Este ano, decidimos publicar (para além das nossas usuais listas de lançamentos preferidos) as escolhas de 3 melhores discos de 2009 de 5 músicos de bandas portuguesas, acompanhadas com um comentário breve dos mesmos. Em nenhuma ordem em particular, apresentamos…
Ben (Triplet)
Julian Casablancas – “Phrazes for the Young”
“Julian neste disco ergue o peito, mas mantem-se cabisbaixo ao mesmo tempo. Ou seja da um passo firme, mas sem perder tudo o que o caracteriza.Uma produção des-polida, na tradição Strokes, com sintetizadores analógicos, e caixas de ritmos por todas as equinas, mesmo quando de uma canção folk se trata. Um pouco como a moda. Julian re-inventou a roupa que todos já conhecemos e usamos, e voltou a torna-la relevante. Os anos 80 vieram pra ficar.”
Muse – “The Resistance”
“Sou um sucker por Muse, e está tudo dito. Este disco tem tudo o que os Muse fizeram até hoje, com esteróides.”
Iconoclasts – “Iconoclasts EP”
“Infelizmente no meio de dezenas e dezenas de grupos portugueses a cantarem em inglês, é raro encontrar quem o faça condignamente, e o inglês cantado deste menino e menina, é irrepreensivel. Atitude, texturas, guitarras cheias de efeitose de “tone”, baterias urgentes, batidas electrónicas e uma excelente produção.”
Os Triplet (http://www.myspace.com/triplet) são uma das bandas de punk mais relevantes da zona de Cascais, sendo que as suas performances ao vivo são algo que roça o estatuto de lendário. Estão neste momento a trabalhar num novo disco.
Bernardo Pereira (Ella Palmer/White Rabbit To Follow)
Porcupine Tree – “The Incident”
“Embora os pontos altos deste álbum aparentem ficar aquém dos anteriores, continua a ser o álbum por que esperei o ano inteiro. Mais um diamante bem polido da banda prog com o sentido estético mais refinado das últimas décadas.”
One Hundred Steps – “Human Clouds”
“O álbum de estreia agressivo e emocional dos setubalenses pode passar ao lado de muita gente, mas não de quem o ouve. Vamos todos juntar as mãos para que 2010 traga menos Florcaveira.”
Mastodon – “Crack The Skye”
“Serem catapultados para o odiável semi-estrelato não afectou a maneira muito especial dos Mastodon de fazer metal. Concentração histórica de bons riffs e refrões.”
O Bernardo diz-nos que oficialmente morreu para o indie. Os Ella Palmer estão neste momento a promover o seu álbum de estreia, que conta com a participação de um dos membros de Men Eater (www.myspace.com/ellapalmer); os The White Rabbit To Follow (http://www.myspace.com/thewhiterabbittofollow) são um projecto novo que também conta com a participação do Bernardo.
Gonçalo Duarte (Porn Sheep Hospital)
Mastodon – “Crack The Skye”
“É dos albuns mais épicos que ja ouvi. Tudo neste album tem um conceito marado e imensos simbolismos.”
The Number 12 Looks Like You – “Worse Than Alone”
“Só os ouvi com atenção depois de os ver ao vivo no Porto e são todos músicos brutais. Ouvia este cd todos os dias a caminho da escola. Pena terem acabado R.I.P.”
Kidcrash – “Snacks”
“Com este album os kidcrash estão muito menos caóticos e muito mais melódicos. É uma mistura um indie rock progressivo com screamo ambiente. 1337!”
Os Porn Sheep Hospital (http://www.myspace.com/pornsheephospital) são uma promessa importante do hardcore da zona do Barreiro/Setúbal. E têm um nome mais bizarro na música portuguesa moderna.
Luís Jerónimo (The Ti Maria)
Grizzly Bear – “Veckatimest”
“Foi provavelmente o album que mais ouvi este ano, e parece-me melhor cada vez que ouço. É um album perfeito, portanto…”
St. Vincent – “Actor”
“É lindo do inicio ao fim! A senhora Annie é uma grande instrumentalista, “Marrow” é para mim a música do ano.”
Phoenix – “Wolfgang Amadeus Phoenix”
“Resumidamente é divertido, é pop, é orelhudo e eu gosto!”
Os The Ti Maria (http://www.myspace.com/thetimaria) são uma referência na cena de indie pop de Leiria, e uma das bandas mais prolíficas da zona Oeste.
João Rodrigues ( The Doups)
The XX – “xx”
“Este é para mim o melhor álbum do ano. Uma autêntica lufada de ar fresco. O álbum é cru como tanto gosto, é melódico e é absolutamente simplista. Fascinante!”
White Lies – “To lose my life”
“Excelente disco. Todas as músicas nos tocam. São Catchy, são negras… Os refrões entram no ouvido e só saiem uma semana depois.”
Julian Casablancas – “Phrazes for the young”
“Escolho este album por ter sido uma grande surpresa. Sou fã de Strokes e decidi ouvir os projectos a solo de todos os elementos. Este álbum foi para mim o mais bem conseguido sendo uma evolução do álbum “First Impressions of earth” (The Strokes). Melodias extremamente ritmadas e uma voz que encaixa na perfeição.”
