Arquivo da categoria 'Melhores Álbuns de 2007'

01
Jul
08

Os 30 Álbuns do Ano, Vols. #13-#30 (Lista Final)

E porque as coisas não duram para sempre e já aí se aproxima o Verão de 2008, decidimos aqui no blog pôr um fim ao ano de 2007. Um ano que marcou uma mudança que se poderá vir a provar histórica no mundo da música. Luís Filipe Reis lançou o seu 15º álbum, Só P’ra Dançar, e a indústria da música não mais voltou a ser a mesma. Mas 2007 foi também um ano de grandes trabalhos musicais, sejam discos de estreia (já tínhamos antes falado do álbum de Future Of The Left, por exemplo), sejam confirmações de talento (ver Field Music ou !!! já antes discutidos), sejam discos esperados que resultaram em autênticas voltas de honra (Of Montreal, Spoon) ou até mesmo discos que tecnicamente não foram propriamente álbuns (No Age…). Foram esses e outros que procurámos homenagear com esta rubrica que hoje se encerra. Novamente frisando não ter nenhuma ordem, segue:

Klaxons – Myths Of The Near Future

Chega ao fim do ano como praticamente um dinossauro, depois de uma nomeação e conquista do prestigiado Mercury Prize em Inglaterra, Myths Of The Near Future é energético, melódico e carrega músicas que têm tanto de acessíveis como de viciantes.

Para fãs de: The Rapture, !!!.

Pontos Altos: As Above, So Below; Two Receivers.

Iron & Wine – The Shepherd’s Dog

Por esta altura já não é segredo nenhum, Sam Beam é um dos grandes nomes do folk actual. The Creek Drank The Cradle e Our Endless Numbered Days registaram a evolução natural da mente musical de Beam, e The Shepherd’s Dog é mais uma confirmação.

Para fãs de: Bonnie ‘Prince’ Billy, Bon Iver.

Pontos Altos: Boy With A Coin, Pagan Angel And A Borrowed Car.

The Black Lips – Good Bad Not Evil

Adeptos fervorosos do punk à moda antiga, Good Bad Not Evil representou o álbum em que os Black Lips transformaram o seu appeal em palco para disco. É também dono e senhor de uma consistênsia muito admirável para um álbum de punk revivalista.

Para fãs de: The Exploding Hearts, King Khan.

Pontos Altos: O Katrina, Bad Kids.

Chromatics – Night Drive

Mais revivalismo, desta vez de disco melancólico a fazer lembrar Giorgio Moroder, com um especial olho para uma produção fria e emocionalmente removida, mas com resultados impressionantes. Night Drive prima pela beleza e pela simplicidade minimalista.

Para fãs de: Glass Candy, Giorgio Moroder.

Pontos Altos: Night Drive, Healer.

Animal Collective – Strawberry Jam

Oitavo álbum, os Animal Collective continuam a produzir malhas pop emergidas num imenso mar de batidas tribais, electrónica experimental ou praticamente tudo em que consigam pôr as mãos. Mas Straeberry Jam é capaz de ser o seu álbum mais consistente e eficaz até à data.

Para fãs de: Animal Collective.

Pontos Altos: For Reverend Green, Fireworks.

World’s End Girlfriend – Hurtbreak Wonderland

Post-rock com um ponto de vista interessante e necessariamente diferente, Hurtbreak Wonderland é o oitavo registo de Katsuhiko Maeda, World’s End Girlfriend, possui laivos de electrónica e experimentalismo que assume contornos de beleza inesperada.

Para fãs de: Tortoise, Té.

Pontos Altos: 100 Years Of Choke, Birthday Resistance.

Burial – Untrue

Apesar de toda a poeira que se levantou com a histeria à volta do dubstep, não podemos dizer que não seja justificada. Untrue é o segundo e mais consistente álbum do mistério que é Burial, revestindo-se de arranjos assustadores e desarmantes.

Para fãs de: Kode9, Boxcutter.

Pontos Altos: Archangel, Near Dark.

White Rabbits – Fort Nightly

Acabaram por ser uma das maiores revelações do ano, e com razão de ser. Fort Nightly é de uma riqueza impressionante para um disco de estreia, seja ela riqueza de arranjos, seja mesmo de criatividade de composição.

Para fãs de: Spoon, The Walkmen.

Pontos Altos: The Plot, While We Go Dancing.

The Twilight Sad – Fourteen Autumns And Fifteen Winters

A primeira coisa que notamos ao ouvir o disco de estreia dos Twilight Sad é o sotaque escocês ultra-pronunciado do vocalista James Graham, o que seria mais que suficiente para distrair muita gente, mas o que fica na memória são algumas das pérolas sentidas que este álbum traz.

Para fãs de: Frightened Rabbit, Arcade Fire.

Pontos Altos: And She Would Darken The Memory, That Summer, at Home I Had Become the Invisible Boy.

Apparat – Walls

Walls, lançado depois da sua bem-sucedida colaboração com Ellen Allien, representou para os Apparat uma viragem para uma direcção inesperada. Sascha Ring, aka Apparat, mostrou com este disco ter um especial olho para composições mais pop, nunca esquecendo as atmosferas cativantes que sempre produziu.

Para fãs de: Ellen Allien, Junior Boys.

Pontos Altos: Useless Information, Fractales Pt.1.

Les Savy Fav – Let’s Stay Friends

Quase não pareceu, mas este foi um álbum de regresso para os Les Savy Fav, já há muito com reputação de banda poderosa e ecléctica para além de sempre imprevisível ao vivo. Let’s Stay Friends capitalizou essa reputação e merecidamente colocou a banda num estatuto de reconhecimento geral.

Para fãs de: Constantines, Mclusky.

