Arquivo da categoria 'Novos Lançamentos'

29
Out
11

Novos Lançamentos: Sandro Perri – Impossible Spaces

Quando, em 2003, Sandro Perri (Polmo Polpo) lançou o seu agora disco de culto Like Hearts Swelling, a tendência foi para que se perdesse no ruído de tudo o que a etiqueta canadiana Constellation estava a lançar na altura. Bandas como Godspeed You! Black Emperor ou Thee Silver Mt. Zion dominavam muito do que era a mensagem que saía da música canadiana. Nesse aspecto, Like Hearts Swelling foi, desde o início, um disco à frente do seu tempo. Juntava o minimalismo e a direcção ambiental do muito falado projecto do alemão Wolfgang Voigt, Gas, que na altura veria o muito merecido reconhecimento pelo seu último disco, Pop, aparecer, a algo mais. Um ‘algo mais’ que levou, tal como com Pop, uns anos a que fosse perfeitamente compreendido. Lentamente, Like Hearts Swelling não só veio a representar algo de perfeitamente único no catálogo da Constellation como algo de único na música contemporânea. Ecléctico e diversificado, Polmo Polmo era sinal de música verdadeiramente excitante, combinado o minimalismo techno com elementos orgânicos, de uma destreza fora do vulgar que se dava a uma execução técnica de instrumentais complexos mas envolventes.

Quase dez anos e três álbuns depois, Sandro Perri, já deixando para trás o nome de Polmo Polpo, continua a dar asas ao mesmo ecletismo e destreza que já ouvimos antes, mas agora numa dimensão mais abertamente pop. Ainda que, ao mesmo tempo, com estruturas musicais mais desalinhadas e incomuns. Em Impossible Spaces, o seu quarto disco em seu próprio nome, nono no total, Perri encontra para si mesmo um verdadeiro espaço que parecia pouco provável já de si: música doce e, sem margem para dúvidas, pop, que se casa com uma musicalidade expansiva, estruturas bizarras e complicadas e orquestração deslumbrante. Nesse aspecto, Impossible Spaces não é algo que possa ser directamente comparado com Like Hearts Swelling, mas podemos traçar a sua genealogia a partir daí. Quanto mais não seja, Perri demonstra aqui uma confiança inabalável na sua capacidade de composição que lhe dá a ele, e nós enquanto ouvintes, a sensação de que tudo poderá fazer e tudo poderá acontecer a qualquer altura. O mais impressionante nisto tudo, e aquilo que acaba por ser a peça central do disco, é a voz de Perri. Expressiva e com um alcance praticamente ilimitado, é dela que parte grande parte da saudável musicalidade que respira Impossible Spaces. Mas é também ela que nos indica que estamos perante algo pop, melódico e acessível.

O maior exemplo é a faixa de abertura Changes, que se apoia numa discreta mas invulgar linha de guitarra, que se expande numa mini-composição clássica. Acaba por ser no seu classicismo terminantemente anti-retro que tudo aqui assenta. A sua música é declaradamente orgânica, já sem os elementos techno que marcava o trabalho de Perri enquanto Polmo Polpo, a certas alturas fazendo lembrar os momentos mais leves dos últimos três discos de Talk Talk, mas faz-se de uma boa disposição inabalável. Essa é uma boa disposição que não perde tempo em transformar peças dispersas em algo melódico, um pouco como o ritmo de quase bossanova de um número como Love & Light, que dá lugar a uma coda peculiar mas estranhamente afectante, parece ser transformado em algo coerente pela invulgar facilidade vocal de Perri. Wolfman, a mais longa e chamativa faixa do álbum, segue uma fórmula semelhante a Changes: uma guitarra soluçante, letras desconjuntadas, teclados que vão aparecendo, uma espécie de caos pensado. Ainda assim, muitos dos elementos que à primeira vista parecem estar desconjuntados e dar a sensação de jam session também acabam por servir para levar muitas das melodias para lugares simplesmente esquisitos. E quanto mais cedo nos deixarmos levar por eles melhor.

Tracklist:

  1. Changes
  2. Love & Light
  3. How Will I?
  4. Futureactive Kid (Part I)
  5. Futureactive Kid (Part II)
  6. Wolfman
  7. Impossible Spaces

Harvest Breed.

