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17
Dez
09

O Melhor de 2009


Os Melhores Álbuns do ano


[25] Quiet Loudly | Soulgazer

[24] Yellow Swans | Mort Aux Vaches

[23] Ganglians | Monster Head Room

[22] The Intelligence | Fake Surfers

[21] Alva Noto | Xerrox, Vol. II

[20] Ducktails | Landscapes

[19] St. Vincent | Actor

[18] Kreng | L’Autopsie Phénoménale de Dieu

[17] Jim O’ Rourke | The Visitor

[16] Shackleton | Three EPs

[15] Kurt Vile | Childish Prodigy

[14] Sunset Rubdown | Dragonslayer

[13] Future Of The Left | Travels With Myself And Another

[12] Cryptacize | Mythomania

[11] Neon Indian | Psychic Chasms


[10] Bill Callahan | Sometimes I Wish We Were An Eagle

O melhor disco de folk do ano vem de um experimentado. No seu segundo registo a solo, consegue o balanço entre a sua voz grave e poderosa e a afectação sentimental que tem o seu pico em faixas como Jim Cain, All Thoughts Are Prey To Some Beast ou Too Many Birds. Prezando a invulgar simplicidade dos seus arranjos, Sometimes I Wish We Were An Eagle mantém uma coerência e uma consistência em toda a sua duração que é pouco usual no estilo, mesmo em discos considerados clássicos. Simples, sentido e intimista.

[09] Circulatory System | Signal Morning

Confesso que levei o meu tempo para me habituar totalmente ao regresso dos Circulatory System de Will Cullen Hart. Signal Morning é aquilo que conhecíamos dos The Olivia Tremor Control, frenético, irrequieto e ambicioso, feito em 2009, já algum tempo desde os tempos áureos da Elephant Six. Ainda assim, é muito viciante. Já como se vem tornado hábito nos conjuntos de Hart, Signal Moring vem recheado de algumas pérolas pop como o single Overjoyed, Round Again ou Rocks And Stones, desta feita com a produção mais rica e detalhada que ouvíamos nos seus projectos desde há muito, e combinados com belíssimos números acústicos como News From The Heavenly Loom ou I You We.

[08] Grizzly Bear | Veckatimest

Depois da excitação deu-se a aclamação e terminou com a inevitável contra-corrente. Acabou por ser uma verdadeira relação de amor-ódio que os críticos fomentaram com Veckatimest, o terceiro disco dos nova-iorquinos Grizzly Bear e aquele que os projectou para o reconhecimento. Apesar das críticas de pertencer a uma corrente de música alternativa de fato e gravata, Veckatimest continua a ser um disco impressionante. Impecavelmente produzido por Chris Taylor, nele experimentamos a harmonia de Two Weeks, a solidão de While You Wait For The Others ou a perfeição de Cheerleader. Sim, alguns dirão que poderá soar clínico e por vezes matemático. E então?

[07] Atlas Sound | Logos

Desde que saiu que tive sempre uma relação de altos e baixos com o disco de estreia de Bradford Cox sob a designação de Atlas Sound, Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel. Com Logos, sem margem para dúvidas uma proposta mais pop e convencional, foi imediato. Grande parte do álbum gravado em take directo, Logos opta por uma via acústica onde Let The Blind… tinha escolhido electrónica densa e fria, e esconde nele algumas das melhores melodias pop que Cox compôs até à data. Para além da colaboração com Panda Bear em Walkabout, Shelia será sem dúvida uma das faixas mais viciantes do ano, enquanto The Light That Failed ou Criminals aperfeiçoam a fórmula de shoegaze que Cox tem popularizado.

[06] Mulatu Astatke & The Heliocentrics | Inspiration Information, Vol. 3

Mulatu Astatke não necessitará de grandes apresentações. Pioneiro do jazz etíope fundido com influências clássicas ocidentais, aos 66 anos juntou-se ao conjunto de jazz experimental londrino The Heliocentrics no sentido de fazer um registo que fundisse a ousadia dos segundos com as sensibilidades musicais do primeiro. Com os The Heliocentrics, Astatke tem a combinação perfeita que lhe permitiu fazer um álbum extraordinário, Inspiration Information, Vol. 3. Recaindo bastante na construção de ritmos infecciosos e instrumentalização imaginativa e extremamente competente, Inspiration Information, Vol. 3 é já de si composta em parte por um conjunto de covers da impressionante carreira de Astatke.

[05] Natural Snow Buildings | Shadow Kingdom

Há muito que se diga do intenso culto montado à volta do duo francês de drone folk Natural Snow Buildings. Mehdi Ameziane e Solange Gularte lançam vários álbuns e duplo álbuns por ano, até nos seus projectos a solo TwinSisterMoon e Isengrind respectivamente, mas pouco ou nada se sabe sobre eles. Shadow Kingdom é o último registo da dupla, uma espécie de trabalho visual acompanhado de ilustrações sugestivas feitas pelos dois e que combinam com o triplo LP. Denso, compenetrado e sempre intenso, Shadow Kingdom é mais uma excelente adição ao longo catálogo da banda.

[04] The Flaming Lips | Embryonic

Este era suposto ser o ano em que os Flaming Lips se assumiam definitivamente como banda ao vivo e deixavam para trás a sua tradição de produzir álbuns com a qualidade de Yoshimi Battles The Pink Robots ou The Soft Bulletin. A coisa é que acabou por não ser bem assim, e o culpado é Embryonic. Não será fácil saber como incorporar alguma da música psicadélica e experimental que aqui aparece no espectáculo ao vivo da banda, por entre Teletubbies e explosões de confetti. Mas para já chega-nos este monstro que dá pelo nome de Embryonic, um disco tanto pop, como em Convinced Of The Hex ou Silver Trembling Hands, como ousado, em Powerless ou The Ego’s Last Stand.

[03] A Sunny Day In Glasgow | Ashes Grammar

A cada ano que passa nunca deixa de faltar aquela banda que se supera e nos surpreende. Aquela da qual sempre gostávamos, mas nunca nos tinha agarrado pelos colarinhos. Este ano foi a vez dos A Sunny Day In Glasgow. Ashes Grammar nunca teve nenhum single que ficasse no ouvido e os A Sunny Day In Glasgow provavelmente sofrerão sempre da falta de exposição por estarem assinados com a minúscula Mis Ojos Discos, mas este foi um disco que acabou por ganhar tracção por pura força de boato e diz-que-disse. Os A Sunny Day In Glasgow podem não ser mesmo escoseses, mas Ashes Grammar tem todo do misticismo e densidade da bruma britânica, com toda a modernização dos cânones do shoegaze das terras de Sua Majestade.

