Oasis significam muita coisa para muita gente. Muitos só conhecem a triste e actual faceta deles – um estereótipo de estrelas de rock arrogantes e trash, com demasiado dinheiro, crack e fãs adoradores (muitos deles concentrados na sede da revista britânica NME) para se preocuparem em fazer música boa. Mas até o mais feroz crítico entende que todo o dinheiro e admiração tiveram de vir de algum lado – Oasis terão sido importantes, algures, no auge da mania Britpop. Se What’s The Story (Morning Glory)? foi o segundo disco que vendeu os milhões e milhões com que eles hoje compram cocaína, mansões e carros, o álbum de estreia Definitely Maybe foi sem dúvida aquele que os pôs no mapa da música britânica.
Com a semi-lendária banda de Manchester a vir actuar em Lisboa hoje, propusemo-nos a ouvir Definitely Maybe novamente, depois deste tempo todo. Recordo-me que o Definitely Maybe foi o primeiro CD que tive (tecnologia pioneira na altura), era eu um miudozeco com um só disco de uma banda inglesa (na altura) nova e obscura. Ainda sem saber muito sobre eles, tinha comprado bilhetes para um concerto no Coliseu de Lisboa, com Oasis, REM e The Cranberries. Esse concerto acabou por não acontecer porque os REM cancelaram, mas de vez em quando penso como teria sido se tivesse, na minha tenra idade, visto os Oasis a promover Definitely Maybe em Portugal. Pessoalmente, não ouço o disco há muitos anos – vou escrever isto à medida que o vou ouvir do princípio ao fim:
A primeira coisa que me ocorre ao ouvir Rock ‘n’ Roll Star é que eles eram muito mais ruidosos e agressivos. A guitarra com slide, nos refrões, assenta perfeitamente numa autêntica muralha de som de guitarras, com apenas um Liam Gallagher discernivel por cima. O baterista deles era tão mau – a canção é, ritmicamente, quase um loop enorme do princípio ao fim. Não me parece que o seja de propósito, mas mais por limitação. Mas esta canção abre o disco como um pontapé na porta, um pontapé nos genitais, uma explosão de “eu não sei o que isto é ou que quer dizer, mas isto faz-me querer saltar, gritar e fazer coisas ilegais”.
A preguiçosa introdução de Shakermaker vem na ressaca de Rock ‘n’ Roll Star, e toda a toada da música é lenta, barulhenta e semi-hipnótica. Os refrões são, em termos de vozes, incrivelmente viciantes, e o pormenor da voz meio estrangulada de Liam oferece ainda mais ao tom hipnótico da canção. Não faço ideia do que ele está a cantar. Acho que Shakermaker era o nome de um brinquedo de plasticina. Parece um bocado idiota se pensar um bocado nisso, mas a música soa bem e eu não quero pensar muito nisso.
Live Forever. A primeira vez que ouço uma parte de bateria ao nível (de qualidade, não volume) das guitarras. E há pianos e violas, mas tudo continua a soar super comprimido, semi-distorcido, como se gravado para fita analógica demasiado alto, ou como se tudo no disco passasse por amplificadores de guitarra. É uma canção pop, sem dúvida, mas é sincera, não tem uma produção ambiciosa de quartetos de cordas como Whatever ou Wonderwall, apenas bons riffs de guitarra e uma composição simples e eficaz. Em retrospectiva, é capaz de ser a melhor balada que os Oasis fizeram em toda a sua discografia.
Up In The Sky, do princípio ao fim, parece uma actuação ao vivo. A introdução entra com outros instrumentos a fazerem feedback – e esse riff, em repetição, é a unica coisa perceptível na mesma muralha de guitarras que encontrámos na primeira canção. A única pontada de produção de estudio é uma viola nos refrões. Não é uma das melhores músicas do disco, mas é muito melhor do que algumas das melhores músicas dos outros discos deles.
Continuando a sensação live performance do tema anterior, Columbia é rock ‘n roll logo desde o princípio. I can’t tell you the way I feel because the way I feel is oh so new to me – o refrão e alguns dos riffs de Noel são novamente as poucas coisas discerniveis na parede de feedback e distorção. Com uma longa parte instrumental e uma bateria dançável, esta a canção do álbum que faz as pessoas dançar. E isso deve sair tão mais facilmente se houver mais Gin no estomâgo do que no bar. Se não estivermos bêbados a ver uns Oasis jovens a tocá-la num bar apertado e malcheiroso, a canção é capaz de se tornar algo enfadonha no fim.

