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31
Out
09

Gira-Discos: The Auteurs – After Murder Park

Na segunda metade dos anos 90, nem tudo o que foi feito em Inglaterra foi feito sob a égide da abordagem Britpop. Já mencionámos Dog Man Star como um álbum de referência da altura e futuramente abordaremos certamente outros que também foram sonegados pela Britpop, mas era impossível não falar de After Murder Park, de The Auteurs. Sendo que em Janeiro deste ano o compositor e frontman Luke Haines lançou Bad Vibes (uma autobiografia sobre os The Auteurs), é uma boa altura para revisitar After Murder Park, obra seminal da banda e considerada pela revista Mojo como “melhor disco rock Britânico da década”.

Datado de 1996, After Murder Park é o 3º disco da banda. Na altura, o vocalista e songwriter Luke Haines manifestou-se veementemente contra o movimento Britpop, inclusivamente afirmando que se interessava muito mais pelo movimento techno e dance britânico da altura do que a Britpop. Na realidade, Haines era o típico autor anti-pop: cansou-se depressa de andar em digressão e temas como política, morte, fobias pessoais e casamentos falhados eram assuntos recorrentes nos versos de The Auteurs. After Murder Park foi gravado nos míticos estúdios Abbey Road e produzido por Steve Albini, e é notória a mão de Albini no produto final: com muito som de ambiente, execuções emotivas muito espontâneas e um som muito transparente e pouco produzido, Albini é o homem certo para acentuar a carga emocional e no-nonsense de uma banda.

Luke Haines compôs uma grande parte do disco de cadeira de rodas, tendo sofrido um acidente em digressão, e a sua tonalidade reflectia um aperfeiçoamento de métodos bem como tensões crescentes dentro da banda: a sua relação amorosa com a baixista Alice Readman estava a deteriorar-se, bem como o seu relacionamento pessoal com o violoncelista/teclista James Banbury. Canções como Tombstone reflectem uma consciencialização mais política (em particular a obsessão de Haines com o grupo terrorista alemão Baader-Meinhof), ao passo que Child Brides, Land Lovers e Dead Sea Navigators evocam imagética de uma história distante que ecoa com tradição e sentido de dever. A canção Unsolved Child Murder é inspirada por um assassinato de uma criança durante a infância de Haines, e apenas o single Light Aircraft On Fire desilude um bocado face ao resto do álbum. As letras de Haines neste disco são de uma beleza sincera e rara no pop britânico da altura. A versatilidade de Banbury alternando o papel de violoncelista com teclista, e de Haines entre a guitarra e piano, oferecem à banda uma alternância fácil entre o rock convencional e arranjos elegantes com secções de cordas ou sopro.

Cheio de música apaixonada e sofisticada, ora delicada ora mais brutal, After Murder Park não teve o sucesso comercial que merecia (alcançou o 53º lugar nos tops) mesmo apesar do apoio insistente de Jools Holland e grande parte da crítica. A banda não resistiu e acabou pouco tempo depois, sendo que Luke Haines ainda permanece em actividade como artista a solo. Hoje em dia, é de notar que o trabalho de The Auteurs desbravou muito terreno para bandas como British Sea Power, e tratou de esculpir para si e as suas músicas um forte sentido de cult status. The Auteurs foram a melhor banda que os ingleses não ouviram durante os anos 90, e After Murder Park foi a sua obra-prima.

Tracklist:

  1. Light Aircraft On Fire
  2. Child Brides
  3. Land Lovers
  4. New Brat In Town
  5. Everything You Say Will Destroy You
  6. Unsolved Child Murder
  7. Married To A Lazy Lover
  8. Buddha
  9. Tombstone
  10. Fear Of Flying
  11. Dead Sea Navigators
  12. After Murder Park

Which Will.

22
Out
09

Gira-Discos: Life Without Buildings – Any Other City

Pesquise-se pelo termo “cult status” no google e temos mais de 21 milhões de resultados. A definição que o dicionário dá para o termo é “a popular person or thing having strong enduring appeal and elevated to worship by some”, leia-se, uma uma pessoa ou coisa popular, com apelo forte e duradouro, e elevada ao estatuto de objecto de culto por alguns. No caso da banda escocesa de Glasgow Life Without Buildings o termo a sublinhar é mesmo o ‘alguns’. Os poucos que são, são-o certamente ruidosos, mas não deixam de ser poucos. Com um background elitista e artístico que se calhar hoje, quase dez anos depois do seu disco de estreia, provocaria alguns olhares de soslaio, os Life Without Buildings fazem lembrar um qualquer tesourinho que descobriríamos à procura de bandas semi-desconhecidas da explosão do pós-punk em Manchester. Com uma estética declaradamente própria do estilo, a construção de ritmos tensos, a focalização numa secção rítmica proeminente, a banda cedo se notabilizou por duas coisas: os seus espectáculos ao vivo e a sua vocalista. Na realidade, os dois não podiam estar mais ligados. Sue Tompkins hoje trabalha numa galeria de arte, muitas vezes coordenando ainda projectos de impacto musical no mundo artístico, mas deixou para trás a sua encarnação passada como frontwoman dos Life Without Buildings. O que é facto é que grande parte do magnetismo que atraía as pessoas à banda se devia ao carisma, personalidade e peculiaridade de Tompkins. E não creio estar a ser presunçoso quando digo que ouvindo o seu repertório, que neste caso infelizmente se resume apenas a um disco, facilmente conseguimos imaginar porque é que os concertos dos Life Without Buildings se tornaram coisa de mito.

Ainda recentemente a sua etiqueta, presumivelmente numa tentativa de manter viva a fama dos concertos da banda, lançou um disco gravado ao vivo no hotel Annandale em Sydney na Austrália, que apesar de já numa era de downloads mais favorável à notoriedade de bandas como os Life Without Buildings foi recebido ainda com indiferença. Seja como for, e afastada que está definitivamente a hipótese de os ver ao vivo, celebrar o seu primeiro e único disco Any Other City, datado de 2001, impõe-se. Para um conjunto que vai buscar o nome a um lado-b de Japan, a sua sonoridade é impressionantemente fiel de uma estética de música alternativa americana do princípio da década de 90. Uma em que as guitarras desprovidas de qualquer efeito ou tratamento especial de estúdio se encontram no centro da música que ainda assim retêm todos os tratos do revivalismo pós-punk que conseguiu protagonismo ao virar do século. Nela, Sue Tompkins tem o pano de fundo perfeito para fazer o que sabe fazer melhor. Na verdade, é complicado de dizer ao certo, e por palavras coerentes e inteligíveis, aquilo que ela faz em concreto, mas o que é facto é que, e para usar uma expressão comum no futebol, acontece. Frequentemente adoptando uma espécie de discurso em que sai cá para fora tudo o que vem à cabeça, Tompkins parece ter mais para dizer do que o que a duração de cada faixa permite. Cada uma com a sua história particular, cada uma com o seu dilema críptico para decifrar.

