Arquivo da categoria 'Cachet 0'

25
Set
09

Cachet 0, Vol. 8

Festivais e concursos de bandas de garagem promovidos por autarquias são, salvo honrosas excepções, o bater no fundo. Nos piores palcos e locais de espectáculo, com o pior equipamento, com os piores técnicos, sem qualquer retorno, sem promoção ou publicidade, a maioria das bandas fica feliz da vida com a oportunidade de tocar algumas canções para os seus amigos na plateia. Tivemos recentemente a experiencia de tocar num festival desta natureza. Fomos instruidos para estar no local para fazer soundcheck às 15:00, o que fizemos. Quando lá chegamos, não havia sinal nem do técnico de som, nem do PA, apenas 5 bandas de adolescentes de braços cruzados e à espera como nós. Ficámos apenas meio surpreendidos.

Duas horas mais tarde, aparece alguém com um PA, uma hora depois disso aparece um técnico de som (e quando digo “técnico de som”, digo-o no sentido mais abrangente possível). Com pressa e sem staff, este “técnico de som”pediu ajuda aos músicos de algumas das bandas para montar o palco. Estes músicos não veteranos road dogs ou geeks informados, mas sim miúdos de 15 anos que não sabem a diferença entre um cabo de antena e um cabo de microfone. A determinada altura, haviam 10 pessoas em cima do palco – nenhuma delas a fazer algo de concreto. Vi 3 rapazes a discutir acesamente o ângulo e proximidade de um microfone a um amplificador digital de caca. Se eu já acharia essa imagem ligeiramente divertida numa sessão de gravação, então num festivalzeco de bandas amadoras no meio do nada a preparar 20 minutos de concerto…

Saturado de esperar horas a fio para fazer soundcheck (hora combinada era às 15:00, hora efectiva a que começámos a fazer som foi cerca de 20:00) e algo preocupado com o que estava a acontecer, perguntei ao técnico de som o que o estava a atrasar. “É um microfone que não está a funcionar… Sabes como é!”, disse. Sorriu e voltou a mexer na mesa de mistura, com a confiança de um chimpanzé a tentar conduzir um Boeing 747. Quando trabalhei como técnico de som no estrangeiro, perdia imediatamente o meu emprego se estivesse 5 horas atrasado e respondesse daquela maneira a um artista. Aliás, esqueçamos isso – qualquer profissional, em qualquer emprego, se tivesse 5 horas atrasado e se se justificasse com descontracção, deixava de ser profissional imediatamente. Para não falar que qualquer técnico de som minimamente competente sabe que se tem um microfone mau, o substitui em 2 minutos e não fica a tentar soluções esotéricas durante horas. Na realidade o que aconteceu nessa noite foi uma autarquia a gastar uns tostões rápidos no voto jovem em véspera de eleições, sendo que ninguém daquele lado realmente quer oferecer bons recursos materiais e humanos aos jovens artistas locais. Jovens esses que hoje estão felicíssimos da vida por poderem tocar num palco para os seus amigos – mas que daqui a poucos anos vão ver com outros olhos este tipo de migalhas.

Which Will.

04
Jul
09

Cachet 0, Vol. 7

Num mundo ideal, o sucesso crítico e comercial de uma banda dependeria exclusivamente do seu talento. Mas não vivemos num mundo ideal e há muita gente que, apesar de fazer música fraquinha, vai longe na indústria musical – de modo análogo, há outros tantos cheios de música maravilhosa para oferecer que nunca tiveram ou terão qualquer tipo de crédito, incentivo ou reconhecimento. Dizer isto na realidade é uma redundância, mas faz-nos reflectir: que tipo de valor devemos conhecer a bandas como os U2 ou Metallica? Mesmo dentro microcosmos que é a música alternativa portuguesa, que mais-valia têm aqueles que de vez em quando já tocam em festivais e cobram já cachets (essa palavra mágica para as bandas indie) respeitáveis regularmente?

O facto é que a música é apenas uma parte da equação, sendo que o resto é pura e simplesmente a capacidade da banda se gerir a si própria. Uma banda de originais com bons músicos (especialmente se for uma banda numerosa) é como um pequeno país, com várias facções políticas que entram em lobbying e debate entre si sempre que surge uma decisão criativa ou administrativa. Umas bandas assemelham-se mais a ditaduras (onde um ou dois membros assumem as rédeas), e outras a democracias (onde todos têm opiniões fortes por vezes contraditórias que o grupo tenta acomodar). De uma forma ou de outra, se toda a gente remar fortemente para a mesma direcção ensaia-se mais, dá-se mais concertos, faz-se mais networking.

