

Personificando o epíteto de one-man-band na perfeição, Ty Segall é o músico que faz tudo. Mesmo que a sua música não envolva assim tanto ao mesmo tempo. Segall sabe como deixar a marca da sonoridade de Detroit, o punk áspero e eufórico envolto em músicas simples e que ficam na cabeça por muito tempo. Seja em My Sunshine, no single Caesar ou em Imaginary Person, Melted é um álbum curto, que vai directo ao assunto e que não tenta fazer perder tempo a ninguém. Para quem gosta do seu punk viciante.

 

 

 

20 – Tamaryn – The Waves

A saturação sónica do shoegaze faz com que, por natureza, seja um meio no qual é complicado introduzir o elemento da novidade, mas também um em que a produção assume lugar vital. The Waves, disco de estreia do duo sediado em São Francisco Tamaryn, faz isso mesmo. E esse elemento de novidade acaba por ser introduzido quase imperceptivelmente, precisamente por pequenos toques de produção aqui e ali: a abertura de Sandstone, o falso refrão de Love Fade, o tom optimista de Dawning.

 

 

 

19 – Sunset – Loveshines But The Moon Is Shining Too

Construir uma carreira à volta de tentativas de recriação da sonoridade das distintas pocket symphonies de Brian Wilson não é a pior coisa no mundo. A pior coisa no mundo é fazê-lo mal. Aceitando o fim dos Sound Team depois de uma crítica da Pitchfork, Bill Baird tem passado o seu tempo desde então a formar uma etiqueta e a introduzir um toque de confusão à precisão suíça das composições dos Beach Boys. Desta feita, em Loveshines But The Moon Is Shining Too consegue fazê-lo na plenitude, criando um disco de uma simples beleza assinalável.

 

 

 

18 – The Tallest Man On Earth – The Wild Hunt

É de assinalar a vontade cada vez maior que Kristian Matsson tem de sair da enorme sombra que Bob Dylan faz sobre o seu trabalho. A questão não é tanto daquilo que faz musicalmente quanto é da sua forma vocal característica. No fundo, The Wild Hunt é a prova de que é possível soar distintamente a algo sem soar cansado ou até deixar de soar a novo e original. Talvez a sua melhor característica seja ainda a facilidade que tem para produzir composições clássicas e torná-las relevantes e compenetrantes. E isso viu-se especialmente no seu EP seguinte, Sometimes The Blues Is Just a Passing Bird.

 

 

 

17 – Velella Velella – Atlantis Massif

Talvez por ser lançado pela própria banda, Atlantis Massif é um álbum de um risco supremo. Tudo nele está envolto numa confiança inabalável. Nem podia ser doutra forma para uma banda que faz do funk alternativo, aparentemente já pertencente ao passado indie, enterrado na mesma campa com bandas como os The Rapture ou os !!!, o seu cartão de visita. Este é um disco que usa as suas influências de forma mais fiel e ousada do que nunca, dentro do estilo, uma excelente resposta a Bay Of Biscay, de 2005.

 

 

 

16 – Shed – The Traveller

O produtor techno germânico Rene Pawlowitz demora alegadamente pouquíssimo tempo a trabalhar nos seus discos. A sua abordagem é orgânica e quase naturalista, não fosse mesmo o facto de fazer música techno. Pawlowitz, ou Shed, tem em The Traveller um segundo disco triunfal que deve tanto às suas batidas quanto às ambiências que vai criando à sua volta. Não só as transições são feitas sem que o ouvinte se dê por isso, como o produto final resulta numa impressionante vitória do formato álbum.

 

 

 

15 – Pomegranates – One Of Us

Há a distinta sensação no ethos actual que uma banda destas precisa de fazer algo mais para provar a sua valia. A era dos revivalismos de pós-punk parece ter-nos abandonado de vez e, agora, cada banda vê-se na condição de ter de justificar a sua visibilidade. Os Pomegranates fazem-no apostando num disco que tem tanto do tradicional histriónico pós-punk como de oportunos momentos introspectivos e ambientais que não só são essenciais para introduzir cada música como são grandes momentos só por si neste One Of Us.