Pontos Altos: What Would Wolves Do?, Patty Lee.

LCD Soundsystem – Sound Of Silver

Era inevitável, não era? Nos últimos anos, especialmente depois do lançamento do álbum homónimo dos LCD Soundsystem, quer James Murphy quer a DFA ficaram sinónimo de uma marca de qualidade, e apesar de nem tudo serem rosas, Sound Of Silver é certamente um dos álbuns mais memoráveis do ano.

Para fãs de: The Rapture, Daft Punk.

Pontos Altos: All My Friends, Someone Great.

Radiohead – In Rainbows

Se Sound Of Silver era inevitável, este é inquestionável. Para além de todo o folclore que o rodeou, o simples facto de conter alguma da música mais simples, mas diversa e tremendamente bem estruturada dos últimos anos, voltou a elevar estes cinco músicos ao patamar de divindades musicais depois do intervalo de 4 anos.

Para fãs de: Radiohead.

Pontos Altos: Weird Fishes/Arpeggi, Reckoner.

Bon Iver – For Emma, Forever Ago

Em conjunto com The Shepherd’s Dog, é um dos álbuns tradicionalmente folk de 2007, mas For Emma, Forever Ago concentra uma abordagem mais lo-fi, apoiada no falsetto quase divinal de Justin Vernon, que faz deste disco um dos mais desarmantes e belos do ano.

Para fãs de: Iron & Wine, Sufjan Stevens.

Pontos Altos: Blindsided, Re: Stacks.

Okkervil River – The Stage Names

Depois do sucesso crítico que se tornou Black Sheep Boy em 2005, The Stage Names era um disco que assumia um carácter de estabilização da ‘marca’ Okkervil River, e a banda acaba por passar o teste com distinção. The Stage Names mostra uma evolução na composição da banda, apostando na consistência.

Para fãs de: Bright Eyes, Spoon.

Pontos Altos: Unless It Kicks, A Hand To Take Hold Of The Scene.

Boxcutter – Glyphic

Empilhado no mesmo monte do boom de dubstep depois do aparecimento de Burial e do lançamento do seu primeiro disco na discográfica Planet Mu, Oneiric, Boxcutter faz uma evolução natural do seu som para pastos mais ambiciosos, e o resultado é plenamente satisfatório.

Para fãs de: Burial, Kode9.

Pontos Altos: Glyphic, Rusty Break.

The Cribs – Men’s Needs, Women’s Needs, Whatever

Saindo quase sorrateiramente da cena degradante do lad rock inglês, os The Cribs têm vindo recentemente a receber apoios de lados inesperados, desde Alex Kapranos até Johnny Marr, passando por Stephen Malkmus, mas tudo com boa razão. O seu último disco é uma colecção de pérolas de rock directo e sem rodeios.

Para fãs de: The Strokes, The Libertines.

Pontos Altos: Girls Like Mystery, Men’s Needs.

Battles – Mirrored

Uma verdadeira constelação de nomes sonantes do indie rock mais tradicional, de math rock e até do avant-garde, os Battles cumpriram a promessa num disco de estreia que pavoneia todas as suas peculiaridades individuais e se revela não só surpreendemente fácil de ouvir como estranhamente viciante.

Para fãs de: Don Caballero, Helmet, Pattern Is Movement.

Pontos Altos: Atlas, Tonto.

Harvest Breed.

29
Fev
08

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #12: Andrew Bird – Armchair Apocrypha

Andrew Bird, assobiador extraordinaire, tem uma reputação pelo experimentalismo e inventividade, que extravasa os limites do indie mais middle of the road. Reputação essa que construiu pelos seus quatro álbuns a solo, sendo ele membro honorário dos Squirrel Nut Zippers, apoiando-se numa moldura fortemente lo-fi. Os seus dois registos anteriores, Weather Systems e The Mysterious Production of Eggs, com a sua vertente mais acústica, mas não menos contida, colocaram a fasquia bem alto, mas deixaram a interrogação no ar de por onde nos levaria Andrew Bird no seu trabalho seguinte. Armchair Apocrypha é a resposta. Mas ambicioso que os seus antecessores, Armchair Apocrypha, mandavam os cânones de hipsters por esse mundo fora, tinha de ser onde Andrew Bird tropeçava pela primeira vez numa carreira notável. E gente houve que defendeu, e provavelmente continua a fazê-lo, isso mesmo. Não que Armchair Apocrypha seja um álbum que divida muitas opiniões, mas quem segue a carreira de Bird dirá que é um registo pelo menos diferente. O estilo de composição não se alterou, mas o sentimento é mais desafiador e ousado.

Bird não é o típico troubadour indie com uma viola a cantar sobre amor e pastos verdejantes. Por duas razões: em termos líricos, o seu estilo mais mordaz e cerebral mostra tudo menos vazio de conteúdo; por outro lado, fazendo uso do seu background multi-instrumental centrado no violino, Bird, produz arranjos elaborados e consistentemente surpreendentes. Armchair Apocrypha é uma fiel reprodução desse espírito. Veja-se o ensaio sobre a mortalidade em Fiery Crash, “You’ve gotta learn how to die/ if you wanna be alive/ to save our lives you’ve got to envision/ the fiery crash“, ou as interacções humanas em Imitosis, “What is mistaken for closeness/ Is just a case of mitosis”, ou até a previsibilidade da rotina em Simple X, “some people wake up on monday mornings/ barring maelstroms and red flare warnings/ with no explosions and no surprises/ perform a series of exercises”. Num género já sobejamente povoado, Bird vai marcando a sua diferença com um conjunto de pormenores líricos, arranjos precisos, uma voz subtil, mas marcante, e uma capacidade de composição de melodias simples envolvidas em texturas atraentes.