Arthur C. Clarke dizia “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinta de magia”; aqui, uma banda com sucesso suficientemente grande é indistinta de uma empresa. Uma empresa onde todos trabalham diariamente para subir a quota de mercado, uma empresa com um bom departamento de marketing e relações públicas. Seja o ar desgraçado e “eu-sofro-pela-minha-arte” de B Fachada, ou a mega máquina de marketing e imagem dos The Gift, coisas destas aliadas a uma capacidade de auto-gestão são determinantes para um banda sair da garagem. Independentemente se está ou não a tentar dar lixo aos ouvintes. Porque os críticos são ouvintes como quaisquer outros, e podem ser tão enviesados ou influenciáveis como qualquer um de nós.

Fazer música não é difícil, difícil é fazer boa música. Mas isso pode não ser importante. Uma banda só precisa de fazer música para ser ouvida – com a imagem e hype certos, não precisa de ser música espectacular para ter um sucesso espectacular. Se muitas das bandas de garagem com quem já partilhei um palco tivessem a organização e capacidade de marketing de projectos como as Just Girls, os Da Weasel ou os The Gift, poderiam perfeitamente ter um sucesso comercial e crítico comparável a eles.

Which Will.

02
Jul
09

Cachet 0, Vol. 6

Em Inglaterra, trabalhei num estúdio que recebeu a Madonna para gravar um álbum recente. Nunca tinha visto uma estrela pop na minha vida, e dificilmente alguém poderá imaginar um artista pop vivo maior do que a Madonna. Nos dias antes de ela chegar, pensei que como seria ela: a Madonna é uma personagem tão enorme que por vezes é difícil vê-la como uma pessoa. Quando ela apareceu e começou a trabalhar, descobri que ela era uma mulher aparentemente fria, concentrada, diligente, exigente e para minha grande surpresa não menos humana do que muitas mulheres workaholics de sucesso que já conheci na vida. Tinha era uma particularidade de arrastar à volta dela um circo incrível de fotógrafos, guarda-costas, assistentes obsessivos e uma aura intimidatória, de eminência quase papal. Tudo isto já lhe era praticamente indiferente.

Pouco após a morte de Michael Jackson, as relações públicas de Madonna emitiram um comunicado revelando que ela está tão transtornada que não consegue parar de chorar. Eu não deixei de achar isto um pouco estranho. Será que aquela mulher tão tenaz, distante e objectiva esteve literalmente a chorar durante horas pela morte de uma outra mega-estrela? Ou será que foi uma hipérbole considerada adequada pelos conselheiros de relações públicas da “instituição Madonna”?

Perguntei-me se esta condição agridoce de ser uma superstar gera uma espécie de compaixão mútua – se era possível que Madonna, de uma estranha forma, conseguisse compreender melhor do que os outros a tragédia da vida pessoal de Jackson, e que a sua morte a magoasse profundamente. Mas Jackson foi de certa forma obrigado a ser um entertainer desde os 5 anos de idade, ao passo que Madonna voluntariamente procurou a fama e estrelato desde jovem adulta. Quando se é rico, um acto de insanidade mental ou de desespero é sempre visto como uma excentricidade e não pelo aquilo que é. Não sei se Madonna chorou como uma madalena por Jackson, mas um dia alguma superstar estará a emitir um comunicado parecido por ela.

Which Will.

13
Jun
09

Cachet 0, Vol. 5

Eu sempre usei os primeiros volumes da antologia dos The Beatles para me guiar sobre como uma boa banda se devia formar e evidenciar no mundo da música. Dizia George Harrison, sobre os tempos dos fab four no violento circuito de música ao vivo de Hamburgo, que o seu patrão alemão lhe dizia todas as noites que eles tinham de “mach schau” (fazer show). Depois dava-lhes speed e eles tocavam aos berros e saltos durante horas a fio, sem parar. Harrison concluiu que, apesar dos métodos pouco ortodoxos, foi assim que os The Beatles aprenderam muito sobre entusiasmar públicos (e sobre disfarçar calinadas com acenos e piscar de olhos para o público).

Suponho que há certas coisas que não mudam. Nos últimos concursos de bandas que temos participado, temos estado mais desleixados em termos de execução do que a maioria da “concorrência”. Mais, nunca somos a banda que traz os amigos todos para fazer claque, nem tão pouco a banda que tem o som mais equilibrado e certinho, ou certamente a banda que aparece com mais vontade de “ganhar”. Contudo, temos tido a felicidade de sermos apurados na grande maioria das eliminatórias em que participamos. Porquê? Porque nós em palco somos bastante físicos e agressivos, de uma maneira que a “concorrência” não é por terem de se concentrar em executar bem a sua música.

