Festivais e concursos de bandas de garagem promovidos por autarquias são, salvo honrosas excepções, o bater no fundo. Nos piores palcos e locais de espectáculo, com o pior equipamento, com os piores técnicos, sem qualquer retorno, sem promoção ou publicidade, a maioria das bandas fica feliz da vida com a oportunidade de tocar algumas canções para os seus amigos na plateia. Tivemos recentemente a experiencia de tocar num festival desta natureza. Fomos instruidos para estar no local para fazer soundcheck às 15:00, o que fizemos. Quando lá chegamos, não havia sinal nem do técnico de som, nem do PA, apenas 5 bandas de adolescentes de braços cruzados e à espera como nós. Ficámos apenas meio surpreendidos.
Duas horas mais tarde, aparece alguém com um PA, uma hora depois disso aparece um técnico de som (e quando digo “técnico de som”, digo-o no sentido mais abrangente possível). Com pressa e sem staff, este “técnico de som”pediu ajuda aos músicos de algumas das bandas para montar o palco. Estes músicos não veteranos road dogs ou geeks informados, mas sim miúdos de 15 anos que não sabem a diferença entre um cabo de antena e um cabo de microfone. A determinada altura, haviam 10 pessoas em cima do palco – nenhuma delas a fazer algo de concreto. Vi 3 rapazes a discutir acesamente o ângulo e proximidade de um microfone a um amplificador digital de caca. Se eu já acharia essa imagem ligeiramente divertida numa sessão de gravação, então num festivalzeco de bandas amadoras no meio do nada a preparar 20 minutos de concerto…
Saturado de esperar horas a fio para fazer soundcheck (hora combinada era às 15:00, hora efectiva a que começámos a fazer som foi cerca de 20:00) e algo preocupado com o que estava a acontecer, perguntei ao técnico de som o que o estava a atrasar. “É um microfone que não está a funcionar… Sabes como é!”, disse. Sorriu e voltou a mexer na mesa de mistura, com a confiança de um chimpanzé a tentar conduzir um Boeing 747. Quando trabalhei como técnico de som no estrangeiro, perdia imediatamente o meu emprego se estivesse 5 horas atrasado e respondesse daquela maneira a um artista. Aliás, esqueçamos isso – qualquer profissional, em qualquer emprego, se tivesse 5 horas atrasado e se se justificasse com descontracção, deixava de ser profissional imediatamente. Para não falar que qualquer técnico de som minimamente competente sabe que se tem um microfone mau, o substitui em 2 minutos e não fica a tentar soluções esotéricas durante horas. Na realidade o que aconteceu nessa noite foi uma autarquia a gastar uns tostões rápidos no voto jovem em véspera de eleições, sendo que ninguém daquele lado realmente quer oferecer bons recursos materiais e humanos aos jovens artistas locais. Jovens esses que hoje estão felicíssimos da vida por poderem tocar num palco para os seus amigos – mas que daqui a poucos anos vão ver com outros olhos este tipo de migalhas.
Which Will.