O que não faltam por aí são teorias sobre as razões que levaram Brian Wilson a perder a cabeça na recta final dos anos 60. O espírito sempre competitivo de Wilson acentuou-se no seguimento do processo de composição do clássico Pet Sounds dos seus Beach Boys, e ainda mais com a edição de Sgt. Pepper dos Beatles. Mas reza a lenda que a gota de água que fez transbordar o copo terá caído num dia de gravações no seu estúdio, quando ouviu por puro acaso a sessão de um jovem e pouco conhecido músico a dar os seus primeiros passos no meio. O músico em questão tratava-se de Curt Boettcher e tinha apenas 21 anos na altura. Cedo Boettcher se interessou e conseguiu alguma notoriedade no estilo de música solarenga e festivaleira que Wilson e os Beach Boys tanto amavam, destacando-se sobretudo como produtor dos The Association. Ainda assim, e tal como os Beach Boys, o final da década de 60 acabou por não ser tão propício a este estilo musical quanto foi ao rock clássico com laivos de psicadelismo dos Beatles ou dos Rolling Stones ou à espectacularidade pesada dos Led Zeppelin. Todos os lançamentos do talentoso Boettcher caíram no esquecimento do falhanço comercial da altura, mas o seu legado permaneceu e sobrevive ainda hoje. Esse legado tem o seu corolário no colectivo de luxo que Boettcher juntou em parceria com o seu companheiro Joey Stec em 1968: os The Millennium.

O génio tem destas coisas, e se Brian Wilson prosseguiu a sua carreira mesmo no seu período mais conturbado, o mesmo não se pode dizer de Boettcher. A herança dos The Millennium resume-se, assim, a apenas um álbum: Begin. Mas se há algo que artistas como Nick Drake, Curt Boettcher ou o recém-falecido Alex Chilton têm em comum é o seu seguimento de culto que mantiveram até aos dias de hoje. E isso manifesta-se não só em novos fãs, mas acima de tudo em influência junto de novos músicos. Nesse sentido, Begin é um disco absolutamente essencial. Não só no domínio do pop veraneante com traços leves de psicadelismo, mas também como uma verdadeira lição em como produzir um álbum. E aí toma especial relevo não só Boettcher, mas também Gary Usher, produtor dos Beach Boys que ajuda à formação da banda a partir do conjunto psicadélico defunto Sagittarius. Em retrospectiva, terá sido precisamente essa ligação psicadélica que esteve na origem dos The Millennium que acabou por ditar o fraco poder comercial de Begin. Numa era em que muito do interesse geral recaía num rock psicadélico profundo e muitas vezes caprichoso, Begin acabou por ser um típico caso de ‘nem tanto ao mar nem tanto à terra’, no sentido em que o estilo característico das composições de Boettcher e de Stec nunca conseguiu especial atenção quer dos amantes de pop puro, quer dos de psicadelismo denso.

Prelude dá início às coisas com um cravo peculiar que é abruptamente interrompido por uma bateria que se sobrepõe a tudo o resto e que introduz a entrada instrumental de To Claudia On Thursday, um dos singles retirados do disco e que se destaca pela sua linha de baixo e pelas harmonias vocais ascendentes. Begin pisa continuamente a linha entre o pop melódico e alegre dos Beach Boys e o psicadelismo que está na raiz do próprio grupo e que representava muito do contexto musical da altura. Mas tal como em Pet Sounds, Begin privilegia músicas curtas e directas e sempre melódicas. Como é o caso de 5 AM, aparentemente um hit de sucesso apenas nas Filipinas, uma espécie de irmão espiritual de That’s Not Me de Pet Sounds. Importante também de notar a forma como a banda consegue incorporar alguns elementos tropicais e exóticos na sua música para estabelecer uma ligação ainda maior com as temáticas e os motivos do verão e do sol, e fá-lo quase sem darmos por isso. Talvez por isso, não há nenhum número aqui que não seja instantaneamente memorável, uma verdadeira banda sonora do verão perfeito. Músicas como It’s You, Some Sunny Day ou I Just Want To Be Your Friend entranham-se com uma facilidade impressionante e como poucas outras conseguirão. Begin é uma verdadeira obra de arte, já não digo para quem seja fã de discos impecavelmente produzidos, de instrumentalizações inteligentes e harmonias vocais, mas para qualquer amante de melodias e música pop.
Tracklist:
- Prelude
- To Claudia On Thursday
- I Just Want To Be Your Friend
- 5 AM
- I’m With You
- The Island
- Sing To Me
- It’s You
- Some Sunny Day
- It Won’t Always Be The Same
- The Know It All
- Karmic Dream Sequence, Nº 1
- There Is Nothing More To Say
- Anthem (Begin)
- Just About The Same
- Blight
Harvest Breed.