28
Out
11

Novos Lançamentos: Kuedo – Severant

Não é incomum, nos dias que correm, ver alguém a fazer música completamente distinta, quer em forma quer em estilo, a solo em relação àquilo que fazia ou viria a fazer em grupo. Afinal, os meios são amplos e as influências não faltam. Durante seis anos, o londrino Jamie Teasdale foi uma das metades do duo que assinava, sob a forma de Vex’d, música perfeitamente sinistra e claustrofóbica. Mas mais que isso: os Vex’d representaram uma nova forma de fazer música à base de batidas fugazes e secas que, em especial com o seu disco de 2005 Degenerate, fazia começar o rufar dos tambores de guerra na grande comoção que se viria a formar nos anos seguintes à volta da ideia de dubstep. Apesar de ser admitidamente injusto classificar Degenerate dessa forma, a sua disposição quase industrial lançava uma manta de tensão sobre tudo o que por baixo dela era feito, desde trabalho de ambiência a batidas de cadência sepulcral, de tal forma que é possível compreender o porquê de se apontar o nome dos Vex’d como um dos primordiais catalisadores daquilo que, por volta de 2007, viria a ser conotado com o dubstep.

A solo, num trabalho que vinha a preparar há vários anos, Teasdale volta agora para lançar o seu primeiro álbum sob o nome de Kuedo, Severant. E mais do que uma parte da música de Vex’d, que ainda podemos encontrar aqui e ali, Severant retrata um músico num espaço artístico completamente diferente a produzir sonoridades que reflectem outra era. Literalmente outra era. Severant funciona um pouco como um conceito ambicioso de produzir uma banda sonora para um filme futurista dos anos 80. Se a ideia soa já por si requentada, é porque efectivamente é mesmo. Talvez agora mais que nunca nos deparemos com mais projectos musicais que se façam exprimir numa componente eminentemente teatral, até mesmo cinematográfica (um dos bons exemplos deste ano partiu do Lynchianismo quase enfermo do sino-canadiano Dirty Beaches, inspirado pelo Futuro da Nostalgia como definido pela autora Svetlana Boym). Mas Severant é produto de algo mais que apenas nostalgia. O seu espaço emocional está algures num vácuo que não conseguimos definir ao certo, mas que se faz expressar no verdadeiro maciço musical que são os cerca de três quartos de hora de Severant.

Em nenhum momento sentimos que a música de Kuedo se deixa espaço a si própria para respirar, nunca deixando de pintar um quadro tingido a tons de retro-futurismo Kubrickiano, e o resultado é um disco que não deixa respirar o ouvinte. Um bom exemplo da mudança que se fez sentir na música de Teasdale é Visioning Shared Tomorrows, um feito só por si: algo tão grandioso e aspirante na face do que antes tinha sido a música fechada e negra de Vex’d, não deixando de ser brutalmente simples. Ainda assim, é da fantástica tendência de criação de tensão do antigo conjunto de Teasdale que ele consegue retirar uma paisagem coerente para Severant, e é precisamente por isso que nele tem um triunfo arrebatador. As batidas ensurdecedoras e omnipresentes fazem-se sentir em faixas como Scissors ou Vectoral, casando, em poucos minutos e sem que a transição pareça pouco natural, com a tensão sublimadora de Ascension Phase ou da poderosa Flight Path. A ambição que fica patente em Severant é a de fazer algo que pegue naquilo que já fazia de Teasdale um dos produtores mais absorventes da electrónica actual e o eleve a patamares não tanto bombásticos quanto elegantes, graciosos e gloriosos. Tudo isso faz com que os tais três quartos de hora se fundam numa gigante composição de retro-originalidade: uma espécie de redefinir do que exactamente significavam as visões do futuro dos anos 80 e as aspirações do que estaria para vir.

Tracklist:

  1. Visioning Shared Tomorrows
  2. Ant City
  3. Whisper Fate
  4. Onset (Escapism)
  5. Scissors
  6. Truth Flood
  7. Reality Drift
  8. Ascension Phase
  9. Salt Lake Cuts
  10. Seeing The Edges
  11. Flight Path
  12. Shutter Light Girl
  13. Vectoral
  14. As We Lie Promising
  15. Memory Rain

Harvest Breed.