Mas visto isto tudo, a questão que se impõe é, será Bird demasiado inteligente para o seu próprio bem? A resposta é dada na segunda faixa, a fenomenal Imitosis, em si uma espécie de segundo rascunho de um dos pontos altos de Weather Systems, I, aparece em Armchair Apocrypha com cara completamente renovada. Laivos de tango e arranjos de violino a puxar para o dançável mostram o lado mais ousado de Andrew Bird. O riff de guitarra em Heretics fornece um sólido começo para os costumeiros arranjos de violinos que se seguem e se acalmam para dar destaque à cristalina voz de Bird, uma fórmula que se repete recorrendo ao famoso assobio em Dark Matter. Plasticities é outro dos destaques, onde, mais uma vez, Bird põe em prática toda o seu talento em composição de estruturas simples com melodias vocais fascinantes (“we’ll fight/ we’ll fight we’ll fight for your music halls and dying cities/ they’ll fight/ they’ll fight for your neural walls and plasticities”). Armchair Apocrypha devia ter sido o álbum em que Andrew Bird finalmente calçava as pantufas e preparar-se-ia para dormir à sombra da bananeira. Nada mais longe da verdade.

Para fãs de: Squirrel Nut Zippers, Final Fantasy, Jeff Buckley.

Tracklist:

  1. Fiery Crash
  2. Imitosis
  3. Plasticities
  4. Heretics
  5. Armchairs
  6. Dark Matter
  7. Simple X
  8. The Supine
  9. Cataracts
  10. Scythian Empires
  11. Spare-Ohs
  12. Yawny at the Apocalypse

Harvest Breed.

13
Fev
08

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #11: The National – Boxer

Não há nada que Bruce Springsteen, a.k.a The Boss, goste mais que testosterona. E como bom gajo que é, o Boss aprecia música precisamente como os The National a fazem: directa, eficaz e sem rodeios. Não que os The National sejam uma banda propriamente sexista, longe disso. Os The National são muito mais que uma banda de cinco gajos a fazerem música “de gajo” e a copiarem tiques de Springsteen, ao contrário do que parece ser frequentemente o pensamento sobre eles. E têm uma carreira já considerável para o provar. Mas foi especialmente depois do seu penúltimo álbum, Alligator, que os The National começaram a obter o crédito que mereciam junto da comunidade indie americana, recheada deste tipo de bandas, apesar de pouco habituada a tanta excelência. Alligator era um misto de músicas directas como Lit Up ou Abel com números mais sonhadores como Looking For Astronauts ou indie clássico com arranjos precisos e criativos como Secret Meeting ou Karen. Alligator fez a sua parte na ascensão dos National; permitiu a que o vocalista Matt Berninger pudesse deixar o seu segundo trabalho e concentrar-se a tempo inteiro na banda, e deixou antever o que aí vinha. De certa forma.

Ao entrar em 2007, os The National concentravam em si uma saudável pressão para obter sucesso de mão dada com um certo estatuto adquirido como uma banda inteligente, virada para a construcção de músicas simples, mas de beleza irresistível. Boxer, o seu último disco, que acabou por ser um dos mais elogiados álbuns de 2007, vencendo até várias listas de publicações relevantes, não é propriamente uma ruptura com o passado. Os The National não tentam ser o que não são, o que não significa falta de ambição, especialmente conhecendo o resto da discografia da banda, mas em Boxer os The National não têm grandes preocupações em “encher” o seu som para tentar piscar o olho a um público mais mainstream. Aliás, a beleza dos The National é mesmo essa, assemelhando-se nesse aspecto a outras bandas indie de renome e com longevidade impressionante como os Modest Mouse (com quem vão entrar em digressão em apoio aos R.E.M.) ou os Okkervil River por exemplo, esta é uma banda que transpira excelência e maturidade por todos os poros, aliada a uma impressionante constância da qualidade do material lançado.

E nesse aspecto, Boxer é não só a continuação de Alligator, como a sua elevação a um clássico. Fake Empire é um bom sítio para começar, com as suas gentis pianadas a juntarem-se a uma voz calma e profunda de Berninger que culminam num clímax orquestral fabuloso. Aliás, a qualidade dos arranjos do quase-sexto membro da banda, o australiano Padma Newsome é um dos pontos fortes de Boxer. Slow Show e Racing Like a Pro são talvez os melhores exemplos disso mesmo, esta última com a colaboração do genial Sufjan Stevens (que também aparece em Ada). Mistaken For Strangers tem o paralelo natural em números anteriores como Lit Up, desta vez executado na perfeição, com as quantidades correctas de orquestração e e guitarradas cruas. Mas Boxer é também, e talvez acima de tudo, um álbum de percussão, e neste aspecto é o baterista Bryan Devendorf que brilha com mais intensidade, veja-se especialmente o trabalho no segundo single Apartment Story, em Brainy e especialmente com resultados quase inacreditáveis em Squalor Victoria, em que protagoniza também um piano minimalista e uma vocalização precisa de Berninger. Boxer oferece pérola atrás de pérola de indie rock por descobrir com cada audição, cada uma com as suas particularidades e pormenores.

Para fãs de: Wilco, The Walkmen, Band Of Horses, Modest Mouse.

Tracklist:

  1. Fake Empire
  2. Mistaken For Strangers
  3. Brainy
  4. Squalor Victoria
  5. Green Gloves
  6. Slow Show
  7. Apartment Story
  8. Start A War
  9. Guest Room
  10. Racing Like A Pro
  11. Ada
  12. Gospel

Harvest Breed.

