Vindos de Oxford, também casa dos Radiohead, com os quais até entraram em digressão, os Supergrass apareceram em 1994 como o último flavor of the day, mais ou menos aquilo que os Enemy ou os Wombats são hoje, uma banda que produz um álbum e depois desaparece num mar de desconhecidos musicais. Muito longe estávamos de saber que iriam ser das poucas bandas, especialmente depois da dissolução dos Blur e dos Pulp, a sobreviver à autêntica máquina trituradora que foi a Britpop de meados dos anos 90, não só mostrando grande consistência musical como nunca perdendo a alegria da sua música, apesar do amontoar de pressões.

Mas tanto ontem como hoje, bastou um só single para agregar quantidades anormais de hype de imprensa em cima dos Supergrass. Essa honra recaiu no propulsivo Caught By The Fuzz, lançado numa discográfica independente (a banda seria assinada pela Parlophone para a edição do seu primeiro álbum), ainda hoje reconhecida como uma das músicas mais infecciosas, desafiadoras e ousadas a sair dos anos 90. E é assim que os Supergrass se apresentaram durante toda a sua carreira, consistentemente ousando e desafiando preconceitos do indie marcadamente britânico e empurrando as suas fronteiras para cada vez mais longe, os Supergrass são das bandas que não recebem o crédito que mereciam quer hoje em dia, quer na duração da sua carreira. Mas examinêmo-la ao pormenor:
I Should Coco (1995)
No auge da Britpop, os Supergrass lançaram o seu disco de estreia sob uma chuva de elogios e capas de revista que os aclamaram como salvadores do lado mais divertido da Britpop, numa espécie de cruzamento entre o bom humor e a inteligência dos Pulp e os mais rockeiros Oasis. I Should Coco beneficiou do impacto que o hino à juventude conduzido pela pianada, Alright, teve junto da corrente de música britânica que ia ganhando espaço.
Agora: I Should Coco, tal como a maioria dos álbuns de Supergrass, envelheceu bem. As guitarras nervosas e os teclados alegras iniciam a directa I’d Like To Know, que dá lugar à não menos irrequieta Caught By The Fuzz, que ainda hoje seria um single fantástico se lançado pela mão de uma qualquer banda do estilo. Mas cedo os Supergrass se mostraram como das bandas mais versáteis a saírem da cena Britpop, um termo que não os favorece. Veja-se a saltitante Lenny, guiada por um trabalho de bateria fantástico, ou as mais sonhadoras She’s So Loose ou Sofa (Of My Lethargy), que se juntam a verdadeiros ícones como Alright e Mansize Rooster (a ser homenageada em nome no próximo álbum de R.E.M.). Destaques: Caught By The Fuzz, Mansize Rooster, Strange Ones, She’s So Loose.

