Arquivo da categoria 'Novos Lançamentos'

19
Nov
09

Novos Lançamentos: Beach House – Teen Dream

Nos dias que correm são poucas as bandas suficientemente ambiciosas, corajosas e desafiantes ao ponto de procurarem activamente a perfeição. A emergência do lo-fi como técnica de produção ou mesmo como estética musical em si tem cada vez demarcado bandas que procuram a realidade pura e dura, convidando as imperfeições, as falhas, os enganos, as perturbações ou até os desesperos quer no seu som, quer na sua mentalidade. Não é portanto de surpreender que as atenções recaiam na produção, nos sentimentos que ela procura evocar, na riqueza dos seus arranjos ou na desengoçada despreocupação com os pormenores. Algures à deriva está a real composição musical, a destreza instrumental ou até mesmo execução técnica num contexto de performance ao vivo. Com o seu mais recente disco, os nativos de Baltimore Beach House não alcançam a perfeição. Mais vale dizer isso já antes que se levante qualquer confusão. Mas como eles tentam. E esta tentativa não se faz com orquestras de 600 elementos, nem com arranjos de cordas teatrais e épicos, e também não se faz de frieza na mão ou de precisão robótica na sua execução. A perfeição que procuram não é essa. Faz-se de sentimentos e de afectos, de genialidade e de simplicidade, mas também de reforço da identidade e de auto-estima sónica. E também porque não dizê-lo, de uma suprema confiança em si mesmos. Alex Scally e Victoria Legrand não procuram redimensionar o seu som ou sequer reposicionar-se como partes interessadas em qualquer cena ou nicho musical. A sua visão vai bem para além disso.

Não estaria a ser justo para este disco se o olhasse dessa forma e falasse sobre ele na óptica do campeonato dos géneros, dos estilos ou das correntes musicais que frequentemente tem lugar em redor da música alternativa contemporânea. Há algo de muito superior a isso a passar-se em Teen Dream. Alguns falar-nos-ão no piscar de olho ao comercial e ao pop na sua produção limpa e certinha, que contrasta com a abordagem do-it-yourself que caracterizou a sua surpreendente estreia, mas outros irão fazer correr tinta sobre a sonoridade inofensiva do dream pop da banda. O que nos remeteria para a conversa da perfeição, tal como a entendem os Beach House. E no centro desse mundo esotérico e inconsciente dos Beach House estará mesmo a sua misteriosa, mas emblemática vocalista Victoria Legrand. Em Teen Dream é-lhe dada rédea livre, e ela aproveita. E de que maneira. Com uma confiança inabalável, a qual nunca tinha chegado a realizar em absoluto na sua banda, e tirando máximo proveito das suas colaborações e subsequentes digressões com os nova-iorquinos Grizzly Bear, a sua voz e a sua composição envolvente assume um espectro que desafia os cânones e dispensa truques de estúdio. Seja ouvindo a sua respiração junto ao microfone escutando com atenção Real Love, seja na elasticidade vocal, quase a evocar uma girls band da década de 60, do novo single Norway ou mesmo quando percebermos que é impossível não sentir o coração apertar com os píncaros emocionais de Walk In The Park, parece que há pouco para o qual Victoria aponte e não consiga atingir.

Difícil mesmo, seria encontrar melhor ponto de entrada para Teen Dream que a enfeitiçante Zebra. A evocar a própria capa do disco, Zebra fala-nos de um ‘black and white horse / arching among us’, servindo-se de um simples e delicado trabalho de guitarra, para além dos habituais teclados sonhadores e das batidas despidas já características da banda. De facto, uma das virtudes mais poderosas de Teen Dream é mesmo a capacidade evocativa que muitos dos seus temas conseguem possuir, seja por temáticas ou por sonoridades. Composta à janela de um comboio que cortava pelos campos noruegueses, a saudosa Norway tem o dom de nos colocar no frio escandinavo com um par de headphones e um brilho no olhar. Used To Be, lançada em single no ano passado, é retrabalhada aqui sob um olhar diferente, deixando para trás a sua coda final memorável e arrepiante (‘its always good to see you again / even if it’s coming to an end’), em detrimento de uma mais simples e esperançada, mas não menos cortante, quase sussurrada ‘coming home / any day now’. A segunda metade de Teen Dream acaba por ser mais ecléctica e sentida, quase facilmente emocionante como podemos comprovar com a ambiciosa 10 Mile Stereo, com os seus crescentes arranjos de cordas, ou com a intensamente pessoal balada ao piano Real Love. Quatro anos depois do intimismo de Master Of None, os Beach House continuam a trilhar o seu caminho para a perfeição. Um caminho que não irá ter destino final, mas que, nos dias que correm, nenhuma outra banda que sequer tenha a ousadia de o tentar percorrer o consegue fazer com este sentimento ou esta simplicidade, provando que a beleza é uma qualidade dolorosamente subvalorizada na música hoje em dia.

Tracklist:

  1. Zebra
  2. Silver Soul
  3. Norway
  4. Walk In The Park
  5. Used To Be
  6. Lover Of Mine
  7. Better Times
  8. 10 Mile Stereo
  9. Real Love
  10. Take Care

Harvest Breed.

28
Out
09

Novos Lançamentos: Surfer Blood – Astro Coast

Hoje em dia somos todos surfistas. A verdadeira onda revivalista de rock surfista que os Pixies celebrizaram no início da década de 90 agora não só parece voltar à baila como também aparenta ter vindo para ficar. Como se os avisos não fossem suficientes, é mesmo disso que nos informa John Paul Pitts, vocalista dos Surfer Blood, na primeira faixa do seu disco de estreia: “If you’re moving out to the west, then you’d better learn how to surf”. Não seria só por aqui que uma banda como os Surfer Blood se distinguiria dos seus inúmeros pares, mas a verdade é que o faz por intermédio do seu apurado olho para as melodias pop, da sua pouco comum aliança com a escola lo-fi, até aqui mais aplicada a uma lógica de rock de garagem que propriamente ao pop alternativo, e da naturalidade com que o seu som emerge do emaranhado de influências e posturas em que se mergulha. Vindos de West Palm Beach na Flórida, mais surfista só mesmo na Califórnia, o quinteto define-se mesmo no seu myspace como “pop, pop, pop”, um auto-retrato refrescante e desarmante face a todo o poseurismo que ainda caracteriza muito do que é feito sob esta égide do lo-fi. Não que Astro Coast, o registo que marca a estreia dos Surfer Blood, leve esta lógica ao extremo como alguns dos seus companheiros, mas enquanto a sua matriz sónica não deriva muito do power pop, a forma tradicionalista com que são tratados em estúdio os seus intermináveis riffs e melodias pop dão à banda algo que poucos neste meio têm.

