Arquivo da categoria 'Bandas Em Foco'

27
Nov
09

Banda Em Foco: Associates

Ouvindo os Associates hoje em dia, não deixa de surpreender o que podia passar por pop nos anos 80, mesmo com todas as conotações negativas que a era transporta e com o envelhecimento pouco carinhoso para as bandas que faziam parte do pop da altura. Mas a verdade é que em poucos outros momentos na história da música moderna se viu a entrada e a ascenção de bandas e ídolos pop tão pouco convencionais ou inovadores penetrarem o mainstream como aconteceu nos anos 80. Um dos mais peculiares desse lote acabou por ser o duo escocês Associates. Compostos pelo multi-instrumentista Alan Rankine e o seu emblemático e extravagante vocalista Billy Mackenzie, os Associates foram responsáveis por alguma da música mais inovadora e audaz que conseguiu navegar ao sabor da onda de glam chic que David Bowie e seus pares promoveram para conseguir captar as atenções do público geral. Com efeito, não é supreendente que o primeiro single dos Associates tenha acabado por ser uma versão de uma música de David Bowie, Boys Keep Swinging, mesmo antes do próprio a ter editado em estúdio.

Apesar da grande fortaleza do seu espólio musical residir nos singles editados, podemos apreender a essência deles nos seus três álbuns lançados entre 1980 e 1982 antes de Rankine sair da banda em conflito com Mackenzie, com efeito compilações dos próprios singles editados no mesmo espaço de tempo. Depois de abandonarem a designação de Mental Torture em 1979 quando para todos os efeitos iniciaram a sua colaboração musical, Rankine e Mackenzie entram em estúdio para produzir The Affectionate Punch, efectivamente o primeiro disco que lançaram como Associates, onde contaram também com a colaboração do baixo de Michael Dempsey, anteriormente dos The Cure, e de John Murphy, futuro baterista da banda de culto Death In June, que ainda assim não iriam fazer parte da formação oficial, mas também de Robert Smith, líder dos The Cure, fornecendo participações vocais adicionais. The Affectionate Punch constituiu e sumarizou muito do que se passava na altura em termos musicais, a emergência do pós-punk, as guitarras cortantes, as vozes peculiares. Nesse aspecto os Associates acabaram por se conseguir distinguir pelas particularidades que os seus dois membros acrescentavam a essa fórmula: Alan Rankine possuía uma forte inclinação para o experimentalismo, fazendo-se servir de inúmeros recursos em estúdio para conseguir a sonoridade que desejava, desde utilizar tubos de aspirador para gravar a voz de Mackenzie até ao aproveitamento sons de tosse como percussão simulada; já Billy Mackenzie representava aquilo a que um crítico uma vez denominou de “tranny in a wind tunnel”, excêntrico e teatral ao ponto do exagero e da overdose do dramático.

Contudo, foi com o mais reconhecido Fourth Drawer Down que os Associates começaram a obter algum do reconhecimento que mereciam e que em última análise os iria conduzir aos tops. Fourth Drawer Down é um fantástico documento do que os Associates tinham de melhor, casando na perfeição o experimentalismo de Rankine com a peculiaridade dramática de Mackenzie. Nele conseguimos ouvir laivos da perturbadora expansividade silenciosa de uns Suicide e de um new wave paranóico e trepidante conduzido pela inventividade electrónica de Rankine, que aqui recria algumas das mais complexas estruturas musicais que ainda assim conseguiam passar por pop. Fourth Drawer Down marcou também o período de maior abuso de narcóticos do duo, que nas sessões de gravação do disco chegou inclusive a ser internado de urgência por abuso de metanfetamina. Ainda assim, é em faixas como White Car In Germany, com uma batida preguiçosa e uma vocalização tipicamente teatral, Tell Me Easter’s On Friday, uma balada retro-futurista e metálica, ou na fria e tensa Q Quarters que a singularidade de Rankine e Mackenzie mais se notou talvez em toda a sua carreira, por muito curta, mas profícua que se viria a verificar.