O primeiro dá-se logo com a primeira música, PS Exclusive. Começando com um ritmo propulsivo e decidido, rapidamente somos sugados para a realidade paralela de Tompkins. Por extenso, os primeiros versos são qualquer coisa nestas linhas: “No details but i’m gonna persuade you / the right stuff / the right stuff / the right stuff / the right stuff / the right stuff / in the red villa / the right stuff / the right stuff / the right stuff”. Não sendo a primeira vez que encontro dificuldades para descrever exactamente o que se passa neste disco, seria agora que dava a achega para o rotineiro ’só mesmo ouvindo’. Ainda assim, não podemos deixar passar o trabalho de corporização absolutamente vital que é feito por Will Bradley na bateria, por Chris Evans no baixo, ambos formando uma secção rítmica de perfeita sintonia, e pela harmoniosa e delicada guitarra nas mãos de Robert Johnston. Onde tudo se parece encaixar na perfeição é na dupla Juno e The Leanover. Ambas com um tom quase saudosista, penando por amores passados, puxando a personalidade fogosa de Tompkins para o protagonismo e para terrenos mais delicados e ambiciosos, o resultado, mais do que interessante, é mesmo enfeitiçante. “I like you mostly late at night”, suspira Tompkins em The Leanover, o retrato do que certamente se poderá dizer que é uma banda para se ouvir com headphones, à noite e de uma forma muito pessoal. Ao longo dos mais de oito anos que se passaram desde o lançamento de Any Other City, os Life Without Buildings separaram-se e para trás deixaram a vida de músicos, por certo centenas de fãs adoradores que os verão como o seu pequeno grande segredo pessoal e umas quantas figuras no mundo musical que hoje em dia os recordam com brilho nos olhos.

Tracklist:

  1. PS Exclusive
  2. Let’s Get Out
  3. Juno
  4. The Leanover
  5. Young Offenders
  6. Phillip
  7. Envoys
  8. 14 Days
  9. New Town
  10. Sorrow
  11. Daylighting

Harvest Breed.

16
Out
09

Gira-Discos: Wipers – Youth Of America

No seguimento do advento do pós-punk em finais da década de 70 e princípios da década de 80, a fase de mudança que agora entrava na cena punk obrigou a que muitas das bandas que tinham construído carreira à volta de filosofias de combate, fundidas com a tradicional explosividade melódica de um ou dois minutos por música, repensassem a sua abordagem à sonoridade punk. Uma dessas bandas foram os norte-americanos Wipers, de Portland. Liderados pelo carismático Greg Sage, que mais tarde viria a ser aclamado por Kurt Cobain como um dos seus heróis pessoais e uma das suas maiores influências, a banda enfrentava desde logo uma dificuldade geográfica. Sendo que a maioria da explosão punk nos Estados Unidos se tinha centrado à volta de outros núcleos bem mais afastados de Portland, os Wipers viram-se desde logo conferidos a um certo estatuto de outsiders. Mas o que é facto é que nem por isso o seu compromisso com a filosofia ‘do it yourself’ do punk era menor. Na verdade, a banda acabou por ser formada com a premissa de renegar o conceito de espectáculo ao vivo, aliás a visão inicial é mesmo a de apostar tudo no lançamento de quinze discos de estúdio em dez anos de actividade, e na completa e pura ausência de concertos, um plano que hoje em dia provavelmente esbarraria com contingências financeiras. Assim, os Wipers sempre conseguiram levar a cabo uma atitude inerentemente anti-comercial que levava um passo à frente a atitude anti-sistema com que o punk apareceu inicialmente.

Assim sendo, depois da estreia eminentemente e classicamente punk da banda com o viciante Is This Real?, que viu Sage apostar em métodos profissionais de gravação junto de um estúdio efectivamente profissional, Youth Of America, o segundo registo dos Wipers, editado em 1981, é uma proposta inteiramente diferente. Desta feita gravado em estilo de combate em casa pelo próprio Sage, Youth Of America é um autêntico vendaval musical, sustentado por faixas mais compridas e estruturadas. Aquilo que acabou por surgir desta nova encarnação da banda não foi propriamente o que se possa apelidar de pós-punk, antes uma visão épica e ambiciosa do que devia ser o punk dos primórdios da década de 80, mas que por alguma razão em particular poucas ou mesmo nenhuma banda se tinha aventurado a abraçar. O sentimento geral de Youth Of America também muda drasticamente do que seria convenção de um disco punk da era, optando marcadamente por ambientes mais claustrofóbicos e psicóticos que evocavam uma espécie de psicadelismo punk que pedia emprestada a face sombria dos Joy Division com barragens sonoras de guitarras. E o efeito final redundou num dos trabalhos mais venerados do movimento punk hoje em dia, seja por críticos, seja pelo seguimento que foi dado por outros músicos e bandas, e aqui poderíamos falar desde os Dinosaur Jr. até aos Jesus And Mary Chain, seja até pela nova legião de fãs que conseguiu atrair à conta de simples passa-a-palavra. Reconhecimento esse que, aliás, a banda nunca conseguiu granjear pela altura do lançamento de Youth Of America, e o seu distanciamento daquilo que era entendido como a explosão punk assim o obrigou.

Talvez mais memoravelmente, a faixa que definiu o legado dos Wipers de Sage em Youth Of America foi a épica e colossal faixa homónima. Com para cima de dez minutos, Youth Of America foi uma pedrada no charco naquilo que se esperaria de uma banda punk. Arranhando uma identidade sónica virada para o psicadelismo, a faixa acaba por ser uma ode ao desespero e à desilusão com o conformismo da juventude americana. Um sentimento marcadamente punk espelhado por letras como “Youth of America/It’s living in the jungle/Fightin’ for survival, but there’s no place to go”, ligado ao que menos se esperaria ouvir uma banda punk a reproduzir: um verdadeiro assalto auditivo, marcado por vários interlúdios ora assustadores ora simplesmente violentos, chegando ao ponto do próprio Sage admitir a presença de “umas 50 guitarras em simultâneo a certa altura”. Ainda assim, o tema título não é a única incursão pelo inconvencional aqui. Também na densa When It’s Over, com mais de seis minutos, a banda opta por algo menos hipnótico, mas mais propulsivo e enérgico, servindo-se da sua magnífica secção rítmica para gerar uma faixa poderosíssima, ainda que essencialmente instrumental. Ouvindo Taking Too Long agora, é impossível minimizar o volume de bandas que isto conseguiu influenciar, enquanto que No Fair é mais uma vez a antítese do que seria considerado punk por esta altura, fosse pela sua performance vocal característica, fosse mesmo pela sua bridge cortante.