Fazendo do compromisso para com esses riffs e melodias pop acessíveis e viciantes um estandarte e um ponto de honra, Astro Coast marca uma sonoridade que junta esse background pop a um estilo marcadamente lo-fi que definia uma banda como os The Shins antes de estes se virarem em definitivo para o indie pop precioso e inofensivo. Também é muito provável que viremos a ouvir bastas vezes repetido que este é um disco gravado na sua íntegra no seu dormitório da universidade em que estudam, o que certamente lhes valerá subir alguns pontos na consideração de alguns e descer outros tantos na consideração de outros. A única informação que necessitamos de saber sobre Astro Coast é mesmo a de que é uma das pérolas pop do ano, seja em que revivalismo incorrer, fazendo ora lembrar bandas de new wave dos anos 80, os Weezer a tocarem a Buddy Holly em meados da década de 90 ou as guitarras surf que se fizeram ouvir um pouco por todo o lado por essa altura. Talvez aquilo que acaba por confirmar essa premissa é mesmo o primeiro single retirado de Astro Coast: Swim (To Reach The End), que retira uma boa fatia de sonoridade bombástica do new wave dos anos 80, a ela aliando um refrão que fica no ouvido, harmonias vocais escolhidas com critério e aplicadas na perfeição, uma voz num registo superlativo que dá um bocado de glam à coisa e temos uma faixa viciante.

A introdução a Astro Coast faz-se ao som da já anteriormente citada Floating Vibes, que entrelaça vários riffs à volta de si mesmo e de uma linha vocal que se vai alterando aqui e ali, sempre mantendo a mesma frescura e o mesmo sentido de novidade. É também este estilo de power pop com sentido de inovação e inquietude que faz deste disco uma vitória tão grande para uma banda tão nova. Floating Vibes faz-se seguir por Swim (To Reach The End), o single, e por Take It Easy, uma espécie de Cape Cod Kwassa Kwassa de power pop, que acaba por resultar em pleno não só pela novidade, mas por fazer aquilo que a faixa dos Vampire Weekend não consegue fazer: acomodar essas influências em algo mais do que apenas vocalizações preciosas. Tudo isto serve de prelúdio para aquele que acaba por ser o momento mais forte de Astro Coast, a ambiciosa Harmonix, mais uma vez marcada pela versatilidade com que muda de tons e de ambiências num fabuloso trabalho da guitarra de Thomas Fekete e de destreza vocal de John Paul Pitts. Mais lá para a frente encontramos as duas propostas mais extensas do disco sob a forma de Slow Jabroni e Anchorage. A primeira está nas linhas de algo mais pensativo e tenso como aquilo que já ouvimos este ano de uns Japandroids, sem a estética tão declaradamente pesada e lo-fi, já a segunda acaba por ser a extensão natural de uma faixa-tipo da banda, ramificando-se por vários caminhos, obtendo várias dimensões, sempre com a mesma linha pop no horizonte. Astro Coast representa o crescimento de uma banda incrivelmente nova que também faz disso a sua principal arma, um relato de um dos acontecimentos pop do ano, sem precisar de poseurismo nem desculpas.

Tracklist:

  1. Floating Vibes
  2. Swim (To Reach The End)
  3. Take It Easy
  4. Harmonix
  5. Neighbor Riffs
  6. Twin Peaks
  7. Fast Jabroni
  8. Slow Jabroni
  9. Anchorage
  10. Catholic Pegasus

Harvest Breed.

19
Out
09

Novos Lançamentos: A Sunny Day In Glasgow – Ashes Grammar

O ano tem sido pródigo em discos ambiciosos. Começando no regresso dos Circulatory System de Will Cullen Hart com Signal Morning, ou no triunfal Embryonic dos Flaming Lips, é preciso não esquecer que em 2007 apareceu uma banda relativamente desconhecida de shoegaze moderno com o estranho nome de A Sunny Day In Glasgow tendo por cartão de visita o interessante, inteligente e, em última análise, subvalorizado Scribble Mural Comic Journal. Nativos de Philadelphia e tendo nos irmãos Ben, Lauren e Robin Daniels as principais forças compositoras, o primeiro como grande mentor da sonoridade e dos arranjos de produção, as duas últimas como responsáveis pelas linhas e arranjos vocais à sua volta, Ashes Grammar, o seu segundo registo, marca a passagem dos A Sunny Day In Glasgow do estatuto normal de banda como é regularmente apreendido na música pop, para algo que se possa designar como colectivo, à semelhança dos Circulatory System. A banda reconheceu a integração e a maior importância de outros membros fora do círculo fraternal dos Daniels. Não só pela primeira vez os trabalhos vocais passam a estar a cargo não apenas das irmãs Daniels, mas também da multi-instrumentista Annie Fredrickson, como a secção de rítmica de Josh Meakim na bateria e Brice Hickey no baixo tem um papel mais central em Ashes Grammar. Ainda assim, não se pode dizer que Ashes Grammar não seja o corolário decorrente de Scribble Mural Comic Journal. A sua estrutura é muito semelhante àquilo que apelidaríamos de mixtape, um conjunto de ideias que se vão sucedendo, sempre com um motivo de fundo e uma estética à qual obedecem e vão acrescentando, e a sua sonoridade representa a continuação e o desenvolvimento de uma forma particular de abordagem ao shoegaze e ao dream pop que a banda já tinha começado no disco de estreia.