Os The Doups (http://www.myspace.com/thedoups) são um dos nomes mais falados do indie rock “britânico” da Margem Sul. 2009 foi um bom ano para eles (tendo inclusivamente aberto o concerto dos Franz Ferdinand este ano no Campo Pequeno) e prometem subir ainda mais a notoriedade com o álbum de estreia, para sair na Primavera de 2010.
Falar em listas de “melhores discos de música electrónica deste ano” é quase tão vago como falar em “melhores discos de rock deste ano”. Dentro de “electrónica”, tal como dentro de “rock”, pressupõe-se uma miríade de subgéneros, correntes e tendências. De modo que esta lista deve ser mais encarada como uma série de recomendações para quem gosta de música electrónica em geral, do que propriamente um melhor absoluto desde Acid House a Electro Clash ou Chip Tunes.
[10] Telefon Tel Aviv | Immolate Yourself
[09] Bat For Lashes | Two Suns
[08] The Big Pink | A Brief History Of Love
[07] Passion Pit | Manners
[06] Washed Out | Life Of Leisure EP
[05] Junior Boys | Begone Dull Care
Os Junior Boys são uma das nossas bandas preferidas, mas não é por favor que Begone Dull Care aqui aparece. Abandonando a frieza maravilhosa de So This Is Goodbye, os Junior Boys revisitam aqui a faceta mais pop e dançável que mostraram no disco de estreia – com a diferença de se mostrarem muito mais clínicos, perfeccionistas e concentrados. Os Junior Boys são neste momento provavelmente a única banda no mundo orgulhosamente synth pop que ninguém pode chamar de burrinha ou efeminada.
[04] A Sunny Day In Glasgow | Ashes Grammar
Tipicamente, uma banda de shoegaze não se costuma distinguir nos meios da música electrónica. De facto, Ashes Grammar não prima por ter sons terrivelmente originais nem tão pouco faz uma revisão interessante de texturas vintage. Contudo, a qualidade estritamente musical e melódica torna este disco um dos incontornáveis de 2009: catatónico, hipnótico, sensível e etéreo, Ashes Grammar é tudo o que discos como Totems Flare e Gonden Traxe não são. Com 22 canções (algumas delas drones instrumentais), só um disco tão bom e envolvente como este consegue manter aquela qualidade de nos querer deixar on repeat durante horas.
[03] Clark | Totems Flare
Chris Clark (ou simplesmente Clark, como agora assina o seu trabalho) já é um velho conhecido da electrónica britânica, ligado à Warp Records. Totems Flare puxa de uma sólida influência de artistas como Aphex Twin e Squarepusher, mas é acima de tudo um disco pesado, claustrofóbico e denso. Com um som saturado, distorcido e agressivo, sabe surpreendentemente a disco de rock. As texturas e ambiências vão desde o brutal e obsessivo-compulsivo a breves momentos puros, inocentes e cristalinos.
[02] Shadow Dancer | Golden Traxe
Golden Traxe é mais um disco de estreia. Shadow Dancer (a banda de Manchester, não o jogo de arcadas da SEGA) surgem ligados à editora de Boys Noize, e produzem um tipo de música dificilmente categorizável, mas não necessariamente difícil ou completamente inédita. Por um lado, têm uma qualidade imprevisível, espontânea e orgânica (como IDM); por outro, muitas das suas texturas são altamente groovy (como house), brutas e old school (como techno Kraftwekiano ou variantes mais agressivas), exalando imediatismo e familiaridade, mas também detalhe e profundidade. Um disco a não perder, uma banda a seguir.
[01] Neon Indian | Psychic Chasms
Tendo já prometido muito com edições de autor anteriores a este lançamento, Neon Indian (leia-se Alan Palomo, o homem por detrás do projecto) concretizam um fascinante LP de estreia. Gerando uma nova estética e sub-género de electrónica independente, Psychic Chasms é acima de tudo um disco fortemente psicadélico com um som muito vintage e analógico. Não é difícil encontrar bons discos, mas são poucos os que inspiram tanto em termos de produção e sensibilidade musical como o debut de Neon Indian.
Na segunda metade dos anos 90, nem tudo o que foi feito em Inglaterra foi feito sob a égide da abordagem Britpop. Já mencionámos Dog Man Star como um álbum de referência da altura e futuramente abordaremos certamente outros que também foram sonegados pela Britpop, mas era impossível não falar de After Murder Park, de The Auteurs. Sendo que em Janeiro deste ano o compositor e frontman Luke Haines lançou Bad Vibes (uma autobiografia sobre os The Auteurs), é uma boa altura para revisitar After Murder Park, obra seminal da banda e considerada pela revista Mojo como “melhor disco rock Britânico da década”.
Datado de 1996, After Murder Park é o 3º disco da banda. Na altura, o vocalista e songwriter Luke Haines manifestou-se veementemente contra o movimento Britpop, inclusivamente afirmando que se interessava muito mais pelo movimento techno e dance britânico da altura do que a Britpop. Na realidade, Haines era o típico autor anti-pop: cansou-se depressa de andar em digressão e temas como política, morte, fobias pessoais e casamentos falhados eram assuntos recorrentes nos versos de The Auteurs. After Murder Park foi gravado nos míticos estúdios Abbey Road e produzido por Steve Albini, e é notória a mão de Albini no produto final: com muito som de ambiente, execuções emotivas muito espontâneas e um som muito transparente e pouco produzido, Albini é o homem certo para acentuar a carga emocional e no-nonsense de uma banda.
