Arquivo da categoria 'Concertos'

02
Jun
09

Deerhunter no Lux 01-06-09

Cerca de uma e tal da manhã e estou no Lux a olhar para Bradford Cox, vocalista e frontman dos Deerhunter, a mudar uma corda partida na sua guitarra depois do andamento frenético de Vox Celeste (de Weird Era Cont., parte 2 de Microcastle, o muito aclamado terceiro álbum da banda), enquanto o resto da banda brinda o público com uma improvisação country liderada pelo guitarrista Lockett Pundt e pelo baixista Josh Fauver. Foi um concerto de imprevistos e de surpresas. A primeira parte, assegurada pelos Ariel Pink’s Haunted Graffiti, acabou até por se alargar até durante mais tempo que o set de Deerhunter, mas isso não pareceu deixar de pé atrás a boa casa que brindou as duas bandas. Também muito por culpa do tipo de música que os Ariel Pink fazem: rock solarengo e pop com rasgos de psicadelismo e improviso aqui e ali. Ainda assim, era demasiado óbvio que o próprio Ariel Pink tomava demasiadas peta-zetas com coca cola para comunicar em condições com o público, fazendo-o em espanhol e com 300 efeitos na voz.

Entram Deerhunter, pela primeira vez juntos em Portugal desde a saída do guitarrista Colin Mee da banda. Abriram as hostilidades logo com Cryptograms, piscando o olho aos apreciadores da discografia menos recente da banda de Atlanta. Na realidade, tocaram todas as músicas que um fã poderia pedir: os temas mais imediatos e populares de Microcastle, 3 faixas de Cryptograms (Octet, Hazel St e Cryptograms), a hipnótica Fluorescent Grey e ainda alguns lados B dos seus vários lançamentos. Apesar da quantidade enorme de hype e factor cool à sua volta nos E.U.A., a banda mostrou-se surpreendentemente despretensiosa, concentrada, humilde e até um pouco tímida. O único membro mais comunicativo foi mesmo Bradford Cox, fosse a explicar a diferença entre Athens, Georgia e Atlanta, Georgia, fosse a recontar fantasias de jangadas a descerem o rio Tejo. No fim brindou o público com uma jam de Neil Young (“Down By The River”) com os Haunted Grafitti. A jam foi muito fraquinha, mas não deixou de entreter imenso quem lá ficou.

Muitas vezes, com o factor “uau!” e as modas da música moderna, esquecemos-nos do quão bom e divertido um concerto simples de rock pode ser. Nada de ontem foi exagero, fashion statement ou algo pormenorizadamente planeado. Foi apenas um concerto com 4 pessoas totalmente normais, acessíveis e divertidas, a divertir outros com músicas fenomenais e uma genuinidade, honestidade e espontaneidade tão raras no pântano de egos que é a música moderna.

Nota: 10

Which Will.

01
Jun
09

Wilco no Coliseu 31-05-09

Pela primeira vez em Portugal, os Wilco fazem este ano 15 anos de existência. E por esta década e meia de acção brindaram-nos com o seu brilhantismo, fosse com o manto alt country que frequentemente carregam ou com o experimentalismo que os definiu e os notabilizou, pedindo meças a qualquer outra banda histórica ainda em actividade. Daí que encarasse o concerto da banda no coliseu com particular expectativa, para não dizer ansiedade de miúdo de 12 anos. Ainda assim, não deixou de se revestir de alguns pormenores sui generis: ver um concerto de uma banda como esta sentado faz pouco ou nenhum sentido, mas ainda constitui alguma surpresa como, presumivelmente pelo elevado preço dos bilhetes e por ser domingo à noite, os Wilco conseguiram arrastar tão pouca gente ao Coliseu.