Ashes Grammar é mais ambicioso, quer em conteúdo quer em forma, mais acessível, mais melódico e mais confiante que Scribble Mural Comic Journal. Com a adição de novos membros e a natural progressão sónica do conjunto, não é de surpreender que desta feita o resultado seja mais orgânico e natural e mais o produto de uma banda na verdadeira acepção da palavra. Com Scribble Mural Comic Journal, os A Sunny Day In Glasgow tinham apostado em algo que se podia definir literalmente como bedroom pop. Todas as batidas são de drum machines e o disco está povoado de samples e trechos de programação digital. Ainda assim, um registo assim tão forte como de facto acaba por ser Ashes Grammar não teria sido possível sem um decisivo passo em frente a respeito de composição, e isso é notório desde o ínicio, mesmo em faixas diminutas que servem o propósito de emprestar continuidade ao processo de audição. Não só a nível instrumental, mas também a nível de linhas vocais, mesmo dentro dos cânones de vocalizações distantes e desligadas próprias do shoegaze moderno. De facto, há todo um estado de espírito que se atinge com audições repetidas de Ashes Grammar que se presume ser a real intenção do conjunto de Philadelphia. Apesar disso a identidade shoegaze não é algo que faça ensombrar a banda, como fez questão de sublinhar Ben Daniels numa entrevista recente: “I do like that a lot, My Bloody Valentine stuff… but, I feel like a lot of the bands that are usually “shoegaze” or “dream pop” are just very, probably a criticism people we’ll give us, but, very derivative… and not very interesting”. Algo que a banda pretende construir passa mais pelo sentimento de desassociação e de transcendência que é normalmente atribuído ao shoegaze e não tanto pela nomenclatura em si, tanto banalizada que está.

Alguns dirão que aqui está um disco que tanto podia ter sido transformado num conjunto de ideias numa faixa só, como podia ter sido emagrecido para uns convenientes dez longos e elaborados temas, mas isso seria não perceber a sua essência. Ashes Grammar pega onde Scribble Mural Comic Journal tinha deixado as coisas, entrelaçando samples com arranjos delicados e maioritariamente virados para a definição de atmosfera. A primeira realização de conjunto dá-se com a eferverscente Failure, uma amálgama de percussão quase tribal ligada por uma discreta e eficiente guitarra acústica e um refrão onde ouvimos as irmãs Daniels repetir “Fall forward / Feel failure”. Close Chorus oferece uma componente dançável pouco comum no estilo, apesar dos seus seis minutos e quase outros tantos interlúdios e bridges que fluem sem que ninguém repare por isso, enquanto que Shy dá imediato seguimento às tendências mais melódicas e imediatas com sublime efeito, evocando ainda imagens dos Caribou por altura do fantástico Up In Flames. A diversidade de Ashes Grammar dá para passar do imediatismo de possíveis singles para temas de cariz mais atmosférico e tenso. Nitetime Rainbows é um perfeito exemplo disso, com as suas guitarras rústicas e as suas transições acompanhadas de vozes sussurantes e palmas. No verdadeiro sentido da noção de mixtape com que comecei este texto, este é um álbum verdadeiramente intemporal pelo simples volume e diversidade de ideias ebulientes que aqui aparecem, um absolutamente definitivo must have não só do ano, mas para todos os amantes do novo, moderno e inventivo shoegaze.

Tracklist:

  1. Magna For Annie, Josh & Robin
  2. Secrets At The Prom
  3. Slaughter Killing Carnage (The Meaning Of Words)
  4. Failure
  5. Curse Words
  6. Close Chorus
  7. Shy
  8. Lights
  9. Passionate Introverts (Dinosaurs)
  10. West Philly Vocoder
  11. Evil, With Evil, Against Evil
  12. The White Witch
  13. Nitetime Rainbows
  14. Canalfish
  15. Loudly
  16. Blood White
  17. Ashes Grammar
  18. Ashes Maths
  19. Miss My Friends
  20. Starting At A Disadvantage
  21. Life’s Great
  22. Headphone Space

Harvest Breed.

15
Out
09

Novos Lançamentos: Johnny Foreigner – Grace And The Bigger Picture

Tudo, ou quase tudo, acerca desta banda consegue ser incrivelmente infantil. Desde o seu artwork, que retrata fantasmas desenhados por criançada, até à sua sonoridade estilo síndrome de défice de atenção que não fica muito tempo no mesmo sítio, passando até pelos títulos das suas músicas, não me consigo lembrar de alguma outra banda com um espírito tão infantil em relação à forma como aborda a música e os seus fãs como os ingleses Johnny Foreigner. O seu primeiro disco não se pode dizer que tenha tido grande impacto, e a indiferença com que foi recebido não deve contrastar muito com a forma como o seu segundo trabalho deverá ser. Waited Up ‘Til It Was Light foi um disco de intensidade insuperável, e aí recaía a sua maior virtude e a sua maior fraqueza. Onde o álbum florescia com riffs e estruturas pop viciantes, também conseguia exagerar na forma como preenchia sem descanso todos os espaços vazios e intervalos que a música pedia que aparecessem, mas que por esta ou aquela razão simplesmente não surgiam. Produzido por Machine, reconhecido pelo seu trabalho em bandas pop punk como os Gym Class Heroes ou os Fall Out Boy, em New Jersey, que depois viria a fazer um trabalho semelhante com a desapontante estreia dos escoceses Dananananaykroyd, Waited Up ‘Til It Was Light podia ter sido mais do que foi, um disco onde as sensibilidades melódicas apareciam, mas não foram tratadas como mereciam.

Talvez por isso, o segundo disco dos nativos de Birmingham, Grace And The Bigger Picture, parece mais um registo desesperado e, sobretudo, urgente. Assim, alistaram para trabalhos de produção Alex Newport, ligado ao hardcore e até ao metal, mas também já tendo trabalhado com propostas mais ligadas ao meio alternativo como os Death Cab For Cutie ou os Two Gallants. Não que a sonoridade que os Johnny Foreigner vincam em estúdio seja remotamente aproximada de alguma destas bandas, mas desta vez a abordagem é marcadamente diferente. Alexei Berrow, guitarrista e vocalista, e Kelly Southern, baixista e vocalista, constituem o grosso da dinâmica de cumplicidade que o conjunto mostra em gravações de estúdio, e aqui isso é transposto de uma forma mais variada e fluente, mas também com faixas mais curtas e directas, proporcionando outro tipo de meio de expressão às suas sempre irrequietas ideias. Não é, por isso, surpresa que ouvir este disco seja uma experiência menos abrasiva como tinha sido com o anterior registo. Mas nota-se também uma maior diversidade de composição, o que leva a que cada audição repetida se descubram pormenores que não descobrimos na anterior.