15
Jan
08

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #10: Simian Mobile Disco – Attack Decay Sustain Release

2007 foi um ano em cheio para os amantes de música dance. Desde a reentrada em moda dos pais da cena actual Daft Punk, até ao surgimento em França da editora Ed Banger, que ofereceu artistas muito razoáveis como SebastiAn, bastante bons como os agora mundialmente famosos Justice, ou simplesmente medíocres como a pin-up Uffie, passando pelo surgimento dos Klaxons e do suposto “new rave” em Inglaterra ou o álbum de estreia dos alemães Digitalism, sucederam-se artistas de nova música dance como Muscles, Supermayer, Metronomy, Boys Noize ou Crystal Castles e ainda reapareceram os Chemical Brothers e até os Underworld. Surgindo das cinzas dos Simian, Jas Shaw e James Ford, este último produtor de dois dos álbuns mais marcantes do ano, o segundo trabalho dos Arctic Monkeys e o álbum de estreia dos Klaxons, formaram os mais dançáveis Simian Mobile Disco. Olhando agora para trás, para aquilo que foi a explosão de uma quantidade apreciável de artistas dance e no topo da lista, em conjunto com os Justice, irão concerteza aparecer os Simian Mobile Disco, beneficiando de uma considerável experiência como produtores fizeram, bem como os franceses, um álbum com um feel do melhor que a dance music dos anos 90 teve para oferecer. Attack Decay Sustain Release foi o resultado.

O que resulta precisamente das ligações dos Simian Mobile Disco ao movimento quase-new-rave seja por Ford ter produzido o disco dos Klaxons, seja por ambas as bandas terem entrado em digressão juntas no fim do ano, é a inevitável categorização dos Simian Mobile Disco como new rave. Ao longo de Attack Decay Sustain Release os Simian Mobile Disco mostram-se demasiado eclécticos para ser presos a esse tipo de nomenclatura simplista, seja pisando em terrenos dance convencionais, seja em diferentes molduras estilísticas, sempre sem abandonar a identidade característica do álbum. A Blitz, esse farol de competência musical naquilo que é um deserto de ideias em Portugal, achou que este álbum é uma amostra simplista de batidas sincopadas que se arrasta sem surpresas e imprevistos (mas eles também deram cinco estrelas ao último de The Gift, por isso…). Ora, caso se tivessem dado ao trabalho de sequer ouvir o disco teriam constatado precisamente o contrário, se há algo pelo qual ADSR prima é a sua constante necessidade de mudar de ritmos, de variar ideias e de demonstrar as suas variadas inspirações. Os SMD arriscam bastante com uma abordagem destas, e de falta de ousadia não os podem acusar, algo a que até os Justice não ficaram imunes.

Sleep Deprivation é um início mais que auspicioso, acaba por ser um dos pontos altos do álbum com a sua batida forte e sintetizadores borbulhantes compondo uma tirada com tanto de vibrante e dançável como de directo. I Got This Down e It’s The Beat continuam com o embalo de forma mais variante e diversificada, mas não menos viciante e contagiante, especialmente na quase R n’B It’s The Beat, contando com o apoio precioso da MC Go! Teamer Ninja. Hustler é provocante e incontida, mas é o single I Believe que realmente capta as atenções com o seu ritmo pausado e retro que invoca sonoridades mais synth-pop. Attack Decay Sustain Release é um excelente álbum de música dance independentemente de como quisermos olhar para ele, e representa uma bela amostra do que foi 2007 para o género.

Para fãs de: Daft Punk, Basement Jaxx, Justice, Chemical Brothers, Digitalism.

Tracklist:

  1. Sleep Deprivation
  2. I Got This Down
  3. It’s The Beat
  4. Hustler
  5. Tits & Acid
  6. I Believe
  7. Hotdog
  8. Wooden
  9. Love
  10. Scott

Harvest Breed.

14
Jan
08

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #9: Spoon – Ga Ga Ga Ga Ga

Os Spoon têm uma certa fama. Construíram uma reputação bem saudável à conta de sucessivos álbuns que primaram não só pela sua consistência, mas também pela notável capacidade de composição do seu frontman, Britt Daniel. Mostraram-se ao público com A Series Of Snakes, o seu segundo disco, um álbum fortemente influenciado pelo rock solto dos Pixies, mas mostraram mais tarde que não se resumiam a isso. O lançamento de A Series Of Snakes foi marcado por uma, agora infame, estratégia de divulgação e de promessas feitas à própria banda por parte da sua então editora, Elektra, que resultou na saída da banda da discográfica, ressentida com o comportamento de um homem em especial, Ron Laffitte, o representante da Elektra que assinou contrato com eles. A banda respondeu com o EP The Agony Of Laffitte e Laffitte não mais voltou à indústria. Os Spoon estavam talhados para algo diferente e o fantástico Girls Can Tell encarregou-se de o provar, conciliando uma produção mais convencional e as sonoridades que os caracterizaram desde o A Series Of Snakes. Kill The Moonlight e Gimme Fiction vincaram a soberba capacidade de songwriting dos Spoon, com uma faceta ainda mais minimalista que os seus trabalhos anteriores, revelaram excelentes amostras do que pode ser feito quando há talento (seja nas hamonias vocais de Stay Don’t Go, na assustadora Paper Tiger, na rodopiante My Mathematical Mind ou na deslumbrante I Summon You).