Luke Haines compôs uma grande parte do disco de cadeira de rodas, tendo sofrido um acidente em digressão, e a sua tonalidade reflectia um aperfeiçoamento de métodos bem como tensões crescentes dentro da banda: a sua relação amorosa com a baixista Alice Readman estava a deteriorar-se, bem como o seu relacionamento pessoal com o violoncelista/teclista James Banbury. Canções como Tombstone reflectem uma consciencialização mais política (em particular a obsessão de Haines com o grupo terrorista alemão Baader-Meinhof), ao passo que Child Brides, Land Lovers e Dead Sea Navigators evocam imagética de uma história distante que ecoa com tradição e sentido de dever. A canção Unsolved Child Murder é inspirada por um assassinato de uma criança durante a infância de Haines, e apenas o single Light Aircraft On Fire desilude um bocado face ao resto do álbum. As letras de Haines neste disco são de uma beleza sincera e rara no pop britânico da altura. A versatilidade de Banbury alternando o papel de violoncelista com teclista, e de Haines entre a guitarra e piano, oferecem à banda uma alternância fácil entre o rock convencional e arranjos elegantes com secções de cordas ou sopro.
Cheio de música apaixonada e sofisticada, ora delicada ora mais brutal, After Murder Park não teve o sucesso comercial que merecia (alcançou o 53º lugar nos tops) mesmo apesar do apoio insistente de Jools Holland e grande parte da crítica. A banda não resistiu e acabou pouco tempo depois, sendo que Luke Haines ainda permanece em actividade como artista a solo. Hoje em dia, é de notar que o trabalho de The Auteurs desbravou muito terreno para bandas como British Sea Power, e tratou de esculpir para si e as suas músicas um forte sentido de cult status. The Auteurs foram a melhor banda que os ingleses não ouviram durante os anos 90, e After Murder Park foi a sua obra-prima.
Nos cerca de 2 anos de existência do Volume/Tone, o nosso post mais popular e procurado é de longe (e para nossa grande perplexidade) o “Guitarras e Heróis”. Para comemorar essa perplexidade, decidimos fazer algo na mesma linha sobre o instrumento que o guitarrista vulgaris mais desconfia: o sintetizador. Na maioria dos casos, os músicos não sabem muito sobre sintetizadores; mesmo que os usem esporadicamente, muitos desconhecem a história, os modelos, e exactamente quais foram as ideias por detrás da criação deles. Contrariamente ao que se crê, não é preciso uma licenciatura em Engenharia para poder operar um sintetizador… Ou compreender a sua evolução. Vamos falar sobre 9 modelos e instrumentos da família do sintetizador que foram importantes para a história do instrumento, mencionando para cada um exemplos de canções onde tiveram uso destacado.
Theremin
Ano de introdução: 1928
Fabricante: Leon Theremin
O Theremin foi o primeiro verdadeiro instrumento electrónico. É um dispositivo rudimentar, que usa apenas duas antenas para o músico controlar o volume e a frequência (a nota). O instrumentista toca o Theremin sem lhe fisicamente tocar na realidade, apenas movendo as mãos pelo ar perto de cada antena. Não é um instrumento sofisticado ou versátil, mas tem um som bonito e característico quando bem tocado. Foi frequentemente usado nas primeiros filmes de Hollywood sonorizados, normalmente para criar ambiências assustadoras.
Momento Musical: The Beach Boys – Good Vibrations [refrão]
Mellotron M400
Ano de introdução: década de 60
Fabricante: Mellotronics Inc
O Mellotron, ao contrário do Theremin, tem um teclado e por isso é muito mais imediato e intuitivo. Na realidade, cada tecla faz tocar uma fita com um som previamente gravado, o que faz do Mellotron um dos avôs do sampler moderno, sendo apenas um (importante) tio-avô afastado do sintetizador. O seu timbre doce e natural tornou-se muito desejável e distinto, quer pelos seus sons de coros, de cordas ou de flautas. Encontrou um nicho particularmente adepto entre os músicos de inclinação psicadélica, chill out e pop.
Momento Musical:
The Beatles – Strawberry Fields Forever [flautas; introdução da música];
Kraftwerk – Trans Europe Express [cordas; introdução da música]
Moog Modular Systems
Ano de introdução: 1964
Fabricante: Robert Moog, Moog Music Inc
Robert Moog desenvolveu os primeiros animais complicados a poderem verdadeiramente chamar-se sintetizadores. A ideia do sintetizador era de ser o instrumento musical perfeito – tão versátil, aberto e configurável que poderia sintetizar qualquer som na natureza ou na nossa imaginação (daí o nome). Obviamente que na prática não conseguia imitar nada de uma maneira muito convincente. Um sistema modular em ‘64 parecia uma central telefónica de cabos, ligando uns módulos a outros – cada utilizador decidia os módulos que queria e como os queria ligados. Muito complexos, muito grandes, muito caros e muito pouco práticos, os sistemas modulares de Moog tiveram usos praticamente apenas na música experimental e conceptual de um punhado de visionários da altura.