05
Out
11

Novos Lançamentos: Real Estate – Days

De qualquer desafio que se possa colocar a uma banda numa altura em que o consumo musical é efémero e hiperactivo, nenhum poderá ser mais difícil de alcançar que a memória. Memórias de lugares onde estivemos ou julgamos ter estado, de situações que vivemos ou pensamos ter vivido. Música que passamos a associar a recordações que nem sempre parecem reais quando nos lembramos delas. O conceito de memória é tão vital na música dos Real Estate como em nenhuma outra banda actualmente, mesmo quando géneros musicais inteiros parecem ser formados e sobrecarregados à volta dele. Mas, afinal, o que faz desta banda alguma coisa de especial? O que é que a faz derivar da perigosa tangente que parece continuadamente estar a pisar com o nebuloso terreno do indie pop descartável? A sua inspiração sónica que nasce declaradamente das guitarras preguiçosas de Here, do disco de estreia dos Pavement, caminha em leve passada com a imagem slacker da época. Mas a música dos Real Estate não nos leva de volta a 1992. Tal viagem seria dispensável. De facto, ficamos com a cabeça em 2011 a perguntar se não será mesmo este o futuro do pop.

O seu disco homónimo de estreia conseguiu criar um lugar em que riffs pop e canções orelhudas se enrolam num manto de incerteza e confusão ordenada. Tão ordenada que seria capaz de produzir momentos como Suburban Beverage, onde um desenho aparentemente interminável de guitarras se construía para o ouvinte se lembrar sei lá do quê que aconteceu sei lá quando. É no meio dessa capacidade peculiar de puxar pela memória que os Real Estate chegam aqui, o antecipado/temido segundo álbum: Days. Contudo é a memória de Beach Comber, a abertura perfeita do seu disco homónimo, que nos vem à cabeça primeiro. Easy não afina pelo mesmo diapasão e, apesar do desvio sónico de Days ser mínimo em relação ao seu antecessor, o contraste entre os dois temas parece ilustrar a evolução desse mesmo desvio: os Real Estate estão uma banda mais directa e urgente, não perdendo tempo a evoluir de uma fantástica linha de guitarra para um refrão tenso carregado pela voz do seu vocalista habitual, Martin Courtney. Diga-se habitual, porque também na constituição os Real Estate estão diferentes, deixando para trás o invulgar e carismático baterista Etienne Pierre Duguay, mas com tarefas de composição aparentemente mais divididas, com Alex Bleeker, baixista a tempo inteiro, a ter direito a Wonder Years, um número directo e estranhamente propulsivo, só para si.

Ainda assim, Days adiciona ao catálogo dos Real Estate um cunho de maior versatilidade ao nível das imagens que evoca. Não mais nos é pintado um quadro de praia eterna e sol até à morte, por muito atraente que seja. Somos antes deparados com verdadeiras ‘curveballs’ como Green Aisles, talvez o maior exemplo de uma produção mais afinada que complementa a nostalgia declaradamente cinzenta das “wasted miles” e “aimless drives” e que acaba por sair vitoriosa (“our careless lifestyle, it was not so unwise”), ou Municipality, talvez a peça central de Days a par do fantástico single recuperado do ano passado Out Of Tune, a imagem das conduções nocturnas de um a complementar as “sharping knives” que cortam com a confusão e a desorientação de viagem. Não há, de facto, falta de momentos de viagem e de transição no disco, mostrando-se sempre adepto de ir mudando a passada dos acontecimentos conforme lhe dá na gana. Pela altura em que a regravada Younger Than Yesterday, já presente no EP Reality, aqui com uma roupagem mais polida e bem definida, a grande curiosidade acaba por ser a forma com que o álbum se projecta para a sua conclusão: uma espécie de filho bastardo de Snow Days e Suburban Beverage, All The Same entra nervoso e sai em cima de um coda periclitante, quase kraut, até que parece tomar o pulso de si mesmo e abrandar até à morte. Se há algo que se pode apontar a Days é a sua falta de tempo para pausar e abrandar como números como Suburban Dogs faziam no seu antecessor, mas não é por isso que a aura de confiança relaxada deixa os Real Estate em algum ponto deste disco. Apenas o torna num triunfo da continuidade e da clareza.