[02] Real Estate | Real Estate / Reality EP

Com todo o falatório de chillwave e glo-fi este ano, não deixa de ser interessante como estes Real Estate, com pouco em comum com a sonoridade reinante deste novo género, tenham aparecido a navegar a onda do seu hype. Contando com Matthew Mondanile, que a solo opera como Ducktails, com Alex Bleeker, que já tem um disco como Alex Bleeker and Friends, e Martin Courtney e Etienne Pierre Duguay, os Real Estate lançaram o trabalho com mais potencial de colocar em repeat do ano. Com um nome tão mundano e corriqueiro, é estranho que os Real Estate tenham no seu disco homónimo e no seu EP Reality alguma da música mais relaxada e feel-good dos últimos anos, mas essa é a realidade.

[01] Wild Beasts | Two Dancers

O que é que mudou no espaço de menos de um ano para que os Wild Beasts se transformassem daquele conjunto de excessos e de falsettos com innuendo sexual com letras sugestivas para um grupo de quatro rapazes sóbrios que fazem música altamente personalizada, fria e afectante? Ninguém deve saber bem ao certo, mas tanto que abraçamos esta mudança como podemos declarar Two Dancers como o disco do ano. Um trabalho equilibrado como mais nenhum, impecavelmente produzido como poucos, arrepiante sem paralelo. Two Dancers vagueia desde ritmos dançáveis até sensibilidade emotiva, exactamente como mais nenhum este ano. Simplesmente único.


Uma Playlist de 2009


[01] HEALTH | Die Slow [Get Color]

[02] Phoenix | Armistice [Wolfgang Amadeus Phoenix]

[03] Atlas Sound ft. Noah Lennox | Walkabout [Logos]

[04] Super Furry Animals | White Socks/Flip Flops [Dark Days/Light Years]

[05] Animal Collective | In The Flowers [Merriweather Post Pavillion]

[06] Real Estate | Beach Comber [Real Estate]

[07] The Horrors | Sea Within A Sea [Primary Colours]

[08] Neon Indian | Deadbeat Summer [Psychic Chasms]

[09] Bill Callahan | Too Many Birds [Sometimes I Wish We Were An Eagle]

[10] Grizzly Bear | While You Wait For The Others [Veckatimest]


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Harvest Breed.

15
Dez
09

Novos Lançamentos: Field Music – Measure

A nossa paixão pelo pop alternativo e inteligente dos Field Music já não necessita de apresentações. O colectivo tem estado particularmente produtivo no que diz respeito a lançamentos ultimamente. Enquanto no ano passado vimos um hiato do conjunto de Sunderland dar lugar a projectos separados de ambos os irmãos Brewis, David com School of Language, mais orientado para o rock clássico com fantásticos tons de guitarra, e Peter com The Week That Was, misterioso e gabando uma produção sem falhas servindo-se de poderosas linhas de percussão, e em 2009 pouco ouvimos falar de Field Music, 2010 vai abrir com um dos discos que mais ansiávamos ouvir, Measure, o terceiro e mais recente disco com a chancela Field Music, desta feita reunindo os dois irmãos Brewis e a sua formação original sem o teclista Andrew Moore, que persegue uma carreira como chef culinário. E fazendo jus à tradição inglesa de subestimar as poucas bandas que se apresentam a fazer bom pop alternativo, não é de surpreender que ao longo destes quatro discos, com Measure serão cinco, os Field Music se tenham mantido nos confins do quase anonimato. E apesar de ser pouco provável que Measure os retire dessa condição, ainda menos provável será evitar as comparações com os mestres de pop alternativo e impecavelmente produzido, XTC. Isto porque Measure representa uma nova forma dos Field Music lançarem música, com um grandioso e denso duplo álbum, mas também uma forma de sequenciação de música tipicamente cíclica que o aproxima de um English Settlement. Na verdade esta é uma ideia que é ilustrada quase como provocação na capa do novo registo, que retrata um conjunto de pautas desinteressadamente borradas por um assomo de cor. E quando ouvimos a segurança de muito do material de Measure, porque não abraçar estes novos, ambiciosos e desafiantes Field Music?

Previsivelmente, com a reunião de Peter e David Brewis, assistimos também em Measure a uma junção do que de mais forte tinha lugar quer em School Of Language, quer em The Week That Was. Assim sendo, é natural ouvirmos aqui o regresso dos maravilhosos tons de guitarra de School Of Language e da produção cristalina e detalhada de The Week That Was, aliados à habitual inventividade de ambos. É talvez a experiência reunida pelos dois enquanto estiveram afastados um do outro que acaba por tornar Measure no melhor e mais completo disco com a marca Field Music. E a melhor parte disto tudo é que temos mais de uma hora de nova música dos Field Music para digerir aqui, o que nos garante múltiplas audições sempre com novidades por descobrir. A primeira barreira a derrubar é a da faixa de apresentação. Enquanto em Tones of Town, o seu último registo datado de 2007, os irmãos entravam com Give It Lose It Take It, uma pérola pop recheada de riffs diferentes e viciantes, em Measure esta é uma barreira que passam com distinção. In The Mirror tem um vibe tenso e pesado, associado a alguns dos arranjos mais grandiosos que já ouvimos nos registos Field Music, metendo pelo meio o típico refrão não imediato, nunca é imediato com esta banda e essa é uma das peculiaridades que mais atrai neles, mas medido na perfeição e encaixando como uma luva no mundo místico da faixa. Assombroso. A partir daqui Measure arranca definitivamente para aquilo que será um corpo de músicas inatacável e eclético. O contraste de In The Mirror para o tom divertido e dasanuviado de Them That Do Nothing não podia ser maior, enquanto que em Each Time Is A New Time ouvimos a entrada definitiva dos tais tons da guitarra de David Brewis, limpos, sumarentos e com enorme impacto.