Momento Musical: Wendy Carlos – Switched-On Bach [totalidade do disco]
Minimoog
Ano de introdução: 1971
Fabricante: Robert Moog, Moog Music Inc
O Minimoog é provavelmente o sintetizador mais desejado, clonado e imitado na história da música. Foi o primeiro sintetizador portátil, barato e simples vendido em massa – a primeira vaga de música electrónica foi feita ao som de Minimoogs. Para além de ser imediato, acessível e barato, tem um som extremamente musical e delicado. Deixou de ser fabricado em 1980, altura a partir da qual passou a valer fortunas loucas no mercado de 2ª mão.
Momento Musical: Pink Floyd – Shine On You Crazy Diamond (Part 6) [solo ao ínicio]
Korg MS-20
Ano de introdução: 1978
Fabricante: Korg
O MS-20 é a versão da Korg de um Minimoog, misturado com um sistema modular – é um sintetizador pequeno, barato e imediato, mas permite ligar as suas partes diferentes com pequenos cabos da maneira que quisermos. Tem um som bruto e agressivo, e o facto de permitir alguma flexibilidade de ligações tornou-o o sintetizador de eleição para uma geração de pseudo experimentalistas e projectos de electrónica mais violenta (como Prodigy, The Faint ou Nine Inch Nails).
Momento Musical: Mr Oizo – Flat Beat [maioria dos sons da música, incluindo voz de Eric]
Roland Juno 60
Ano de introdução: 1982
Fabricante: Roland
O Juno 60 foi um dos primeiros sintetizadores polifónicos comercialmente disponíveis, permitindo que agora se pudessem fazer acordes (tocar mais de uma nota em simultâneo) com sintetizadores (polifonia de 6 notas simultâneas, no caso do Juno 60). Tem um som geralmente sedoso, fluido e macio, e tornou-se rapidamente popular durante os anos 80 para criar ambiências etéreas e agudas (que tanto notabilizaram artistas como Human League, Eurythmics ou The Cure, e mais recentemente Junior Boys, Air e Phoenix).
Momento Musical: The Cure – Just Like Heaven [refrão]
Roland TB-303
Ano de introdução: 1982
Fabricante: Roland
O TB-303 foi inicialmente um produto com uma premissa muito aborrecida: foi feito para acompanhar guitarristas que estivessem a praticar sozinhos e precisassem duma linha de baixo (TB significa Transistorized Bass). Tinha um som muito abrasivo, cortante e definido, devido a características invulgares das suas configurações. Não teve de todo uma recepção entusiasmada do mercado de guitarristas (foi retirado do mercado após apenas 18 meses), mas os músicos que criaram o que mais tarde viria a ser chamado de House Music adoptaram-no como um instrumento essencial pelo seu som único (o termo Acid de Acid House advém de uma descrição do som do TB-303 em acção). Hoje em dia, o aparentemente tosco e diminuto TB-303 é visto como uma espécie de Santo Graal do produtor de House, e não só.
Momento Musical: LCD Soundsystem – Get Innocuous [linha de baixo; destaque entre 05:50 e 06:15]
Yamaha DX-7
Ano de introdução: 1983
Fabricante: Yamaha
A história do DX-7 foi totalmente a oposta do TB-303. Quando saiu, a Yamaha anunciou a sua nova forma de síntese de som FM (Frequency Modulation) como o som do futuro dos sintetizadores. De facto, na altura produzia sons absolutamente fenomenais em comparação com os outros sintetizadores que usavam sintese subtractiva tradicional: graves muito sólidos, agudos capazes de partir vidros e uma capacidade muito boa para imitar pianos eléctricos. Na altura todos os teclistas compraram um DX-7, tornando-o um dos sintetizadores mais vendidos de sempre. Contudo, rapidamente se percebeu que a síntese FM era muito pouco intuitiva e um pesadelo para programar. Durante os anos 80 ouviram-se todos os seus sons de fábrica pré-programados nos tops (daí que seja injustamente visto como o teclado responsável pelo som azeiteiro dessa década), e depois caiu em desgraça por não se conseguir tirar mais dele. Hoje em dia o DX-7 é um punchline de anedotas entre teclistas, e encontra-se no mercado de 2ª mão por tuta e meia.
Momento Musical: Sade – Smooth Operator [uso do som de fábrica de piano eléctrico]
Access Virus
Ano de introdução: 1997
Fabricante: Access
O Virus foi um dos primeiros sintetizadores puramente digitais a conseguir imitar convincentemente os sons dos sintetizadores analógicos tradicionais. Os sintetizadores digitais (ou virtualmente analógicos, como os departamentos de marketing lhes preferem chamar) encontraram no Virus uma capacidade razoável para imitar Minimoogs, TB-303’s e outros. Justamente por não ser analógico mas sim uma imitação computarizada de tal, é mais barato, mais robusto e mais fiável do que os sintetizadores que tenta emular. A Access foi melhorando o Virus ao longo dos anos até ao presente, sendo que a versão actual é muito sofisticada, versátil e dispendiosa. Em vários aspectos, oferece opções de configuração altas e impossíveis para os sintetizadores analógicos velhinhos que imita. Quase todos os músicos profissionais na electrónica de hoje em dia usam ou já usaram um Virus, nem que seja só ao vivo. Contudo, o purista nunca aceitou (e provavelmente nunca aceitará) que algum dispositivo digital jamais consiga imitar o timbre orgânico, rico e colorido de um sintetizador verdadeiramente analógico. Esta é, aliás, talvez a maior de divisão de opiniões entre os entusiastas de sintetizadores: os pró-analógico e os pró-digital.