Tracklist:

  1. Easy
  2. Green Aisles
  3. It’s Real
  4. Kinder Blumen
  5. Out Of Tune
  6. Municipality
  7. Wonder Years
  8. Three Blocks
  9. Younger Than Yesterday
  10. All The Same

Harvest Breed.

29
Out
10

Novos Lançamentos: Curtas

Stereolab – Not Music

A longa e frutuosa história dos Stereolab traduz-se numa engalanada mistura de simplicidade, despretensiosismo e pura alegria. A sua música convém um sentimento de júbilo que se encontra em poucos outros catálogos, com a possível excepção dos galeses Super Furry Animals. Not Music é mesmo, acredite-se ou não, o som de uma banda no seu décimo-primeiro álbum de originais, uma série iniciada ainda no início dos anos 90. Não só surge em coincidência com o óptimo disco a solo de Laetitia Sadier, The Trip, como com um anunciado hiato da banda, e, não surpreendentemente, está impecavelmente bem produzido. Not Music acaba por ser uma reunião dos retalhos das sessões do bem humorado Chemical Chords, e acaba até por incluir desde material que provavelmente nunca seria editado (Equivalences) até remixes (no caso, dos Emperor Machine e dos Atlas Sound). Nunca uma banda para seguir as estruturas convencionais do pop, os Stereolab soam em 2010 terrivelmente fora do seu tempo. O que só os torna ainda mais apelativos. E o magnetismo deste Not Music mais difícil de resistir. A deliciosa Everybody’s Weird Except Me:

The War On Drugs – Future Weather EP

É raro que um frontman se torne tão mais popular que a banda que lidera em tão pouco tempo quanto Kurt Vile se tornou. Talvez por isso, o EP que anuncia o futuro lançamento do próximo disco de originais dos The War On Drugs seja tão intimamente ligado ao que Kurt Vile tem feito a solo. Esse trabalho tem sido, de facto, notável. A combinação ideal de drum machines, com riffs de guitarra ora expansivos ora delicados, com uma voz ora distante e desafectada ora remetendo para o cliché de rockeiro throwback, é agora passada para um formato mais orgânico com uma banda inteira num estúdio a sério. Desengane-se quem pensa que ouvirá aqui U2, mas Future Weather é um excelente aperitivo para o prato forte que se avizinha para o ano que vem. Diverso e equilibrado, a banda de Philadelphia descobriu aqui o seu lugar junto do trabalho de Kurt Vile. Baby Missiles, o single de apresentação é um número rock sem desculpas e com uma confiança quase Springsteeniana, quanto mais não seja pela triunfante linha de teclados que o lidera. Apesar da nova expansividade, os The War On Drugs também encontram harmonia nas composições mais aveludadas, como é o caso de Comin’ Through:

Roof Light – Kirkwood Gaps

Trabalhando no limbo entre a explosão do dubstep, o ambient, a renovação do IDM dos anos 90 e o hip hop instrumental de Flying Lotus e precursores, o produtor britânico Gareth Munday, sob o nome de Roof Light, tem lançado algum do material mais excitante e compenetrante que tem aparecido no meio ultimamente. Cortesia da one-man-label de Thorsten Sideboard, a Highpoint Lowlife, Kirkwood Gaps é o LP de seguimento a vários 7” e EPs de Munday que têm mostrado talento evidente para a gestão de vazios e silêncios na música, bem como uma particular apetência para a produção pouco convencional no campo da electrónica ou no de ambient. Apesar de tudo, há algo em Kirkwood Gaps que faz da estreia em LPs de Munday algo mais introspectivo e realizado como um todo. Iniciando de forma quase declaradamente relaxada e reunindo uma palete de sons subtis e herméticos, Kirkwood Gaps divide-se ocasionalmente entre uma abordagem em certas alturas mais delicada e noutras abertamente fria, como em Losing My Mind:

Harvest Breed.