Com Sulk, o último registo da banda em prelúdio da saída de cena de Rankine em 82, os Associates viriam a realizar as suas ambições de sucesso comercial nos tops britânicos, com especial relevo para os dois singles de Sulk que mais rotação tiveram que acabaram por ficar para a história como dois dos grandes hinos da era: Party Fears Two e Club Country. Sulk viu também os processos de produção de Rankine assumirem recursos como arranjos de cordas ou a utilização de overdubs frequentes com maior insistência, e o resultado é um disco com uma vertente mais acessível com produção à altura disso mesmo. Na digressão de promoção a Sulk, Rankine deixou os Associates naquilo que viria a ser a ruptura definitiva entre si e Mackenzie. Não mais o duo viria a editar música e, com a separação, Mackenzie prosseguiu sob a designação Associates, juntando a si vários colaboradores esporádicos, entre os quais a lenda do techno dos anos 90 Moritz Von Oswald, um dos dois membros dos essenciais Basic Channel.

Já Rankine continuou ligado à música, tendo inclusive sido um dos impulsionadores da cena musical escocesa que originou a estreia dos Belle and Sebastian, Tigermilk. Farão treze anos em Janeiro próximo que Billy Mackenzie, icónico vocalista dos Associates, se suicidou numa overdose de antidepressivos, apenas escassos dias depois da morte da sua mãe. Hoje ainda ouvimos os seus espasmos teatrais e gosto pelo dramático na música de uns Wild Beasts. Dele e de Alan Rankine fica a memória de quem no início dos anos 80 ouviu a música dos Associates e de quem agora pode apreciar as remasterizações dos seus três primeiros discos, uma banda que quebrou fronteiras na música pop, juntando os excessos do glam, do disco e do revivalismo do cabaret ao experimentalismo e à inovação.

Harvest Breed.

04
Abr
08

Banda em Foco: Supergrass

Vindos de Oxford, também casa dos Radiohead, com os quais até entraram em digressão, os Supergrass apareceram em 1994 como o último flavor of the day, mais ou menos aquilo que os Enemy ou os Wombats são hoje, uma banda que produz um álbum e depois desaparece num mar de desconhecidos musicais. Muito longe estávamos de saber que iriam ser das poucas bandas, especialmente depois da dissolução dos Blur e dos Pulp, a sobreviver à autêntica máquina trituradora que foi a Britpop de meados dos anos 90, não só mostrando grande consistência musical como nunca perdendo a alegria da sua música, apesar do amontoar de pressões.

Mas tanto ontem como hoje, bastou um só single para agregar quantidades anormais de hype de imprensa em cima dos Supergrass. Essa honra recaiu no propulsivo Caught By The Fuzz, lançado numa discográfica independente (a banda seria assinada pela Parlophone para a edição do seu primeiro álbum), ainda hoje reconhecida como uma das músicas mais infecciosas, desafiadoras e ousadas a sair dos anos 90. E é assim que os Supergrass se apresentaram durante toda a sua carreira, consistentemente ousando e desafiando preconceitos do indie marcadamente britânico e empurrando as suas fronteiras para cada vez mais longe, os Supergrass são das bandas que não recebem o crédito que mereciam quer hoje em dia, quer na duração da sua carreira. Mas examinêmo-la ao pormenor:

I Should Coco (1995)

No auge da Britpop, os Supergrass lançaram o seu disco de estreia sob uma chuva de elogios e capas de revista que os aclamaram como salvadores do lado mais divertido da Britpop, numa espécie de cruzamento entre o bom humor e a inteligência dos Pulp e os mais rockeiros Oasis. I Should Coco beneficiou do impacto que o hino à juventude conduzido pela pianada, Alright, teve junto da corrente de música britânica que ia ganhando espaço.

Agora: I Should Coco, tal como a maioria dos álbuns de Supergrass, envelheceu bem. As guitarras nervosas e os teclados alegras iniciam a directa I’d Like To Know, que dá lugar à não menos irrequieta Caught By The Fuzz, que ainda hoje seria um single fantástico se lançado pela mão de uma qualquer banda do estilo. Mas cedo os Supergrass se mostraram como das bandas mais versáteis a saírem da cena Britpop, um termo que não os favorece. Veja-se a saltitante Lenny, guiada por um trabalho de bateria fantástico, ou as mais sonhadoras She’s So Loose ou Sofa (Of My Lethargy), que se juntam a verdadeiros ícones como Alright e Mansize Rooster (a ser homenageada em nome no próximo álbum de R.E.M.). Destaques: Caught By The Fuzz, Mansize Rooster, Strange Ones, She’s So Loose.