Momento Musical: Nine Inch Nails – Only [riff principal]
A história dos sintetizadores dava livros de informação, e é impossível falar aqui de todos os sintetizadores fenomenais que chegaram às mãos dos músicos. Entre outros, vale a pena mencionar o ARP 2600, os sistemas Oberheim e Buchla, o PPG Wave, o Yamaha CS-80 (usado por Vangelis em todo o seu esplendor na banda sonora do filme Blade Runner), o Roland SH-101, o velhinho Ondes Martenot (tão preferido por Jonny Greenwood), o Sequential Circuits Pro-5 e o Roland TR-808 (gerador dos sons de percussão mais queridos na música electrónica).
Objectivamente, os sintetizadores tiveram uma história e desenvolvimento muito ricos e interessantes. Nesse aspecto, os teclistas foram muito mais corajosos e desejosos de novidades do que guitarristas ou baixistas, que continuam a usar tecnologias de 1940. A NME, em 1978, famosamente publicou um artigo em que o autor se escandalizava por saber que havia uma banda alemã chamada Kraftwerk que usava máquinas para gravar toda a sua música. Poucos anos depois, Depeche Mode, OMD e Gary Numan subiriam ao palco do Top Of The Pops sem medo de dizer que achavam o sintetizador mais divertido, mais fácil e mais excitante do que guitarras e baixos.
O sintetizador cativou, desde as suas origens, as imaginações de incontáveis músicos que quiseram não só criar melodias do nada, mas também criar sons e timbres do nada, que sejam seus e únicos. O reputado músico alemão Oskar Sala uma vez ilustrou bem as potencialidades do sintetizador: “sou apenas um pianista; infelizmente não sou um teclista”.
Nas primeiras décadas da música pop/rock, 50 e 60, a noção de valor artístico estava maioritariamente associada a sucesso comercial. Nos anos 60, os The Beatles eram melhores do que os The Searchers e o facto de que os fab four vendiam muito discos servia de prova disso. Contudo, esta maneira dos ouvintes abordarem a música começou a desaparecer com o surgir do punk em 1976/77 e terminou definitivamente com o pós-punk/new wave que lhe seguiu. Com o punk, criou-se pela primeira vez na música um sentimento de “anti-sistema” – que com o pós-punk/new wave conheceu (dependendo da banda), uma face mais politizada, mais filosófica, mais visual ou mais artisticamente desafiante. Em muitos aspectos criou-se a ideia de que romper com a tradição é louvável, mas que um bom músico deve ser sempre um estóico guerrilheiro a perseguir a sua visão musical. E como qualquer guerrilheiro, o bom músico tem inimigos poderosos: os fakes, os posers, os miúdos da cena, os que veêm a música como um veículo para fama, aceitação ou fortuna.
O sentimento que o punk gerou nos anos 70 teve um enorme efeito bola de neve. Se os anos 90 já foram fartos em perseguições McCarthyescas sobre autenticidade musical (quem não se lembra das grandes guerras entre Blur e Oasis, Nirvana e Pearl Jam), então os anos 00 foram o culminar da paranóia. Hoje em dia, uma banda de música alternativa pode perder 1/3 da sua base de fãs se assinar por uma editora grande, se lançar um álbum com uma produção mais cuidada, se um dos seus membros começar a namorar uma actriz famosa. Bono, um dos vocalistas mais diplomáticos, icónicos e filantropos em actividade, é quase unanimemente vexado e ridicularizado por bandas pequenas. Tudo isto porque é uma traição imperdoável o estóico guerrilheiro ser (ou no caso de Bono, transformar-se) num burguês conformado.
O altar da autenticidade musical é uma falácia. Instalou-se um clima de hostilidade e competitividade em que se uma banda, pelo seu valor, começar a vender muitos discos e obter merecida notoriedade, os fãs que a elevaram vão aliená-la por isso. Na realidade, os músicos são apenas peões na guerra pela autenticidade. Os verdadeiros combatentes são alguns dos ouvintes, que procuram sempre a banda mais subversiva, mais desconhecida ou mais paupérrima para se usarem dela – para fazerem a sua autenticidade da autenticidade dela. E depois a descartarem.
Festivais e concursos de bandas de garagem promovidos por autarquias são, salvo honrosas excepções, o bater no fundo. Nos piores palcos e locais de espectáculo, com o pior equipamento, com os piores técnicos, sem qualquer retorno, sem promoção ou publicidade, a maioria das bandas fica feliz da vida com a oportunidade de tocar algumas canções para os seus amigos na plateia. Tivemos recentemente a experiencia de tocar num festival desta natureza. Fomos instruidos para estar no local para fazer soundcheck às 15:00, o que fizemos. Quando lá chegamos, não havia sinal nem do técnico de som, nem do PA, apenas 5 bandas de adolescentes de braços cruzados e à espera como nós. Ficámos apenas meio surpreendidos.