Reeditado e remasterizado em 2001 sob a forma de um box set, Youth Of America é um disco indispensável para quem goste de rock sem pedir licença nem desculpa. E apesar de mesmo hoje em dia não poder reclamar o crédito que merece, ouvimos os Wipers e o espírito inovador e desafiante de Greg Sage em muito do que se faz no punk e até no pós-punk actualmente.

Tracklist:

  1. Taking Too Long
  2. Can This Be?
  3. Pushing The Extreme
  4. When It’s Over
  5. No Fair
  6. Youth Of America

Harvest Breed.

29
Set
09

Gira-Discos: Broadcast – HaHa Sound

Os Broadcast não tiveram sempre a vida facilitada. Foram três anos a suportar comparações com os seus irmãos sónicos londrinos Stereolab, três anos a ultrapassar a saída de um baterista e teclista da sua formação original, três anos a mudar de locais de gravação, três anos de interregno entre o seu disco de estreia, The Noise Made By People, e o seu emblemático segundo, HaHa Sound. A banda de Birmingham vai para quase quinze anos de idade quando virarmos a década lá para Dezembro e apenas conseguiu editar três registos de longa duração. Nem sempre por opção própria ou fruto de constrangimentos criativos, é um facto que, tendo-se formado em 1995 por Trish Keenan, James Cargill, Tim Felton e Roj Stevens, levou cinco anos para lançar o seu registo de estreia, tendo demorado uns absurdamente longos três anos em diversos estúdios e com vários produtores a efectivamente gravá-lo. Também por isso, e pela boa expectativa gerada à volta da recepção de The Noise Made By People, os três anos que o separaram de HaHa Sound trouxeram ainda mais desafios para o conjunto inglês. Talvez pela sua longevidade e pelo seu fascínio pelo cinemático, os Broadcast sempre foram uma banda presa no tempo. Trish Keenan possui uma voz distinta e saudosista, que lhe valeu a comparação insistente com Laetitia Sadier dos Stereolab, e que envolve a música da banda num delicado embrulho de pop reminiscente de uma realidade passada, mas que não deixa de a encher de uma doçura ambivalente entre texturas mais declaradamente acessíveis e algo mais tenso e repetitivo.

De facto, o que fez a distinção entre The Noise Made By People e HaHa Sound acabou mesmo por ser a qualidade, a meticulosidade e a preciosidade do estilo de composição da banda. Forte mesmo em números mais despidos da produção complicada e precisa que inundou o disco de estreia, HaHa Sound mostrou outro tipo de versatilidade composicional por parte do conjunto de Birmingham. A prova disso será mesmo a sua faixa inicial, Colour Me In, que envolve uma melodia vocal facilmente apelativa numa espécie de carrocel sonoro, onde se passeiam todo o tipo de sons mais surreais e até indiscerníveis. De facto, algo que tinha marcado a sua estreia tinha sido mesmo o cuidado e a atenção às texturas. Uma abordagem que não desaparece aqui, mas agora vê-se emparedada por uma irresistível composição marcadamente pop. Ainda assim, HaHa Sound não fica por muito tempo no mesmo sítio: Pendulum, tendo sido previamente apresentada em forma de EP, apanha os Broadcast no pico da sua assimilação do krautrock, que faz questão de ser hipnótica, não deixando para trás os sintetizadores que os familiarizaram com os seus ouvintes. Não obstante, este é um disco que brilha mais intensamente nos seus momentos pop, que estão aqui presentes de alto a baixo, e não aparecerá porventura melhor momento destes como acontece em Before We Begin. Apoiando-se em harmonias vocais, Keenan constrói uma atmosfera irresistivelmente açucarada à volta de um panorama instrumental rochoso, mas extremamente rico.

Contudo, a distinção para o que hoje se apelida de twee ou de indie pop seria mais do que redutora para uma banda como os Broadcast e para um disco como HaHa Sound, seria mesmo criminosa. Aliás, a complexidade da produção apenas assim o impedia, mas mais ainda do que isso, o carácter compreensivo de mão dada com a inventividade de tudo o que banda faz acaba por rejeitar sempre o formular. O que constatamos em algumas faixas como Minim, que parece orientar-se ordenadamente para uma introdução delicada e suave e que se desenvolve para uma bridge que quase soa a improvisação livre, povoada com mais uma etérea performance vocal de Keenan, um tratamento que voltaremos a ver brilhar em Hawk. “I wait in the stairs / for a break in my mind / let the balloons go outside”, proclama Keenan ao início de Lunch Hour Pops, que assinala o ponto intermédio de HaHa Sound, conjugando imagens mentais psicadélicas e divinais aos ouvintes, que depois se repetem noutro ponto alto sob a forma de Ominous Cloud, desta feita a ritmo de valsa e de flecha bem apontada ao coração. Numa altura em que muito se discute o balanço da década a nível de lançamentos, não podemos deixar de lembrar algumas bandas que não receberam o crédito que deviam ao longo dos últimos dez anos, e os Broadcast foram certamente uma delas. Em 2003, HaHa Sound demonstrou toda flexibilidade e genialidade de juntar texturas trabalhadas e evocativas a estruturas e abordagens pop, que hoje vemos provocar influência decisiva em alguns contemporâneos como Deerhunter, A Sunny Day In Glasgow ou Au Revoir Simone.

Tracklist:

  1. Colour Me In
  2. Pendulum
  3. Before We Begin
  4. Valerie
  5. Man Is Not A Bird
  6. Minim
  7. Lunch Hour Pops
  8. Black Umbrellas
  9. Ominous Cloud
  10. Distorsion
  11. Oh How I Miss You
  12. The Little Bell
  13. Winter Now
  14. Hawk

Harvest Breed.