Em menos de dois minutos se faz a história da faixa de abertura, Choose Yr Side and Shut Up!, com o habitual título característico, as guitarras perfurantes, a sonoridade de ataque aos sentidos, casados com uma peculiar visão de pop alternativo e acabando num óptimo floreado da guitarra de Berrow. À primeira audição, há sons que se misturam com outros e que fazem com que o disco tenha um agradável sentimento de confusão ou até de mixtape, mas desta vez o melhor impacto não é necessariamente o primeiro. Criminals, o single de apresentação do disco acaba por ser perfeitamente representativo da identidade sónica da banda, mas ao mesmo tempo dos maiores temas do disco. Também bem vindos são alguns números mais contidos e minimalistas, como em illchoosemysideandshutup, alright, onde se forma uma coda final épica, ou na mais sentida Every Cloakroom Ever. Este é um disco de evolução, mas não de formação. Dificilmente mudará as opiniões de quem não goste da banda e lá terá as suas inconsistências, mas registe-se com agrado o passo à frente mais audaz e ambicioso até que muitos dos seus pares e semelhantes.

Tracklist:

  1. Choose Yr Side and Shut Up!
  2. Security to the Promenade
  3. Ghost the Festivals
  4. Feels Like Summer
  5. illchoosemysideandshutup, alright
  6. Criminals
  7. Custom Scenes and the Parties That Make Them
  8. More Heart, Less Tongue
  9. Kingston Called, They Want Their Lost Youth Back
  10. He Awoke On A Beach In Aberystwyth
  11. (Graces)
  12. Dark Harbourzz
  13. Every Cloakroom Ever
  14. More Tongue, Less Heart
  15. The Coast Was Always Clear

Harvest Breed.

18
Set
09

Novos Lançamentos: The Flaming Lips – Embryonic

O que haverá ainda para provar para uma banda como os Flaming Lips hoje em dia? O histórico quarteto de Oklahoma conta já com perto de trinta anos de idade, repletos de álbuns memoráveis que definiram a juventude de muita gente, tendo contado com o seu primeiro êxito apenas no início da década de 90 com o single She Don’t Use Jelly do agora clássico Transmissions From The Satellite Heart, passando até por reclamar para si o estatuto de autores do hino oficial do seu estado natal sob a forma da apaixonante Do You Realize?? de Yoshimi Battles The Pink Robots. Pela mão da invenção e do imaginário de Wayne Coyne e Steven Drozd, os Flaming Lips conquistaram também o título não-oficial de melhor banda ao vivo do mundo, num espectáculo que inclui tudo desde gigantescas bolas insufláveis até teletubbies, e que em última análise estabelece o conjunto de Oklahoma como uma banda orientada para os seus fãs. Apesar da sua afirmação recente ao vivo, o virar o século, tendo trazido três discos que definiram de vez o estatuto dos Lips, leia-se o ambicioso Zaireeka de 1997, o reflectivo The Soft Bulletin de 1999 e o enternecedor Yoshimi de 2002, trouxe a banda perante uma encruzilhada.

O seu último disco, At War With The Mystics de 2006, acabou por ser um trabalho pouco consistente, sem a naturalidade que caracteriza os Lips, soando sempre, mais do que tudo, a um disco de transição. Transição essa, diga-se, que encontra o seu destino final este ano com o lançamento do duplo álbum Embryonic, marcando o regresso da banda à ambição sónica de Zaireeka, sem recorrer aos seus excessos, procurando manter o lado psicadélico que é imagem de marca da banda e as sensibilidades pop de The Soft Bulletin, aliados desta feita a uma sonoridade mais sombria, mas simultaneamente mais natural e menos forçada. Facto esse que se reforça nas palavras de Coyne, que confessa que a maioria dos números de Embryonic foram produto das “weird jams” dos Lips no estúdio caseiro de Drozd, apontando inclusive um “freakout vibe” do novo registo. Tudo isto prova-se verdadeiro ao ouvirmos Embryonic, e acaba por não ser, por isso, surpresa que este seja um disco onde o que brilha com maior intensidade seja mesmo o poder da sua secção rítmica.

Antecedendo o lançamento, a banda procurou divulgar em particular três faixas, todas representativas dos dois lados de Embryonic: Convinced Of The Hex abre o disco com uma característica linha de baixo de Michael Ivins, tão poderosa quanto viciante, Coyne faz uma performance vocal quase Ian Curtisiana que complementa na perfeição o feel krautrock que a banda procurou incutir em muito do primeiro lado do duplo registo; por outro lado, Silver Trembling Hands e The Impulse traduzem um segundo lado mais experimental e orgânico, a primeira um óptimo número pop, a segunda mais saudosista. Não sendo um disco de duas metades, passe o pleonasmo, deve-se ouvir como um todo e flui facilmente de um lado para o seguinte. Enquanto no primeiro encontramos algo como The Sparrow Looks Up At The Machine, que segue o excelente fio condutor de Convinced Of The Hex, também podemos tropeçar numa Evil, uma faixa que surpreende pela sua abordagem minimalista aliada às suas letras afectantes. Powerless fecha o primeiro lado com a mesma eficácia com que começou, enquanto The Ego’s Last Stand abre o segundo com toda a pompa e circunstância que aquela fantástica bridge perfurante a conduz. O segundo lado marca também o envolvimento de convidados como Karen O, a fazer imitações de sons e animais em I Can Be A Frog, e os MGMT, acrescentando vozes adicionais à pesada Worm Mountain. Quando Watching The Planets fecha Embryonic em grande estilo, não podemos deixar de ficar com a noção que este é o som de quatro indivíduos muito experimentados que assim voltam a casa, fazendo-o com a mestria que em tempos tiveram, e ao mesmo tempo sempre possuíam.

Tracklist:

  1. Convinced Of The Hex
  2. The Sparrow Looks Up At The Machine
  3. Evil
  4. Aquarious Sabotage
  5. See The Leaves
  6. If
  7. Gemini Syringes
  8. Your Bats
  9. Powerless
  10. The Ego’s Last Stand
  11. I Can Be A Frog
  12. Sagitarius Silver Announcement
  13. Worm Mountain
  14. Scorpio Sword
  15. The Impulse
  16. Silver Trembling Hands
  17. Virgo Self-Esteem Broadcast
  18. Watching The Planets

Harvest Breed.