17
Out
10

Novos Lançamentos: Donovan Quinn & The 13th Month – Your Wicked Man

Poderá ser argumentado que um dos grandes traços definidores da música folk é a qualidade, a riqueza e a subtileza dos arranjos. Num meio em que a escassez abunda, é muitas vezes a música que acaba por levar atrás a destreza composicional em vez do inverso. Os primeiros anos de Dylan deixaram a bitola para o folk mais simples possível, servindo-se apenas da guitarra acústica e da sua fiel harmónica. Mas essa não é, de forma alguma, a normalização estilística do folk. Percursores do lado oposto do Atlântico, como John Martyn ou Nick Drake, optaram por diversas abordagens, nas quais se incluiu a utilização do orquestral ou até a da inspiração jazz. Falo disto tudo porque essa é precisamente a questão essencial do segundo registo a solo do californiano oriundo de San Francisco, Donovan Quinn. Numa altura em que a focalização do folk actual acaba por residir na composição (e aqui poderemos falar de álbuns recentes por parte de The Tallest Man On Earth, Nathaniel Rateliff ou Cotton Jones), não deixa de ser refrescante ouvir algo tão preocupado e evidentemente trabalhado no domínio dos arranjos.

Nesse aspecto, Quinn, com os préstimos de The 13th Month, entre os quais se incluem Jason Quever dos Papercuts ou Karl Bauer (Axolotl), serve-se tudo desde os simples e delicados arranjos de cordas ou pianos até a teclados e sintetizadores que, nalguns casos, chegam a tomar de assalto a música em si. Não obstante, esta não é a primeira marca característica da música de Quinn. Essa honra recai na performance vocal do próprio Quinn em todo o registo. Com um estilo perfeitamente desinteressado e quase sonolento, evidente e notório praticamente desde o primeiro segundo, Donovan Quinn estabelece-se em oposição à entrega dramática The Tallest Man On Earth ou ao registo decidido e imponente de Nathaniel Rateliff. Talvez por isso, Mom’s House, acabe por ser o perfeito single de apresentação a Your Wicked Man, evidenciando logo à partida aquilo que Quinn faz de melhor.

O californiano compreende na perfeição aquilo que se pede num disco com estas características. Acima de tudo, a sua música precisa de saber como surpreender o ouvinte e cativá-lo para além dos seus limites. Numa simples composição como Mom’s House, é a linha de órgão no refrão que transporta uma melodia para o caminho do peculiar e a conduz num feel distintamente estranho. E isso é, sem dúvida, bom. O que é não é razão para desmerecer a força da composição neste disco. Your Wicked Man acaba por ter vários pontos altos sem que os faça corresponder com equivalentes enfadonhos. O tema título, de andamento curto e pequenos clímaxes, é um bom exemplo disso mesmo.

É exactamente isso que faz de Your Wicked Man uma experiência extremamente coerente e um dos álbuns mais gratificantes do ano. Um disco que sabe gerir ritmos e ambiências, com uma produção riquíssima e perfeitamente premeditada, e que leva a seu reboque uma composição honesta e comprometida.

Tracklist:

  1. Winter In A Rented Room
  2. Mom’s House
  3. Your Wicked Man
  4. April Tenth
  5. Street Fighting Girls
  6. The Door Locks Itself
  7. Leave Like You Came
  8. Sylvia And The Gremlins
  9. Red Corona
  10. Open Flame

Harvest Breed.

07
Ago
10

Novos Lançamentos: The Walkmen – Lisbon

Para bem ou para mal, o quarto disco de originais dos The Walkmen, You & Me, marcou talvez o período mais decisivo na história de dez anos da banda de Nova Iorque. Empilhada desde muito cedo com o revivalismo de rock de garagem pós-Strokes, a banda viu-se confrontada com os efeitos de dois álbuns desinspirados e que a retrataram como um conjunto cansado e esgotado. Nesse sentido, You & Me teve tanto de ambicioso como de arriscado. Mais extenso do que qualquer dos seus registos anteriores, You & Me soou mais formal do que tudo o que a banda já tinha editado e distinguiu-se pela introdução de uma belíssima secção de sopro, que não só complementou a sonoridade característica dos The Walkmen como ajudou a torná-la ainda mais única. Talvez por isso, o seu sucessor, alegremente intitulado de Lisbon, seja um reconhecimento disso mesmo da parte da própria banda. O sentimento geral de que finalmente os The Walkmen encontraram o seu ‘som’ é algo que se ouve a qualquer virar de esquina neste Lisbon. Alegadamente inspirado por duas viagens à capital portuguesa que ficaram marcadas pela intensa chuva de Dezembro, Lisbon está, ainda assim, longe de ser um disco conceptual sobre Lisboa, mas antes um pequeno tributo aos charmes da cidade.