In It For The Money (1997)

In It For The Money apareceu numa altura em que a Britpop começava a dar as últimas. Os Blur viravam-se para outros pastos, os Oasis nem por isso, mas esses nunca viriam a mudar. 1997 foi o ano do lançamento do infame Be Here Now por uns inebriados Oasis e o histórico OK Computer dos Radiohead, efectivamente marcando o fim da era Britpop. Nesse contexto, In It For The Money, apesar de ter sido visto como um lançamento de segundo plano, marcou a era em que os Supergrass se viraram para composições mais resistentes ao passar dos anos e mais adultas e ambiciosas. Sun Hits The Sky, terceiro single, e Richard III fizeram um considerável impacto, mas no geral, acabou por ser um álbum visto de lado.

Agora: Quanto a mim, acaba por ser o melhor álbum dos Supergrass e um dos melhores e mais marcantes da década. As músicas, para além de mais ambiciosas que em I Should Coco, são a perfeita marca de uma banda no auge das suas capacidades. Apesar dos arranjos mais ambiciosos, In It For The Money não perde nenhum do inconformismo e ousadia de I Should Coco, e em termos criativos os Supergrass estão mais fortes que nunca. A abertura homónima mostra a banda decidida e olhando para a frente, “Here I see a time/ to go/ we’ll leave it all behind”, já em Richard III vemos Caught By The Fuzz de cara lavada, não menos rockeiro, mas mais consistente. O quarto single Late In The Day dá uma janela para o que seriam os Supergrass do futuro, enquanto Cheapskate e Going Out são músicas que fariam a inveja de qualquer banda indie britânica hoje em dia. Destaques: In It For The Money, Richard III, Late In The Day, Going Out, Cheapskate.

Supergrass (X-Ray) (1999)

Em 1999 a era do orgulho britânico que a Britpop tanto pregava tinha chegado ao fim e agora enquanto se esperava o ressurgimento do rock puro dos Strokes, instalava-se o medo do milénio que se aproximava com o domínio do experimentalismo dos Radiohead ou dos Spiritualized. A questão que se punha era onde se encaixaria o indie propulsivo e desafiador dos Supergrass nesta altura. A resposta surgiu no álbum homónimo de 99, onde pontificavam os singles tipicamente infecciosos Pumping On Your Stereo e Mary.

Agora: Supergrass é um registo mais contido que os dois anteriores, apesar disso não vemos a banda com dificuldades em arranjar ideias. A prova disso são as pérolas Mary, com o seu refrão explosivo e linhas de baixo atraentes, Pumping On Your Stereo, inegavelmente memorável, Moving, conduzida por acordes de guitarra acústica. Supergrass vê a banda sem medo do futuro e a assimilar o presente confuso que vivia, algo que vemos bem em Born Again. Destaques: Pumping On Your Stereo, Mary, Beautiful People, Moving.

Life On Other Planets (2002)

O primeiro álbum dos Supergrass desde o boom de rock puro e duro de Strokes, Libertines, Franz Ferdinand, Life On Other Planets é também o primeiro álbum com Rob Coombes como membro definitivo da banda. Life On Other Planets é também o primeiro álbum em que os Supergrass se vêem livres da montanha de atenção e hype que tinha estado à volta dos seus registos anteriores. Por um lado, foi considerado por muitos como um regresso à forma, os que consideraram que a tinham perdido, ajudado por essa orientação mais lo-fi que influenciou muitas bandas da altura.

Agora: Life On Other Planets é talvez o álbum mais eclético dos Supergrass. Aqui vemos a banda a apostar na pianada que antes víamos em Alright, em Za, na guitarra acústica e variações estilísticas em Seen The Light, ou ainda no típico riff forte de guitarra em Rush Hour Soul. Evening Of The Day remete e faz mesmo lembrar Late In The Day, enquanto Can’t Get Up impressiona pelo simples e infeccioso refrão que já vimos antes em Mansize Rooster ou Richard III. Destaques: Rush Hour Soul, Evening Of The Day, Can’t Get Up.