11
Jul
09

Novos Lançamentos: Wild Beasts – Two Dancers

Não deixa de ser estranho e quase contra-natura quando uma banda reconhecida pela sua vertente pop lança um álbum frio e introspectivo durante o verão, mas acaba por funcionar quase como uma pedrada no charco. Não que obviamente a banda jogue deliberadamente com isso, a música acaba sempre por falar por si se for de qualidade. Seja como for, os ingleses Wild Beasts de Kendal conseguiram alguma, ainda que peque por defeito, aclamação com o seu fabuloso disco de estreia Limbo, Panto: um álbum que se destacava pela pura inventividade dos recursos utilizados para criar música pop imediata, mas incrivelmente variada e irrequieta. Quase como um registo de um conjunto de quatro indivíduos tipicamente britânicos, mas completamente enfadados com a música pop que se faz no seu país e com algum tipo de síndrome de défice de atenção. Uma fórmula que acabou por produzir um dos discos mais subvalorizados do ano passado e que num mundo ideal teria produzido diversos singles para o top-10 de vendas. Há sempre um ‘mas’ neste tipo de equações, e neste caso não é difícil de chegar à conclusão, depois de se ouvir a música dos Wild Beasts, que talvez o maior factor que poderá afastar ouvintes desta banda é o falsetto espalhafatoso de Hayden Thorpe, vocalista.

No fundo é difícil culpar as pessoas por isso. Mas é absolutamente chave que se encare o estilo de vocalização de Thorpe como uma muleta à fabulosa música que a sua banda produz, e nunca como algo do qual o ouvinte se deverá abstraír. Muita da sua entrega à performance foi determinante para cozer números que soam ao mesmo tempo tão trabalhados e tão naturais, como The Devil’s Crayon ou The Club Of Fathomless Love. Mas o segundo registo dos ingleses tem um condão mais pessoal que propriamente dançável, o que com qualquer outra banda poderia dar algo desde o fastidioso até ao simplesmente insuportável. Dá a ideia que com Two Dancers, os Wild Beasts tentam testar até onde irá a sua própria capacidade de inovação e inquietude criativa, e a resposta é cabal. Trata-se de um disco de autoconfiança suprema que, mesmo trocando a fanfarra e a explosividade pelo intimismo e por delicadeza, continua a ser um magnífico registo pop. Até porque todos os elementos que tornaram a estreia dos Wild Beasts tão especial ou estão lá ou aparecem ainda mais amadurecidos e aprimorados.

Tomemos como exemplo The Fun Powder Plot, a faixa de abertura de Two Dancers que, com mais de cinco minutos e meio, acaba por ser a mais longa que a banda já gravou: desdobrando-se por entre entrelaçantes teclados, vai abrindo espaço para voz inconfundível de Thorpe que nos vai guiando por entre o ritmo a fazer lembrar as bandas da DFA e a precisão da guitarra de Ben Little. É notória a mudança de paisagem sonora de Limbo, Panto para aqui. Mudança essa que sai ainda mais reforçada com Hooting & Howling, o single de apresentação de Two Dancers, que pelo nome poderia ser uma continuação da atmosfera festiva do primeiro álbum, mas sai uma provocante marcha sensual minimalista e de produção cristalina abrilhantada pelo falsetto solitário de Thorpe e pela guitarra de Little. Contudo, Two Dancers mostra também um papel reforçado para o segundo vocalista da banda, o baixista Tom Fleming e o seu barítono distinto, seguindo a deixa de The Devil’s Crayon, e funcionando como o perfeito complemento ao falsetto de Thorpe, evidenciado em faixas como All The King’s Men, The Empty Nest ou o tema-título. Qualquer lançamento de uma banda com o talento dos Wild Beasts seria sempre de assinalar, mas arrisco dizer que poucos estariam à espera de algo tão simultaneamente consistente e ousado de um álbum que tão pouco tempo demorou a produzir como é o caso com este Two Dancers, o que só atesta ainda mais da capacidade desta banda.

Tracklist:

  1. The Fun Powder Plot
  2. Hooting & Howling
  3. All The King’s Men
  4. When I’m Sleepy
  5. We Still Got The Taste Dancing On Our Tongues
  6. Two Dancers
  7. Two Dancers II
  8. This Is Our Lot
  9. Underbelly
  10. The Empty Nest

Harvest Breed.

23
Jun
09

Novos Lançamentos: 6 em 1

Tiny Vipers – Life On Earth

Jesy Fortino tem apenas 25 anos, trabalhou num restaurante mexicano na zona de Seattle de onde é natural, e assume o alias de Tiny Vipers para dar largas à sua interessante carreira musical. Life On Earth é o seu segundo álbum, depois da sua estreia com Hands Across The Void, de 2007. Em muitos pontos, podemos traçar várias semelhanças no seu tom, estilo e sonoridade naquilo que Mark Kozelek faz com Sun Kil Moon e que Liz Harris faz com Grouper. De facto, Fortino combina bem os elementos acústicos, delicados, pensativos e sentidos de Sun Kil Moon, com a beleza transcendente dos véus sónicos sonhadores de Grouper. Em Life On Earth o que capta imediatamente a atenção do ouvinte é a proximidade quase pessoal que uma abordagem directa e de produção límpida que Fortino consegue atingir. Passe a comparação algo injusta, este disco pode mesmo ser o April de 2009.

Tracklist:

  1. Eyes Like Ours
  2. Development
  3. Slow Motion
  4. Dreamer
  5. Time Takes
  6. Young God
  7. Life On Earth
  8. CM
  9. Tiger Mountain
  10. Twilight Property
  11. Outside

==========================================================================

White Denim – Fits

Workout Holiday, o registo de estreia dos texanos White Denim, valeu-lhes alguma merecida exposição, tendo para tal contado com a valiosa contribuição e apoio do blog Gorilla Vs Bear que inclusive nomeou a banda para álbum do ano. O seu segundo disco propriamente dito, Fits, vê a banda aprimorar aqueles pormenores que a fazem especialmente única. Na realidade, os White Denim não fazem rock revivalista de garagem dos anos 60 como muitos dos seus pares. Não tanto como fazem uma versão desregrada e directa do estilo, prescindindo dos truques de produção que são muito utilizados no meio. O que só torna a banda ainda mais especial. Em números a faixa de abertura Radio Milk How Can You Stand It, a galopante Mirrored And Reverse, a viciante Regina Holding Hands ou o single I Start To Run, os White Denim mostram a sua progressão para uma banda mais versátil e mais assumidamente pop. E isso é mesmo óptimo.