10
Mai
09

Gira-Discos: Talk Talk – Spirit Of Eden

Em 2009 dá toda a ideia que não, mas o pós-rock já foi em tempos mais que apenas um estilo musical. Antes toda uma estilística e mentalidade própria que se desenvolveu em paralelo às preocupações sónicas. Mas hoje em dia, de facto, parece ter morrido muito do interesse e visibilidade que o pós-rock granjeou em décadas anteriores. Alguns falarão possivelmente da falta de nomes novos que se imponham como referência, outros dirão que simplesmente, e tal como o grunge em finais da década de 90, o shoegaze clássico a meados dos anos 90 ou a britpop ao virar do século, que a imagem do pós-rock já deu tudo o que tinha a dar. Seja como for, mais de duas décadas depois do lançamento de um dos discos de referência do estilo, aquele a que todos apontam como estando na génese do mesmo, mas nunca declaradamente fazendo parte do estilo em si, o pós-rock brindou os amantes da música moderna com alguns dos álbuns mais marcantes de uma geração com exigências sónicas exponencialmente crescentes. O disco em causa, e que hoje celebramos é Spirit Of Eden dos Talk Talk.

A banda de Mark Hollis nunca foi das proveniências mais esperadas para o aparecimento de uma sonoridade que recaía sob paisagens musicais complexas, orquestração diversa e multi-facetada, produções metódicas e calculadas e tudo isto debaixo de um manto de emocionalidade inerente. Os Talk Talk formaram-se no início da década de 80, e cedo se estabeleceram e se notabilizaram por fazem o tipo de pop à base de sintetizadores que era muito comum na era. Com este mantra, lançaram três discos razoavelmente populares, nunca levantando muitas ondas junto dos tops, e uma mão cheia de singles que beneficiaram de alguma popularidade e reconhecimento embora que relativos. E foi chegado ao final dos anos 80 que a banda se deparou na intersecção mais importante da sua carreira. Hollis procurou empurrar a sua banda a tentar explorar sonoridades novas e atractivas, com menos força pop, mais densas e que reflectissem aquilo que Hollis apelidava que a música deveria ser: feita com “calma absoluta e intensidade absoluta”.

Com isso em mente, Hollis, o baixista Paul Webb, o teclista e produtor Tim Friese-Greene e o baterista Lee Harris, entraram em estúdio para compor o sucessor do seu álbum que mais vendeu, The Colour Of Spring. Ou melhor, entraram numa velha igreja que usaram como estúdio improvisado. O que hoje conhecemos como a história dos Radiohead (banda a renegar a sua identidade sonora estabelecida para criar algo mais expansivo, alienando muitos dos seus fãs e deixando críticos perplexos), encontramos vários paralelismos na versão dos Talk Talk, ainda que com resultados diferentes. Cortadas todas as ligações ao exterior, a banda isolou-se para gravar Spirit Of Eden, aquele que viria a ser o álbum mais ambicioso e surpreendente da sua discografia e um dos mais influentes da década. Ao fazê-lo, após o lançamento do disco, a banda anunciou que não iria retirar nenhum single do mesmo nem tão pouco entrar em digressão para o promover. A resposta da sua editora, a gigante EMI, não foi branda e colocou a banda em tribunal por incumprimento do seu contrato.

Mas a perda da EMI foi a vitória de um disco ímpar, deslumbrante e verdadeiramente essencial. Um tributo a uma era de beleza musical, quase poética e transcendente no sentido mais espiritual do termo, que poucos na altura estariam preparados. Spirit Of Eden aglomera com sucesso vários aspectos de música jazz, blues ou rock em coordenação quase milimétrica com texturas de música ambiental, minimalista ou mesmo clássica. É um álbum que transpira um trabalho incansável e metódico de composição da parte de Hollis, de orquestração por parte da sua banda e de produção por parte de Friese-Greene, e isso dá-se a ouvir imediatamente aos primeiros sons de Spirit Of Eden. A primeira metade do disco é composta inteiramente por um conjunto de temas aglomerados numa só faixa que se seguem quase sem se dar por isso, por meio de vocalizações profundas e sentidas sob a voz quase anasalada de Hollis, elementos externos como uma secção de sopro ou o uso da harmónica a entrelaçarem-se delicadamente por entre as guitarras mais clássicas da banda. Algo que se combina para gerar uma segunda metade igualmente sentida e densa, e que eleva este disco ao estatuto de clássico que já detém. Ao abrigo dos apelos à calma e à intensidade da parte de Mark Hollis para descrever aquela que acabou por ser a recta final dos Talk Talk, aquilo que fascina em Spirit Of Eden não é a possibilidade de ouvir este disco para adormecer ou servir de banda sonora para uma tarde de domingo, mas antes aquilo que transmite e sempre transmitiu intensidade na música dos Talk Talk, os seus momentos de tensão e as alturas de alívio dessa mesma tensão.

Tracklist:

  1. The Rainbow
  2. Eden
  3. Desire
  4. Inheritance
  5. I Believe In You
  6. Wealth

Harvest Breed.

10
Abr
09

Gira-Discos: Smashing Pumpkins – Siamese Dream

O rock americano no princípio dos anos 90 estava praticamente confinado ao grunge – desde o lançamento de Nevermind dos Nirvana em Setembro de 1991 até ao falecimento de Kurt Cobain em 1994, pouco foram os artistas e álbuns que inspiraram tanto os jovens americanos como o grunge (algumas honrosas excepções à onda grunge 91-94 foram nomes como Pavement, Sonic Youth, Jeff Buckley e Nine Inch Nails).

Um dos statements mais corajosos a escapar ao grunge foi o lançamento de Siamese Dream, dos Smashing Pumpkins, em Julho de 1993. Em 1991 a banda tinha já lançado Gish (um disco algo disperso e inconsequente, mas com pormenores muito interessantes e uma toada musical bastante diferente do que se fazia na altura) através de uma editora independente, e desde cedo se recusaram a afiliar-se na onda grunge. Quando o frontman e compositor Billy Corgan se preparava para levar a banda para gravar o segundo disco, estava num contexto musical com Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden e Alice In Chains a dominarem os canais de televisão, capas de revista e cartazes de concertos por todos os EUA. Para uma banda americana de rock que se queria distanciar do grunge, o contexto tornara-se muito difícil. Mais ainda, depois de Gish a banda assinou por uma editora major (Virgin), que certamente não queria que o investimento nos Smashing Pumpkins tivesse menos sucesso do que a onda grunge de Seattle.

Mas mais do que as pressões externas, os Smashing Pumpkins estavam a passar tempos difíceis no próprio seio da banda. Depois da digressão de Gish, o baterista Jimmy Chamberlin desenvolveu uma toxicodepedência grave (que levava ao seu desaparecimento ocasional durante vários dias), James Iha e D’Arcy Wretzsky romperam violentamente a sua relação, Billy Corgan teve um esgotamento nervoso e procurou acompanhamento para uma depressão grave. Apesar de tudo, decidiu-se gravar o segundo álbum em Georgia, bem longe dos amigos e familiares da banda em Illinois, com o propósito de ajudar os membros a concentrarem-se nas sessões. A decisão também surgiu para tentar tirar Chamberlin da dependência, afastando-o dos seus círculos e fornecedores habituais.