Road To Rouen (2005)

Road To Rouen é uma interessante olhadela a uma banda em mutação. Um álbum que mostra os Supergrass na sua faceta mais introvertida e reservada, inspirados pelo contacto directo com a morte, neste caso da mãe do vocalista Gaz Coombes, bem como do seu irmão Rob. Road To Rouen foi tido como um amadurecimento de uma banda que durante anos a fio se recusou terminantemente a sair da jovialidade e irreverência que marcou a sua carreira, daí ter dividido opiniões.

Agora: Road To Rouen é certamente um corte com o passado, aqui vemos maior proeminência de composições menos frenéticas e mais simples, como a primeira faixa, Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6), com uma guitarra acústica a marcar o tom do álbum. Tecnicamente, não é tão ecléctico como alguns dos seus predecessores, mas tem um feel mais íntimo e pessoal, acompanhado de uma execução surpreendentemente honesta. Não é imperdível, mas é o registo de uma banda que se sente introspectiva, em mutação. Destaques: Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6), St. Petersburg, Roxy.

Os Supergrass lançam este mês o seu sexto álbum, Diamond Hoo Ha.

Harvest Breed.

18
Nov
07

Banda Em Foco: The Radio Dept.

Os países nórdicos são na generalidade conhecidos por duas verdades adquiridas: a sua monstruosa taxa de suicídios e as suas bandas de metal. E se ainda considerarmos o primeiro facto como discutível, já o segundo é inegável. E como se o embaraçoso nunca acabasse, até já ganharam um Festival da Eurovisão com uma delas. Mas, para ser sincero, também já venceram com os ABBA há uns anitos atrás. Os ABBA, esses, eram suecos. E na Suécia mora uma tradição musical mais abrangente, criativa e diversa em comparação aos seus vizinhos. Desde os The Hives aos Peter, Björn & John, desde os The Knife, os Shout Out Louds ou os I’m From Barcelona até a José González ou Jens Lekman, a música sueca tem florescido apreciavelmente nos últimos anos. Os The Radio Dept. acabam por entrar aqui como uma luva.

Conhecidos em Portugal pelas suas contribuições para a banda sonora do filme de Sofia Coppolla, Marie Antoinette, os The Radio Dept. são uma entidade misteriosa. Constituídos actualmente por três elementos, Johan Duncanson, Martin Larsson e Daniel Tjader, já possuíram vários membros que entraram e saíram em períodos de tempo limitados, sendo que a banda acaba por ser o produto criativo de Duncanson e Larsson. Os The Radio Dept. fazem um excelente trabalho a ressuscitar o Shoegaze com elementos electrónicos, servindo-se de melodias simples e subversivas. Com um trabalho reminiscente de Jesus And Mary Chain e muito devendo a My Bloody Valentine, as colunas de som produzidas pelos The Radio Dept. têm sonoridades quase divinas e transcendentais que provocam um estado de transe no ouvinte.

Oito anos depois da formação original ter-se juntado pela primeira vez para fazer música, os The Radio Dept. lançaram o seu primeiro álbum e aquele que os tirou do anonimato sueco. Apesar disso, o fabuloso Lesser Matters, de 2003 é um álbum que cresce à medida que o ouvimos repetidas vezes. Se há coisa que os The Radio Dept. não são é unidimensionais. Em apenas os três quartos de hora da sua estreia, deitam as mãos à obra em shoegaze directo, em garage rock digno de uns Strokes, em electrónica panorâmica ou até em pop puro, duro e acima de tudo contagiante. Dificilmente encontraremos música muito mais contagiante e viciante que Where Damage Isn’t Already Done, com o seu riff em estilo Strokes ou Libertines e com uma vocalização ponderada e confiante a dar espaço à melodia. Keen On Boys, uma das eleições para a banda sonora de Marie Antoinette, dá-nos uma ideia mais segura do que é a música dos The Radio Dept., constantemente protegida por uma barreira de som, presenteia-nos com um ritmo preguiçoso e constante. Mas é o primeiro single, Why Won’t You Talk About It?, que arruma definitivamente com a questão, com a sua guitarra forte e lancinante, presta um comovente tributo aos antepassados de shoegaze da melhor forma possível. A meio de Lesser Matters, apercebemo-nos de toda a sua grandiosidade, com a instrumental Slottet #2 a mostrar pianos e guitarras acústicas rodopiantes que formam um panorama etéreo. Lesser Matters fecha de forma particularmente surpreendente, com a dupla Ewan, segundo single retirado do álbum, e Lost And Found. A primeira evidenciando um compromisso entre uma bateria impulsiva e vários elementos que se entrelaçam à sua volta, e a segunda com uma batida electrónica. Lesser Matters foi em 2003 um dos álbuns do ano e um dos mais sub-valorizados até hoje.