Tracklist:

  1. Radio Milk How Can You Stand It
  2. All Consolation
  3. Say What You Want
  4. El Hard Attack Dcwyw
  5. I Start To Run
  6. Sex Prayer
  7. Mirrored And Reverse
  8. Paint Yourself
  9. I’d Have It Just The Way We Were
  10. Everybody Somebody
  11. Regina Holding Hands
  12. Syncn

==========================================================================

Smith Westerns – Smith Westerns

Faz alguma impressão o quão jovens são os integrantes dos Smith Westerns. Mal saíram da puberdade, todos com idades abaixo dos 20 anos, fazendo disso mais uma vantagem que outra coisa. Tal como os White Denim, adoptam uma abordagem mais pop ao rock de garagem que fazem, mas ao contrário dos White Denim, optam pela característica lo-fi do estilo. Ainda assim, a pura força das composições presentes no seu disco homónimo de estreia são mais que suficientes para captar a atenção de qualquer um. Esperaríamos faixas como Gimme Some Time de uns Black Lips no auge da sua forma, ou ainda Tonight de uns No Age ou até Girl In Love de uns T-Rex adolescentes. Se por um lado é díficil agrupar os Smith Westerns numa corrente recente de bandas com produção religiosamente lo-fi fazendo rock saudosista, é mais fácil apreciar o seu disco de estreia por aquilo que é: um conjunto de músicas pop ideais para ouvir no Verão.

Tracklist:

  1. Dreams
  2. Boys Are Fine
  3. Gimme Some Time
  4. Girl In Love
  5. We Stay Out
  6. Tonight
  7. Be My Girl
  8. The Glam Goddess
  9. Diamond Boys
  10. My Heart

==========================================================================

Let’s Wrestle – In The Court Of The Wrestling Let’s

Donos de um sentido de humor imbatível e distintamente britânico, só agora, cerca de dois anos depois de ter pela primeira vez tomado conhecimento deles, é que o triunvirato londrino brilhantemente apelidado de Let’s Wrestle consegue efectivamente lançar o seu disco de estreia. No entanto, não desilude. Os seguidores da banda estarão por certo relembrados da sua excelente série de singles desde há uns meses para a começar no homónimo Let’s Wrestle (“Let’s wrestle… let’s FUCKING wrestle…”) até I’m In Fighting Mode. In The Court Of The Wrestling Let’s procura continuar, com sucesso, a veia de pérolas pop casadas com uma destreza lírica que as transforma num tipo completamente diferente de propostas. Apesar da sua sonoridade pouco preocupada com delicadezas, é interessante ver que praticamente todas as faixas são autênticas operações de charme. Impossível é não simpatizar com uma banda como estas, pretensiosismos à parte.

Tracklist:

  1. My Arms Don’t Bend That Way, Damn It!
  2. I’m In Love With Destruction
  3. Tanks
  4. My Eyes Are Bleeding (Interlude)
  5. My Schedule
  6. We Are The Men You’ll Grow To Love Soon
  7. In Dreams
  8. Atlantis (Interlude)
  9. Song For Old People
  10. I Won’t Lie To You
  11. Diana’s Hair
  12. I’m In Fighting Mode
  13. Insects
  14. It’s Not Going To Happen
  15. Waltz (Interlude)
  16. In The Court Of The Wrestling Let’s

==========================================================================

Ganglians – Monster Head Room

A Woodsist, editora de origem de muitos noisemakers hoje em dia, descreve os Ganglians e o seu disco de estreia Monster Head Room como “all-over-the-map damaged-and-psychedelic noise-pop”. Mas desengane-se quem quiser ouvir aqui comparações minimamente plausíveis com outras bandas amantes do feedback e do ruído como os seus companheiros de editora Wavves ou Psychadelic Horseshit. Na verdade, é refrescante ouvir uma banda com um álbum que não corresponde exactamente às frases feitas da sua editora. Em Monster Head Room podemos encontrar uma vertente predominantemente psicadélica curiosamente fundida com um trabalho bastante aprumado da secção rítmica. De facto este é um álbum da secção rítmica por direito, que o prove a segunda faixa Voodoo, um impressionante trabalho de percussão e baixo, acompanhado por uma delicada guitarra. Monster Head Room é uma lufada de ar fresco nos quadros da Woodsist.

Tracklist:

  1. Something Should Be Said
  2. Voodoo
  3. Lost Words
  4. Candy Girl
  5. Valiant Brave
  6. The Void
  7. To June
  8. 100 Years
  9. Crying Smoke
  10. Modern African Queen
  11. Try To Understand

==========================================================================

Clark – Totems Flare

Há poucas propostas tão activas e ao mesmo tempo tão interessantes no catálogo da Warp hoje em dia como a do produtor electrónico inglês Chris Clark. Já não é nenhum novato nestas andanças e na verdade, Totems Flare, o seu último disco, é também o seu quinto. Contudo, em nada parece ter vindo a sofrer a qualidade do seu processo criativo. Tal como no excelente Turning Dragon do ano passado, Totems Flare continua, desenvolve e aperfeiçoa a deliciosa apetência de Clark para fundir batidas complexas e muitas vezes agressivas e instigantes com melodias viciantes e dançáveis. Isso talvez não seja atingido com tanta perfeição como é nas primeiras três faixas: a periclitante Outside Plume, a volátil Growls Garden e aquela que é provavelmente a jóia da coroa de Totems Flare, Rainbow Voodoo.

Tracklist:

  1. Outside Plume
  2. Growls Garden
  3. Rainbow Voodoo
  4. Look Into The Heart Now
  5. Luxman Furs
  6. Totem Crackerjack
  7. Future Daniel
  8. Primary Balloon Landing
  9. Talis
  10. Suns Of Temper
  11. Absence

Harvest Breed.

06
Jun
09

Novos Lançamentos: Wave Machines – Wave If You’re Really There

Todos os anos, a blogosfera desdobra-se em múltiplos esforços para descobrir aquele álbum de pop veraneante e solarengo que eventualmente fará de banda sonora para um verão de festivais. Onde no ano passado foi In Ghost Colours, o segundo disco dos australianos Cut Copy, a escolha consensual, este ano parece ter recaído nos franceses Phoenix, e no seu estupidamente viciante quarto álbum Wolfgang Amadeus Phoenix, e no disco de estreia dos Passion Pit, Manners. Mas no meio do hype, é fácil ignorar discos como o primeiro dos Wave Machines, Wave If You’re Really There. Os Wave Machines são um quarteto de Liverpool composto por Tim Bruzon e Carl Brown, vocalistas, teclistas e guitarristas, James Walsh no baixo, e Vidar Norheim, baterista, e fazem música que encaixa na perfeição nos requerimentos necessários para se ser muito mais popular do que se é. Art-pop com fortes influências de electrónica doce e minimalista, mas deliciosamente pouco produzido e despretensioso, ao estilo de um cruzamento entre os Hot Chip, os XTC e os The Beta Band, pegando nas subtilezas electrónicas dos primeiros, nas peculiaridades pop dos segundos e nas imprevisibilidades e diversidades dos terceiros.