Corgan queria trazer para o disco uma sonoridade única, e mais do que demarcar-se do grunge, tentar assegurar que a banda o sobreviveria. A favor disso, a Virgin investiu consideravelmente mais em Siamese Dream do que foi investido em Gish, e Corgan insistiu em trabalhar com o mesmo produtor do primeiro disco – Butch Vig. Butch Vig viria posteriormente a ganhar o estatuto de um dos produtores de rock alternativo mais importantes dos anos 90, tendo produzido Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth e L7.

As sessões de Siamese Dream foram difíceis. Corgan voltou a assumir uma postura de control freak dentro da sala de controlo: muitas das partes de Iha e Wretzsky foram gravadas por ele próprio (causando mais mau-estar na banda); reza a lenda que Corgan, irritado com as ausências e consumo de Chamberlin, obrigou-o a gravar ininterruptamente take após take de Cherub Rock ao ponto de ele sangrar das mãos, até chegarem ao take ideal. Perfeccionista e inspirado com os sons de Loveless (My Bloody Valentine), Corgan fez até 100 camadas de guitarras nas canções de Siamese Dream para obter o som de guitarra que queria – levando a muitas horas de trabalho, atrasos de prazos e custos de estúdio bem para além do orçamentado pela Virgin. Alan Moulder (que havia trabalhado em Loveless), em colaboração com Corgan, levou cerca de 1 mês a misturar Siamese Dream. Pelo meio das gravações, o álbum ainda contou com Mike Mills dos REM como convidado, a tocar piano em Soma.

O resultado final satisfez moderadamente a Virgin – o álbum chegou a 10º lugar nos EUA e produziu vários singles com sucesso comercial respeitável. Musicalmente, foi um disco que marcou uma geração – quem seguia com atenção o rock alternativo na década de 90 recorda Siamese Dream com saudade. Um disco extenso em profundidade, com um mar de sons de guitarra por vezes shoegaze, por vezes heavy metal, por vezes psicadélicos. As letras poéticas, ingénuas e sonhadoras tornavam-se por vezes provocantes, revoltadas e sexuais: algumas das letras, incluindo dos singles mais alegres, eram sobre suicídio, e versos como “cut that little child” e “bleed in my own light” tornaram algumas canções banidas.

Which Will.

15
Fev
09

Gira-Discos: Oasis – Definitely Maybe

Oasis significam muita coisa para muita gente. Muitos só conhecem a triste e actual faceta deles – um estereótipo de estrelas de rock arrogantes e trash, com demasiado dinheiro, crack e fãs adoradores (muitos deles concentrados na sede da revista britânica NME) para se preocuparem em fazer música boa. Mas até o mais feroz crítico entende que todo o dinheiro e admiração tiveram de vir de algum lado – Oasis terão sido importantes, algures, no auge da mania Britpop. Se What’s The Story (Morning Glory)? foi o segundo disco que vendeu os milhões e milhões com que eles hoje compram cocaína, mansões e carros, o álbum de estreia Definitely Maybe foi sem dúvida aquele que os pôs no mapa da música britânica.

Com a semi-lendária banda de Manchester a vir actuar em Lisboa hoje, propusemo-nos a ouvir Definitely Maybe novamente, depois deste tempo todo. Recordo-me que o Definitely Maybe foi o primeiro CD que tive (tecnologia pioneira na altura), era eu um miudozeco com um só disco de uma banda inglesa (na altura) nova e obscura. Ainda sem saber muito sobre eles, tinha comprado bilhetes para um concerto no Coliseu de Lisboa, com Oasis, REM e The Cranberries. Esse concerto acabou por não acontecer porque os REM cancelaram, mas de vez em quando penso como teria sido se tivesse, na minha tenra idade, visto os Oasis a promover Definitely Maybe em Portugal. Pessoalmente, não ouço o disco há muitos anos – vou escrever isto à medida que o vou ouvir do princípio ao fim:

A primeira coisa que me ocorre ao ouvir Rock ‘n’ Roll Star é que eles eram muito mais ruidosos e agressivos. A guitarra com slide, nos refrões, assenta perfeitamente numa autêntica muralha de som de guitarras, com apenas um Liam Gallagher discernivel por cima. O baterista deles era tão mau – a canção é, ritmicamente, quase um loop enorme do princípio ao fim. Não me parece que o seja de propósito, mas mais por limitação. Mas esta canção abre o disco como um pontapé na porta, um pontapé nos genitais, uma explosão de “eu não sei o que isto é ou que quer dizer, mas isto faz-me querer saltar, gritar e fazer coisas ilegais”.

A preguiçosa introdução de Shakermaker vem na ressaca de Rock ‘n’ Roll Star, e toda a toada da música é lenta, barulhenta e semi-hipnótica. Os refrões são, em termos de vozes, incrivelmente viciantes, e o pormenor da voz meio estrangulada de Liam oferece ainda mais ao tom hipnótico da canção. Não faço ideia do que ele está a cantar. Acho que Shakermaker era o nome de um brinquedo de plasticina. Parece um bocado idiota se pensar um bocado nisso, mas a música soa bem e eu não quero pensar muito nisso.

Live Forever. A primeira vez que ouço uma parte de bateria ao nível (de qualidade, não volume) das guitarras. E há pianos e violas, mas tudo continua a soar super comprimido, semi-distorcido, como se gravado para fita analógica demasiado alto, ou como se tudo no disco passasse por amplificadores de guitarra. É uma canção pop, sem dúvida, mas é sincera, não tem uma produção ambiciosa de quartetos de cordas como Whatever ou Wonderwall, apenas bons riffs de guitarra e uma composição simples e eficaz. Em retrospectiva, é capaz de ser a melhor balada que os Oasis fizeram em toda a sua discografia.

Up In The Sky, do princípio ao fim, parece uma actuação ao vivo. A introdução entra com outros instrumentos a fazerem feedback – e esse riff, em repetição, é a unica coisa perceptível na mesma muralha de guitarras que encontrámos na primeira canção. A única pontada de produção de estudio é uma viola nos refrões. Não é uma das melhores músicas do disco, mas é muito melhor do que algumas das melhores músicas dos outros discos deles.