Tudo isto fazia dos Spoon, à entrada para o seu sexto álbum, curiosamente intitulado Ga Ga Ga Ga Ga, uma referência à sonoridade da segunda faixa, The Ghost Of You Lingers, uma das bandas mais consistentes, seguras de si mesmo e com uma fanbase praticamente de uma banda de culto. Contudo, o low profile não seria propriamente o objectivo da banda à entrada para o seu novo trabalho, tanto que até lhes acabaria por valer o seu primeiro álbum a entrar no top 10 americano, normalmente reservado a rappers, bandas emo, rock estéril e incrivelmente chato, lendas da música country e os Radiohead. Ga Ga Ga Ga Ga seria uma tentativa de expandir o seu nome e manter as suas características definidoras, à qual a maioria das bandas ou não sobrevive, ou falha redondamente, acabando por alienar os seus fãs. Claro que no fim de contas, aquilo em que acaba por tudo ir parar é a qualidade da sua música, independentemente das curvas que a banda toma no caminho. E criativamente, se há alguma coisa que o seu catálogo de álbuns ajuda a explicar por si, é que os Spoon nunca tiveram problemas. E pelo andar da carruagem, parece que desenvolveram algum tipo de imunidade a eles.

Ga Ga Ga Ga Ga é diferente do seu trabalho anterior. Tem uma produção bastante mais elaborada, mas igualmente satisfatória, e caminha por territórios estilisticamente mais diversos e ambiciosos. Apesar disso é totalmente indissociável de tudo o que fizeram antes. E se alguma música é capaz de o provar é a de abertura, Don’t Make Me A Target faz lembrar Everything Hits At Once ou All The Pretty Girls Go To The City, de álbuns anteriores. Mas a banda não tarda muito a explicar as suas intenções e a assombrosa e minimalista The Ghost Of You Lingers caminha muito por onde Paper Tiger antes caminhou, já You Got Yr. Cherry Bomb, uma das músicas mais viciantes de todo o ano, casa sonoridades motown com uma batida característica e reconhecível. The Underdog, também ela muito bem promovida é um exemplo dos desvios sónicos dos Spoon em Ga Ga Ga Ga Ga. Já em Don’t you Evah e em Rhthm & Soul vem ao de cima a harmoniosa secção rítmica que se entrelaça na perfeição com as melodias construídas por Daniel. O álbum fecha com uma dupla viagem ao que de mais pessoal os Spoon têm para oferecer em Finer Feelings e Black Like Me. Torna-se difícil situar este álbum junto dos seus antecessores, mas com uma banda como os Spoon não é isso que está em causa.

PS- A não perder o concerto dos Spoon a 23 de Fevereiro na Aula Magna.

Para fãs de: Pavement, Guided By Voices e… bom, Spoon.

Tracklist:

  1. Don’t Make Me A Target
  2. The Ghost Of You Lingers
  3. You Got Yr. Cherry Bomb
  4. Don’t You Evah
  5. Rhthm & Soul
  6. Eddie’s Ragga
  7. The Underdog
  8. My Little Japanese Cigarette Case
  9. Finer Feelings
  10. Black Like Me

Harvest Breed.

11
Dez
07

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #8: No Age – Weirdo Rippers

Sim, eu sei. Estamos a fazer batota. Weirdo Rippers não é propriamente o álbum de estreia dos No Age, é apenas uma colecção de EPs que a banda congregou para se apresentar ao seu público. Mas neste caso julgo que podemos abrir uma excepção. O álbum que acaba por conferir alguma notoriedade aos No Age junto dos círculos indie foi aquilo a que os ingleses chamariam de slow burner. Lançado em Junho, Weirdo Rippers demorou o seu tempo para que o público tomasse conhecimento ou até se apercebesse que estava na presença de um álbum diferente. Acaba por ser essa a palavra que melhor define a música dos No Age, diferença. Ao ouvirmos as propostas da banda neste disco, conseguimos com maior ou menor dificuldade ver de onde vem a inspiração dos No Age, quais as sonoridades a que mais se aproxima, mas mais complicado é encontrar paralelo para elas hoje em dia. Os No Age são uma banda punk, talvez na verdadeira acepção da palavra, talvez não, constituída por apenas dois membros, o guitarrista Randy Randall e o baterista/vocalista Dean Spunt, que se ergueu das cinzas da antiga banda de hardcore, Wives.

Os No Age encaixam na perfeição nessa simplicidade de constituição. O seu formato lo-fi, que é característico da recente “cena” musical de Los Angeles que também conta com novas bandas como Abe Vigoda, Mika Miko ou HEALTH, combina bem quer com a simplicidade das suas origens, quer com o tipo de experimentalismo que produzem. A noção de noise pode, e regularmente é, mal empregue no âmbito do experimentalismo, o que resulta numa combinação entre o insuportável e o pretensioso. Apesar disso, quando bem executado e trabalhado, a construção de drones à base da explosão de sons cria um efeito etéreo sobre o que separa o lençol sonoro das melodias, e na prática o que diferencia as músicas umas das outras. Os No Age optam por construir as suas à base de uma camada sónica de distorção e noise que se desenvolve com harmonia para músicas punk e rock agressivo com um clímax compenetrante. No fundo, é isso que acontece em Weirdo Rippers, e é isso que torna este álbum tão especial e único junto dos seus pares.

Weirdo Rippers não é nem um álbum convencional de noise rock, o que quer que isso possa ser, nem tão pouco um álbum convencional de punk experimental, mas certamente aproveita o ritmo e o hipnotismo do primeiro e o punch e o ataque cerrado do segundo. Every Artist Needs A Tragedy guia-nos pelo um lençol sonoro de dimensões épicas que desembarca numa linha de guitarra discernível e directa. Aliás, esta abordagem directa, apesar de todo o fuzz e distorção que Weirdo Rippers orgulhosamente pavoneia, é sem dúvida uma marca característica. Todas as músicas não saem muito da chancela punk dos dois ou três minutos, o que não significa que os No Age o façam por padrões convencionais. Noutro lado, Boy Void e My Life’s Alright Without You exemplificam bem essa abordagem directa, mas pouco convencional da banda, juntanto riffs sujos com sonoridades ainda mais sujas, mas inevitavelmente refrescante. No fundo, é a isso que se resume Weirdo Rippers.