Duas horas mais tarde, aparece alguém com um PA, uma hora depois disso aparece um técnico de som (e quando digo “técnico de som”, digo-o no sentido mais abrangente possível). Com pressa e sem staff, este “técnico de som”pediu ajuda aos músicos de algumas das bandas para montar o palco. Estes músicos não veteranos road dogs ou geeks informados, mas sim miúdos de 15 anos que não sabem a diferença entre um cabo de antena e um cabo de microfone. A determinada altura, haviam 10 pessoas em cima do palco – nenhuma delas a fazer algo de concreto. Vi 3 rapazes a discutir acesamente o ângulo e proximidade de um microfone a um amplificador digital de caca. Se eu já acharia essa imagem ligeiramente divertida numa sessão de gravação, então num festivalzeco de bandas amadoras no meio do nada a preparar 20 minutos de concerto…
Saturado de esperar horas a fio para fazer soundcheck (hora combinada era às 15:00, hora efectiva a que começámos a fazer som foi cerca de 20:00) e algo preocupado com o que estava a acontecer, perguntei ao técnico de som o que o estava a atrasar. “É um microfone que não está a funcionar… Sabes como é!”, disse. Sorriu e voltou a mexer na mesa de mistura, com a confiança de um chimpanzé a tentar conduzir um Boeing 747. Quando trabalhei como técnico de som no estrangeiro, perdia imediatamente o meu emprego se estivesse 5 horas atrasado e respondesse daquela maneira a um artista. Aliás, esqueçamos isso – qualquer profissional, em qualquer emprego, se tivesse 5 horas atrasado e se se justificasse com descontracção, deixava de ser profissional imediatamente. Para não falar que qualquer técnico de som minimamente competente sabe que se tem um microfone mau, o substitui em 2 minutos e não fica a tentar soluções esotéricas durante horas. Na realidade o que aconteceu nessa noite foi uma autarquia a gastar uns tostões rápidos no voto jovem em véspera de eleições, sendo que ninguém daquele lado realmente quer oferecer bons recursos materiais e humanos aos jovens artistas locais. Jovens esses que hoje estão felicíssimos da vida por poderem tocar num palco para os seus amigos – mas que daqui a poucos anos vão ver com outros olhos este tipo de migalhas.
Para quem já os tinha visto em Lisboa no Optimus Alive, não perdeu nada de novo. A banda inglesa continua a apresentar-se com apenas dois singles de discografia oficial, e embora seja claro que há ideias e estruturas interessantes, a sensação geral é que Delphic precisam de mais material e mais selectividade no setlist, e menos tempo a alongar as poucas canções que já têm.
Nota: 6.5
And So I Watch You From Afar @ The Shelter, 13:10-13:50
Sobre os norte-irlandeses And So I Watch You From Afar sabíamos pouco mais do que uns titulos de canções imaginativos (como “Set Guitars To Kill” e “If It Ain’t Broke, Break It”) e que faziam um tipo de post-rock instrumental misturado com punk. O concerto foi agressivo e genuíno – o público aderiu e ASIWYFA (WTF?) mostraram que rock instrumental pode ser imediato e sincero, sem ter a prepotência que muitas vezes se associa a este tipo de música. O gesto de oferecer algumas tshirts ao público depois do concerto foi bonito e sentido.
Nota: 7.5
A Place To Bury Strangers @ The Shelter, 14:30-15:10
A Place To Bury Strangers têm alguma fama por serem loucamente barulhentos ao vivo, fama essa completamente merecida. O som que saia dos amplificadores de guitarra e dos microfones era simplesmente ruído branco, com apenas baixo e bateria vagamente discerníveis. Foi brutal, exagerado, vertiginoso e fantástico.
Nota: 8
Future Of The Left @ The Shelter, 15:50-16:35
Future Of The Left tiveram um publico inesperadamente enorme, que conhecia muito bem a sua discografia e que resistiu à tentação de pedir canções de Mclusky. Houve mosh, gritaria, sangue, suor e lágrimas. Só quem lá esteve sabe o que foi.
Nota: 10
Buraka Som Sistema @ Dance Hall, 16:35-17:25
Os não-tão-orgulhosamente sós representantes portugueses levaram muitos milhares de belgas à loucura, belgas esses que não faziam ideia do que é um Wegue Wegue (tal como nós) nem do que as letras querem dizer (tal como nós). Tiveram a sensibilidade para misturar os seus originais com samples e excertos de êxitos mais mainstream (como “Satisfaction” de Benni Benassi) e deram espectáculo no dancefloor.
Nota: 8
Bill Callahan @ Chateau, 17:15-18:05
O concerto de Callahan veio trazer um momento para descansar e uma lufada de ar fresco, numa tenda quente e abafada no Pukkelpop. A sua actuação foi tal e qual como a sua música editada – intimista, sincera, simples e baseada na premissa de que uma simples boa canção com bons músicos funciona por si só.
Nota: 8.5
Glasvegas @ Marquee, 18:10-19:00
Segundo consta, Glasvegas andam a tocar exactamente as mesmas músicas ao vivo há cerca de 5 ou 6 anos. Enquanto que o seu trabalho em estúdio não aquece nem arrefece, a banda escocesa é definitivamente um espectáculo tépido ao vivo – com uma atitude afável mas desgastada, parece que estamos a ver a primeira parte de um concerto de The Jesus And Mary Chain… Uma banda antiquada de uma cena antiquada, que tenta um sing along em cada canção.