 

 

 

14 – Gate – A Republic Of Sadness

Provavelmente, seriam poucos aqueles que apostariam num disco de um projecto paralelo de um ancião do noise neozelandês para ser relevante em 2010. E provavelmente, nem o é. Mas A Republic Of Sadness, de Michael Morley, aqui a trabalhar como Gate, membro da banda de culto The Dead C, é um álbum de um impressionante poder e de um alcance praticamente intrépido. Morley produz música verdadeiramente difícil de categorizar, seja com inúmeros loops de sintetizador, a sua já habitual guitarra ou até o seu invulgar tratamento vocal.

 

 

 

13 – The Fresh & Onlys – Play It Strange

Vejo-me sempre mais atraído por casos de regularidade do que por fenómenos de supernova. Os californianos The Fresh & Onlys já têm mostrado ser dos valores mais seguros no rock de garagem do momento, e em Play It Strange têm provavelmente aquela que será considerada a sua obra prima. Não que faça algo de tremendamente inovador, nem o estilo se compadece a isso, mas arranja maneira de atingir todas as necessidades dos amantes do género. E nem precisa de muito tempo para apaixonar o ouvinte: só os primeiros dez minutos do disco chegam.

 

 

 

12 – Digital Mystikz – Return II Space

Apesar de ser apenas metade do duo que compõe oficialmente a ‘marca’ Digital Mystikz, Mark Lawrence, ou Mala, é a semi-lenda que apresenta sozinho este Return II Space. Álbum ou EP, EP ou álbum, este é um registo de uma força e de um significado marcantes. Talvez o próprio Mala tente fugir conscientemente à pressão de apelidar este de ‘o seu primeiro álbum’, mas o dubstepper acaba por tocar um pouco em tudo neste Return II Space: batidas pesadas, produção detalhada, uma espécie de tema cósmico subjacente a todo o disco. E um grande tema-título.

 

 

 

11 – Big Boi – Sir Lucious Left Foot: The Son Of Chico Dusty

Não é difícil de perceber porque é que Big Boi, Antwan Andre Patton, demorou tanto para congeminar este seu primeiro disco a solo. É que Sir Lucious Left Foot… é acima de tudo um triunfo de uma superprodução, capaz de produzir autênticas viagens de montanha russa, como em Daddy Fat Sax ou You Ain’t No DJ, como singles de impacto imediato, no caso Shutterbug ou Follow Us, mas também números de soul perdidos pelo tempo, sob a forma de Turns Me On ou de Be Still. Sir Lucious Left Foot… é bem capaz de ficar motivar falatório durante uns bons anos.

 

 

 

10 – Benoît Pioulard – Lasted

Oriundo de dois autênticos viveiros de talento, o ambiente musical de Portland no Oregon e a histórica label Kranky, Thomas Meluch é Benoît Pioulard, que por seu turno é um especialista em encontrar melodia e harmonias vocais ou texturais por entre camadas de drones e fuzzes. Já lá vão quatro anos desde que Précis demonstrava o que Pioulard poderia vir a ser se focalizasse a sua sonoridade, e Lasted é, arrisco, o corolário disso mesmo. Digo arrisco, porque com Pioulard é mesmo uma aposta: é que já são quatro anos sempre a melhorar.

 

 

 

9 – Denseland – Chunk

O triunvirato que compõe o conjunto apelidado de Denseland acaba por ser uma espécie de resposta Vienense à mecanização matemática dos Battles: David Moss é o estilista vocal, garantindo um ar de peculiar desconforto ao som da banda, e Hannes Strobl e Hanno Leichtmann pintam a paisagem sónica à sua volta. Só que não é assim tão simples. Chunk é um trabalho intenso, envolvente e quase herético na forma com que tenta entrar na cabeça do ouvinte. Uma coisa é certa: a recompensa pelo assalto aos sentidos é um disco verdadeiramente desconcertante.

 

 

 

8 – Dylan Ettinger – New Age Outlaws: Director’s Cut

Em Março deste ano, Dylan Ettinger editava em cassete New Age Outlaws, a que apelidava de ‘Blade Runner blues’, uma banda sonora a um filme futurista de há décadas atrás. Pouco depois, voltava ao estúdio para refazer o trabalho, apenas para mais tarde reeditá-lo em disco sob a designação de Director’s Cut. A realidade construída por Ettinger em New Age Outlaws é não só eminentemente cinemática como com um pé plantado bem firme no passado. A sua força reside nas suas recriações de (ir)realidades nunca criadas, com arranjos a combinar e especial destaque para o saxofone de Clarke Joyner.