Tal como todo o duplo álbum, Measure tem duas partes distintas que se dividem à passagem de You And I; a primeira adopta uma sonoridade mais tradicionalmente pop que reconhecemos dos trabalhos da banda, já a segunda procura dar relevo a texturas que envolvam essa mesma abordagem num invólucro mais minimalista e contido. Não deixa de ser a prova provada do crescimento de David e Peter como compositores a forma como conseguem inserir e fazer combinar arranjos cada vez mais ambiciosos na sua música. O melhor exemplo disso acontece no tema-título, onde o fabuloso arranjo de cordas de Peter segue a par e passo o trabalho de guitarra de David, feito de nuances e pequenas peculiaridades, tudo em menos de três minutos. Isto acaba por ser algo que se repete um pouco por todo o registo, seja na épica Lights Up, na curiosa The Rest Is Noise ou na secção de sopro que eleva See You Later. Em Measure assistimos também ao ganhar de protagonismo de alguns dos números mais minimalistas e introvertidos da banda, talvez aqueles em que melhor conseguimos captar a essência dos Field Music, que apareciam já na compilação de lados-B Write Your Own History. Surgindo na maioria na segunda metade de Measure, a pensativa Curves Of The Needle, a morosa Choosing Numbers, também com delicados arranjos de cordas, ou a jóia da coroa You And I, são pontos altos, mas é com os sons de tráfego de It’s About Time que Measure finaliza, não com estrondo, mas com subtileza. No fim, este disco prova que ainda há lugar para bandas que inovem e expandam as fronteiras do pop alternativo. “Is this supposed to be a magic spell?”, proclama David Brewis em Clear Water, a voz afogada em reverberação. De certa maneira sim, mas é certamente suposto ser um dos melhores discos do ano que aí vem.

Tracklist:

  1. In The Mirror
  2. Them That Do Nothing
  3. Each Time Is A New Time
  4. Measure
  5. Effortlessly
  6. Clear Water
  7. Lights Up
  8. All You’d Ever Need To Say
  9. Let’s Write A Book
  10. You And I
  11. The Rest Is Noise
  12. Curves Of The Needle
  13. Choosing Numbers
  14. The Wheels Are In Place
  15. First Comes The Wish
  16. Precious Plans
  17. See You Later
  18. Something Familiar
  19. Share The Words
  20. It’s About Time

Harvest Breed.

12
Dez
09

Gira-Discos: Felt – Forever Breathes The Lonely Word

Enquanto se foi tornando ideia popular que os The Smiths se apresentaram como porta-estandartes da música alternativa dos anos 80, com claras ligações ao pop, uma das primeiras bandas que hoje podemos responsabilizar pela criação da estética indie foram os ingleses Felt. Lançando dez discos em apenas nove anos entre 1981 e 1989, mostrando uma característica apetência para a produtividade quase industrial do estilo, todos editados em editoras independentes, primeiro na minúscula Cherry Red e depois na reputada Creation Records, os Felt cedo estabeleceram um espírito de ligação à estética que promoviam que se revelou muito ligado à autonomia e aos desejos e lutas de independência que eram frequentes no punk dos anos 70. Apesar disso, a música que produziram sempre esteve o mais afastado possível do que consideramos punk. Liderados pelo enigmático e carismático vocalista e compositor da maioria do seu material, Lawrence, que nunca quis ser reconhecido nem creditado pelo seu último nome, Hayward, os Felt praticaram numa primeira fase, com especial apetência e ligação com a música instrumental, uma sonoridade bastante virada para o gótico dos The Cure ou dos Joy Division nos seus momentos mais sombrios, que depois se veio a traduzir, quando a banda começou a incorporar em definitivo partes vocais na sua matriz, numa viragem para o pop de guitarra não distinto do conjunto de Morrissey e Marr.

E enquanto na primeira fase desta direcção musical, mais pesada e negra, a génese criativa dos Felt residia na dinâmica entre Lawrence e o seu parceiro de composição Maurice Deebank, guitarrista, as coisas não tardaram a mudar. Com a mudança de sonoridade, muda também a constituição da banda, e Deebank sai de cena em discordância da nova direcção criativa depois de sete anos nos Felt, e ao sexto disco, em 1986, Forever Breathes The Lonely Word, o conjunto de Birmingham dá o passo decisivo rumo ao pop que Lawrence sempre quis incorporar com maior proeminência na identidade sónica dos Felt. Deixando para trás o gótico, essencialmente dos seus primeiros dois discos, e as texturas pesadas e sombrias, Forever Breathes The Lonely Word é um exercício em pop de guitarras bem conseguido, com composição forte e consistente, e no global um dos discos mais importantes da música alternativa pop dos anos 80. Já na Creation, este seria o segundo álbum do grupo na nova editora, o segundo a contar com uma nova constituição onde Lawrence assumia ainda mais relevância e o primeiro da história da banda sem qualquer faixa instrumental. Nesta nova composição ainda assumiria maior protagonismo a adição de Martin Duffy como novo teclista, ele próprio que viria a fazer parte de futuras composições dos Primal Scream e dos Charlatans, protagonismo esse que até se reflectiu no seu aparecimento em grande plano na capa de Forever Breathes The Lonely Word. Esta viria a ser uma decisão que teria de facto grande impacto na sonoridade do disco: o trabalho de teclado de Duffy está presente em praticamente todas as faixas, sempre demonstrando uma impressionante elasticidade e destreza para se adaptar à composição de Lawrence, ele sim, creditado como único compositor do registo.