Para fãs de: Deerhunter, Wives, Mika Miko.

Tracklist:

  1. Every Artist Needs a Tragedy
  2. Boy Void
  3. I Wanna Sleep
  4. My Life’s Alright Without You
  5. Everybody’s Down
  6. Sun Spots
  7. Loosen This Job
  8. Neck Escaper
  9. Dead Plane
  10. Semi-Sorted
  11. Escarpment

Harvest Breed.

11
Dez
07

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #7: Stars Of The Lid – And Their Refinement Of The Decline

O minimalismo é aquilo a que os ingleses chamariam de tricky business. Quando mal executado e mal pensado acaba por dar a sensação ao ouvinte de se tratar de algo das duas uma, ou excessivamente erudito para o seu cérebro de ervilha (‘been there…’), ou um conjunto de sons sem qualquer sentido ou rumo dando a impressão que está a lidar com gente muito, muito indulgente. O pretensiosismo de artistas e de bandas minimalistas é uma ideia que vem praticamente desde que o estilo apareceu. A ideia geral é que, ou é brilhante e nós não percebemos, ou é um conjunto de indivíduos a marimbarem-se para o público e a gravarem o que lhes dá na real gana. Tem sido o papel dos críticos contrariar estes estereótipos, e em alguns casos, até o têm feito com algum sucesso. Apesar disso, também para eles o minimalismo é um tricky business. And Their Refinement Of The Decline, o novo álbum da banda de referência no campo do ambient drone minimal Stars Of The Lid, tem suscitado bastante críticas positivas e particularmente inspiradas que procuram vender o excelente álbum aos possíveis ouvintes com entusiasmadas tiradas sobre a genialidade subversiva de …Decline.

Na altura em que escrevo isto, And Their Refinement Of The Decline é segundo classificado na lista de melhores álbuns de 2007 do metacritic, um site prestigiado que agrega as críticas feitas aos álbuns durante todo o ano com um sistema de pontuação eficaz e compila-os numa lista, a seguir ao Untrue de Burial (mais sobre este álbum lá para a frente), depois de ter tomado a liderança surpreendentemente à coisa de um ou dois meses atrás. Nos dias que correm, é preciso algo especial para chamar atenções para este estilo. É fácil subvertê-lo e torná-lo em algo cada vez mais inacessível, mal intencionado e passando ao lado do ouvinte interessado. Os Stars Of The Lid têm uma considerável reputação por construir álbuns densos e hipnóticos que conciliam eficientemente um certo poder emocional com molduras sonoras simplesmente belas.

And Their Refinement Of The Decline marca o regresso do duo americano, Brian McBride e Adam Wiltzie, aos álbuns, seis anos depois de The Tired Sounds Of Stars Of The Lid. Acaba por ser um dos regressos que mais bem foram recebidos do ano. And Their Refinement Of The Decline é tudo aquilo que prometeu ser e ainda mais qualquer coisa. A capa do álbum mostra-nos o infinito a perseguir o nada por um conjunto de topos e picos com um atraso considerável. É um pequeno prelúdio ao estilo discernível dos Stars of The Lid neste seu novo trabalho, um conjunto de temas espaçosos e sonicamente provocantes aliados a uma grandeza musical que muitas vezes se mostra capaz e até ousa comover quem o ouve. Existem inúmeras formas de descrever este tipo de música, seja para servir de banda sonora a um dia de pesca submarina, a um por-do-sol, a sua simplicidade bela e comovente deverá ser suficiente para convencer o ouvinte da sua grandeza.

Para fãs de: Eluvium, Mono, …. Stars Of The Lid.

Tracklist:

Disco 1

  1. Dungtitled (In A Major)
  2. Articulate Silences, Pt. 1
  3. Articulate Silences, Pt.2
  4. Evil That Never Arrived
  5. Apreludes (In C Sharp Major)
  6. Don’t Bother They’re Here
  7. Dopamine Clouds Over Craven Cottage
  8. Even If You’re Never Awake (Deuxième)
  9. Even (Out)
  10. Meaningful Moment Through a Meaning(less) Process

Disco 2

  1. Another Ballad for Heavy Lids
  2. Daughters of Quiet Minds
  3. Hiberner Toujours
  4. That Finger on Your Temple Is the Barrel of My Raygun
  5. Humectez la Mouture
  6. Tippy’s Demise
  7. Mouthchew
  8. December Hunting for Vegetarian Fuckface

Harvest Breed.

30
Nov
07

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #6: Of Montreal – Hissing Fauna, Are You The Destroyer?

Há já muito tempo, desde o seu álbum de estreia de 1997, para ser mais específico, que os Of Montreal se gabam de ser uma das bandas independentes dos últimos 10 anos com uma sonoridade mais própria e característica. A sua carreira é recheada de álbuns incrivelmente inventivos, que marcaram um estilo muito específico e característico de pop psicadélico contagiante e ajudaram a definirem os Of Montreal como uma das bandas mais importantes e marcantes da Elephant 6 Recordings, o colectivo que nos deu fabulosas bandas como os The Olivia Tremor Control, os The Apples In Stereo ou ainda os essenciais Neutral Milk Hotel, e Kevin Barnes, o seu principal compositor, como um dos músicos mais criativos dos últimos 10 anos. Posto isto, que mais há dizer sobre os Of Montreal? Será assim uma surpresa tão especial que o novo álbum da banda consiga entrar numa lista dos 30 melhores deste ano? Afinal, sabendo do seu currículo, não seria mais que a sua obrigação (embora estejamos a ser só um bocadinho pouco razoáveis). E o que tem a mais Hissing Fauna, Are You The Destroyer? em relação aos seus antecessores?