De facto, torna-se um exercício especialmente complicado definir com certeza e claridade a música dos Wave Machines, à medida que a banda vai mudando a sua forma, o seu estilo, até saltando de género em género com resultados inesperados. Apesar da volatilidade, Wave If You’re Really There destaca-se por ser um álbum fácil, viciante e extremamente divertido de ouvir. Anunciado por dois dos mais imediatos singles do ano, Keep The Lights On e I Go I Go I Go, são fantásticas peças de disco suave e descontraído acompanhados por um falsetto a fazer lembrar sonoridades dos anos 70 e das necessárias linhas de baixo saltitantes e dançáveis. Ainda assim, não se pode dizer que Wave If You’re Really There seja um álbum para dançar na discoteca tanto quanto seja para abanar a cabeça num bar ou nos tais festivais de verão. A prova disso é a maneira doce e afectante como resolve começar. You Say The Stupidest Things, apesar do título, é praticamente uma balada, ao som de teclados calmos e minimalistas e logo seguidos de arpeggios de guitarra ao estilo de uns Radiohead. E como não costumo fazer crónicas em que deixe tantos nomes de bandas possivelmente comparáveis, fica já o sublinhado que nunca em momento algum deste disco se fica com a sensação de já se ter ouvido isto antes, ou de se apresentarem ideias usadas e bafientas.

Aliás, isso não é propriamente algo com que se tenha tempo nem interesse para preocupação, o ouvinte estará demasiado ocupado com o simples divertimento que se tem a ouvir este disco. Peguemos no exemplo do também single The Greatest Escape We Ever Made, talvez o número que terá mais appeal para algum ouvinte casual. Desafio quem quer que seja a não bater o pé ou abanar a cabeça quando, com menos de dez segundos, entra a linha de baixo e pouco depois a vocalização em falsetto à moda dos Bee Gees. É capaz de ser cheesy ou camp, mas é simplesmente impossível de resistir ao charme de muitas destas músicas, até porque se apresentam com uma honestidade e um despretensiosismo desarmante. Essa é uma constante neste álbum, e é francamente complicado de encontrar uma banda que hoje em dia mostre tanta facilidade em seguir por esse caminho, disposta ao que for preciso para encontrar uma linha de sintetizador ou uma melodia viciante acima de tudo. Mas apenas oferece ainda mais crédito à estreia dos Wave Machines poder contar com propostas como Punk Spirit, praticamente uma música à volta da fogueira onde a banda lamenta a ausência do seu espírito punk, “Where’s my punk spirit, when I need it?”, ou Dead Houses, conduzida pela mão do baterista Vidar Norheim, desiludido com o abandono de habitações na sua cidade natal de Liverpool.

Tracklist:

  1. You Say The Stupidest Things
  2. Carry Me Back To My Home
  3. I Go I Go I Go
  4. Keep The Lights On
  5. Punk Spirit
  6. The Greatest Escape We Ever Made
  7. Wave If You’re Really There
  8. I Joined A Union
  9. The Line
  10. Dead Houses

Harvest Breed.

05
Jun
09

Novos Lançamentos: Sunset Rubdown – Dragonslayer

Apesar de já acompanhar o seu percurso desde que começaram, confesso que fiquei impressionado quando cheguei à conclusão que se há disco ao qual tenho destinado mais audições ultimamente esse será mesmo o novo dos Sunset Rubdown. Leia-se impressionado, mas não surpreendido. A banda de Spencer Krug tem um repertório bastante respeitável, sendo este o seu quarto registo, mas ainda assim repertório esse que até parece magro quando o comparamos com o do seu líder, vocalista e compositor. De facto, Krug conta com um trabalho recente tão intenso quanto invejável e que faria corar qualquer outro músico que não seja Robert Pollard. Por entre lançamentos dos Sunset Rubdown, Krug desdobra-se, sem grande quebra de qualidade, pelos seus outros projectos, que assumem a forma dos Swan Lake (com Dan Bejar e Carey Mercer) e dos mais populares Wolf Parade (com Dan Boeckner e Dante DeCaro). Apenas em pouco menos de um ano, Krug e os seus variados projectos produziram nada menos que três álbuns: At Mount Zoomer, segundo dos Wolf Parade, Enemy Mine dos Swan Lake e agora Dragonslayer dos Sunset Rubdown. E apesar dos dois primeiros provavelmente não figurarem nos melhores lançamentos a contar com o envolvimento de Krug, não deixaram de ser propostas bastante respeitáveis.

O que nos leva de novo a Dragonslayer e aos Sunset Rubdown. De facto, desafia a lógica que apenas um músico tenha tanto talento a sair-lhe dos poros ao ponto de ser criativamente assustador. Ainda assim, podemos dizer com confiança que é com os Sunset Rubdown que Krug se consegue exprimir mais facilmente e mais livremente, ainda que assumindo-se como o único compositor da banda, o que desde já não invalida participações importantes de todos os membros. Porque é talvez com Dragonslayer, o sucessor do épico Random Spirit Lover de 2007, que a banda soa mais crua e orgânica desde o seu disco de estreia, Snake’s Got A Leg. A marca que os Sunset Rubdown deixam é uma de inquietude criativa. Frequentemente encontramos nas composições de Krug estruturas ridiculamente diversas, passando até por várias bridges e refrões em lugares inesperados. O que não deve ser confundido com inacessibilidade. Quanto a mim, Krug não será outra coisa que não um compositor pop, ainda que com uma visão peculiar, ou melhor dizendo, particular, do pop. Dragonslayer reforça essa ideia, à qual também muito ajuda o facto dos Sunset Rubdown funcionarem como uma verdadeira banda, apesar da preponderância de Krug. Aqui destacam-se claramente as contribuições de Camilla Wynne Ingr nas melodias vocais, e de Michael Doerksen nas linhas de baixo. Tudo isto sublinha Dragonslayer como um dos mais eclécticos discos de 2009.