Convém não esquecer também mais duas razões que fazem de Forever Breathes The Lonely Word o trabalho mais acessível e pop, mas também mais competente e consistente dos Felt: a contribuição do baixo vibrante de Marco Thomas, e as melodias e floreados da guitarra do próprio Lawrence. Essas são duas vertentes que saltam logo à vista na faixa de abertura, Rain Of Crystal Spires, plena já do estilo de teclado que Duffy deixa um pouco por todo o lado neste álbum e uma introdução à altura do impacto que este disco veio a ter subsequentemente. Contudo, torna-se fácil concluir que este é um álbum de vários pontos altos, muitos recaíndo bastante na melancolia das letras de Lawrence que casava com um estilo de instrumentalização muito dado ao delicado tom da sua guitarra, uma matriz que muitas bandas desde os Belle & Sebastian, Stuart Murdoch cita mesmo os Felt como a principal influência na música do seu conjunto e Lawrence como o melhor letrista de sempre, até aos The Clientele adoptaram. Muitas destas faixas são tão vitoriosas mesmo em virtude da sua simplicidade, da forma como a voz dolorosa e distante de Lawrence se enquadra na fragilidade da sua guitarra e na diversidade dos teclados de Duffy. Veja-se só a forma como a balada de saudosismo September Lady faz conjugar todos estes elementos numa tempestade perfeita, ou como a mais ambiciosa All the People I Like Are Those That Are Dead assume o papel de peça central do disco no meio de uma realização de fé com um subtil e inteligente trabalho de letras, “I’ve been a two-time tearaway and God has told me so / but I don’t believe in him, you know”. Forever Breathes The Lonely Word tem a bagagem completa de um fenomenal disco pop de guitarra: uma secção rítmica bem coordenada, composição no auge da carreira de Lawrence, guitarras delicadas e precisas, arranjos certos nos momentos certos e letras que fazem cintilar todo o talento por trás disto tudo. Simplesmente demasiado bom para permanecer na falta de reconhecimento que tem.

Tracklist:

  1. Rain Of Crystal Spires
  2. Down But Not Yet Out
  3. September Lady
  4. Grey Streets
  5. All The People I Like Are Those That Are Dead
  6. Gather Up Your Wings And Fly
  7. A Wave Crashed On The Rocks
  8. Hours Of Darkness Have Changed My Mind

Harvest Breed.

09
Dez
09

Gira-Discos: Lovesliescrushing – Xuvetyn

Com o inevitável desaparecimento em estúdio dos My Bloody Valentine, o shoegaze cedeu as luzes da ribalta ao britpop na Grã-Bretanha, onde tem a sua génese grande parte da sua identidade sónica, e deixou para trás incontáveis pérolas por descobrir para lá dos que conseguiram granjear algum tipo de reconhecimento público ou crítico. E agora que, com o surgimento e popularidade de bandas como os Deerhunter, os A Sunny Day In Glasgow ou os mais convencionalmente pop The Pains Of Being Pure At Heart, o shoegaze aparenta ter regressado a uma segunda era dourada, importa constatar o aconteceu no interregno. Bandas como os My Bloody Valentine, os Slowdive ou os Ride que assumiram papéis de destaque na cena britânica do início da década de 90 ou simplesmente desapareceram por completo ou agora limitam-se a tocar os clássicos em digressões de reunião, mas foi precisamente no quase anonimato que o shoegaze conseguiu ter seguimento quer no final da década de 90 quer ao virar do século até à sua nova era. E foi nesse anonimato que germinaram bandas como o duo de East Lansing no Michigan, Lovesliescrushing, já de si um local de pouca ou nenhuma tradição no estilo ou em qualquer dos seus semelhantes. Mas tal como os My Bloody Valentine o tinham sido no passado, os Lovesliescrushing acabam por ser mais o projecto pessoal de um génio metódico e concentrado do que de um conjunto em estúdio que junta as suas partes a um todo. No caso falamos de Scott Cortez, o mentor dos Lovesliescrushing, que procurou sempre obedecer a uma estética sónica por si definida que incluía a utilização extensiva da guitarra, de efeitos que se podiam associar a ela e dos tratamentos de estúdio de que poderia ser alvo.

Assim, Cortez desenvolveu a noção de que a música da banda seria despida de qualquer tipo de percussão, incluindo bateria, e que consistiria apenas do seu trabalho detalhado e ambicioso de guitarra e de uma voz feminina etérea e cristalina que pudesse ser adicionada com sucesso a esta fórmula, voz essa que encontrou forma nas cordas vocais de Melissa Arpin. Por fim, que toda a composição fosse feita num gravador de quatro pistas. Mas nem sempre foi essa a ideia. Imediatamente no seguimento da constituição dos Lovesliescrushing, a sua declaração de intenções passava pela formação de um conjunto de dream pop na linha da dinâmica de Tim Gane e Laetitia Sadier nos Stereolab. Felizmente, cedo Cortez e Arpin perceberam que as suas ambições superavam os seus constrangimentos estilísticos, e cedo os Lovesliescrushing pautaram a sua acção em estúdio pela grandeza das suas ideias e pela produtividade com que conseguiam executá-las. Depois do lançamento do seu disco de estreia, Bloweyelashwish em 1995, essa é uma ideia que fica ainda mais na retina, com as suas vinte faixas e quase uma hora de instrumentalização transcendente e penetrante, mas seria uma certeza que sairia ainda mais reforçada, com impacto bem mais intenso no seu segundo registo efectivo em 1996, Xuvetyn. Cortante e vibrante, Xuvetyn é o resultado do processo criativo de Scott Cortez a atingir o seu pico. Ainda mais longo e ambicioso que Bloweyelashwish, mais maduro e completo, efectivamente potenciando ao máximo as ideias do seu disco de estreia. E de novo, porque acaba por ser esquecido hoje em dia, é impossível não ver já no trabalho de Arpin e Cortez a brutalidade da essência dos Deerhunter, ou a dinâmica da relação entre instrumentalização e vozes sonhadoras que é a base dos A Sunny Day In Glasgow. É impossível não ver o duo de Michigan como peça essencial do puzzle do shoegaze moderno.