 

 

 

7 – Ariel Pink’s Haunted Graffiti – Before Today

Com o que é que lida Before Today? Talvez por ser quase uma colecção de composições anteriores da peculiar imaginação de Ariel Pink, este não é propriamente um disco que se define numa temática recorrente. Sim, Before Today tem toda a produção de nomeada que os discos anteriores de Ariel Pink não tinham e olhar só para aí pode ajudar a explicar a sua popularidade. O que nunca capta atenções é a qualidade musical da sua banda, os Haunted Graffiti, que aqui dão um passo firmemente em frente e assumem-se como um verdadeiro ás na manga de Ariel, vide apenas números como Round And Round, Revolution’s A Lie ou a humorada Butt-House Blondies.

 

 

 

6 – Eleven Tigers – Clouds Are Mountains

Há poucas dúvidas da influência e importância da música de Burial em outros artistas, e talvez seja injusto referi-lo no que diz respeito ao produtor lituano Jokubas Dargis, mas apenas serve de sublinhado ao enorme talento do músico que dá corpo a Eleven Tigers. Clouds Are Mountains é um trabalho de enorme confiança e que demonstra grande cultura musical para alguém tão novo e, ainda que sediado em Londres, da Lituânia. O dubstep de Dargis é complexo e grandioso, como poucos o conseguem fazer, mas são os seus arranjos que o fazem deliciosamente denso. No bom sentido, claro.

 

 

 

5 – Actress – Splazsh

Darren Cunningham não vê batidas, vê conceitos. Actress é o seu projecto electrónico e em Splazsh, o seu segundo álbum, cada faixa produz uma imagem distinta e irradia uma aura diferente das outras. É por isso que Hubble, fazendo jus ao nome, abre o disco com quase nove minutos de ambiências espaciais e produções extraterrestres. Ou que a trepidante Maze nos transporta para Assault on Precinct 13 de John Carpenter. É esse conteúdo cinemático tão real e tão lúcido que eleva Splazsh para o estatuto de verdadeiro clássico do género.

 

 

 

4 – Donovan Quinn & The 13th Month – Your Wicked Man

Your Wicked Man, segundo álbum do folkie Donovan Quinn com a sua banda The 13th Month, vive enraizado numa sonolência profunda. Os motivos que evoca são muitas vezes confusos, a forma morosa com que os apresenta ao ouvinte vai-se alterando ao ritmo de um sonho e a voz de Quinn parece sempre estar a minutos de adormecer. Ainda assim, há algo de muito desperto a acontecer em Your Wicked Man. Os arranjos são muitas vezes variados e ocupam espaços pouco comuns dentro das músicas. Sejam os teclados em Mom’s House e em Street Fighting Girls ou o baixo de Red Corona, há muita imaginação aqui.

 

 

 

3 – Darkstar – North

North é um disco gélido, bem ao jeito do seu título. Ainda assim, consegue ser porventura o registo mais pop que a sua editora, a badalada Hyperdub, já lançou. E não consta que haja grande embaraço da parte da etiqueta por isso. No seu fundo, North, o primeiro disco da dupla de produtores Aiden Whalley e James Young, para além de marcar a introdução de vozes, frequentemente intermitentes, na sua música, a cargo de James Buttery, é um óptimo exemplo de como fazer introduzir estruturas pop num elemento dubstep (mas nem por isso). Sem emoções. A frio.

 

 

 

2 – Emeralds – Does It Look Like I’m Here?

Este foi um daqueles disco que cresceu e cresceu à medida que o ano foi avançando. Não porque mais pessoas o ouviram, mas antes porque as pessoas que o tinham voltaram atrás para o re-ouvir. Does It Look Like I’m Here? é um álbum épico por seu próprio direito, mais do que qualquer outro disco lançado este ano. Talvez mais do que qualquer outro lançado nos anos anteriores. É isso que faz com que não seja possível ouvir apenas parte deste álbum, ou ouvir apenas faixas fragmentadas. Does It Look Like I’m Here? requer toda a atenção do ouvinte durante toda a sua duração e, sim, é a obra prima dos Emeralds.