Visualmente, os Of Montreal são qualquer coisa de extraordinário, seja pelas suas capas de discos atraentes e provocantes, seja pelas suas aparições ao vivo parecerem-se mais com peças de teatro extravagantes. Desde o virar do século, especialmente desde o lançamento de um dos seus álbuns mais marcantes, The Gay Parade, de 1999, os Of Montreal têm vindo a crescer cada vez mais como banda, e Hissing Fauna é a última peça do puzzle nesse plano. Em 2002, depois de Aldhil’s Arboretum, já a banda dava largos passos nessa direcção, que aperfeiçoou com o brilhante Satanic Panic In The Attic em 2004 e com o mais acessível The Sunlandic Twins. Os elementos comuns continuam lá mesmo depois de tanto tempo: a simples construção de melodias fáceis e viciantes, a destreza lírica de Barnes que já em 2002 construia músicas sobre visitas de idosos ao cemitério ou em 2004 sobre a digressão da banda à Inglaterra (“On our trip to England I noticed something obscene/People still actually give a shit about the Queen”), ou o feel vintage que as suas músicas têem.

Hissing Fauna é talvez o álbum mais consistente da banda desde The Gay Parade. Sem perder nada do que os caracteriza e os torna único, Hissing Fauna é mais pessoal e mais intenso do que qualquer coisa que a banda tenha feito antes. Veja-se o intimismo acompanhado da habitual melodia dançável e contagiante do primeiro single Heimdalsgate Like A Promethean Curse (“I’m in a crisis, i need help/come on mood shift/shift back to good again”), que conta com um videoclip peculiar, combinando com o estilo extravangante que a banda construiu à sua volta, ou as crónicas de uma depressão em Cato As A Pun ou em Gronlandic Edit (“I guess it would be nice/to give my heart to a god/ but which one?/The church is filled with losers…”). Acaba por ser com naturalidade que essas músicas se afirmam como as mais fortes no álbum. Bloco esse que ainda inclui a movimentada A Sentence Of Sorts In Kongsvinger e a monstruosa e tensa The Past Is A Grotesque Animal.

Tendo em conta a enorme expectativa à sua volta, Hissing Fauna acaba por ser um dos álbuns mais fortes de 2007, mesmo passados 10 desde o aparecimento em cena de Kevin Barnes e companhia, e mostra amplamente que os Of Montreal são mesmo das bandas indie mais influentes e importantes hoje em dia.

Para fãs de: The Unicorns, The Apples In Stereo, The Fiery Furnaces, The Flaming Lips.

Tracklist:

  1. Suffer For Fashion
  2. Sink The Seine
  3. Cato As A Pun
  4. Heimdalsgate Like A Promethean Curse
  5. Gronlandic Edit
  6. A Sentence Of Sorts In Kongsvinger
  7. The Past Is A Grotesque Animal
  8. Bunny Ain’t No Kind Of Rider
  9. Faberge Falls For Shuggie
  10. Labyrinthian Pomp
  11. She’s A Rejector
  12. We Were Born the Mutants Again With Leafling

Harvest Breed.

22
Nov
07

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #5: Field Music – Tones Of Town

Os Field Music são uma banda irritantemente sub-valorizada. Já o seu fantástico álbum homónimo de estreia tinha sido ignorado pela maioria da imprensa do meio, já para não dizer que fora de Inglaterra são practicamente desconhecidos. Em 2005 deram-nos verdadeiras pérolas de indie rock como Luck Is A Fine Thing, You Can Decide ou Shorter Shorter, em 2007 regressam com Tones Of Town, para enfrentar um público que lhes continua a ser escandalosamente indiferente. A premissa dos Field Music acaba por ser deliciosamente simples, fazem indie rock excepcionalmente bem construído e trabalhado, exemplarmente produzido e fácil de reconhecer. No fundo acabam por ter a mesma abordagem que os conterrâneos e amigos Futureheads e Maximo Park, sem a sua agressividade, mas com a mesma acutilância e com acrescida maturidade.

Mas foi 2006 que viu a confirmação dos Field Music como um grupo de músicos notável. A banda decidiu lançar um álbum de gravações diversas, lados B e músicas que ficaram de fora do seu primeiro disco. Write Your Own History foi o surpreendente resultado. You’re Not Supposed To, Test Your Reaction ou Alternating Current são apenas pequenas amostras que nos fazem acreditar que muitas bandas aspirantes a sons semelhantes nunca chegarão a atingir a genialidade deste álbum de lados B, nem no topo da sua forma. Mas, com tanta boa música, qual será a verdadeira razão pela qual os Field Music não beneficiam de mais exposição? Na verdade, não tenho uma resposta decente a essa pergunta, mas concerteza que o seu indie rock pensado e cerebral não encaixará muito bem dentro de uma cena inglesa nortenha mais agressiva e instintiva.

Apesar disso, Tones Of Town não deixa ninguém que tenha acompanhado os seus dois primeiros álbuns desiludido, bem pelo contrário. É um álbum que deixa bem assente a característica principal dos Field Music, a sua consistência. São onze músicas efectivamente sem pontos fracos que não deixam espaço para respirar. Criativamente, não vejo muitas mais bandas com tantas ideias em tão pouco tempo. Tones Of Town é um álbum infeccioso de uma aparente facilidade em simultâneo com uma variedade refrescante que faz com que a experiência de o ouvir não se esgote à primeira audição. Aliás, duvido que alguma vez se esgote.

