Enquanto se foi tornando ideia popular que os The Smiths se apresentaram como porta-estandartes da música alternativa dos anos 80, com claras ligações ao pop, uma das primeiras bandas que hoje podemos responsabilizar pela criação da estética indie foram os ingleses Felt. Lançando dez discos em apenas nove anos entre 1981 e 1989, mostrando uma característica apetência para a produtividade quase industrial do estilo, todos editados em editoras independentes, primeiro na minúscula Cherry Red e depois na reputada Creation Records, os Felt cedo estabeleceram um espírito de ligação à estética que promoviam que se revelou muito ligado à autonomia e aos desejos e lutas de independência que eram frequentes no punk dos anos 70. Apesar disso, a música que produziram sempre esteve o mais afastado possível do que consideramos punk. Liderados pelo enigmático e carismático vocalista e compositor da maioria do seu material, Lawrence, que nunca quis ser reconhecido nem creditado pelo seu último nome, Hayward, os Felt praticaram numa primeira fase, com especial apetência e ligação com a música instrumental, uma sonoridade bastante virada para o gótico dos The Cure ou dos Joy Division nos seus momentos mais sombrios, que depois se veio a traduzir, quando a banda começou a incorporar em definitivo partes vocais na sua matriz, numa viragem para o pop de guitarra não distinto do conjunto de Morrissey e Marr.

E enquanto na primeira fase desta direcção musical, mais pesada e negra, a génese criativa dos Felt residia na dinâmica entre Lawrence e o seu parceiro de composição Maurice Deebank, guitarrista, as coisas não tardaram a mudar. Com a mudança de sonoridade, muda também a constituição da banda, e Deebank sai de cena em discordância da nova direcção criativa depois de sete anos nos Felt, e ao sexto disco, em 1986, Forever Breathes The Lonely Word, o conjunto de Birmingham dá o passo decisivo rumo ao pop que Lawrence sempre quis incorporar com maior proeminência na identidade sónica dos Felt. Deixando para trás o gótico, essencialmente dos seus primeiros dois discos, e as texturas pesadas e sombrias, Forever Breathes The Lonely Word é um exercício em pop de guitarras bem conseguido, com composição forte e consistente, e no global um dos discos mais importantes da música alternativa pop dos anos 80. Já na Creation, este seria o segundo álbum do grupo na nova editora, o segundo a contar com uma nova constituição onde Lawrence assumia ainda mais relevância e o primeiro da história da banda sem qualquer faixa instrumental. Nesta nova composição ainda assumiria maior protagonismo a adição de Martin Duffy como novo teclista, ele próprio que viria a fazer parte de futuras composições dos Primal Scream e dos Charlatans, protagonismo esse que até se reflectiu no seu aparecimento em grande plano na capa de Forever Breathes The Lonely Word. Esta viria a ser uma decisão que teria de facto grande impacto na sonoridade do disco: o trabalho de teclado de Duffy está presente em praticamente todas as faixas, sempre demonstrando uma impressionante elasticidade e destreza para se adaptar à composição de Lawrence, ele sim, creditado como único compositor do registo.
Convém não esquecer também mais duas razões que fazem de Forever Breathes The Lonely Word o trabalho mais acessível e pop, mas também mais competente e consistente dos Felt: a contribuição do baixo vibrante de Marco Thomas, e as melodias e floreados da guitarra do próprio Lawrence. Essas são duas vertentes que saltam logo à vista na faixa de abertura, Rain Of Crystal Spires, plena já do estilo de teclado que Duffy deixa um pouco por todo o lado neste álbum e uma introdução à altura do impacto que este disco veio a ter subsequentemente. Contudo, torna-se fácil concluir que este é um álbum de vários pontos altos, muitos recaíndo bastante na melancolia das letras de Lawrence que casava com um estilo de instrumentalização muito dado ao delicado tom da sua guitarra, uma matriz que muitas bandas desde os Belle & Sebastian, Stuart Murdoch cita mesmo os Felt como a principal influência na música do seu conjunto e Lawrence como o melhor letrista de sempre, até aos The Clientele adoptaram. Muitas destas faixas são tão vitoriosas mesmo em virtude da sua simplicidade, da forma como a voz dolorosa e distante de Lawrence se enquadra na fragilidade da sua guitarra e na diversidade dos teclados de Duffy. Veja-se só a forma como a balada de saudosismo September Lady faz conjugar todos estes elementos numa tempestade perfeita, ou como a mais ambiciosa All the People I Like Are Those That Are Dead assume o papel de peça central do disco no meio de uma realização de fé com um subtil e inteligente trabalho de letras, “I’ve been a two-time tearaway and God has told me so / but I don’t believe in him, you know”. Forever Breathes The Lonely Word tem a bagagem completa de um fenomenal disco pop de guitarra: uma secção rítmica bem coordenada, composição no auge da carreira de Lawrence, guitarras delicadas e precisas, arranjos certos nos momentos certos e letras que fazem cintilar todo o talento por trás disto tudo. Simplesmente demasiado bom para permanecer na falta de reconhecimento que tem.
Tracklist:
- Rain Of Crystal Spires
- Down But Not Yet Out
- September Lady
- Grey Streets
- All The People I Like Are Those That Are Dead
- Gather Up Your Wings And Fly
- A Wave Crashed On The Rocks
- Hours Of Darkness Have Changed My Mind
Harvest Breed.