 

 

 

1 – Women – Public Strain

O ‘strain’ talvez tenha ficado demasiado público este ano para os Women. Os membros da banda canadiana envolveram-se numa luta corpo a corpo durante um concerto e tudo indica que não voltem a gravar ou sequer a tocarem juntos tão cedo. Mas talvez isso dê mais poder a este já poderosíssimo Public Strain. De novo produzido pelo ‘handyman’ Chad VanGaalen, o segundo disco dos Women cumpre a promessa do primeiro e muito mais. O ambiente é pesado, as vozes são distantes, as guitarras são abrasivas e colam-se ao ouvido de quem as ouve. Este é um disco que deve, compreensivelmente, ter sido difícil de gravar. Mas os melhores são sempre assim, não é verdade? E este é o melhor do ano.

 

Harvest Breed.

16
Dez
10

As 20 Melhores Músicas de 2010

 

20 – Twin Sister – I Want A House [Vampires With Dreaming Kids EP]

Saiu logo na primeira semana do ano, este EP dos talentosos nova-iorquinos Twin Sister. De memória curta não se tratará, mas dificilmente encontraremos uma coda final com o sentimento e o groove simultâneo de I Want A House, ainda que o EP seguinte deste quinteto tenha sido pouco memorável.

 

19 – The Soft Pack – Mexico [The Soft Pack]

É praticamente um tema de prom, é certo. Num álbum carregado de músicas de dois a três minutos de punk com um desvio pop, é estranho ver algo assim tão óbvio e dissimulado em simultâneo, mas também cheio de melodias a puxar à dança em par.

 

18 – The National – Conversation 16 [High Violet]

Parece que, por muito que as pessoas queiram, os The National não mudam nem irão mudar. Talvez isso funcione contra eles mais do que a seu favor, mas enquanto nos derem autênticas pérolas como Conversation 16, por mim pode ser.

 

17 – Field Music – In The Mirror [Measure]

Uma daquelas bandas permanentemente assoladas por comparações a uma só entidade. O duplo álbum talvez tenha sido um conceito demasiado complicado de vender nestes tempos, mas a música de abertura é um triunfo de tensão bem acumulada e melhor libertada por meio de uma linha de baixo pulsante.

 

16 – Gorillaz – Empire Ants [Plastic Beach]

Um dia, bandas como esta irão ser escassas. Um dia, iremos ter saudades do facto de uma banda de cartoons ter feito algum do melhor pop de uma era. Para já, é saborear ainda podermos ouvir alguém com as mãos em tantas influências em simultâneo para nos trazer números como Empire Ants.

 

15 – Future Islands – An Apology [In Evening Air]

In Evening Air acabou por ser talvez um dos discos que mais atenção despertou este ano por pura recusa de ser ignorado. An Apology, uma música relativamente delicada e saudosista, oferece o contraste entre uma voz poderosa e uma banda que sabe trabalhar à sua volta.

 

14 – Spoon – Out Go The Lights [Transference]

Falávamos de codas finais que ajudavam a transcender músicas. Se bem que é um erro pensar que Out Go The Lights se resume à sua coda. No fundo, é isto que os Spoon fizeram a carreira toda. “You always look good that way”.

 

13 – Sunset – Moonlight [Loveshines But The Moon Is Shining Too]

Sunset – Moonlight

Elegante, simples e texturado. Moonlight é, tal como quase todo o repertório do verdadeiro one-man-band Sunset, incrivelmente simples ao ponto de parecer igual a qualquer outra música deste disco, mas simultaneamente com uma identidade própria. Se é que isso faz sentido.

 

12 – Harlem – Cloud Pleaser [Hippies]

É praticamente impossível ir da quase balada, sobre corações partidos e sofrimento conjugal, até ao punk sem vergonha, ainda sobre corações partidos e sofrimento conjugal. Mas os Harlem conseguiram-no. E fizeram-no parecer fácil.

 

11 – Hot Chip – Take It In [One Life Stand]

Há poucas bandas com jeito para produzir sing alongs como os britânicos Hot Chip. Cada álbum é pródigo nisso mesmo. Take It In consegue casar essa habilidade com aquele desejo soul de que tanto se fala quando se fala de Hot Chip.

 

10 – Ariel Pink’s Haunted Graffiti – Round And Round [Before Today]

Não faz sentido falar de Ariel Pink como um talento que finalmente se confirma. Até porque essa confirmação parece vir quando o próprio assim entendeu que viesse. Mas que é um caso de distracção geral, lá isso é. Round And Round: talvez o maior sing along deles todos.