E para isso, o papel de Xuvetyn é vital. Um disco que passa para lá da hora e um quarto, que deve ser entendido como um todo e ouvido como uma única experiência musical. Algo, inclusivamente, que passa por fazer parte de uma nova matriz do shoegaze dos Lovesliescrushing, menos virado para as estruturas pop convencionais dos Ride ou dos My Bloody Valentine, e mais direccionado para incursões instrumentais hipnóticas e titubeantes. O que, se olharmos a muito do estilo de shoegaze que se faz hoje em dia, acaba por patentear a banda como uma das pioneiras de uma nova forma de fazer shoegaze bem à frente do seu tempo. Uma ideia que acaba por se juntar às técnicas pouco convencionais de reproduzir ruído em estúdio por parte de Cortez, servindo-se de tudo desde réguas de metal até pregos, passando por garfos e chaves de fendas para criar novos tons de guitarra, nunca recorrendo a teclados para o fazer, algo que, ouvindo Xuvetyn, parece praticamente impossível de acreditar. Convém também não menosprezar o papel da voz divinal de Melissa Arpin no meio disto tudo. Por entre a brutalidade dos sons gigantescos que se podem ouvir em Xuvetyn, é pela sua voz que estes temas são transportados para outra dimensão. Algo que é facilmente constatado na majestosa faixa de abertura Valerian (Her Voice Honeyed), logo seguido, tal como é o caso com a maioria das faixas extensas em Xuvetyn, de um interlúdio, no caso a pulsante e poderosa Aquan 1, não menos essencial, de seguimento para a faixa seguinte. Contudo, é nos números mais complexos que conseguimos vislumbrar toda a ambição e capacidade de execução de Cortez e Arpin. Números como a imensa Xarella Almandyne, a etérea Blooded And Blossom-Blown ou as compenetrantes Silver (Fairy Threaded) ou Ghosts That Swirl. Xuvetyn tem ambição e coragem artística para dar e vender, mesmo num gravador de quatro pistas. Redefinindo aquilo que hoje consideramos como lo-fi, para além da sua ambiciosa imensidão, este foi um dos discos mais silenciosamente importantes dos últimos quinze anos.

Tracklist:

  1. Valerian (Her Voice Honeyed)
  2. Aquan 1
  3. Mandragora Louvareen
  4. Staticburst
  5. Xarella Almandyne
  6. Milkysoft
  7. Blooded And Blossom-Blown
  8. Hum Vibralux
  9. Virgin Blue-Eyed
  10. See Saw
  11. Flowered Smother
  12. Monar
  13. Silver (Fairy Threaded)
  14. Luma (Web-Like And Crescent)
  15. Golden-Handed
  16. Bones Of Angels: Bronze Lit Feathers/Her Tongue Pulled Out
  17. Ghosts That Swirl
  18. Mother Of Pearl

Harvest Breed.

09
Dez
09

Novos Lançamentos: Charlotte Gainsbourg – IRM

A carreira de Charlotte Gainsbourg faz-se de notoriedade. Filha do controverso e reconhecido Serge Gainsbourg e da actriz-cantora Jane Birkin, Charlotte acabou por seguir as pisadas criativas da mãe e perseguir uma carreira quer no mundo da representação, quer na música. Depois de um falso começo sob a forma do controverso Lemon Incest com o pai, a primeira aventura de Gainsbourg no estúdio fez-se com 5:55, disco que contou com as letras de Jarvis Cocker, ex-Pulp, e Neil Hannon, ex-Divine Comedy, com a música do duo francês de pop suave e cristalino Air, e com a produção do peso-pesado Nigel Godrich, reconhecido pelo seu trabalho com os Radiohead. Com tantos colaboradores e empreiteiros, tornou-se complicado perceber onde encaixava Charlotte no meio disto tudo, para além de obviamente ter dado a cara pelo projecto. O que é verdade é que 5:55 acabou por dar num disco perfeitamente agradável, se tanto algo insosso e hermético, mas que deixou no ar uma sensação desconjuntada de falta de identidade. Talvez por isso, Charlotte acabou por decidir, no seguimento da tournée de promoção de 5:55, não mais se dedicar aos projectos musicais, com a sensação pessoal da sua própria incapacidade para compôr música.

E a decisão acabou por se manter, pelo menos até 2007 quando foi vítima de um grave acidente de esqui, na sequência do qual se viu a braços com uma hemorragia cerebral que a obrigou a internamentos e sucessivas visitas a hospitais. Daqui pareceu surgir a sua fixação por tudo o que envolva testes médicos, com especial preocupação para a ressonância magnética, que acaba por dar o nome ao seu segundo registo propriamente dito, em francês IRM. Foi de facto com sons de máquinas de ressonância magnética que Charlotte abordou outro parceiro musical, desta feita Beck, no sentido de compor música que assumisse um cunho muito mais pessoal e íntimo que em 5:55. Desenvolvendo os seus dotes de composição em conjunto com Beck, Gainsbourg adoptou vários métodos de tentar transpor apenas vagas ideias musicais em música. IRM acaba então por ser uma proposta muito mais personalizada que 5:55, seja por incluir mais da pessoa cujo nome está na capa do disco, seja até por pormenores mais singelos como o de algumas faixas contarem com participações dos próprios filhos de Gainsbourg. Contudo, não deixa de ser um disco derivativo que acaba por ficar confortável na sua própria pele. Um bom exemplo disso é a faixa de abertura Master’s Hands, que dá ares de Feist onde simultaneamente inclui harmonias vocais e trabalhos acústicos interessantes.

Assim sendo, não é de enjeitar ver este disco percorrer caminhos bastante distintos desse com resultados satisfatórios. Talvez a faixa que mais procura captar o período de vida que motivou Gainsbourg a compor o seu mais recente trabalho depois de ter professado que não o faria será mesmo o tema-título. IRM junta uma batida tensa e insistente aos tais propalados sons de máquinas de ressonância magnética, tirando máximo proveito do ecléctico trabalho de produção de Beck, com letras sugestivas. Apesar de retirar inspiração a outros lados, IRM não deixa de ser diverso e refrescante. Enquanto ouvimos o saudosismo com que Beck e Gainsbourg parecem ter estabelecido uma ligação durante as suas carreiras em faixas como Le Chat Du Café Des Artistes ou Voyage, In The End remete-nos para Beatles da era Rubber Soul, Trick Pony para a mecanização de uma Goldfrapp e Greenwich Mean Time para o twist moderno na pop que Beck tem conseguido popularizar desde que saiu Odelay. Quando os seus colaboradores, se é que será essa a palavra a utilizar neste caso, em 5:55 conseguiram liofilizar qualquer contribuição que pudesse estabelecer aquele disco como um trabalho da própria Gainsbourg, Beck é o parceiro certo para injectar o cunho pessoal cuja ausência em 5:55 quase levou ao seu adeus à música. O resultado acaba por ser um disco agradável e simpático que finalmente consegue distinguir Gainsbourg do seu berço.