Supersonic, depois deste tempo todo, continua sem duvida nenhuma a ser a minha canção preferida de Oasis. Isto apesar de ter a pior faixa de bateria de que há memória – eu não toco bateria e consigo tocar isto. Mas a canção é perfeita; a parede de guitarras está agora mais organizada, entra e sai em timings perfeitos, os riffs são cuidados e delicados no mais puro rock ‘n roll, em resposta às vozes. É claro que a letra é completamente imbecil. Mas é imbecilidade honesta e não lamechas ou pretensiosa, e se a letra fosse um bocadinho mais inteligente, esta canção não seria tão rock ‘n roll.
Bring It On Down faz-nos regressar à violenta parede de guitarras tocadas ao vivo onde estávamos antes de ouvir Supersonic. Mais furiosa e rápida do que as outras, nem Liam se percebe no meio do caos de feedback de pratos de bateria. Um violento toque de despertador depois da trégua amiga da rádio que Supersonic trouxe. O som está tão comprimido e agressivo – não consigo imaginar como encararam isto os técnicos britânicos de misturas e masterizações do princípio da década de 90.
Eu gosto muito da Cigarettes & Alcohol. Mas mexe um bocado comigo o quanto Noel Gallagher plagiou o riff de Marc Bolan em Get It On, para fazer esta música. Suponho que a sua reputação de falta de originalidade (para não dizer qualquer coisa menos simpática) se começou a construir cedo na carreira. Mas o resto da música é muito boa. E até é bom ouvir Marc Bolan com um som tão agressivo. Em termos de sensibilidade de composição, a canção é semelhante a Supersonic; contudo, é bem mais pesada e fica bem mais próxima do verdadeiro som e filosofia do resto do álbum. Sem dúvida, um single extremamente sólido e entusiasmante (tal como em Supersonic, não somos suposto prestar atenção à letra).
Estamos a chegar ao fim do álbum e eu já sabia que vinha aí a Digsy’s Dinner. Nunca entendi muito bem esta música. Sempre me pareceu uma canção de Blur tocada pelos Oasis. Não necessariamente por plágio, mas porque não tem a ver com o ambiente ameaçador, live performance e rock ‘n roll do resto do disco. Não é uma má canção, ouve-se bem, mas parece uma pequena distracção pop feita sem grande esforço em comparação com os vários colossos de Definitely Maybe.
Em Slide Away, o baterista fica sem ideias e decide tocar outra vez exactamente o que fazia em Supersonic. Esta canção é capaz de ser a mais romântica do álbum, e sendo mais agressiva do que Digsy’s Dinner, não tem a força das primeiras músicas do disco. Fica-se com a sensação de que houve uma tentativa de escrever uma letra mais sentimental e significante, e os resultados não são grande coisa. Mais para o fim da canção, começamos a ter a sensação de que estamos outra vez a ver uma boa banda a fazer rock ao vivo.
Tal como os Beatles tinham em cada disco uma canção para o Ringo cantar, os Oasis têm em cada disco uma canção para o Noel cantar. Em Definitely Maybe, houve a sensibilidade de deixar esse númerozinho para a última faixa do disco. Married With Children dá toda a sensação de que foi uma pequena birra de Noel que a banda e o produtor acederam – podia ter sido gravada na cozinha de um dos membros da banda. Não é mais do que Noel com uma viola a cantar uma letrazinha palerma sobre uma mulher com quem vive e para quem já não tem paciência. Nem sequer chega a canção, parece-me uma espécie de interlúdio estranho que o álbum tem.
A sensação que fica depois de ouvir Definitely Maybe é de que tenho de ouvir este disco outra vez. De que devia ouvi-lo mais vezes. De que devia estar com mais gente algures aos saltos com um cigarro na mão a berrar as letras. Definitely Maybe é uma pedrada num charco, um hino ao rock britânico, com sabores da agressividade glam, blues e punk, mas sem o bullshit sentimental, idealista ou de qualquer género, para ser sincero. É apenas música rock, feita para isso mesmo, sem ter necessariamente nada de especial para dizer às pessoas para além disso mesmo. Se o disco fosse menos ruidoso, menos agressivo, cuidado ou honesto, teria falhado completamente. O som sobre-comprimido, analógico e agressivo do disco é por si só tão musical, cobiçado e importante como as canções em si. O álbum perde fulgor nas últimas duas ou três músicas, que ficaram para último porque são claramente piores. Não é uma queda brutal de qualidade (continuam a ser clássicos de Oasis em retrospectiva com o resto da discografia), e alguns poderão entender isso como uma fase para respirar depois da intensidade ininterrupta do álbum. Depois de ouvido, percebe-se como Definitely Maybe é um disco que mudou a vida de muitas pessoas.
Which Will.