 

9 – Pomegranates – Anywhere You Go [One Of Us]

Pomegranates – Anywhere You Go

Uma das descobertas tardias, este novo dos oriundos de Cincinnati Pomegranates. Um single de apresentação particularmente corajoso e relativamente ignorado, que à primeira parece denunciar uma banda relativamente estéril do revivalismo pós-punk, mas que floresce com o botão de repeat.

 

8 – Real Estate – Out Of Tune [Out Of Tune single]

Fazendo a ponte para aquele que será o segundo disco destes orgulhosos New Jersey-ianos, este Out Of Tune é o mais ambicioso a que o quarteto chegou desde a sua criação. Com arranjos adicionais de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), também não se pode dizer que os Real Estate se tenham esquecido de como se compõe uma música.

 

7 – The Radio Dept. – Heaven’s On Fire [Clinging To A Scheme]

Diz-se que as melhores músicas surgem naturalmente. Pelo tempo que os suecos The Radio Dept. levaram para editar o seu terceiro disco, nunca diríamos. Mas haverá música pop lançada este ano tão orelhuda quanto esta? Pleno de divagações miserabilistas sobre dor amorosa e protestos anticapitalistas de Thurston Moore, só podia mesmo ser The Radio Dept., naquele que é provavelmente o seu número mais alegre e bem disposto.

 

6 – Big Boi – Daddy Fat Sax [Sir Lucious Left Foot: The Son Of Chico Dusty]

Os Outkast eram tudo aquilo que se pedia de um duo de produtores, um complementando o outro: Andre 3000, dono e senhor de uma ambição desmedida e de um ouvido pop ao nível de poucos, sempre precisava de um Big Boi, mais convencional e de pés firmes na terra, mas sempre disposto a estender a fronteiras do seu género. Num álbum todo ele triunfante para Big Boi, os louros teriam de recair mesmo neste Daddy Fat Sax, talvez o equivalente musical de uma tripe nervosa de açúcar, com a enormidade que sempre caracterizou o trabalho de Big Boi ao serviço dos Outkast.

 

5 – Tamaryn – Sandstone [The Waves]

Não é que nos transporte de volta para 1992, nem seria esse o seu objectivo, mas algures entre São Francisco e Nova Iorque o duo de Tamaryn, a voz feminina que dá corpo à música da banda, e John Shelverton, o multi-instrumentista por detrás de tudo, este álbum conseguiu capturar mais que uma sonoridade, uma essência. Sandstone é uma coisa relativamente simples e faz-se com um loop de teclado e uma melodia vocal. Fácil, não é? Nem por isso.

 

4 – Women – Eyesore [Public Strain]

Isto foi o mais próximo de pop a que chegou o novo dos Women. Mas ou muito nos enganamos ou parece que eles nem sequer tentaram. Eyesore é uma espécie de lição de composição de música pós-punk em três partes: uma introdução guiada por bateria e uma série de riffs assertivos que já sabíamos que a banda era capaz de produzir, uma espécie de bridge em que as linhas vocais assumem o papel principal e um outro krautrockiano que é a pedra basilar de todo o disco. Três partes.

 

3 – Kanye West – Power [My Beautiful Dark Twisted Fantasy]

Isto é a sério? E aquele vídeo? Haverá algo mais ostensivo e declarado que aquilo? O homem até anda de coroa atrás. E provavelmente até é de ouro. Uma batida poderosíssima, como o próprio título indica, um refrão que fica no ouvido, um sample de King Crimson e uma coda de timing perfeito depois e estamos convencidos. Kanye que é Kanye viajará sempre com a sua crónica insegurança e a sua máscara de grandiosidade que vem com a coroa de rei, mas que não haja dúvidas sobre quem é o rei do pop hoje em dia.

 

2 – Sun Kil Moon – Third And Seneca [Admiral Fell Promises]

Mark Kozelek já tem vários anos e vários álbuns disto. Há dois anos, April, o seu terceiro disco desde o desaparecimento dos Red House Painters, prometeu e acabou esquecido. Heron Blue, possivelmente o melhor material que Kozelek já editou, era uma espécie de carimbo num disco intensamente pessoal e dedicado. Third And Seneca, a par do seu primo sónico Alesund, é uma espécie de tentativa de reinvenção da gloriosa Heron Blue. Trabalha com aquilo que Kozelek melhor sabe fazer: os seus inventivos arranjos de guitarra acústica e a sua vocalização característica e elíptica. Um sóbrio triunfo.