Tracklist:

  1. Master’s Hands
  2. IRM
  3. Le Chat Du Café Des Artistes
  4. In The End
  5. Heaven Can Wait
  6. Me And Jane Doe
  7. Vanities
  8. Time Of The Assassins
  9. Trick Pony
  10. Greenwich Mean Time
  11. Dandelion
  12. Voyage
  13. La Collectionneuse
  14. Looking Glass Blues

Harvest Breed.

07
Dez
09

Super Bock em Stock, 04/05-12-09

Wild Beasts no São Jorge, 4/12/09 21:30-22:30

Segunda edição do menos orçamentalmente abonado festival dos que têm Super Bock no nome viu a estreia em Portugal dos muito elogiados Wild Beasts, praticamente abrindo o festival e com um set de apenas 60 minutos. A banda de Leeds apresentou-se sob a toada fria e majestosa do seu último disco, o belíssimo Two Dancers, extraíndo de lá a maioria da sua setlist. Com uma competência e uma entrega assinalável, o quarteto reforçou o brilhantismo do seu mais recente LP e a exuberância do seu registo de estreia. O delicado semblante de His Grinning Skull e a inquietude de Brave Bulging Buoyant Clairvoyants mostraram que há mais desta banda para lá de Two Dancers.

Nota: 9.5

Voxtrot no São Jorge, 4/12/09 23:15-00:30

Criativamente falando, os texanos Voxtrot dão toda a ideia de estarem à deriva. Depois de recentes sessões na sua cidade natal de Austin com o baterista dos Spoon, Jim Eno, a banda emergiu com dois singles que fizeram inclusivamente parte do seu set no São Jorge, o desajustado Trepanation Party e o mais inspirado Berlin, Without Return. Mas parece ser com o material mais primordial que a banda se sente mais à vontade e isso reflecte-se numa melhor ligação com o público e, nesse aspecto, o magnetismo do vocalista Ramesh Srivastava faz o resto, inclusive um encore acompanhado apenas de guitarra acústica. Tudo isto se traduz num concerto certinho, mas divertido.

Nota: 7.5

Beach House no Tivoli, 5/12/09 22:15-23:15

Passou um ano desde o memorável concerto no Maxime, daqui por uns três meses estarão de volta a Lisboa, mas para os Beach House este ano mudou tudo. As digressões de Victoria Legrand com os Grizzly Bear, e principalmente o seu mais recente Teen Dream restabeleceram e irão propalar o duo de Baltimore para maiores públicos. Entretanto apresentaram-se no Tivoli com um set já muito inclinado para os temas do seu último registo, e estão uma banda diferente. Menos pessoal e íntimo do que tinha sido no Maxime, mas a diferença de confiança em palco e de dimensão traduzida para a audiência foi abismal. Um concerto que acabou por confirmar uma banda em pleno crescimento.

Nota: 9.5

The Invisible no São Jorge, 5/12/09 23:00-00:00

Depois de ter falhado o concerto de The Invisible no Pukkelpop deste ano por sobreposição de horários, estava determinado a que não voltasse a acontecer, mas pelo menos em parte aconteceu mesmo. Aqueles que são regularmente, mas injustamente, apelidados junto dos media britânicos como os Tv On The Radio ingleses apareceram emparedados pelos concertos de nomes fortes como Beach House ou Little Joy, mas fizeram uma performance extremamente competente. Navegando quase sem esforço por entre números sombrios e maléficos e faixas de toada mais dançável, os The Invisible mostram a aptidão fantástica que lhes valeu a nomeação para o Mercury Prize deste ano e um óptimo controlo do público.

Nota: 7.5

Little Joy no Tivoli, 5/12/09 23:45-01:00

O conjunto americano-brasileiro que apareceu em cena no ano passado com um dos discos de estreia mais apelativos e sedutores do ano acabou também por ser a banda mais aplaudida e aclamada do festival. E com boa razão. Os Little Joy são de uma alegria contagiante em palco, traduzindo isso numa óptima relação com o público, que cedo se levantou das cadeiras e se juntou em constantes singalongs, fazendo bom uso da vantagem da língua. A pura simplicidade e inocência do seu material traduz-se num espectáculo simplesmente divertido, livre de pretensiosismos, mas também de momentos pesados. Os números mais reflectivos sob a voz solitária de Rodrigo Amarante ou Binki Shapiro são claros pontos altos de um concerto marcado pela alegria.

Nota: 9

Kap Bambino no Parque de Estacionamento do Marquês de Pombal, 5/12/09 00:45-01:45

Não haja dúvida que um parque de estacionamento acaba sempre por ser um local estranho para um concerto, já nem falo de palco, bares e barraquinhas de comes-e-bebes. Mas tendo em conta aquilo que apresentaram os franceses Kap Bambino, uma espécie de versão europeia de electrónica imediata e distraída dos canadianos Crystal Castles, até nem acabou por estar muito desajustado. Contando com uma falange de apoio adolescente que respondia a todos os berros indistintos e gestos bizarros de Caroline Martial, que dava voz, ou qualquer coisa nesse sentido, ao grupo de Bordéus, a abordagem dos Kap Bambino mostra que não é impossível juntar a saga do Twilight aos Crystal Castles em formato musical.

Nota: 3

Harvest Breed.

03
Dez
09

Em Alta Rotação Este Mês

Compilação do Mês de Dezembro:

  1. Natural Snow Buildings – Gorgon [Shadow Kingdom]
  2. Wetdog – Lower Leg [Frauhaus!]
  3. Beach House – Walk In The Park [Teen Dream]
  4. Major Lazer – Pon de Floor feat. VIBZ Kartel [Guns Don't Kill People... Lazers Do]
  5. Javelin – Tryouts [Jamz N Jemz]
  6. Ital Tek – Topaz [Mako]
  7. Charlotte Hatherley – White [New Worlds]
  8. Toro Y Moi – Talamak [Causers Of This]
  9. Lindstrøm & Christabelle – Lovesick [Real Life Is No Cool]
  10. The Wicked Awesomes! – 80GB iPod [Punk Holograms]
  11. Animal Collective – I Think I Can [Fall Be Kind EP]
  12. Factums – See Inside [Flowers]
  13. Monolake – Null Pointer [Silence]
  14. Drummer – Serious Encounters [Feel Good Together]
  15. The Mantles – What We Do Matters [The Mantles]
  16. Warpaint – Stars [Exquisite Corpse EP]
  17. The Mayfair Set – Let It Melt [Young One]
  18. Sleepwalker – I [Sleepwalker]
  19. Mountain Man – Dog Song [Mountain Man]
  20. Gun Outfit – Control [Dim Light]

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Harvest Breed.