Apesar disso, não se pode dizer que seja um disco com uma orientação única ou uma temática fixa, talvez como nunca nenhum outro registo da banda tinha sido. Aqui Hamilton Leithauser, uma espécie de protótipo do frontman ideal para qualquer banda alternativa, simultaneamente nos diz que ‘country air is good for me’, na faixa de abertura Juveniles, como desabafa que ‘there’s no life like the snow life’ em While I Shovel The Snow. Mais um dos bons efeitos de You & Me: a banda sente-se cada vez mais confortável para assumir outros mantos para além do da sua projecção invernal e cavernosa, um tanto à imagem de temas como Canadian Girl ou Seven Years of Holidays, em You & Me. E o manto de banda veraneante, ou o mais perto que uma banda como esta pode chegar a isso, fica-lhes bem. Ou pelo menos essa flexibilidade fica-lhes ainda melhor. Não será incomum encontrar em Lisbon alguns dos primos afastados de músicas que apareceram antes em You & Me. While I Shovel The Snow tem um sentimento semelhante a New Country, enquanto Stranded parece a continuação natural de um número mais formal como Red Moon e Victory de In The New Year. Ainda assim, Lisbon nunca soa a nada que se pareça a um retrilhar de um caminho já tomado. Tudo aqui está mais confiante e seguro de si mesmo do que em You & Me.

Juveniles, contudo, não se assemelha a nada que tenha aparecido em You & Me. Soando praticamente a The Walkmen em piloto automático, não deixa de ser impressionante a capacidade que a banda tem para fazer valer o seu talento de composição. Uma melodia vocal, a guitarra de marca registada de Paul Maroon e uma coda climática e subitamente os The Walkmen fizeram mais um grande tema. Juveniles é seguido logo por duas músicas que piscam o olho a Bows + Arrows de 2004: Angela Surf City é o mais agressivo e veloz a que banda chegou desde The Rat e Follow The Leader é um interlúdio a fazer lembrar What’s In It For Me?. A partir daí Lisbon chega ao seu coração. Blue As Your Blood, com o seu ritmo incessante e arranjos minimalistas, serve de contraste para a deslumbrante Stranded, que faz uso da tal secção de sopro com particular sucesso. A facilidade com que Lisbon se move de número em número é a prova do quão profissional ficou esta banda ao longo do anos com a sua sonoridade, agora mais que uma moda, uma marca de distinção. Talvez por isso, um tema como Torch Song impressione tanto. Começando em midtempo e explodindo aos soluços no refrão, são as harmonias vocais que concluem a música que exemplificam o que é na realidade esta banda: descobrir um som, não o deixar estagnar, evolui-lo e em última análise torná-lo ainda mais único. Contam-se pelos dedos de uma mão as bandas em actividade que o fazem com a qualidade dos The Walkmen.

Tracklist:

  1. Juveniles
  2. Angela Surf City
  3. Follow The Leader
  4. Blue As Your Blood
  5. Stranded
  6. Victory
  7. All My Great Designs
  8. Woe Is Me
  9. Torch Song
  10. While I Shovel The Snow
  11. Lisbon

Harvest Breed.