Nota: 6
The Jesus Lizard @ The Shelter, 18:50-19:40
Os The Jesus Lizard são uma banda de referência dos anos 90 que só recentemente se reuniu. Ao contrário de Glasvegas, não pareciam envelhecidos nem um minuto. Tecnicamente, tocaram sem enganos e a velocidade de cruzeiro arranjos complexos de rock subversivo. O vocalista parecia um doente mental e transmitia a sensação de que tudo de selvagem e imprevisível podia acontecer – quem nunca viu The Jesus Lizard ficou grato por não morrido sem antes os ter visto ao vivo.
Nota: 10
Vampire Weekend @ Marquee, 19:50-20:40
Já cansa vê-los e ouvi-los, e isso diz qualquer coisa da sua música, que definitivamente perde o seu encanto quando ouvida pela 324ª vez. E à chuva. Uma ou outra canção nova e por editar tornou vagamente interessante o seu set.
Nota: 6.5
HEALTH @ Chateau, 20:45-21:35
Os californianos Health não são um mar de simpatia e cordialidade em palco. Muito pelo contrário, para eles business is business, e fazer noise sem ser indulgente ou caprichoso significa seriedade. Mas quem vem ver Health sabe que não vai acenar isqueiros e cantarolar letras. Foram incisivos, intensos e mostraram que a sua música é cerebral e brutal em iguais partes.
Nota: 8.5
Fever Ray @ Marquee, 21:40-22:30
O projecto a solo de Karin Dreijer-Andersson de The Knife tem granjeado uma fama por ter visuais espectaculares ao vivo. Com uma multitude de lasers, candeeiros e holofotes em cuidada sincronia com sintetizadores, kick drums e momentos importantes nas músicas, bem como maquilhagem e guarda-roupa exuberante, Fever Ray fizeram jus à reputação. Contudo, a superior teatralidade e formalidade do concerto pode desiludir alguns espectadores que esperavam um pouco mais de interacção e descontracção pessoal de Dreijer-Andersson.
Nota: 8
Squarepusher @ Dance Hall, 21:50-23:05
É meio estranho falar de um concerto de um projecto de IDM. Contra todas as expectativas, Squarepusher foi refrescantemente espontâneo e imprevisível ao vivo. Um baixista dotado, Tom Jenkinson usou o baixo tanto para tocar normalmente como para controlar parâmetros no seu laptop em tempo real, e a velocidade a que o fazia fez parecer o seu baixo com um banjo em bluegrass. Parte do espectáculo foi acompanhado por um baterista, igualmente rápido e espontâneo. Uma experiência musical que desafia categorização.
Nota: 9
dEUS @ Marquee, 23:35-00:50
dEUS estavam a jogar em casa, e isso fez-se sentir. Tiveram a coragem e à vontade para abordar vários temas dos dois últimos discos, apesar do peso da importância e popularidade do seu trabalho mais antigo. Contaram com a presença de Karin Dreijer-Andersson para um dueto, e acima de tudo mostraram-se confiantes e descontraídos.
Nota: 8
Krafwerk @ Main Stage, 00:30-02:00
Que dizer de Kraftwerk que ainda não foi dito? São mais importantes para a música electrónica do que Elvis, Beatles e Stones são juntos para o pop/rock. A componente visual dos seus concertos definiu o standard para gerações de músicos desde os anos 70. A beleza fria da sua música é intemporal e delicada, e a sua integração com o lado visual do espectáculo torna indistinto o que se ouve do que se vê. Frente a um enorme mar de jovens de olhos arregalados em espanto, Kraftwerk provam que não têm nada a provar – estivemos em ’78 outra vez, durante uma hora.
Num mundo ideal, o sucesso crítico e comercial de uma banda dependeria exclusivamente do seu talento. Mas não vivemos num mundo ideal e há muita gente que, apesar de fazer música fraquinha, vai longe na indústria musical – de modo análogo, há outros tantos cheios de música maravilhosa para oferecer que nunca tiveram ou terão qualquer tipo de crédito, incentivo ou reconhecimento. Dizer isto na realidade é uma redundância, mas faz-nos reflectir: que tipo de valor devemos conhecer a bandas como os U2 ou Metallica? Mesmo dentro microcosmos que é a música alternativa portuguesa, que mais-valia têm aqueles que de vez em quando já tocam em festivais e cobram já cachets (essa palavra mágica para as bandas indie) respeitáveis regularmente?
O facto é que a música é apenas uma parte da equação, sendo que o resto é pura e simplesmente a capacidade da banda se gerir a si própria. Uma banda de originais com bons músicos (especialmente se for uma banda numerosa) é como um pequeno país, com várias facções políticas que entram em lobbying e debate entre si sempre que surge uma decisão criativa ou administrativa. Umas bandas assemelham-se mais a ditaduras (onde um ou dois membros assumem as rédeas), e outras a democracias (onde todos têm opiniões fortes por vezes contraditórias que o grupo tenta acomodar). De uma forma ou de outra, se toda a gente remar fortemente para a mesma direcção ensaia-se mais, dá-se mais concertos, faz-se mais networking.
Arthur C. Clarke dizia “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinta de magia”; aqui, uma banda com sucesso suficientemente grande é indistinta de uma empresa. Uma empresa onde todos trabalham diariamente para subir a quota de mercado, uma empresa com um bom departamento de marketing e relações públicas. Seja o ar desgraçado e “eu-sofro-pela-minha-arte” de B Fachada, ou a mega máquina de marketing e imagem dos The Gift, coisas destas aliadas a uma capacidade de auto-gestão são determinantes para um banda sair da garagem. Independentemente se está ou não a tentar dar lixo aos ouvintes. Porque os críticos são ouvintes como quaisquer outros, e podem ser tão enviesados ou influenciáveis como qualquer um de nós.