27
Nov
09

Banda Em Foco: Associates

Ouvindo os Associates hoje em dia, não deixa de surpreender o que podia passar por pop nos anos 80, mesmo com todas as conotações negativas que a era transporta e com o envelhecimento pouco carinhoso para as bandas que faziam parte do pop da altura. Mas a verdade é que em poucos outros momentos na história da música moderna se viu a entrada e a ascenção de bandas e ídolos pop tão pouco convencionais ou inovadores penetrarem o mainstream como aconteceu nos anos 80. Um dos mais peculiares desse lote acabou por ser o duo escocês Associates. Compostos pelo multi-instrumentista Alan Rankine e o seu emblemático e extravagante vocalista Billy Mackenzie, os Associates foram responsáveis por alguma da música mais inovadora e audaz que conseguiu navegar ao sabor da onda de glam chic que David Bowie e seus pares promoveram para conseguir captar as atenções do público geral. Com efeito, não é supreendente que o primeiro single dos Associates tenha acabado por ser uma versão de uma música de David Bowie, Boys Keep Swinging, mesmo antes do próprio a ter editado em estúdio.

Apesar da grande fortaleza do seu espólio musical residir nos singles editados, podemos apreender a essência deles nos seus três álbuns lançados entre 1980 e 1982 antes de Rankine sair da banda em conflito com Mackenzie, com efeito compilações dos próprios singles editados no mesmo espaço de tempo. Depois de abandonarem a designação de Mental Torture em 1979 quando para todos os efeitos iniciaram a sua colaboração musical, Rankine e Mackenzie entram em estúdio para produzir The Affectionate Punch, efectivamente o primeiro disco que lançaram como Associates, onde contaram também com a colaboração do baixo de Michael Dempsey, anteriormente dos The Cure, e de John Murphy, futuro baterista da banda de culto Death In June, que ainda assim não iriam fazer parte da formação oficial, mas também de Robert Smith, líder dos The Cure, fornecendo participações vocais adicionais. The Affectionate Punch constituiu e sumarizou muito do que se passava na altura em termos musicais, a emergência do pós-punk, as guitarras cortantes, as vozes peculiares. Nesse aspecto os Associates acabaram por se conseguir distinguir pelas particularidades que os seus dois membros acrescentavam a essa fórmula: Alan Rankine possuía uma forte inclinação para o experimentalismo, fazendo-se servir de inúmeros recursos em estúdio para conseguir a sonoridade que desejava, desde utilizar tubos de aspirador para gravar a voz de Mackenzie até ao aproveitamento sons de tosse como percussão simulada; já Billy Mackenzie representava aquilo a que um crítico uma vez denominou de “tranny in a wind tunnel”, excêntrico e teatral ao ponto do exagero e da overdose do dramático.

Contudo, foi com o mais reconhecido Fourth Drawer Down que os Associates começaram a obter algum do reconhecimento que mereciam e que em última análise os iria conduzir aos tops. Fourth Drawer Down é um fantástico documento do que os Associates tinham de melhor, casando na perfeição o experimentalismo de Rankine com a peculiaridade dramática de Mackenzie. Nele conseguimos ouvir laivos da perturbadora expansividade silenciosa de uns Suicide e de um new wave paranóico e trepidante conduzido pela inventividade electrónica de Rankine, que aqui recria algumas das mais complexas estruturas musicais que ainda assim conseguiam passar por pop. Fourth Drawer Down marcou também o período de maior abuso de narcóticos do duo, que nas sessões de gravação do disco chegou inclusive a ser internado de urgência por abuso de metanfetamina. Ainda assim, é em faixas como White Car In Germany, com uma batida preguiçosa e uma vocalização tipicamente teatral, Tell Me Easter’s On Friday, uma balada retro-futurista e metálica, ou na fria e tensa Q Quarters que a singularidade de Rankine e Mackenzie mais se notou talvez em toda a sua carreira, por muito curta, mas profícua que se viria a verificar.

Com Sulk, o último registo da banda em prelúdio da saída de cena de Rankine em 82, os Associates viriam a realizar as suas ambições de sucesso comercial nos tops britânicos, com especial relevo para os dois singles de Sulk que mais rotação tiveram que acabaram por ficar para a história como dois dos grandes hinos da era: Party Fears Two e Club Country. Sulk viu também os processos de produção de Rankine assumirem recursos como arranjos de cordas ou a utilização de overdubs frequentes com maior insistência, e o resultado é um disco com uma vertente mais acessível com produção à altura disso mesmo. Na digressão de promoção a Sulk, Rankine deixou os Associates naquilo que viria a ser a ruptura definitiva entre si e Mackenzie. Não mais o duo viria a editar música e, com a separação, Mackenzie prosseguiu sob a designação Associates, juntando a si vários colaboradores esporádicos, entre os quais a lenda do techno dos anos 90 Moritz Von Oswald, um dos dois membros dos essenciais Basic Channel.

Já Rankine continuou ligado à música, tendo inclusive sido um dos impulsionadores da cena musical escocesa que originou a estreia dos Belle and Sebastian, Tigermilk. Farão treze anos em Janeiro próximo que Billy Mackenzie, icónico vocalista dos Associates, se suicidou numa overdose de antidepressivos, apenas escassos dias depois da morte da sua mãe. Hoje ainda ouvimos os seus espasmos teatrais e gosto pelo dramático na música de uns Wild Beasts. Dele e de Alan Rankine fica a memória de quem no início dos anos 80 ouviu a música dos Associates e de quem agora pode apreciar as remasterizações dos seus três primeiros discos, uma banda que quebrou fronteiras na música pop, juntando os excessos do glam, do disco e do revivalismo do cabaret ao experimentalismo e à inovação.

Harvest Breed.