Continuando a sensação live performance do tema anterior, Columbia é rock ‘n roll logo desde o princípio. I can’t tell you the way I feel because the way I feel is oh so new to me – o refrão e alguns dos riffs de Noel são novamente as poucas coisas discerniveis na parede de feedback e distorção. Com uma longa parte instrumental e uma bateria dançável, esta a canção do álbum que faz as pessoas dançar. E isso deve sair tão mais facilmente se houver mais Gin no estomâgo do que no bar. Se não estivermos bêbados a ver uns Oasis jovens a tocá-la num bar apertado e malcheiroso, a canção é capaz de se tornar algo enfadonha no fim.

Supersonic, depois deste tempo todo, continua sem duvida nenhuma a ser a minha canção preferida de Oasis. Isto apesar de ter a pior faixa de bateria de que há memória – eu não toco bateria e consigo tocar isto. Mas a canção é perfeita; a parede de guitarras está agora mais organizada, entra e sai em timings perfeitos, os riffs são cuidados e delicados no mais puro rock ‘n roll, em resposta às vozes. É claro que a letra é completamente imbecil. Mas é imbecilidade honesta e não lamechas ou pretensiosa, e se a letra fosse um bocadinho mais inteligente, esta canção não seria tão rock ‘n roll.

Bring It On Down faz-nos regressar à violenta parede de guitarras tocadas ao vivo onde estávamos antes de ouvir Supersonic. Mais furiosa e rápida do que as outras, nem Liam se percebe no meio do caos de feedback de pratos de bateria. Um violento toque de despertador depois da trégua amiga da rádio que Supersonic trouxe. O som está tão comprimido e agressivo – não consigo imaginar como encararam isto os técnicos britânicos de misturas e masterizações do princípio da década de 90.

Eu gosto muito da Cigarettes & Alcohol. Mas mexe um bocado comigo o quanto Noel Gallagher plagiou o riff de Marc Bolan em Get It On, para fazer esta música. Suponho que a sua reputação de falta de originalidade (para não dizer qualquer coisa menos simpática) se começou a construir cedo na carreira. Mas o resto da música é muito boa. E até é bom ouvir Marc Bolan com um som tão agressivo. Em termos de sensibilidade de composição, a canção é semelhante a Supersonic; contudo, é bem mais pesada e fica bem mais próxima do verdadeiro som e filosofia do resto do álbum. Sem dúvida, um single extremamente sólido e entusiasmante (tal como em Supersonic, não somos suposto prestar atenção à letra).

Estamos a chegar ao fim do álbum e eu já sabia que vinha aí a Digsy’s Dinner. Nunca entendi muito bem esta música. Sempre me pareceu uma canção de Blur tocada pelos Oasis. Não necessariamente por plágio, mas porque não tem a ver com o ambiente ameaçador, live performance e rock ‘n roll do resto do disco. Não é uma má canção, ouve-se bem, mas parece uma pequena distracção pop feita sem grande esforço em comparação com os vários colossos de Definitely Maybe.

Em Slide Away, o baterista fica sem ideias e decide tocar outra vez exactamente o que fazia em Supersonic. Esta canção é capaz de ser a mais romântica do álbum, e sendo mais agressiva do que Digsy’s Dinner, não tem a força das primeiras músicas do disco. Fica-se com a sensação de que houve uma tentativa de escrever uma letra mais sentimental e significante, e os resultados não são grande coisa. Mais para o fim da canção, começamos a ter a sensação de que estamos outra vez a ver uma boa banda a fazer rock ao vivo.

Tal como os Beatles tinham em cada disco uma canção para o Ringo cantar, os Oasis têm em cada disco uma canção para o Noel cantar. Em Definitely Maybe, houve a sensibilidade de deixar esse númerozinho para a última faixa do disco. Married With Children dá toda a sensação de que foi uma pequena birra de Noel que a banda e o produtor acederam – podia ter sido gravada na cozinha de um dos membros da banda. Não é mais do que Noel com uma viola a cantar uma letrazinha palerma sobre uma mulher com quem vive e para quem já não tem paciência. Nem sequer chega a canção, parece-me uma espécie de interlúdio estranho que o álbum tem.

A sensação que fica depois de ouvir Definitely Maybe é de que tenho de ouvir este disco outra vez. De que devia ouvi-lo mais vezes. De que devia estar com mais gente algures aos saltos com um cigarro na mão a berrar as letras. Definitely Maybe é uma pedrada num charco, um hino ao rock britânico, com sabores da agressividade glam, blues e punk, mas sem o bullshit sentimental, idealista ou de qualquer género, para ser sincero. É apenas música rock, feita para isso mesmo, sem ter necessariamente nada de especial para dizer às pessoas para além disso mesmo. Se o disco fosse menos ruidoso, menos agressivo, cuidado ou honesto, teria falhado completamente. O som sobre-comprimido, analógico e agressivo do disco é por si só tão musical, cobiçado e importante como as canções em si. O álbum perde fulgor nas últimas duas ou três músicas, que ficaram para último porque são claramente piores. Não é uma queda brutal de qualidade (continuam a ser clássicos de Oasis em retrospectiva com o resto da discografia), e alguns poderão entender isso como uma fase para respirar depois da intensidade ininterrupta do álbum. Depois de ouvido, percebe-se como Definitely Maybe é um disco que mudou a vida de muitas pessoas.

Which Will.

17
Out
08

Gira-Discos: Unwound – Leaves Turn Inside You

Depois de uma carreira impressionante e de assinalável produção de discos, os Unwound separaram-se em 2002. Para trás deixaram a marca de um grupo de músicos incrivelmente talentoso e criativo, Justin Trosper na guitarra e voz, Sara Lund na bateria e Vern Rumsey no baixo. Mas acima de tudo, e como último disco de estúdio, os Unwound deixaram-nos Leaves Turn Inside You, um álbum que se afirmou como o grande cartão de visita da banda, e que cartão de visita. Mas Leaves Turn Inside You não conta a história de uma banda que viajou pela penumbra e pela mediocridade para acabar a produzir uma obra-prima. Longe disso.

Oriunda de partes diferentes do estado de Washington, e tendo aparecido na cena musical por volta de 1991, era quase uma fatalidade ser empilhada no mesmo pacote sónico das bandas que vinham misturando elementos punk com rock clássico ou sonoridades mais hardcore da zona de Seattle. E até certo ponto não podemos nem devemos negar a existência dessa influência na música dos Unwound, especialmente no seu primeiro LP homónimo. Mas a história da banda conta muito mais que isso. E a prová-lo pode mostrar uma legião de fãs que acabaram por levá-la um bocado ao estatuto de banda de culto underground, mesmo depois de modificar a sua sonoridade ao longo dos anos. Não, a história dos Unwound é uma que sempre desafiou os seus inícios.