 

1 – The Walkmen – Blue As Your Blood [Lisbon]

Como é possível fazer tanto com tão pouco? Não é necessariamente este o Litmus Test que divide as boas bandas das grandes bandas, mas é uma demonstração inequívoca de talento. Aquela guitarra vai-se movendo a ritmo de comboio, em perfeita sincronia com a bateria. Aquela voz tão imediatamente reconhecível de Hamilton Leithauser enche-se de nostalgia quando é acompanhada de alguns dos magníficos arranjos orquestrais que a banda tanto tem feito para incorporar e melhorar nas suas músicas. Não parece pouco, é mesmo pouco. Mas chega e sobra, estranhamente.

 

Harvest Breed.

29
Out
10

Novos Lançamentos: Curtas

Stereolab – Not Music

A longa e frutuosa história dos Stereolab traduz-se numa engalanada mistura de simplicidade, despretensiosismo e pura alegria. A sua música convém um sentimento de júbilo que se encontra em poucos outros catálogos, com a possível excepção dos galeses Super Furry Animals. Not Music é mesmo, acredite-se ou não, o som de uma banda no seu décimo-primeiro álbum de originais, uma série iniciada ainda no início dos anos 90. Não só surge em coincidência com o óptimo disco a solo de Laetitia Sadier, The Trip, como com um anunciado hiato da banda, e, não surpreendentemente, está impecavelmente bem produzido. Not Music acaba por ser uma reunião dos retalhos das sessões do bem humorado Chemical Chords, e acaba até por incluir desde material que provavelmente nunca seria editado (Equivalences) até remixes (no caso, dos Emperor Machine e dos Atlas Sound). Nunca uma banda para seguir as estruturas convencionais do pop, os Stereolab soam em 2010 terrivelmente fora do seu tempo. O que só os torna ainda mais apelativos. E o magnetismo deste Not Music mais difícil de resistir. A deliciosa Everybody’s Weird Except Me:

The War On Drugs – Future Weather EP

É raro que um frontman se torne tão mais popular que a banda que lidera em tão pouco tempo quanto Kurt Vile se tornou. Talvez por isso, o EP que anuncia o futuro lançamento do próximo disco de originais dos The War On Drugs seja tão intimamente ligado ao que Kurt Vile tem feito a solo. Esse trabalho tem sido, de facto, notável. A combinação ideal de drum machines, com riffs de guitarra ora expansivos ora delicados, com uma voz ora distante e desafectada ora remetendo para o cliché de rockeiro throwback, é agora passada para um formato mais orgânico com uma banda inteira num estúdio a sério. Desengane-se quem pensa que ouvirá aqui U2, mas Future Weather é um excelente aperitivo para o prato forte que se avizinha para o ano que vem. Diverso e equilibrado, a banda de Philadelphia descobriu aqui o seu lugar junto do trabalho de Kurt Vile. Baby Missiles, o single de apresentação é um número rock sem desculpas e com uma confiança quase Springsteeniana, quanto mais não seja pela triunfante linha de teclados que o lidera. Apesar da nova expansividade, os The War On Drugs também encontram harmonia nas composições mais aveludadas, como é o caso de Comin’ Through:

Roof Light – Kirkwood Gaps

Trabalhando no limbo entre a explosão do dubstep, o ambient, a renovação do IDM dos anos 90 e o hip hop instrumental de Flying Lotus e precursores, o produtor britânico Gareth Munday, sob o nome de Roof Light, tem lançado algum do material mais excitante e compenetrante que tem aparecido no meio ultimamente. Cortesia da one-man-label de Thorsten Sideboard, a Highpoint Lowlife, Kirkwood Gaps é o LP de seguimento a vários 7” e EPs de Munday que têm mostrado talento evidente para a gestão de vazios e silêncios na música, bem como uma particular apetência para a produção pouco convencional no campo da electrónica ou no de ambient. Apesar de tudo, há algo em Kirkwood Gaps que faz da estreia em LPs de Munday algo mais introspectivo e realizado como um todo. Iniciando de forma quase declaradamente relaxada e reunindo uma palete de sons subtis e herméticos, Kirkwood Gaps divide-se ocasionalmente entre uma abordagem em certas alturas mais delicada e noutras abertamente fria, como em Losing My Mind:

Harvest Breed.




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