Fazer música não é difícil, difícil é fazer boa música. Mas isso pode não ser importante. Uma banda só precisa de fazer música para ser ouvida – com a imagem e hype certos, não precisa de ser música espectacular para ter um sucesso espectacular. Se muitas das bandas de garagem com quem já partilhei um palco tivessem a organização e capacidade de marketing de projectos como as Just Girls, os Da Weasel ou os The Gift, poderiam perfeitamente ter um sucesso comercial e crítico comparável a eles.
Em Inglaterra, trabalhei num estúdio que recebeu a Madonna para gravar um álbum recente. Nunca tinha visto uma estrela pop na minha vida, e dificilmente alguém poderá imaginar um artista pop vivo maior do que a Madonna. Nos dias antes de ela chegar, pensei que como seria ela: a Madonna é uma personagem tão enorme que por vezes é difícil vê-la como uma pessoa. Quando ela apareceu e começou a trabalhar, descobri que ela era uma mulher aparentemente fria, concentrada, diligente, exigente e para minha grande surpresa não menos humana do que muitas mulheres workaholics de sucesso que já conheci na vida. Tinha era uma particularidade de arrastar à volta dela um circo incrível de fotógrafos, guarda-costas, assistentes obsessivos e uma aura intimidatória, de eminência quase papal. Tudo isto já lhe era praticamente indiferente.
Pouco após a morte de Michael Jackson, as relações públicas de Madonna emitiram um comunicado revelando que ela está tão transtornada que não consegue parar de chorar. Eu não deixei de achar isto um pouco estranho. Será que aquela mulher tão tenaz, distante e objectiva esteve literalmente a chorar durante horas pela morte de uma outra mega-estrela? Ou será que foi uma hipérbole considerada adequada pelos conselheiros de relações públicas da “instituição Madonna”?
Perguntei-me se esta condição agridoce de ser uma superstar gera uma espécie de compaixão mútua – se era possível que Madonna, de uma estranha forma, conseguisse compreender melhor do que os outros a tragédia da vida pessoal de Jackson, e que a sua morte a magoasse profundamente. Mas Jackson foi de certa forma obrigado a ser um entertainer desde os 5 anos de idade, ao passo que Madonna voluntariamente procurou a fama e estrelato desde jovem adulta. Quando se é rico, um acto de insanidade mental ou de desespero é sempre visto como uma excentricidade e não pelo aquilo que é. Não sei se Madonna chorou como uma madalena por Jackson, mas um dia alguma superstar estará a emitir um comunicado parecido por ela.
Eu sempre usei os primeiros volumes da antologia dos The Beatles para me guiar sobre como uma boa banda se devia formar e evidenciar no mundo da música. Dizia George Harrison, sobre os tempos dos fab four no violento circuito de música ao vivo de Hamburgo, que o seu patrão alemão lhe dizia todas as noites que eles tinham de “mach schau” (fazer show). Depois dava-lhes speed e eles tocavam aos berros e saltos durante horas a fio, sem parar. Harrison concluiu que, apesar dos métodos pouco ortodoxos, foi assim que os The Beatles aprenderam muito sobre entusiasmar públicos (e sobre disfarçar calinadas com acenos e piscar de olhos para o público).
Suponho que há certas coisas que não mudam. Nos últimos concursos de bandas que temos participado, temos estado mais desleixados em termos de execução do que a maioria da “concorrência”. Mais, nunca somos a banda que traz os amigos todos para fazer claque, nem tão pouco a banda que tem o som mais equilibrado e certinho, ou certamente a banda que aparece com mais vontade de “ganhar”. Contudo, temos tido a felicidade de sermos apurados na grande maioria das eliminatórias em que participamos. Porquê? Porque nós em palco somos bastante físicos e agressivos, de uma maneira que a “concorrência” não é por terem de se concentrar em executar bem a sua música.
Não digo isso com arrogância à “concorrência”, digo isso com uma ponta de pena. Nós só queremos tocar, “ganhar” concursos não é de todo uma prioridade ou objectivo para nós. Nem sequer sabemos quais são os prémios, são só concertos que damos com outras bandas. A pena que tenho é basicamente porque sinto que as pessoas estão a olhar para as guitarras a voar e os saltos de kung fu, e que não estão a ouvir as nossas músicas. Nós passámos horas e horas a escrever-las e fico com a sensação que ninguém as está a ouvir, que podiamos estar a tocar todos músicas diferentes mas desde que berrássemos e saltássemos muito os “juris” iriam gostar na mesma. É irónico que, num momento em que supostamente deveriamos estar a ser avaliados como banda, a nossa negligência pareça estar a ser encorajeada em prol dum espectáculo mais visual.
Há qualquer coisa de desapontante no “mach schau”. Sinto-me como uma menina da Playboy que na entrevista insiste em mencionar que é doutorada em física quântica e que publicou vários artigos científicos sobre o assunto… Mas que na realidade sabe que está a ser apreciada de uma maneira muito mais imediata e muito menos cerebral.