Não digo isso com arrogância à “concorrência”, digo isso com uma ponta de pena. Nós só queremos tocar, “ganhar” concursos não é de todo uma prioridade ou objectivo para nós. Nem sequer sabemos quais são os prémios, são só concertos que damos com outras bandas. A pena que tenho é basicamente porque sinto que as pessoas estão a olhar para as guitarras a voar e os saltos de kung fu, e que não estão a ouvir as nossas músicas. Nós passámos horas e horas a escrever-las e fico com a sensação que ninguém as está a ouvir, que podiamos estar a tocar todos músicas diferentes mas desde que berrássemos e saltássemos muito os “juris” iriam gostar na mesma. É irónico que, num momento em que supostamente deveriamos estar a ser avaliados como banda, a nossa negligência pareça estar a ser encorajeada em prol dum espectáculo mais visual.

Há qualquer coisa de desapontante no “mach schau”. Sinto-me como uma menina da Playboy que na entrevista insiste em mencionar que é doutorada em física quântica e que publicou vários artigos científicos sobre o assunto… Mas que na realidade sabe que está a ser apreciada de uma maneira muito mais imediata e muito menos cerebral.

Which Will.

21
Mai
09

Cachet 0, Vol. 4

Há um certo grau de masoquismo nas bandas de garagem que vão aos vários concursos de bandas espalhados aqui e ali por Portugal fora. Sabem, à partida, que provavelmente vão tocar para um público completamente desinteressado (que está lá para torcer pela banda do amigo e não para conhecer música nova), para um juri maioritariamente composto de pessoas que nada entendem de música e que normalmente quem fica em primeiro lugar é quem traz o maior número de amigos para consumirem no bar. Muito frequentemente vemos num concurso uma banda grunge, uma banda ska e uma banda de metal; as bandas concorrentes não têm muito em comum para estabelecerem laços, e os amigos que vêm de arrasto também não se irão interessar por bandas de géneros musicais completamente diferentes. Mais, a maioria dos concursos não ajuda nenhuma banda em termos de custos de deslocações, quer ela venha do bairro ou do outro lado do país. Não apenas masoquismo, o acto de concorrer a um concurso (especialmente longe de casa) fica na fina linha que separa o “muito corajoso” do “muito estúpido”.

Mas há concursos para quem não chega o tempo, esforço e dinheiro perdidos: também querem ficar com um bocado de orgulho e dignidade. Um amigo meu da zona de Grande Lisboa foi concorrer a um concurso no Norte – perdeu muitas horas em viagem, muito dinheiro para lá chegar, e já sabia bem como funcionam este tipo de concursos. Eles eram a única banda concorrente que não era do Norte. Durante o concurso o apresentador, em palco e a dirigir-se ao público, menciona isso e diz que é um portista ferrenho e que quer ver Lisboa a arder. Ainda a apresentar o concurso, fala umas 500 vezes nos resultados (menos bons) do Benfica e do Sporting desta jornada. Esse meu amigo teve o profissionalismo e calma (que eu de certeza não teria) para subir a palco e tocar como se nada fosse, e para ver o desenrolar do concurso até ao fim. No fim do concurso, descobre que a banda dele ficou em último lugar (8º).

Quando um músico decide ir para um sítio distante participar num concurso, fá-lo exclusivamente com a esperança de que pelo menos uma pessoa no público fique interessado pela sua música. As horas na autoestrada e as dezenas de euros gastas são recursos perdidos, na esperança que pelo menos uma pessoa naquela noite goste. Daí vem a motivação que nos dança entre o “estúpido” e o “corajoso”, que nos faz sacrificar tudo pela chance de conquistar só mais um fã. Quem compreende isto sabe que é cruel aproveitar-se dos músicos para vexação e exercício do preconceito imbecil. Eu teria perdido a calma; na melhor das hipóteses teria saido imediatamente e voltado para casa, na pior das hipóteses teria pedido satisfações ali e no momento. Devia meter nojo nos presentes e vergonha nos responsáveis. Detesto saber destas coisas, quando sei que já fui tão bem acolhido no Norte e tão bem recebido em concursos. A indústria tem vermes, que depois se queixam que o governo ou o público não apoia a música.

Which Will.

13
Mai
09

Cachet 0, Vol. 3

A maioria dos músicos sofre de um problema chamado GAS – Gear Acquisition Syndrome, síndroma de aquisição de equipamento. A música, em Portugal, é um luxo para quem pode perder dinheiro, por isso a maioria dos músicos são pessoas com algumas posses financeiras.