Não que isso importe minimamente quando o espectáculo começa e soam os primeiros acordes de Wilco (The Song), uma perene faixa de abertura, doce na sua ode aos fãs da banda. De facto, a pura versatilidade da banda, o génio do material em destaque e a destreza técnica dos membros facilmente cativam qualquer público. O triunvirato inicial do concerto passa por, para além Wilco (The Song), a genial e trepidante I Am Trying To Break Your Heart e por aquele que é talvez o número mais forte da banda desde Yankee Hotel Foxtrot, Company In My Back. A partir daí para a frente foi só benefício porque o bilhete já estava pago e o retorno do investimento já cá cantava. Mas é importante que se lembre do timing em que se dá esta primeira passagem por Portugal: o ex-membro da banda, o multi-instrumentista Jay Bennett, faleceu há bem pouco tempo em circunstâncias ainda obscuras, tendo-se notabilizado pelo seu contributo para Yankee Hotel Foxtrot (depois do qual foi despedido) e Summerteeth e pelo seu infame desentendimento com o frontman Jeff Tweedy. Talvez por isso, o set de Wilco caiu fortemente por Yankee Hotel Foxtrot, aquele que é o seu disco mais adorado, tendo inclusivamente tocado praticamente o álbum todo na íntegra.

O que seria injusto é dizer que o resto do material destoa em qualidade. Principalmente as faixas retiradas de A Ghost Is Born mostram-se uma excepcional surpresa ao vivo. Handshake Drugs, imortalizada no álbum ao vivo Kicking Television, é incrivelmente precisa e apelativa, enquanto Spiders (Kidsmoke) apareceu para um encore inspirado e Hummingbird é pura perfeição pop, contando com um Tweedy aos pulos em palco qual criança em dia de Natal. De facto, toda a banda dá ideia de se divertir imensamente em palco, com particular destaque para o fabuloso trabalho de guitarra de Nels Cline, para a energia do baterista Glenn Kotche e para a jovialidade despretenciosa de Tweedy. Tudo isto contagia e inevitavelmente contribui para fazer de um concerto de Wilco uma experiência inesquecível, até num encore alegre onde o público optou por deixar o conforto das cadeiras e comungar em conjunto na missa dos Wilco.

Nota: 9,5

Harvest Breed.

26
Mai
09

Andrew Bird no São Jorge 24-05-09

Andrew Bird é um daqueles artistas que não é (nem tão cedo será) enorme. Não é cool ou “da cena” como os Animal Collective, não faz música leve e imediata como Phoenix. Tendo isso em conta, antes deste concerto, fui pensando como é que Bird esgotou auditórios em Madrid e Milão a caminho de Lisboa (e mesmo em Lisboa, esgotar rapidamente uma primeira data também no São Jorge). Afinal de contas, Andrew Bird é mais ou menos enorme. Quando cheguei à sala, descobri que estava praticamente esgotada (e eu tive a felicidade de ter bilhetes centrais a 2 filas do palco)… e que o palco estava preparado para apenas um músico – com guitarra, violino, microfones e metalofone preparados. Não vai trazer banda? Como é que o Birdman vai fazer a sua música sozinho? Espero que isto não seja um daqueles concertos acústicos aborrecidos em que o artista quer pensar que está a ser intimista, mas na realidade é só poupança de orçamentos…

Ía ser muito surpreendido, logo no primeiro minuto. Bird usou e abusou de pedais de looping e pitchshifting para criar, a partir do seu violino solitário, mares hipnóticos de secções de cordas perfeitamente executadas. Julgava que ía ver um tipo com um violino a dar conversa, mas estava a ouvir o que pareciam ser complexos quartetos de cordas tecnicamente impecáveis. Bird era a banda, e trocava de violino para guitarra sem perder musicalidade ou emotividade, e quando cantava a sua voz era capaz de levar o cínico mais frio às lágrimas. Visitou temas de todos os álbuns da sua discografia, nalguns casos misturando inventivamente uns com outros (como “Sweet Matter”: “Sweetbreads” + “Dark Matter”), e sem esquecer “Tenuousness”. A interpretar a sua música, teve a emotividade e execução de um Jeff Buckley ou Sufjan Stevens. Entre as músicas, suponho eu para grande supresa de todos, interpelava o público como um… Hugh Grant. Tímido, com um discurso inseguro e hesitante, mas encantador, sincero e oferecendo uma atmosfera relaxada, próxima e despretenciosa. Disse que estava ansioso por dar este concerto porque “I like Portugal better than the other places”; pouco interessa se era verdade ou o exagero que convem. O público não teve outra escolha senão pedir-lhe 2 encores, que ele concedeu. Os únicos pontos fracos de um concerto quase perfeito em todos os sentidos foram as ocasionais gaffes a meio das músicas – um pedal que ficou por ligar ou um verso que foi esquecido. Mas essas coisas tornaram-se divertidas à luz da maneira de ser de Bird, que nessas raras ocasiões dizia entre dentes “oops, sorry about that” em vez fingir que nada aconteceu. Foi o melhor concerto, na melhor sala, com o melhor público, que se podia pedir para um domingo à noite. Afinal, Andrew Bird sempre é enorme.

