Ouvindo os Associates hoje em dia, não deixa de surpreender o que podia passar por pop nos anos 80, mesmo com todas as conotações negativas que a era transporta e com o envelhecimento pouco carinhoso para as bandas que faziam parte do pop da altura. Mas a verdade é que em poucos outros momentos na história da música moderna se viu a entrada e a ascenção de bandas e ídolos pop tão pouco convencionais ou inovadores penetrarem o mainstream como aconteceu nos anos 80. Um dos mais peculiares desse lote acabou por ser o duo escocês Associates. Compostos pelo multi-instrumentista Alan Rankine e o seu emblemático e extravagante vocalista Billy Mackenzie, os Associates foram responsáveis por alguma da música mais inovadora e audaz que conseguiu navegar ao sabor da onda de glam chic que David Bowie e seus pares promoveram para conseguir captar as atenções do público geral. Com efeito, não é supreendente que o primeiro single dos Associates tenha acabado por ser uma versão de uma música de David Bowie, Boys Keep Swinging, mesmo antes do próprio a ter editado em estúdio.

Apesar da grande fortaleza do seu espólio musical residir nos singles editados, podemos apreender a essência deles nos seus três álbuns lançados entre 1980 e 1982 antes de Rankine sair da banda em conflito com Mackenzie, com efeito compilações dos próprios singles editados no mesmo espaço de tempo. Depois de abandonarem a designação de Mental Torture em 1979 quando para todos os efeitos iniciaram a sua colaboração musical, Rankine e Mackenzie entram em estúdio para produzir The Affectionate Punch, efectivamente o primeiro disco que lançaram como Associates, onde contaram também com a colaboração do baixo de Michael Dempsey, anteriormente dos The Cure, e de John Murphy, futuro baterista da banda de culto Death In June, que ainda assim não iriam fazer parte da formação oficial, mas também de Robert Smith, líder dos The Cure, fornecendo participações vocais adicionais. The Affectionate Punch constituiu e sumarizou muito do que se passava na altura em termos musicais, a emergência do pós-punk, as guitarras cortantes, as vozes peculiares. Nesse aspecto os Associates acabaram por se conseguir distinguir pelas particularidades que os seus dois membros acrescentavam a essa fórmula: Alan Rankine possuía uma forte inclinação para o experimentalismo, fazendo-se servir de inúmeros recursos em estúdio para conseguir a sonoridade que desejava, desde utilizar tubos de aspirador para gravar a voz de Mackenzie até ao aproveitamento sons de tosse como percussão simulada; já Billy Mackenzie representava aquilo a que um crítico uma vez denominou de “tranny in a wind tunnel”, excêntrico e teatral ao ponto do exagero e da overdose do dramático.
Contudo, foi com o mais reconhecido Fourth Drawer Down que os Associates começaram a obter algum do reconhecimento que mereciam e que em última análise os iria conduzir aos tops. Fourth Drawer Down é um fantástico documento do que os Associates tinham de melhor, casando na perfeição o experimentalismo de Rankine com a peculiaridade dramática de Mackenzie. Nele conseguimos ouvir laivos da perturbadora expansividade silenciosa de uns Suicide e de um new wave paranóico e trepidante conduzido pela inventividade electrónica de Rankine, que aqui recria algumas das mais complexas estruturas musicais que ainda assim conseguiam passar por pop. Fourth Drawer Down marcou também o período de maior abuso de narcóticos do duo, que nas sessões de gravação do disco chegou inclusive a ser internado de urgência por abuso de metanfetamina. Ainda assim, é em faixas como White Car In Germany, com uma batida preguiçosa e uma vocalização tipicamente teatral, Tell Me Easter’s On Friday, uma balada retro-futurista e metálica, ou na fria e tensa Q Quarters que a singularidade de Rankine e Mackenzie mais se notou talvez em toda a sua carreira, por muito curta, mas profícua que se viria a verificar.

Com Sulk, o último registo da banda em prelúdio da saída de cena de Rankine em 82, os Associates viriam a realizar as suas ambições de sucesso comercial nos tops britânicos, com especial relevo para os dois singles de Sulk que mais rotação tiveram que acabaram por ficar para a história como dois dos grandes hinos da era: Party Fears Two e Club Country. Sulk viu também os processos de produção de Rankine assumirem recursos como arranjos de cordas ou a utilização de overdubs frequentes com maior insistência, e o resultado é um disco com uma vertente mais acessível com produção à altura disso mesmo. Na digressão de promoção a Sulk, Rankine deixou os Associates naquilo que viria a ser a ruptura definitiva entre si e Mackenzie. Não mais o duo viria a editar música e, com a separação, Mackenzie prosseguiu sob a designação Associates, juntando a si vários colaboradores esporádicos, entre os quais a lenda do techno dos anos 90 Moritz Von Oswald, um dos dois membros dos essenciais Basic Channel.
Já Rankine continuou ligado à música, tendo inclusive sido um dos impulsionadores da cena musical escocesa que originou a estreia dos Belle and Sebastian, Tigermilk. Farão treze anos em Janeiro próximo que Billy Mackenzie, icónico vocalista dos Associates, se suicidou numa overdose de antidepressivos, apenas escassos dias depois da morte da sua mãe. Hoje ainda ouvimos os seus espasmos teatrais e gosto pelo dramático na música de uns Wild Beasts. Dele e de Alan Rankine fica a memória de quem no início dos anos 80 ouviu a música dos Associates e de quem agora pode apreciar as remasterizações dos seus três primeiros discos, uma banda que quebrou fronteiras na música pop, juntando os excessos do glam, do disco e do revivalismo do cabaret ao experimentalismo e à inovação.
Harvest Breed.









