Hoje em dia somos todos surfistas. A verdadeira onda revivalista de rock surfista que os Pixies celebrizaram no início da década de 90 agora não só parece voltar à baila como também aparenta ter vindo para ficar. Como se os avisos não fossem suficientes, é mesmo disso que nos informa John Paul Pitts, vocalista dos Surfer Blood, na primeira faixa do seu disco de estreia: “If you’re moving out to the west, then you’d better learn how to surf”. Não seria só por aqui que uma banda como os Surfer Blood se distinguiria dos seus inúmeros pares, mas a verdade é que o faz por intermédio do seu apurado olho para as melodias pop, da sua pouco comum aliança com a escola lo-fi, até aqui mais aplicada a uma lógica de rock de garagem que propriamente ao pop alternativo, e da naturalidade com que o seu som emerge do emaranhado de influências e posturas em que se mergulha. Vindos de West Palm Beach na Flórida, mais surfista só mesmo na Califórnia, o quinteto define-se mesmo no seu myspace como “pop, pop, pop”, um auto-retrato refrescante e desarmante face a todo o poseurismo que ainda caracteriza muito do que é feito sob esta égide do lo-fi. Não que Astro Coast, o registo que marca a estreia dos Surfer Blood, leve esta lógica ao extremo como alguns dos seus companheiros, mas enquanto a sua matriz sónica não deriva muito do power pop, a forma tradicionalista com que são tratados em estúdio os seus intermináveis riffs e melodias pop dão à banda algo que poucos neste meio têm.

Fazendo do compromisso para com esses riffs e melodias pop acessíveis e viciantes um estandarte e um ponto de honra, Astro Coast marca uma sonoridade que junta esse background pop a um estilo marcadamente lo-fi que definia uma banda como os The Shins antes de estes se virarem em definitivo para o indie pop precioso e inofensivo. Também é muito provável que viremos a ouvir bastas vezes repetido que este é um disco gravado na sua íntegra no seu dormitório da universidade em que estudam, o que certamente lhes valerá subir alguns pontos na consideração de alguns e descer outros tantos na consideração de outros. A única informação que necessitamos de saber sobre Astro Coast é mesmo a de que é uma das pérolas pop do ano, seja em que revivalismo incorrer, fazendo ora lembrar bandas de new wave dos anos 80, os Weezer a tocarem a Buddy Holly em meados da década de 90 ou as guitarras surf que se fizeram ouvir um pouco por todo o lado por essa altura. Talvez aquilo que acaba por confirmar essa premissa é mesmo o primeiro single retirado de Astro Coast: Swim (To Reach The End), que retira uma boa fatia de sonoridade bombástica do new wave dos anos 80, a ela aliando um refrão que fica no ouvido, harmonias vocais escolhidas com critério e aplicadas na perfeição, uma voz num registo superlativo que dá um bocado de glam à coisa e temos uma faixa viciante.

A introdução a Astro Coast faz-se ao som da já anteriormente citada Floating Vibes, que entrelaça vários riffs à volta de si mesmo e de uma linha vocal que se vai alterando aqui e ali, sempre mantendo a mesma frescura e o mesmo sentido de novidade. É também este estilo de power pop com sentido de inovação e inquietude que faz deste disco uma vitória tão grande para uma banda tão nova. Floating Vibes faz-se seguir por Swim (To Reach The End), o single, e por Take It Easy, uma espécie de Cape Cod Kwassa Kwassa de power pop, que acaba por resultar em pleno não só pela novidade, mas por fazer aquilo que a faixa dos Vampire Weekend não consegue fazer: acomodar essas influências em algo mais do que apenas vocalizações preciosas. Tudo isto serve de prelúdio para aquele que acaba por ser o momento mais forte de Astro Coast, a ambiciosa Harmonix, mais uma vez marcada pela versatilidade com que muda de tons e de ambiências num fabuloso trabalho da guitarra de Thomas Fekete e de destreza vocal de John Paul Pitts. Mais lá para a frente encontramos as duas propostas mais extensas do disco sob a forma de Slow Jabroni e Anchorage. A primeira está nas linhas de algo mais pensativo e tenso como aquilo que já ouvimos este ano de uns Japandroids, sem a estética tão declaradamente pesada e lo-fi, já a segunda acaba por ser a extensão natural de uma faixa-tipo da banda, ramificando-se por vários caminhos, obtendo várias dimensões, sempre com a mesma linha pop no horizonte. Astro Coast representa o crescimento de uma banda incrivelmente nova que também faz disso a sua principal arma, um relato de um dos acontecimentos pop do ano, sem precisar de poseurismo nem desculpas.
Tracklist:
- Floating Vibes
- Swim (To Reach The End)
- Take It Easy
- Harmonix
- Neighbor Riffs
- Twin Peaks
- Fast Jabroni
- Slow Jabroni
- Anchorage
- Catholic Pegasus
Harvest Breed.




