Give It Lose It Take It, com a sua introdução espaçosa, dá largas a um riff característico, e marca uma sonoridade que vai servir de base para o resto do álbum. Veja-se a harmonia de melodias em Sit Tight, A House Is Not A Home ou Kingston, ou a cavalgada de Working To Work ou Closer At Hand, ou ainda a explosão de sons nos singles In Context ou She Can Do What She Wants. Nada fica fora do seu lugar próprio em Tones Of Town, todas as músicas entrelaçam-se na perfeição. Claro que quando os hooks e as melodias saem com uma facilidade inacreditável, nada soa mal se estiver fora do lugar, mas a banda faz questão não tornar isso num calcanhar de Aquiles. Porque se há alguma ideia a retirar de Tones Of Town é que os Field Music confirmam largamente a ideia prévia que os seus fãs tinham deles, consistência não falta.

Para fãs de: The Futureheads, Maximo Park, The Shins, The New Pornographers.

Tracklist:

  1. Give It Lose It Take It
  2. Sit Tight
  3. Tones Of Town
  4. A House Is Not A Home
  5. Kingston
  6. Working To Work
  7. In Context
  8. A Gap Has Appeared
  9. Closer At Hand
  10. Place Yourself
  11. She Can Do What She Wants

Harvest Breed.

20
Nov
07

Os 30 Álbuns do Ano, Vol. #4: Panda Bear – Person Pitch

Já lá vão 7 anos desde o virar do século, que viu o aparecimento de uma nova banda experimental de Baltimore, em Maryland, que viria a servir de referência dentro de um estilo que já podem reclamar como sendo muito seu, os Animal Collective. Durante estes sete anos, Noah Lennox, que toca bateria nos concertos dos ‘Animals’, juntamente com Avey Tare, aka Dave Portner, afirmaram-se como os membros mais influentes dentro do colectivo. Avey Tare, esse, lançou este ano o seu primeiro trabalho a solo. Bem, mais ou menos. Contou com a ajuda da mulher, que toca nos Múm, para fazer um álbum interessante para depois o inverter de alto a baixo. É com este tipo de artistas, com coragem (ou maluquice) suficiente para rasgar ao meio o seu próprio trabalho, que os Animal Collective construiram uma saudável reputação dentro do mundo do experimental. Quase como os Radiohead do experimental, vá lá, se me permitem a comparação.

Antes sequer dos Animal Collective se formarem para comporem o seu primeiro álbum, em 2000, já Noah Lennox, aka Panda Bear (pela simples razão de ter assinado as suas primeiras composições com desenhos de ursos), tinha um disco homónimo lançado. Person Pitch é, agora em 2007, o seu terceiro álbum fora do espectro dos Animal Collective, inteiramente gravado em Lisboa, onde agora vive. Panda tem uma personalidade algo dissonante dos seus companheiros de colectivo animal. Tem a aparência de um puto de 15 anos, fala baixinho e não se pode dizer que nele recaiam as responsabilidades de entertainer da banda. Em Person Pitch, Panda Bear procura entrar em contacto com um ânimo mais leve que desertou o seu álbum anterior, Young Prayer, gravado pouco tempo depois da morte do pai, mas também transmitir vibrações mais positivas e ritmos mais acalorados. No que toca à sonoridade, não é difícil de perceber que há dedo de Panda nos Animal Collective (e sobre isso falaremos noutro post), mas é com os seus projectos a solo que Noah Lennox liberta totalmente uma identidade sónica muito característica.

Person Pitch é um álbum profundamente marcado pelas recentes experiências pessoais de Noah, o seu casamento, o nascimento da sua filha, e com ele Panda transmite algo de íntimo, contrastando com a abordagem mais fria dos Animal Collective. E isso acaba por ser reflectido na música em si de forma particularmente bela. O tal ânimo leve, as vibrações positivas (e muito deve Person Pitch às sonoridades dos Beach Boys) e os ritmos entusiásticos de Person Pitch transformam música experimental em que tudo está no limiar do caos, numa experiência, no sentido lato da palavra. Dizia Lou Barlow (Dinosaur Jr. e Sebadoh), e bem podia ter dito sobre Panda Bear, que os Animal Collective fazem música experimental com alma.

E é logo na música de abertura e primeiro single, em conjunto com I’m Not (aliás, boa parte do álbum foi lançada em single), Comfy In Nautica, que Panda faz questão de nos dizer que está feliz, “Try to remember always to have a good time”, numa batida com precisão de relógio. Take Pills e a monstruosa construção sonora que é Bro’s, levam-nos numa viagem pelo mundo dos Beach Boys, de Buddy Holly, dos Everly Brothers ou até de Lee ‘Scratch’ Perry. E acabam por não ser incomuns as inversões de marcha nas próprias músicas, como acontece em Take Pills e Good Girl/Carrots, esta última apoiando-se numa batida tribal em Good Girl, que tem lugar nos primeiros quatro minutos e meio, e num groove harmonioso em Carrots, com um sample de Kraftwerk, no restante. I’m Not e Search For Delicious apostam em atmosferas mais contidas, com faixas vocais etéreas a rodearem os ritmos.

É assim que Panda Bear se apresenta a nós em 2007, uma pessoa mais relaxada, em paz com a sua música, retirando influências dos lugares mais variados possíveis, meticulosa e perfeccionista, cuja banda favorita do momento são os 4Taste. Uma coisa é certa, Person Pitch é um dos álbuns imperdíveis do ano.

Para fãs de: Animal Collective, Beach Boys, Grizzly Bear.

Tracklist:

  1. Comfy In Nautica
  2. Take Pills
  3. Bro’s
  4. I’m Not
  5. Good Girl/Carrots
  6. Search For Delicious
  7. Ponytail

Harvest Breed.