Com o EP Pulling Our Weight do mesmo ano, a banda aproveitou para capitalizar em todo o interesse à sua volta e, no processo, compôs a fascinante música que dá o título ao EP, também ela merecendo entrada na banda sonora de Marie Antoinette. Recaíndo numa batida retro, Pulling Our Weight serve-se da mesma fórmula de Ewan para suportar uma melodia ainda mais viciante, com os mesmos resultados dos singles de Lesser Matters.

Em 2006 a banda lançou o seu segundo álbum, Pet Grief, apostando numa sonoridade mais electrónica em substituição das distorções do primeiro álbum. Apesar disso, Pet Grief, demonstra que os The Radio Dept. não perderam nenhuma da extraordinária capacidade de criar, quer hooks assombrosos, quer atmosferas harmoniosas. A música homónima e A Window atestam respectivamente a isso mesmo, ambas com uma envolvência bastante maior do sintetizador. O primeiro e único single retirado do álbum, The Worst Taste In Music, com um conceito sui-generis e execução lírica algo embaraçosa, demonstra uma batida seca acompanhada de uma sonoridade grandiosa. A minha escolha pessoal vai para os números que mais se aproximam dos sons recriados em Lesser Matters, nomeadamente Every Time e Tell.

Com um álbum declaradamente em preparação, os The Radio Dept. mostraram proficiência em dois caminhos musicais distintos com o mesmo engenho simples e característico. Só por si, os The Radio Dept. são prova viva daquilo que a Suécia tem feito na música moderna dos últimos 10 anos. E não se trata de metal.

Harvest Breed.

10
Nov
07

Banda Em Foco: Tokyo Police Club

De vez em quando posso ser um gajo chato quando toca a descobrir bandas novas. Excito-me facilmente com elas e tento forçar essa excitação noutras pessoas que, muito sinceramente, querem lá saber delas. O problema é que, e fazendo jus ao lema deste blog, não são poucas as vezes em que acerto. A banda que me tem posto a chatear o maior número de coitados é indiscutivelmente os Tokyo Police Club. Como é por demais óbvio, não entraram na lista anterior de bandas-revelação precisamente por serem canadianos e nem americanos, nem britânicos. Desculpas, digo eu.

A verdade é que já lá vai o tempo em que os Tokyo Police Club eram revelações. Saíram em 2006 com o EP A Lesson In Crime, do qual retirou dois singles, Cheer It On e Nature Of The Experiment, tendo ainda colocado online um vídeo para a Citizens Of Tomorrow, depois de se terem formado em 2005, e desde então não mais parou a máquina de hype quer na imprensa norte-americana, quer na inglesa. Aliás, principalmente na inglesa. Daí para a frente, a verdade é que muito pouco se passou. A banda, para além do lançamento dos tais dois singles retirados do EP de estreia, editou ainda mais um EP, Smith, e um single isolado, Your English Is Good, presume-se que para abrir o apetite para o primeiro álbum que aí vem. Com isto tudo, capitalizou em toda a boa vontade em seu favor e aproveitou para mudar de editora, da modesta Paper Bag Records, para a ainda indie, mas melhor equipada Saddle Creek, onde já “moravam” Bright Eyes, The Faint, Cursive, entre outras.