Nota: 9,5

Which Will.

07
Dez
08

The Dodos no Musicbox 06-12-08

Depois de ver The Dodos em ambiente de festival há coisa de quatro meses atrás, o concerto no Musicbox, a título individual, punha a questão do que é que a banda conseguiu mudar na sua apresentação ao vivo, especialmente perante um público português mais expectante que o sueco. Apesar disso, e da noite chuvosa no Cais do Sodré, um espaço como o do Musicbox, que se não encheu esteve bem perto disso, provou assentar-se que nem a uma luva à intensidade intimista dos Dodos. Posto de maneira simples, a resposta mais fácil a essa pergunta é que a banda se tornou mais industrial em palco. A setlist do Musicbox foi menos orientada para os jams do concerto no Way Out West e figurou mais material quer do aclamado Visiter, quer do primeiro álbum Beware Of The Maniacs.

O que felizmente ainda não mudou é a presença de alguns favoritos como Jodi, Joe’s Waltz, The Season ou Fools, aos quais podemos acrescentar Ashley, Winter e ainda dois dos pontos altos de Beware Of The Maniacs, Horny Hippies e The Ball. O espectáculo que adviu de uma setlist acrescentada provou que a banda tem material mais que suficiente para beneficiar mais de concertos em nome próprio. Acima de tudo, a experiência de ver The Dodos ao vivo vale pela intensidade quase hipnotizante com que Meric Long, vocalista e guitarrista, e Logan Krober, baterista, conduzem os procedimentos. A seguir à abertura de It’s That Time Again, a banda lança-se porventura ao seu tema mais reconhecido, Fools, com velocidade frenética e entrega completa, que não mais parou até final.

Apesar da falta de encore, e estranhamente do primeiro single da banda, Red and Purple, a banda mostra sinais de já ter os seus espectáculos ao vivo bem oleados e trabalhados, sem nunca perder aquela energia e intensidade que os torna tão apelativos. O concerto de The Dodos no Musicbox provou ser a chave de ouro num ano repleto de excelentes concertos, tão frenético como emocional e tão diverso como consistente. Também foi mais um sublinhado definitivo por baixo do nome de Visiter como um dos álbuns do ano.

Nota: 9

Harvest Breed.

05
Dez
08

The Walkmen no Tivoli 04-12-08

Já antes aqui falámos em maior extensão do extansiante brilhantismo do novo disco dos The Walkmen, You & Me, (listas de fim de ano seguem dentro em breve) um piscar de olho simultâneo às suas influências mais primordiais e à necessidade premente de rockarem em estúdio. E é sem dúvida a sua faceta mais rockeira que se mostra com maior facilidade ao vivo, confirmando-se que antes de mais os The Walkmen são uma banda rock. Desta feita apareceram em Portugal inseridos no bem pensado, mas mal executado festival Super Bock em Stock, tendo sido precedidos por um projecto a solo de um dos membros dos defuntos Los Hermanos, Marcelo Camelo, a quem inexplicavelmente foi concedido o mesmo tempo de palco que os headliners da noite.

“The news is all good, and I’m flying high”, proclama Hamilton Leithauser, vocalista dos The Walkmen na abertura, com a reflectiva e intimista New Country, só com voz e guitarra. E é difícil não concordar com ele quando se tem material tão forte e diverso como é o caso dos quatro discos da banda, o que só torna a escolha de uma setlist não só numa autêntica parada de Greatest Hits, como incrivelmente difícil de se tomar. Em todo o caso, não é muito supreendente que a banda conquiste o público do Tivoli tão cedo ainda no set com apenas quatro músicas: a abertura de New Country, o clímax tenso de On The Water, o seu último grande single In The New Year, já um clássico do ano que consegue ser ainda mais poderoso ao vivo que a sua proposta seguinte, a já bem conhecida The Rat.

