Nos dias que correm são poucas as bandas suficientemente ambiciosas, corajosas e desafiantes ao ponto de procurarem activamente a perfeição. A emergência do lo-fi como técnica de produção ou mesmo como estética musical em si tem cada vez demarcado bandas que procuram a realidade pura e dura, convidando as imperfeições, as falhas, os enganos, as perturbações ou até os desesperos quer no seu som, quer na sua mentalidade. Não é portanto de surpreender que as atenções recaiam na produção, nos sentimentos que ela procura evocar, na riqueza dos seus arranjos ou na desengoçada despreocupação com os pormenores. Algures à deriva está a real composição musical, a destreza instrumental ou até mesmo execução técnica num contexto de performance ao vivo. Com o seu mais recente disco, os nativos de Baltimore Beach House não alcançam a perfeição. Mais vale dizer isso já antes que se levante qualquer confusão. Mas como eles tentam. E esta tentativa não se faz com orquestras de 600 elementos, nem com arranjos de cordas teatrais e épicos, e também não se faz de frieza na mão ou de precisão robótica na sua execução. A perfeição que procuram não é essa. Faz-se de sentimentos e de afectos, de genialidade e de simplicidade, mas também de reforço da identidade e de auto-estima sónica. E também porque não dizê-lo, de uma suprema confiança em si mesmos. Alex Scally e Victoria Legrand não procuram redimensionar o seu som ou sequer reposicionar-se como partes interessadas em qualquer cena ou nicho musical. A sua visão vai bem para além disso.

Não estaria a ser justo para este disco se o olhasse dessa forma e falasse sobre ele na óptica do campeonato dos géneros, dos estilos ou das correntes musicais que frequentemente tem lugar em redor da música alternativa contemporânea. Há algo de muito superior a isso a passar-se em Teen Dream. Alguns falar-nos-ão no piscar de olho ao comercial e ao pop na sua produção limpa e certinha, que contrasta com a abordagem do-it-yourself que caracterizou a sua surpreendente estreia, mas outros irão fazer correr tinta sobre a sonoridade inofensiva do dream pop da banda. O que nos remeteria para a conversa da perfeição, tal como a entendem os Beach House. E no centro desse mundo esotérico e inconsciente dos Beach House estará mesmo a sua misteriosa, mas emblemática vocalista Victoria Legrand. Em Teen Dream é-lhe dada rédea livre, e ela aproveita. E de que maneira. Com uma confiança inabalável, a qual nunca tinha chegado a realizar em absoluto na sua banda, e tirando máximo proveito das suas colaborações e subsequentes digressões com os nova-iorquinos Grizzly Bear, a sua voz e a sua composição envolvente assume um espectro que desafia os cânones e dispensa truques de estúdio. Seja ouvindo a sua respiração junto ao microfone escutando com atenção Real Love, seja na elasticidade vocal, quase a evocar uma girls band da década de 60, do novo single Norway ou mesmo quando percebermos que é impossível não sentir o coração apertar com os píncaros emocionais de Walk In The Park, parece que há pouco para o qual Victoria aponte e não consiga atingir.

Difícil mesmo, seria encontrar melhor ponto de entrada para Teen Dream que a enfeitiçante Zebra. A evocar a própria capa do disco, Zebra fala-nos de um ‘black and white horse / arching among us’, servindo-se de um simples e delicado trabalho de guitarra, para além dos habituais teclados sonhadores e das batidas despidas já características da banda. De facto, uma das virtudes mais poderosas de Teen Dream é mesmo a capacidade evocativa que muitos dos seus temas conseguem possuir, seja por temáticas ou por sonoridades. Composta à janela de um comboio que cortava pelos campos noruegueses, a saudosa Norway tem o dom de nos colocar no frio escandinavo com um par de headphones e um brilho no olhar. Used To Be, lançada em single no ano passado, é retrabalhada aqui sob um olhar diferente, deixando para trás a sua coda final memorável e arrepiante (‘its always good to see you again / even if it’s coming to an end’), em detrimento de uma mais simples e esperançada, mas não menos cortante, quase sussurrada ‘coming home / any day now’. A segunda metade de Teen Dream acaba por ser mais ecléctica e sentida, quase facilmente emocionante como podemos comprovar com a ambiciosa 10 Mile Stereo, com os seus crescentes arranjos de cordas, ou com a intensamente pessoal balada ao piano Real Love. Quatro anos depois do intimismo de Master Of None, os Beach House continuam a trilhar o seu caminho para a perfeição. Um caminho que não irá ter destino final, mas que, nos dias que correm, nenhuma outra banda que sequer tenha a ousadia de o tentar percorrer o consegue fazer com este sentimento ou esta simplicidade, provando que a beleza é uma qualidade dolorosamente subvalorizada na música hoje em dia.
Tracklist:
- Zebra
- Silver Soul
- Norway
- Walk In The Park
- Used To Be
- Lover Of Mine
- Better Times
- 10 Mile Stereo
- Real Love
- Take Care
Harvest Breed.





