15
Jul
10

Novos Lançamentos: Menomena – Mines

No mundo musical troca-se de nomenclaturas como quem troca de roupa interior. Há pouco menos de 5 anos não havia banda que aparecesse que não fosse catalogada de indie rock. O indie rock era o princípio e o fim de todo o panorama musical. Apesar de tudo, poucos conseguiriam indicar os percursores do estilo, quando começou e quais os álbuns que definiram a sua existência. Contudo, desde Arcade Fire a Interpol, de The Strokes a Franz Ferdinand, tudo isto existiu e tudo isto foi indie rock, apesar de poucas dessas bandas terem efectivamente aparecido num contexto de uma editora independente ou sequer de poucas ou ainda menos fazerem rock no sentido lato da palavra. Mas eram indie rock. Hoje em dia, ninguém se consegue imaginar a colocar os dois termos em conjunção, indie e rock. Morto pelos blogues e pela panóplia de diferentes sonoridades que estes promoviam, o indie rock aparentemente subdividiu-se em incontáveis categorizações e nomenclaturas, fossem elas o chillwave, fossem o hypnagogic pop. A herança que o termo deixou acabou por ser confusa, mas também directamente associada com uma imagem específica que certas bandas tendem a passar em palco e na sua projecção mediática.

E sejamos honestos, essa imagem não é propriamente positiva e ficou afectada pela seriedade salvadora do mundo dos Arcade Fire, pelo poseurismo de fato de gala dos Interpol e por tantas outras que as próprias bandas entretanto renegaram. Talvez por isso não se dê suficiente importância a uma banda como os Oregonianos Menomena, oriundos da produtiva cena de Portland. Brent Knopf, agora também sob a designação Ramona Falls, Justin Harris e Danny Seim são músicos versáteis e imaginativos, mas o que mais surpreende é a facilidade com que dão uso aos recursos que regularmente utilizam em disco, sabendo dosear as ideias com a quantidade certa de arranjos, sejam vocais ou instrumentais. Depois do despertar para o reconhecimento de algum público com o óptimo Friend and Foe de 2007, lançam agora o seu esperado quarto disco, Mines. Despretensioso, calculado e directo, Mines é um disco rico em melodias e concentrado como nunca antes a banda tinha estado ao longo de um LP. Talvez pelo tempo que levou Mines a ser completado, este é um disco que dispensa o caos harmonioso de Friend and Foe em detrimento de uma proposta mais polida e em certos casos quase minimalista.

Peguemos na faixa de abertura Queen Black Acid como exemplo. Uma melodia vocal acompanhada por pouco mais que uma linha de teclado e por uma batida morosa de percussão, fazem um bom espelho introdutório para estes novos Menomena. Menos confusão, mais simplicidade, maior coerência. Se isso é necessariamente bom, que fique ao critério do ouvinte. Contudo, e como TAOS faz questão de deixar claro pouco depois, esta é uma banda que ainda sabe fazer números propulsivos quando quer, quanto mais não seja pelas constantes performances vocais de alta qualidade que consegue extrair de cada um dos elementos da banda que passam pelo microfone à vez. Mines faz-se, assim, de pequenos pormenores que ficam implantados na cabeça: a imprevisível introdução de Tithe, a fantástica linha de baixo em BOTE, o mini-solo de guitarra em Lunchmeat, o surpreendente breakdown funk em Oh Pretty Boy, You’re Such a Big Boy, o delicado fingerpicking em INTIL. Talvez uma banda destas viva agora no vácuo provocado pelo desaparecimento aparente da nomenclatura indie rock, mas os Menomena já resistiam a categorizações fáceis pela altura de Friend and Foe e até mesmo em discos anteriores. Nada disto soa especialmente ‘appealing’, como nos diz Tithe.

Tracklist:

  1. Queen Black Acid
  2. TAOS
  3. Killemall
  4. Dirty Cartoons
  5. Tithe
  6. BOTE
  7. Lunchmeat
  8. Oh Pretty Boy, You’re Such a Big Boy
  9. Five Little Rooms
  10. Sleeping Beauty
  11. INTIL

Harvest Breed.

21
Mai
10

Novos Lançamentos: Los Olvidados, Pt. 4

Lugar aos artistas menos badalados e mais merecedores, em Los Olvidados. Hoje:

  • Dignan Porch – Tendrils

Os Londrinos Dignan Porch, na sua estreia em LPs, fazem de Tendrils uma interessante mescla de lo-fi rouco, mas pouco exuberante, com as subtilezas do bedroom pop. Melódico, mas com muito por descobrir por baixo das profundezas das suas camadas sónicas.

  • Disappears – Lux

Quer-me parecer que na nova vaga do pós-punk moderno existem duas abordagens possíveis: uma cujo foco recai na dinâmica da sua secção rítmica e outra naquilo a que alguns chamariam de guitarras ‘angulares’. Lux, dos Disappears de Chicago, assinados pela Kranky, optam pela porta dois.