Leaves Turn Inside You é talvez o corolário de uma banda que passou desde sonoridades hardcore ao estilo de Fugazi ou Black Flag, de sonoridades mais desafiantes e irrequietas do pós-punk tal como outra das grandes bandas subvalorizadas do seu tempo sob a forma dos Mission Of Burma, pelo experimentalismo ousado de uns Can, ou até pela deliciosa peculiaridade dos Minutemen. New Plastic Ideas e The Future Of What, o seu terceiro e quarto álbuns, estabeleceram a banda como um dos percussores de música desafiante e ousada, virada especialmente para o formato do single rockeiro, mas com Repetition, o seu quinto disco, os Unwound começaram aquele que mais tarde viria a ser a mistura de estilos e ideias, mesmo experimentais, que caracterizou o seu último álbum e grande obra prima na sua discografia.

E se há algo que falta aos Unwound não é tanto coragem artística nem tão pouco talento, mas antes reconhecimento. E nesse aspecto não é difícil identificar a banda e especialmente Leaves Turn Inside You, lançado em 2001, como um dos discos mais incrivelmente subvalorizados da sua geração. Leaves Turn Inside You é uma experiência só por si: mais de hora e um quarto de música densa, penetrante e pesada. Mas se há algo que se espera deste disco não haja dúvida que a versatilidade e a sua facilidade em abraçar novos elementos é uma das suas maiores virtudes.

O trabalho de Trosper de composição, quer em letras peculiares e penetrantes, quer no som estruturado da guitarra, é impressionante. Mas Leaves Turn Inside You é também, e talvez sobretudo, um disco de secção rítmica. O álbum entra com os sintetizadores estridentes de We Invent You, contida e densa e com um riff de guitarra penetrante, e acaba com um sample de jazz em Who Cares. Para além de recriar um som gigante e ambicioso, Leaves Turn Inside You aposta forte na envolvência em atmosferas pensativas e sofisticadas que puxam pelo cordão da emoção. E nesse aspecto este é um álbum que mexe com o ouvinte, mesmo sendo quase uma verdadeira peça de ópera rock. December puxa da cartola uma linha de baixo simplesmente fantástica que leva atrás de si tudo o resto, enquanto a estruturada Terminus junta três grandes ideias só numa faixa de 9 minutos. Demons Sing Love Songs e October All Over empurram para a já falada emoção, enquanto Off This Century lembra que a sonoridade mais punk e ofensiva não se perdeu com anos, mas antes se incorporou com tudo o resto.

Para quem nunca ouviu este disco, não se espere apaixonar-se de imediato à primeira audição. Leaves Turn Inside You é uma experiência imensa, o som de uma banda no seu auge. Tudo isto fez deste álbum um dos melhores e mais injustamente subvalorizados da última década.

Tracklist:

  1. We Invent You
  2. Look a Ghost
  3. December
  4. Treachery
  5. Terminus
  6. Demons Sing Love Songs
  7. Off This Century
  8. One Lick Less
  9. Scarlette
  10. October All Over
  11. Summer Freeze
  12. Radio Gra
  13. Below The Salt
  14. Who Cares

Harvest Breed.

09
Abr
08

Gira-Discos: Suede – Dog Man Star

Os Suede foram uma banda que sempre teve qualquer coisa que desencorajava as pessoas em Portugal de os ouvirem com atenção. Ao princípio, surgiram como um rompimento com uma cena Madchester em declínio, e depressa foram declarados como os grandes pioneiros de um novo estilo musical chamado Britpop, apesar de musicalmente nada terem a ver. No final da sua carreira, a banda havia-se tornado um autêntico sell-out, alienando apreciadores de música mais sérios. Apesar de tudo, quem gosta de Suede ama a sua música obsessivamente, ainda hoje Morrissey toca lados B de Suede ao vivo e o comediante Ricky Gervais fala com orgulho dos tempos em que era manager da banda. Por detrás de um grande disco de música há sempre uma mistura de insanidade, ambição e conflito – e foi isso que levou Suede à sua obra-prima.

Depois do álbum de estreia homónimo (um grande disco no seu direito) que em 1991 estava à frente do seu tempo, aguardava-se com ansiedade o segundo disco de Suede, agendado para sair no Outono de 1994. A banda tinha então mais dinheiro para gastar em gravações, tinham optado por permanecer com a mesma editora indie (Nude) e produtor (Ed Buller) e o guitarrista/co-compositor da banda, Bernard Butler, era visto por muitos como um dos mais talentosos da sua geração, frequentemente comparado a Johnny Marr. Mas os Suede estavam sob tremenda pressão: Butler ficara pessoalmente afectado pelo falecimento do seu pai em 94, esperavam-se esmagadores sucessos comerciais, e Butler (uma pessoa serena, ambiciosa e discreta) sentia-se alienado do resto da banda, que adorava o estilo de vida de fama, sexo, drogas e rock ‘n roll. Depois do primeiro álbum, Butler e Anderson queriam levar Suede a explorar outros territórios musicais, abandonando as tonalidades glam/punk/pop que tanto tinham conquistado pela banda. O objectivo era um disco com grandeur, um ambiente único e uma visão artística.

O novo álbum chamar-se-ía Dog Man Star, numa referência à canção/EP de Meat Beat Manifesto (Dog Star Man).

Anderson trancou-se sozinho numa casa vitoriana a escrever letras e canções (alegadamente) sob as influências da droga e da solidão, enquanto Butler se lançava na missão de arquitectar as partes instrumentais do álbum. Em entrevistas posteriores ao álbum, Anderson disse que Butler “aparecia em estúdio com peças de guitarra épicas de 15:00, e esperava que fosse tudo incluído no álbum”. Butler, por outro lado, mesmo durante as gravações do álbum, veio a público sugerir uma falta de empenho de Anderson, que “parecia mais interessado em gozar o estilo de vida de estrela rock ‘n roll”.

O resto da banda e o produtor assistiam enquanto os dois alternavam entre conflitos verbais frequentes e a criação de música fenomenal, genuína e honesta. A brutal sinceridade do disco é clara em momentos como a performance vocal dos primeiros versos de The Wild Ones (“There’s a song playing on the radio/Sky high in the airwaves on the morning show”) ou dos refrões de Still Life (“Is this still life all I’m good for too?/There by the window quietly killed for you”). Outros momentos íntimos do disco, como The 2 Of Us, vivem justamente disso – um enquadramento instrumental simples e brilhantemente eficaz construído à volta de uma linha vocal que se entrega totalmente àquilo que canta.