Os Tokyo Police Club não são uma banda que vá a reboque de um elemento de personalidade vincada e carismática na sua formação. O líder Dave Monks, vocalista, fazendo lembrar os menos distraídos de Julian Casablancas, e baixista, é o nosso típico Indie Kid, está longe de ser um animal de palco, mas ao que consta os seus concertos teimam a não deixar ninguém desiludido. O teclista e multi-instrumentista Graham Wright é o membro que mais vezes dá a cara pela banda, usa óculos e é um membro regular do fórum oficial da banda, o que não deixa de lhes conferir uma espécie de proximidade, ainda que nerdy, refrescante nos dias que correm, com os fãs, que a qualquer altura podem facilmente falar casualmente com um dos elementos da banda. Para além destes dois elementos fundadores dos Tokyo Police Club, a banda conta ainda com a destreza musical do guitarrista Josh Hook e o inventivo baterista Greg Alsop.

Mas recapitulemos: esta banda tem, na realidade, dois EPs lançados e um single à parte. Bem vistas as coisas, foi com A Lesson In Crime que tudo isto começou, vejamos o que o EP nos tem para oferecer: Com menos de 2 minutos de duração Cheer It On é, não só o primeiro single da banda, como é a música que melhor a apresenta ao público, quanto mais não seja por falar do seu nome no refrão. Começa com uma abertura de rompante de uma bateria que veremos ser uma constante em TPC dando origem a uma linha de guitarra acutilante e “angular” que não demora muito a chegar a um refrão que fica na cabeça. É penetrante, é viciante e até parece fácil. Nature Of The Experiment é o segundo single retirado de A Lesson In Crime segue na mesma linha do primeiro. Trilha por uma linha de baixo que entra no início e que mais tarde define a melodia com a entrada de uma guitarra em tempo reduzido. A música acaba por ser a escolha de eleição da maioria das rádios canadianas em que consegue airplay e que a banda toca ao vivo no show do David Letterman, algo invulgar para tão pouco material editado. Citizens Of Tomorrow acaba por ficar numa dinâmica mais reflectiva que os singles. Mas funciona da mesma forma. As coisas começam com uma sucessão de palmas e de linhas vocais de Monks sobre a sua visão apocalíptica do futuro não muito distante em 2009 numa sociedade dominada por máquinas e robôs, mas rapidamente entra numa combinação de guitarras e num baixo penetrante que facilmente tomam conta do momento. Daí para a frente, a fórmula é a mesma: ataques de guitarras acutilantes e ofensivos, acompanhados de sintetizadores que rasgam as melodias a meio e de linhas de baixo objectivas e ameaçadoras. A bateria de Greg Alsop é variada e versátil e crucial ao desenvolvimento do ritmo da banda. No fundo, é toda esta conjugação de talento em várias áreas que promete tanto sobre esta banda. A dupla chave-de-ouro em Be Good e La Ferrasie adopta uma estrutura diferente com crescendos que culminam em finais apoteóticos.

Mesmo assim, convém não virar os olhos ao resto do material que lançaram, mais concretamente o EP Smith e o single Your English Is Good. O primeiro é constituído por apenas três faixas, uma delas já constava no A Lesson In Crime, e com menos de 10 minutos, conta ainda com o anterior lado B do single Nature Of The Experiment, Box, e com a espaçosa A Lesson In Crime. Mas é a primeira que realmente capta as atenções aqui, mais um forte assalto de guitarras precisas e coordenadas que fazem pontaria para o centro de prazer do cérebro, é o trabalho de teclado genial de Graham Wright que acaba por roubar o protagonismo. Mas é provavelmente o single Your English Is Good que nos diz melhor para onde realmente caminha esta banda. Melodias e hooks sucessivos ridiculamente viciantes e hipnóticos caminham sobre um ar de jovialidade e exuberância por parte de uma banda que está claramente super-confiante, e pelas mostras, com razão para o ser.

Os Tokyo Police Club têm agora de lidar com a pressão da expectativa sobre o seu novo álbum que não terá nenhum do material lançado até agora, que é uma atitude que admiro, uma banda que não precisa de se repetir no seu álbum de estreia como tantas outras acaba por passar a imagem de que aqui não há qualquer falta de ideias para novo material e de que a banda se sente confiante a dar esse passo em frente sem a muleta do seu material anterior. Até por aqui podemos dar uma espreitadela no mundo dos TPC, uma banda ambiciosa, muito confiante no seu próprio potencial e que tem tudo para lançar um daqueles álbuns dignos de compêndio. Esperemos para ver. O primeiro LP dos Tokyo Police Club tem lançamento previsto para o início de 2008.

Harvest Breed.