Quem costuma sofrer de GAS é o instrumentista nos seus 20 e tais anos de idade, possivelmente já com emprego estável. Os guitarristas costumam ser os mais afectados – não apenas porque 3 em cada 5 músicos que se conhece cá no burgo são guitarristas, mas principalmente porque há um número incontável de efeitos e modificações que se podem aplicar numa guitarra e não numa voz, bateria ou baixo. É fácil distinguir um guitarrista com GAS – um guitarrista normal diz coisas como “não consigo dar um concerto sem um afinador”, um guitarrista com GAS diria “não consigo dar um concerto sem um overdrive de germânio e um outro overdrive de válvulas 12AX7″.

Depois há uma condição especial – GAS acidental. Sei de um guitarrista que não compõe e mal sabe tocar, mas anda munido com amplificadores de 1400 euros. Conheço um vocalista/guitarrista que tem cerca de 1500 euros em guitarras e pedais modificados à medida, mas não quer comprar um amplificador porque acha que é dinheiro perdido. Ouvi falar, inclusivamente, de um sujeito que usa um amplificador britânico de 2000 euros, feito à mão, como descanso para os pés no seu estúdio.

Gosto de os ouvir falar sobre o quanto gostavam de poder obter lucro da música, para poderem viver dela.

Which Will.

31
Mar
09

Cachet 0, Vol. 2

Neste mês que passou tocámos 2 vezes no mesmo sítio, com 2 semanas de intervalo, a propósito de um evento promovido por uma autarquia. O primeiro concerto foi bom, e no fim alguém me veio pedir uma “palheta da banda”. Dei-lhe a palheta Ernie Ball de 50 cêntimos que tinha usado e ele ficou um bocado desiludido por não ser uma “palheta da banda”. Será que as outras bandas de garagem vão a um sítio especial onde lhes fazem palhetas à medida com os seus nomes ou o nome da banda, estilizado? Eu não me importo de estar a tocar guitarra com um pedaço de plástico que não tem o meu nome (a nossa antiga baixista usava um MatuTazo gasto como palheta). Mas se tivesse uma palheta com o meu nome ou o nome da banda gravado, não a ia oferecer a um bêbado malcheiroso que só fica satisfeito com uma “palheta da banda”.

Na segunda vez que voltámos a tocar naquela sala, lembrei-me disso. Depois de acabarmos de tocar a última canção, atirei a minha palheta para a plateia pouco emocionada (espectáculos de autarquias raramente têm públicos fervorosos ou interessados, se bem que este pelo menos era numeroso). Não vi ninguém a lutar freneticamente para apanhar a minha palheta, como se veêm nos concertos de U2 ou Metallica. Quando descemos do palco, fui inconscientemente à procura de encontrar os meus 50 cêntimos em plástico no chão da plateia. Não encontrei. Senti-me estúpido.

Which Will.

24
Mar
09

Cachet 0, Vol. 1

Uma das razões pela qual eu agora só ter tempo para apenas raramente contribuir para o Volume/Tone tem a ver com o meu trabalho com a minha banda. Sim, eu tenho uma banda; ao contrário do que se possa pensar, sou um crítico semi-informado sobre estar em bandas e fazer música. Por ter falta de tempo para escrever artigos compridos como o Harvest Breed escreve, vou abrir uma crónica regular para falar sobre coisas que acontecem no estranho mundo das bandas de garagem.

Na semana passada, R falou-me de uma pessoa que é um músico famoso no círculos de indie e pós-rock português. Aparentemente, R conheceu-o quando ele era apenas um miúdo que parava em salas de ensaio – um sujeito aberto e amigável, um fanboy do hardcore, com t-shirts de bandas, cabelo comprido e roupa larga e escura. Agora que é uma estrela indie, continua a reconhecer R e a cumprimentá-lo com cordialidade, mas nestes dias veste calças vermelho-berrante tão apertadinhas que revelam contornos da genitália, calça botas de cowboy, usa óculos escuros nas escuras salas de ensaio e tem o cabelo longo alisado e escorrido.

Eu acho isso intrigante. Não consigo perceber se tenho inveja por não ter coragem para sair assim à rua. Ou se tenho vontade de rir das figuras que uma pessoa faz quando se torna conhecido e aceite como um trend setter. De vez em quando essa descrição de R tem-me voltado à cabeça. Ora penso “isso é mesmo ridículo”, ora penso “quem me dera ser eu”. Uma vez um guitarrista amigo disse-me: “em palco, podes fazer tudo – qualquer loucura ou saloiada é aceitável e maravilhosa quando vista do lado do público”. Suponho que, quando a fama indie bate à porta, o mesmo princípio é aplicável mesmo fora do palco: “ele é tão indie, que aquilo só pode ser bom gosto”.

Which Will.