Sendo certo que Random Spirit Lover conquistou muita da sua boa publicidade com números bastante infecciosos e marcantes, como The Mending Of The Gown ou The Courtesan Has Sung, em Dragonslayer provavelmente não encontraremos algo tão contagiante, mas certamente encontramos tanto ou mais divertimento com repetidas audições. Uma das provas disso mesmo é o primeiro single: com mais de seis minutos, duas bridges e várias mutações estruturais, Idiot Heart parece ser uma fonte inesgotável de ideias. Liricamente, Krug é igualmente único, seja trovando sobre mitologia, deuses e dragões, seja sobre algo mais corriqueiro. Um dos pontos altos, Apollo And The Buffalo And Anna Anna Anna Oh!, funde esses dois mundos na perfeição, passando pela nostalgia de “my god, i miss the way we used to be / so here’s a photograph for you to hold / it’s my picture right before I got old”, até à coda final de “You Hunter”, tudo com pano de fundo de excelentes trabalhos de teclados e delicadas e ensombrantes guitarras. Noutro lado encontramos Paper Lace, onde Krug faz um cover da sua própria música para os Swan Lake, transformando-a em algo mais preguiçoso e provocante, acabamos por concordar com ele quando no fim sussurra “that’s as good as it’ll get”. Encontramos mais uma amostra da diversidade da banda em Nightingale/December Song, com a sua percussão tribal e tensa a construir um clímax forte e sentido acompanhado por órgão. Dragonslayer perfaz uma belíssima adição a um repertório já forte dos Sunset Rubdown, mas a sua natureza faz deste álbum uma excelente porta de entrada para quem não conhece a banda.

Tracklist:

  1. Silver Moons
  2. Idiot Heart
  3. Apollo And The Buffalo And Anna Anna Anna Oh!
  4. Black Swan
  5. Paper Lace
  6. You Go On Ahead (Trumpet Trumpet II)
  7. Nightingale/December Song
  8. Dragon’s Lair

Harvest Breed.

19
Mai
09

Novos Lançamentos: Grizzly Bear – Veckatimest

Talvez não se tivessem apercebido na altura, mas o recrutamento dos Grizzly Bear para as fileiras da Warp deve ser das adições mais inspiradas da etiqueta em toda a sua história. A editora este ano celebra 20 anos de existência tendo-se notabilizado na década de 90 como a grande pioneira de todo um movimento de electrónica minimalista e cerebral que inclusivamente colocou no mapa o termo IDM. Tendo nos últimos anos feito a transição para bandas mais ligadas a simples música pop, como é o caso dos ingleses Maxïmo Park, passando pela matemática sonora dos Battles ou o soul de Jamie Lidell, prepara-se aqui com os Grizzly Bear e o seu terceiro disco para ter um verdadeiro caso sério de hype como já não tinha desde os seus anos gloriosos com Aphex Twin, Autechre e mais tarde com os Boards Of Canada. De facto, Veckatimest, o sucessor do rústico Yellow House, tem beneficiado de uma onda de aclamação que o tem visto rotulado de lançamento do ano no campo do art rock. Muita dessa boa reacção tem germinado do aparecimento madrugador de dois dos pontos altos do disco, Two Weeks e While You Wait For The Others, nas setlists da banda especialmente na sua digressão com os Radiohead. Tudo isto esbarrou na divulgação com três meses de antecedência do disco pela internet e em qualidade embaraçosa.

Mas posto de maneira simples, a música continua lá. E este é um álbum simplesmente fenomenal. Pleno de texturas riquíssimas e de produção muito elaborada e metódica da parte do baixista Chris Taylor, que já no ano transacto tinha produzido o nosso álbum do ano, In Ear Park dos Department Of Eagles, mas cujo coração está na simples força de composição, em particular dos dois vocalistas: o mais dócil e suave Ed Droste, e o mais reflectivo e introspectivo Daniel Rossen, duas faces da mesma moeda. Contrastando com o bucolismo de Yellow House, Veckatimest é um disco de conjunto. Nele conseguimos discernir facilmente a valiosa contribuição de cada membro, sejam as harmonizações vocais de Droste, a guitarra pensativa de Rossen, o fabuloso trabalho irregular da bateria de Chris Bear e as linhas de baixo pulsantes pela mão de Chris Taylor. Tudo isto converge num trabalho coerente e consistente, que revela qualquer coisa de diferente a cada audição, seja em momentos densos e sombrios ou em alturas de pureza pop. Two Weeks, o seu primeiro single, que conta com a preciosa contribuição de Victoria Legrand dos Beach House no refrão é uma destas alturas de éden sonoro no campo da pop, com o seu piano bem ao estilo de Hard Knock Life e as suas harmonizações vocais que remetem para os momentos mais altos de Yellow House como em Knife.

A introdução faz-se em tons esquizofrénicos com momentos quiet-loud-quiet que deixariam os Animal Collective orgulhosos, em Southern Point, um número liderado pelas inflexões cuidadas da voz íntima de Rossen. A faixa de abertura inclusivamente adopta os mesmos motivos líricos que na celestial All We Ask, seja passando por “our haven on the southern point” do primeiro tema ou pela libertação apaixonada em “the crowds they light the carnival… calling us home” da terceira faixa. Fine For Now acaba por ser o mais próximo que a banda irá estar de rock simples e directo, ainda que apoiado nas constantes mudanças de ritmo da bateria de Chris Bear que se voltam a repetir em Cheerleader, a peça central de Veckatimest, uma balada plena de harmonias vocais dóceis lideradas por Droste e de uma linha de baixo relaxada, mas irrequieta. Com Dory, o disco toma uma vertente mais chegada a Yellow House, em especial à sua segunda metade. Faixas mais concentradas em produção orquestral intrincada com destaque natural a ser assumido pela leveza composicional de Droste, em particular com Ready, Able, bem coadjuvado pela guitarra característica de Rossen e pela linha de baixo saltitante de Taylor, e com a delicada About Face. Depois do interlúdio de Hold Still, While You Wait For The Others dá início às despedidas, um adeus em três partes distintas, a primeira delas já bem conhecida dos fãs passa por um tratamento mínimo no estúdio, atesta a sublime forma composicional de Rossen e o amor pelas harmonias vocais onde toda a banda toma parte. I Live With You e Foreground embalam o ouvinte para um final cuidadoso e ponderado que se desenrola com a precisão de um relógio. No fim, resta virar o disco e tocar o mesmo, literalmente.

Tracklist:

  1. Southern Point
  2. Two Weeks
  3. All We Ask
  4. Fine For Now
  5. Cheerleader
  6. Dory
  7. Ready, Able
  8. About Face
  9. Hold Still
  10. While You Wait For The Others
  11. I Live With You
  12. Foreground

Harvest Breed.