Apesar do tempo do set ser relativamente curto, certamente em comparação com outros concertos de nomes menos conceituados do festival, e da consequente ausência de alguns números que ficaram por tocar, especialmente deste último álbum, um concerto de The Walkmen acaba por ser uma experiência diversa e ao mesmo tempo electrizante e deslumbrante. Os pontos altos de álbuns passados marcam uma presença saudável e encaixam-se facilmente no novo material, apesar de faixas clássicas como We’ve Been Had ou Thinking Of A Dream I Had manterem todo o efeito de outrora e talvez mais qualquer coisa.

A banda finaliza com Another One Goes By, talvez do mais material mais poderoso que os The Walkmen possuem no repertório, com um som de guitarra transcendente, é um bom recuerdo para levar de um dos melhores concertos em Portugal este ano. Uma banda que facilmente agarra uma multidão com clássicos instantâneos como The Rat ou In The New Year, como a enfeitiça com números como I Lost You ou Red Moon, ambas de You & Me. Aliás, essa já não é surpresa nenhuma: uma banda no seu auge com algum do melhor material que já teve e que pudemos ouvir este ano.

Nota: 9

Harvest Breed.

18
Nov
08

Beach House no Maxime 16-11-08

Ao contrário do que parece sugerir o nome, para mim os Beach House sempre foram uma banda de inverno. Não necessariamente fria e distante, mas capturando uma imagem de um ouvinte em headphones espreitando por uma janela uma noite fria de Dezembro. Não estando ainda em Dezembro, e não sendo uma noite particularmente fria, não deixa de gerar algum sentimento de que é a altura ideal para se ouvir a música angustiada, mas doce, dos Beach House. Ainda para mais, com uma acertada escolha de local, poder-se-ia dizer que os Beach House assentaram que nem uma luva à noite de Lisboa e do Maxime.

Fizeram-se acompanhar de Jana Hunter, de quem pouco ou nada conhecia ao entrar, e apesar de se encaixar relativamente bem com a sonoridade dos Beach House, pode-se dizer que a banda ganha muito com esta parceria. Não porque Jana Hunter seja a primeira parte perfeita, mas antes porque não impressiona. E não impressiona de tal forma que os Beach House não tiveram grande dificuldade em agarrar uma plateia depois daquela primeira parte. Mas não desmerecendo Hunter, pode-se dizer que que o seu set teve duas partes: uma com ajuda de parte ou até mesmo a totalidade dos Beach House a servirem de banda de apoio, em que destacaram os seus pontos fortes, e uma outra a solo, apenas com guitarra, pedais e efeitos, que não sendo ofensiva nem irritante, é pouco memorável.

Ao contrário do que se podia pensar, os Beach House são uma banda de precisão espantosa ao vivo, fazendo da experiência dos seus álbuns ainda mais do que parecia possível. Um bom exemplo disto é a abertura com Astronaut, do último álbum Devotion, que assume contornos mais entusiasmantes ao vivo, especialmente com um fabuloso trabalho de teclado. Teclado esse, a cargo da vocalista Victoria Legrand, que pode facilmente apropriar para si o título de uma das melhores vocalistas do circuito indie actual, pavoneando uma versatilidade inimitável, não esquecendo também a muralha de som do guitarrista multi-talentado Alex Scally. Em conjunto com a sua música, fazem mais que impressionar, fazem uma autêntica operação de charme.

O set acaba por recair mais sobre o material de Devotion, apesar de várias insistências por parte do público para fazer incursões pelo disco homónimo, é mesmo o material mais recente que mais desperta emoções. Devotion é um álbum mais maduro e composto que Beach House, e ao vivo isso faz-se notar. O primeiro single Gila, tocado ainda muito cedo no set, e a majestosa Heart Of Chambers, esta última introduzida por Victoria como uma for the heartbroken, são pontos altos naturais, mas de certeza não esqueceremos tão cedo All The Years, com uma performance vocal avassaladora, ou até o último single, a harmoniosa Used To Be.

Numa altura do ano em que os bons concertos pareceram estar em escassez de oferta, Beach House foi um autêntico oásis antes do novo ano que se avizinha. Mas isso foi porque a banda trouxe consigo mais que apenas música, antes uma ligação pessoal.

Nota: 9

Harvest Breed.

10
Jun
08

Liars no Santiago Alquimista 09-06-08

Tive de escolher entre ver a segunda parte do Holanda – Itália e ver Liars no Santiago Alquimista. Se soubesse que a primeira parte iria começar com aproximadamente uma hora de atraso, teria ficado em casa para ver o golo do Van Bronckhorst.