In It For The Money (1997)
In It For The Money apareceu numa altura em que a Britpop começava a dar as últimas. Os Blur viravam-se para outros pastos, os Oasis nem por isso, mas esses nunca viriam a mudar. 1997 foi o ano do lançamento do infame Be Here Now por uns inebriados Oasis e o histórico OK Computer dos Radiohead, efectivamente marcando o fim da era Britpop. Nesse contexto, In It For The Money, apesar de ter sido visto como um lançamento de segundo plano, marcou a era em que os Supergrass se viraram para composições mais resistentes ao passar dos anos e mais adultas e ambiciosas. Sun Hits The Sky, terceiro single, e Richard III fizeram um considerável impacto, mas no geral, acabou por ser um álbum visto de lado.
Agora: Quanto a mim, acaba por ser o melhor álbum dos Supergrass e um dos melhores e mais marcantes da década. As músicas, para além de mais ambiciosas que em I Should Coco, são a perfeita marca de uma banda no auge das suas capacidades. Apesar dos arranjos mais ambiciosos, In It For The Money não perde nenhum do inconformismo e ousadia de I Should Coco, e em termos criativos os Supergrass estão mais fortes que nunca. A abertura homónima mostra a banda decidida e olhando para a frente, “Here I see a time/ to go/ we’ll leave it all behind”, já em Richard III vemos Caught By The Fuzz de cara lavada, não menos rockeiro, mas mais consistente. O quarto single Late In The Day dá uma janela para o que seriam os Supergrass do futuro, enquanto Cheapskate e Going Out são músicas que fariam a inveja de qualquer banda indie britânica hoje em dia. Destaques: In It For The Money, Richard III, Late In The Day, Going Out, Cheapskate.
Supergrass (X-Ray) (1999)
Em 1999 a era do orgulho britânico que a Britpop tanto pregava tinha chegado ao fim e agora enquanto se esperava o ressurgimento do rock puro dos Strokes, instalava-se o medo do milénio que se aproximava com o domínio do experimentalismo dos Radiohead ou dos Spiritualized. A questão que se punha era onde se encaixaria o indie propulsivo e desafiador dos Supergrass nesta altura. A resposta surgiu no álbum homónimo de 99, onde pontificavam os singles tipicamente infecciosos Pumping On Your Stereo e Mary.
Agora: Supergrass é um registo mais contido que os dois anteriores, apesar disso não vemos a banda com dificuldades em arranjar ideias. A prova disso são as pérolas Mary, com o seu refrão explosivo e linhas de baixo atraentes, Pumping On Your Stereo, inegavelmente memorável, Moving, conduzida por acordes de guitarra acústica. Supergrass vê a banda sem medo do futuro e a assimilar o presente confuso que vivia, algo que vemos bem em Born Again. Destaques: Pumping On Your Stereo, Mary, Beautiful People, Moving.

Life On Other Planets (2002)
O primeiro álbum dos Supergrass desde o boom de rock puro e duro de Strokes, Libertines, Franz Ferdinand, Life On Other Planets é também o primeiro álbum com Rob Coombes como membro definitivo da banda. Life On Other Planets é também o primeiro álbum em que os Supergrass se vêem livres da montanha de atenção e hype que tinha estado à volta dos seus registos anteriores. Por um lado, foi considerado por muitos como um regresso à forma, os que consideraram que a tinham perdido, ajudado por essa orientação mais lo-fi que influenciou muitas bandas da altura.
Agora: Life On Other Planets é talvez o álbum mais eclético dos Supergrass. Aqui vemos a banda a apostar na pianada que antes víamos em Alright, em Za, na guitarra acústica e variações estilísticas em Seen The Light, ou ainda no típico riff forte de guitarra em Rush Hour Soul. Evening Of The Day remete e faz mesmo lembrar Late In The Day, enquanto Can’t Get Up impressiona pelo simples e infeccioso refrão que já vimos antes em Mansize Rooster ou Richard III. Destaques: Rush Hour Soul, Evening Of The Day, Can’t Get Up.
Road To Rouen (2005)
Road To Rouen é uma interessante olhadela a uma banda em mutação. Um álbum que mostra os Supergrass na sua faceta mais introvertida e reservada, inspirados pelo contacto directo com a morte, neste caso da mãe do vocalista Gaz Coombes, bem como do seu irmão Rob. Road To Rouen foi tido como um amadurecimento de uma banda que durante anos a fio se recusou terminantemente a sair da jovialidade e irreverência que marcou a sua carreira, daí ter dividido opiniões.
Agora: Road To Rouen é certamente um corte com o passado, aqui vemos maior proeminência de composições menos frenéticas e mais simples, como a primeira faixa, Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6), com uma guitarra acústica a marcar o tom do álbum. Tecnicamente, não é tão ecléctico como alguns dos seus predecessores, mas tem um feel mais íntimo e pessoal, acompanhado de uma execução surpreendentemente honesta. Não é imperdível, mas é o registo de uma banda que se sente introspectiva, em mutação. Destaques: Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6), St. Petersburg, Roxy.
Os Supergrass lançam este mês o seu sexto álbum, Diamond Hoo Ha.
Harvest Breed.