19
Nov
09

Novos Lançamentos: Beach House – Teen Dream

Nos dias que correm são poucas as bandas suficientemente ambiciosas, corajosas e desafiantes ao ponto de procurarem activamente a perfeição. A emergência do lo-fi como técnica de produção ou mesmo como estética musical em si tem cada vez demarcado bandas que procuram a realidade pura e dura, convidando as imperfeições, as falhas, os enganos, as perturbações ou até os desesperos quer no seu som, quer na sua mentalidade. Não é portanto de surpreender que as atenções recaiam na produção, nos sentimentos que ela procura evocar, na riqueza dos seus arranjos ou na desengoçada despreocupação com os pormenores. Algures à deriva está a real composição musical, a destreza instrumental ou até mesmo execução técnica num contexto de performance ao vivo. Com o seu mais recente disco, os nativos de Baltimore Beach House não alcançam a perfeição. Mais vale dizer isso já antes que se levante qualquer confusão. Mas como eles tentam. E esta tentativa não se faz com orquestras de 600 elementos, nem com arranjos de cordas teatrais e épicos, e também não se faz de frieza na mão ou de precisão robótica na sua execução. A perfeição que procuram não é essa. Faz-se de sentimentos e de afectos, de genialidade e de simplicidade, mas também de reforço da identidade e de auto-estima sónica. E também porque não dizê-lo, de uma suprema confiança em si mesmos. Alex Scally e Victoria Legrand não procuram redimensionar o seu som ou sequer reposicionar-se como partes interessadas em qualquer cena ou nicho musical. A sua visão vai bem para além disso.

Não estaria a ser justo para este disco se o olhasse dessa forma e falasse sobre ele na óptica do campeonato dos géneros, dos estilos ou das correntes musicais que frequentemente tem lugar em redor da música alternativa contemporânea. Há algo de muito superior a isso a passar-se em Teen Dream. Alguns falar-nos-ão no piscar de olho ao comercial e ao pop na sua produção limpa e certinha, que contrasta com a abordagem do-it-yourself que caracterizou a sua surpreendente estreia, mas outros irão fazer correr tinta sobre a sonoridade inofensiva do dream pop da banda. O que nos remeteria para a conversa da perfeição, tal como a entendem os Beach House. E no centro desse mundo esotérico e inconsciente dos Beach House estará mesmo a sua misteriosa, mas emblemática vocalista Victoria Legrand. Em Teen Dream é-lhe dada rédea livre, e ela aproveita. E de que maneira. Com uma confiança inabalável, a qual nunca tinha chegado a realizar em absoluto na sua banda, e tirando máximo proveito das suas colaborações e subsequentes digressões com os nova-iorquinos Grizzly Bear, a sua voz e a sua composição envolvente assume um espectro que desafia os cânones e dispensa truques de estúdio. Seja ouvindo a sua respiração junto ao microfone escutando com atenção Real Love, seja na elasticidade vocal, quase a evocar uma girls band da década de 60, do novo single Norway ou mesmo quando percebermos que é impossível não sentir o coração apertar com os píncaros emocionais de Walk In The Park, parece que há pouco para o qual Victoria aponte e não consiga atingir.

Difícil mesmo, seria encontrar melhor ponto de entrada para Teen Dream que a enfeitiçante Zebra. A evocar a própria capa do disco, Zebra fala-nos de um ‘black and white horse / arching among us’, servindo-se de um simples e delicado trabalho de guitarra, para além dos habituais teclados sonhadores e das batidas despidas já características da banda. De facto, uma das virtudes mais poderosas de Teen Dream é mesmo a capacidade evocativa que muitos dos seus temas conseguem possuir, seja por temáticas ou por sonoridades. Composta à janela de um comboio que cortava pelos campos noruegueses, a saudosa Norway tem o dom de nos colocar no frio escandinavo com um par de headphones e um brilho no olhar. Used To Be, lançada em single no ano passado, é retrabalhada aqui sob um olhar diferente, deixando para trás a sua coda final memorável e arrepiante (‘its always good to see you again / even if it’s coming to an end’), em detrimento de uma mais simples e esperançada, mas não menos cortante, quase sussurrada ‘coming home / any day now’. A segunda metade de Teen Dream acaba por ser mais ecléctica e sentida, quase facilmente emocionante como podemos comprovar com a ambiciosa 10 Mile Stereo, com os seus crescentes arranjos de cordas, ou com a intensamente pessoal balada ao piano Real Love. Quatro anos depois do intimismo de Master Of None, os Beach House continuam a trilhar o seu caminho para a perfeição. Um caminho que não irá ter destino final, mas que, nos dias que correm, nenhuma outra banda que sequer tenha a ousadia de o tentar percorrer o consegue fazer com este sentimento ou esta simplicidade, provando que a beleza é uma qualidade dolorosamente subvalorizada na música hoje em dia.

Tracklist:

  1. Zebra
  2. Silver Soul
  3. Norway
  4. Walk In The Park
  5. Used To Be
  6. Lover Of Mine
  7. Better Times
  8. 10 Mile Stereo
  9. Real Love
  10. Take Care

Harvest Breed.

12
Nov
09

Em Alta Rotação Este Mês

Compilação do Mês de Novembro:

  1. Small Black – Despicable Dogs [Small Black EP]
  2. Real Estate – Suburban Dogs [Real Estate]
  3. Jacuzzi Boys – Island Ave. [No Seasons]
  4. The Men – Sketchy Pussy [The Men]
  5. Surfer Blood – Harmonix [Astro Coast]
  6. Quiet Loudly – Church Of Mud [Soulgazer]
  7. Pyramids w/ Nadja – Into The Silent Waves [Pyramids w/ Nadja]
  8. Lokai – Volver [Transition]
  9. Bear In Heaven – Lovesick Teenagers [Beast Rest Forth Mouth]
  10. Gold Panda – Back Home [Miyamae EP]
  11. Way Out West – Future Perfect [We Love Machine]
  12. Shuta Hasunuma – Soul Osci [Pop Ooga Plus]
  13. Tap Tap – Straight To Hell [On My Way]
  14. Christmas Island – Red Island [Blackout Summer]
  15. Toro Y Moi – My Touch [My Touch]
  16. Loscil – Union Dusk [Strathcona Variations]
  17. Homostupids – The Glow  – The Edge [The Load]
  18. Little Girls – Venom [Concepts]
  19. The Sandwitches – Tarantula Arms [How To Make Ambient Sadcake]
  20. Best Coast – Over The Ocean [Make You Mine 7"]
  21. Freelance Whales – Starring [Weathervanes]

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Harvest Breed.