Mais de 10 anos depois do lançamento de Dog Man Star, é latente que é esta luta de talentos que tornou o álbum numa referência da música britânica, um marco para gerações de músicos e uma espécie de Santo Graal de produção e composição. Quem ouve o disco percebe que a banda, com todo o respeito que merece, assistia em primeira fila enquanto Brett Anderson e Bernard Butler faziam o álbum épico que queriam fazer – de costas voltadas. Ora agressivos (como Hollywood Life e We Are The Pigs), ora serenos e introspectivos (como Wild Ones e The 2 Of Us), é no desprezo e no entendimento entre Anderson e Butler que nasceram momentos de classe e sofisticação que no pop/rock britânico de 94 não tinham paralelo.

As frustrações pessoais de Butler dentro dos Suede e a própria relação difícil com Anderson levaram a que ele saísse da banda ainda a meio das gravações do disco – Butler, contudo, sempre refutou que ele foi despedido e não que tinha abandonado a banda. Dog Man Star foi um sucesso crítico mas uma desilusão comercial: o primeiro single que antecedia o álbum tinha um nome algo infeliz (We Are The Pigs) e o seu videoclip foi banido por diversas televisões (por conteúdo violento), o abandono de Butler foi visto por muitos como um prelúdio para o fim da banda e a própria música de Dog Man Star era consideravelmente menos amiga da rádio do que o álbum de estreia. Outra explicação para o álbum não ter tido o sucesso comercial que merecia foi o timing: em 1994, os Blur lançaram Parklife, os Oasis lançaram Definitely Maybe – a Britpop explodia e ameaçava conquistar o mundo.

A saída de Butler da banda não foi amigável. Não só acusou Anderson de falta de trabalho e de estar mais preocupado em ser uma estrela, também manifestou um desagrado à intromissão do produtor Ed Buller no processo criativo da banda em Dog Man Star e que ele tinha feito “peças de música lindas que levaram nomes estúpidos como We Are The Pigs”. Anderson, por outro lado, acusou Butler de ser uma pessoa difícil e de ter falta de maturidade a escrever música.

Dog Man Star acabou por ser um álbum único também por isto. Os Suede recrutaram um guitarrista de 17 anos praticamente anónimo para substituir Butler, e depois do fracasso comercial de Dog Man Star tentaram a todo o custo voltar à fórmula mágica comercial do primeiro álbum, efectivamente tornando-se numa triste banda de tributo a eles próprios, esforçando-se em demasia para assegurar sucessos comerciais. Butler, entretanto, começou uma carreira interessante a solo e como músico de sessão – mas é como produtor que neste momento está a recuperar a atenção dos públicos e críticos, que entretanto havia perdido desde 1994.

Which Will.

13
Nov
07

Gira-Discos: Gang Of Four – Entertainment!

O Gira-Discos propõe-se analisar e esmiuçar álbuns de bandas já defuntas que sentimos que tiveram um impacto grande na música actual, mas que achamos que deviam ter mais crédito que lhes dão (deixamos-lhes aqui as nossas homenagens – o que certamente lhes irá confortar quando veêm gente mais nova na televisão a plagiar a sua música). O primeiro cliente não podia deixar de ser uma banda de post-punk e um dos álbuns mais influentes da história da música: Entertainment! dos Gang Of Four.

Os Gang Of Four eram uma banda à nossa medida: frios, mas inteligentes nas suas letras, música que nos atropela como se de um comboio se tratasse e, claro, por Gang Of Four ser uma referência a quatro teóricos do estruturalismo, uma corrente à qual me sinto atraído como o leão se sente atraído pela gazela. Apareceram em Leeds com trunfos simples, mas eficazes: aparições ao vivo explosivas e carismáticas, ataques de guitarras secos e letais, linhas de baixo contagiantes e uma aproximação irreverente e inconformada ao ouvinte. Traídos pelo próprio activismo político e social, a banda sacrificou a possibilidade de obter um lugar ao sol dos tops ingleses ao abandonar uma emissão do Top Of The Pops na qual tocariam o single de apresentação de Entertainment!, At Home He’s A Tourist, por recusar uma edição às letras da música, considerada demasiado abrasiva.

Entertainment! é um álbum de assinalável consistência. Durante toda a sua duração, menos de 40 minutos, surgem estampados os mesmos elementos, que mais tarde veríamos aparecer em inúmeras bandas influenciadas de qualquer maneira pelo post-punk desde os Franz Ferdinand aos Bloc Party. Elementos esses, ainda que aparentemente simples, são executados com uma mestria invulgar que os separou definitivamente dos seus pares num estilo que até hoje em dia está em moda.

O guitarrista Andy Gill cria ritmos que funcionam aos repelões e que impedem qualquer fluidez na música dos Gang Of Four, uma dinâmica que deixa o ouvinte em bicos dos pés para acompanhar a velocidade e a energia de Entertainment!. É uma abordagem muito comum nos dias que correm, desde o revivalismo garage rock dos The Strokes ao dance-punk dos The Rapture ou o “new rave” dos Klaxons. Mas acaba por ser apenas metade da história sobre os Gang Of Four. O baixista Dave Allen forma uma secção rítmica com precisão de relógio juntamente com o baterista Hugo Burnham. Os sons são contagiantes, envolventes e em constante mudança.

Entertainment! envelheceu bem. Ouvi-lo hoje em dia não é uma experiência retro em que ficamos com a sensação de que, tempos houve em que se fazia música ao sabor dos devaneios da época. É, até, surpreendentemente familiar e moderno para quem ouve Bloc Party, Futureheads ou Franz Ferdinand. A música de abertura Ether presenteia-nos com um ritmo morno, liderado por uma linha de baixo forte e ressonante, envolvidos num excitante e característico jogo de guitarras. No entanto, é com números seguintes que a banda se afirma em definitivo. A facilmente reconhecível Natural’s Not In It, a estupidamente viciante Damaged Goods, o punch de I Found That Essence Rare ou a enérgica At Home He’s A Tourist são imagens de marca dos Gang Of Four e atestam um talento que transpira de todos os lados neste álbum. Entertainment! é um álbum essencial para qualquer fã do rock e indie rock moderno que se preze.

Tracklist:

  1. Ether
  2. Natural’s Not In It
  3. Not Great Men
  4. Damaged Goods
  5. Return the Gift
  6. Guns Before Butter
  7. I Found That Essence Rare
  8. Glass
  9. Contract
  10. At Home He’s A Tourist
  11. 5:45
  12. Anthrax

Harvest Breed.