Para abrir as hostilidades, entraram em palco os portugueses Loosers – que tocaram uma única música instrumental durante os cerca de 25 minutos que estiveram em palco. Canção essa que consistiu basicamente num único loop, repetido durante 20 minutos, com algumas variações mais no final. E um gong. Para ser franco não conheço o trabalho deles, mas a sensação que me transmitiu era que eles têm alguns bons pormenores de inventividade, mas no geral achei a música de Loosers um pouco enfadonha e a sua presença em palco desinteressada. É preciso ter coragem para abrir para Liars e tocar apenas uma única música repetitiva… Coragem ou burrice.

E surgem Liars. O set list consistiu essencialmente em temas do LP mais recente (Liars) e do terceiro álbum (Drum’s Not Dead). Para minha grande tristeza (mas já me tinham avisado disto), não tocaram uma única faixa do álbum de estreia (They Threw Us All In a Trench And Stuck a Monument On Top).

A banda nova-iorquina trouxe ao Santiago Alquimista postais vivos do mundo de uma determinada juventude urbana americana do século XXI – paranóica, claustrofóbica, frustrada e enraivecida. Isto foi concentrado na pessoa de Angus Andrew, de barba e cabelo comprido e oleoso, de fato e gravata, cujos “movimentos de dança” (sempre genuínos e espontâneos) eram refrescantemente estranhos e pesados. Como vocalista, teve uma presença em palco única e cheia de carácter. Em crescendo de intensidade no set list, a música de Liars esteve sempre bem, ora por vezes negra e perturbada, ora tribal e primal. E quem conhece a discografia de Liars sabe que quando se fala em tribal e primal, fala-se do terceiro álbum – as músicas de Drum’s Not Dead funcionam espectacularmente bem ao vivo e trazem um elemento diferente e original ao set list.

As únicas coisas de que me posso queixar é de tudo ter começado um pouco atrasado (e logo em cima do Holanda – Itália, por amor de Deus), de uma primeira parte um pouco monótona e de um público algo pequeno e expectante.

Nota: 8

Which Will.

29
Mai
08

Animal Collective no Lux 28-05-08

A noite de chuva junto ao rio não impediu a forte adesão de público ao antecipado concerto da dupla Animal Collective + Atlas Sound, e se há algo que possa ser dito dos concertos de Animal Collective é que são um acontecimento. Nos dias que correm, a banda está em plena fase de escrita de músicas para um novo álbum, e as suas aparições ao vivo passam muito por novas composições, algumas mais coerentes que outras, entrelaçadas com versões de material anterior. Assim, foi sem surpresa que se viu uma setlist quase completamente despida de músicas do seu último álbum, sendo as excepções os singles Fireworks e Peacebone, a primeira delas agora transformada num jam de quase um quarto de hora metendo pelo meio Essplode do segundo álbum, Danse Manatee, de 2001.

Ora, por um lado, há a curiosidade em ver como se saem as novas músicas num contexto ao vivo, por outro há a incógnita, e não é nada de se desprezar, de ir para um concerto virtualmente às escuras sobre o que lá se irá passar. E se no caso de Atlas Sound, actuando sem banda, preferindo versões mais ambientais e atmosféricas de músicas do seu último álbum, também é verdade que apareceram praticamente irreconhecíveis, já em Animal Collective a questão muitas vezes era saber o que se estava a ser tocado. Começando com Dancer, uma das novas músicas a ser alvo deste roadtest, a banda retorna ao lado mais reflexivo de Strawberry Jam em músicas como Cuckoo Cuckoo, aliás muito do novo material mostra uma afinidade com o último álbum. House, outra das novas músicas aposta muito no entrelaçar de melodias vocais, com bom efeito. Pena, pois, que o som tenha sido tão pobre, enterrando as malhas vocais dentro de vagas sonoras que as deixaram praticamente irreconhecíveis.

Peacebone e Fireworks (Essplode) vieram de uma leva, posicionadas razoavelmente a meio do set, e não desiludiram. Peacebone continua sem alterações à pulsante versão de estúdio, com a sua batida contundente, enquanto Fireworks, tirando os interlúdios de improviso, mantem o seu cariz muito singalong. Mas o novo material ainda dava mais mostras de qualidade, veja-se Bearhug (Walk Around With You), tocada a seguir a Fireworks, tem uma progressão semelhante a Peacebone, com linhas vocais soberbas e sempre em foco, será sem dúvida um dos pontos altos do novo álbum. Lá mais para o fim do set, Chocolate Girl (recuperada do álbum de estreia) e Comfy in Nautica, de Panda Bear, quase se tornam na mesma música, enquanto que a mexida Brother Sport, que a Blitz vai defendendo ser samba, é também um ponto alto. O encore acabou por ser de altos e baixos; a versão de Who Could Win a Rabbit? pareceu confusa e desorientada, enquanto Grass continua a ser tão frenética como era quando saiu Feels.

Os Animal Collective são sem dúvida uma experiência hipnótica ao vivo, o concerto no Lux contou com alguns factores que não permitiram que fosse uma vitória completa, e seja a fraca qualidade do som, seja o excesso de improvisação à base de samples entre músicas que quebram continuidade e tornam o espectáculo mais cansativo.

Nota: 7.5

Harvest Breed.

12
Mai
08

The National na Aula Magna 11-05-08

Ultimamente temos tido uma autêntica maratona de concertos espectaculares em Lisboa. Em semanas consecutivas, tivemos Black Lips, Jose González, The National e na próxima semana… Animal Collective. Como a minha vida não é só escrever para aqui, tem sido impossível postar sobre todos estes concertos onde (muito felizmente) estivemos. Mas tinha de dizer qualquer coisa sobre os The National, ontem, na Aula Magna.

Eu pessoalmente acho que a Aula Magna é o pior espaço em Lisboa para acolher bandas Rock. Foi perfeitamente adequada a Jose González, mas estragou completamente o ambiente de, por exemplo, Spoon. The National mostraram ontem porque são actualmente uma das mais respeitadas bandas de música alternativa americanas.

Alternaram, sem nunca perder o interesse do público, o seu repertório entre temas do seu trabalho mais recente (Boxer) e do álbum de estreia (Alligator). Para os presentes que só conheciam Boxer através do single Fake Empire (em parte graças à constante rodagem na Radar), de certeza que o concerto de ontem abriu o apetite para se descobrir Alligator. A banda de Cincinnatti levou uma Aula Magna esgotada ao rubro com interpretações intensas e honestas de canções como Mr. November, Abel e Squalor Victoria… Provando que apesar da conotação melancólica e passiva que os seus últimos trabalhos granjearam, têm muita adrenalina na sua música. Numa nota mais calma, a banda também encantou em momentos como Ada e Racing Like A Pro.

Não há nada de menos bom que me ocorre sobre o concerto de ontem. Todos eles tocaram com paixão, entre as músicas Matt Berninger recordou com agrado a primeira vez que tocou em Portugal e jocosamente comparou a Aula Magna à sala de conferências das Nações Unidas: (“I feel like I should be passing a resolution or something”). A música foi triste, foi alegre, foi apaixonada e foi sincera. Não foram milhares de pessoas à chuva a cantar todas as letras de todas as canções como foi The Arcade Fire em 2007, mas foi igualmente especial.

Nota: 9.5

Which Will.

28
Abr
08

Black Lips no Lux 22-04-08

Fui ver Black Lips no Lux com duas pessoas. Uma deles enviou-me o seguinte mail a mim e a mais dois amigos:

“Foi um bom concerto. O tipo de dentes de ouro ficou sem electricidade logo de início. O outro tipo esfregou a piroca na guitarra, e deu um hi5 ao sérgio exactamente com aquela mão. O baixista recebeu com agrado uma broca do público, e pagou com uma mini. O lsd começou a bater ao baterista a meio do concerto. (…) Os tipos são recordistas mundiais no arremesso do escarro, à frente, e à retaguarda. Um deles é especialista nessa modalidade em altura, com regresso ao local de partida.

Havia muita gente com looks à punk rock, cabelo à rock n’roll, e atitude à demi roussos. Devo ter visto a Leslie Feist prái umas 20 vezes durante a noite. Mto mudou de roupa, aquela moça. Vimos o baterista dos Martini, 2 tipos dos V5, os da weasel inteiros. (…) Descobrimos o melhor método de abrir minis. É com os dentes. E não, não era o tipo dos dentes de ouro.”

Ele esqueceu-se de dizer que a música foi electrizante.

Nota: 9.5

Which Will.