  • Dunebuggy – Suck Me Through A Flavor Straw

Mais uma proposta da fabulosa Night People. Os Dunebuggy chegam-nos de Iowa com uma abordagem em formato jam não muito afastada da matriz de uns Sun Araw com queda para o punk. Apesar disso, lado A e lado B desta cassete são propostas declaradamente diferentes e interessantes.

  • Edibles – Super Space/Mind Peace

À falta de melhor, vou usar uma palavra oca para descrever a cassete de estreia de Dewey Mahood sob o nome de Edibles na Fun Not Fun: transcendente. Super Space/Mind Peace é envolvente e viciante, mas em simultâneo relaxante e acalmante. Deixa antever muito mais.

  • Endless Endless Endless – Things I Saw

A última proposta da Kimberly Down são os improvisacionais Endless Endless Endless e o seu último CDR, Things I Saw. Tal como em Super Space/Mind Peace, Things I Saw preocupa-se sobretudo na construcção de um mood específico, desta feita servindo de recursos ainda mais variados.

Harvest Breed.

08
Mai
10

Novos Lançamentos: Los Olvidados, Pt. 3

Lugar aos artistas menos badalados e mais merecedores, em Los Olvidados. Hoje:

  • Caboladies – Kind Glaze 8”

Caboladies são o duo Eric Lanham e Chris Bush de Chicago e companheiros de viagem e de sonoridade do fabuloso Oneohtrix Point Never, com quem aliás já editaram um EP conjunto. Kind Glaze é uma singela amostra do que podem fazer. Curto, mas sempre interessante.

  • Cat Killer – Words To Remember EP

É quando ouvimos bandas como os Cat Killer, de Cleveland, que percebemos a importância de Ariel Pink no mundo do lo-fi. Words To Remember dispensa os efeitos vocais da sua referência, mas a sua aposta no lo-fi traz dividendos por estar revestida de uma composição forte.

  • Chris Rehm – Salivary Stones

O texano Chris Rehm disponibiliza tudo o que faz no seu myspace. E apesar de Salivary Stones, o seu mais recente LP estar auto-definido como drone pop, numa aparente contradição, a coisa acaba por fazer sentido dentro da sua abordagem intensa e quase ritualista.

  • Claw Toe – Ingrown Ego 7”

É difícil não concordar com a sua definição de myspace (“When drugs want to get high they take Claw Toe!”) quando ouvimos Claw Toe. Violentamente lo fi e agressivamente desinteressada, a música em Ingrown Ego usa batidas electrónicas com uma voz característica.

  • Cloud Nothings/Campfires – Split EP

Depois do triunfo pop que foi o seu álbum de estreia o ano passado, os Cloud Nothings voltam agora com um ataque sónico muito mais cru e confrontante. E ganham com isso, até porque as suas composições nunca estiveram melhores. Tudo isto complementa bem com a abordagem mais acústica dos Campfires.

Harvest Breed.

04
Mai
10

Novos Lançamentos: Los Olvidados, Pt. 2

Lugar aos artistas menos badalados e mais merecedores, em Los Olvidados. Hoje:

  • Balaclavas – Roman Holiday

Forçado a descrever este álbum dos texanos Balaclavas, eu diria que se trata de uma variante lo-fi do clássico pós punk. As vocalizações ao estilo de Ian Curtis casam bem com alguma da frieza que se tenta incorporar e o resultado é interessante.

  • Baths – Cerulean

Will Wiesenfeld, ou Baths, é mais um num panorama emergente de electrónica soluçante e desatenta que é normalmente associado a artistas como Flying Lotus. Mas Cerulean é tudo menos um disco de modas feito em cima do joelho, mudando de atmosfera a cada passo.

  • Beach Fossils – Beach Fossils

Apesar de estar composta por material já conhecido de quem os segue, a estreia dos Beach Fossils acabou por corresponder às altas expectativas e por ser aquilo que muitos já esperariam: o yin de Brooklyn de Beach Fossils para o yang de New Jersey de Real Estate.

  • Boas – Boas

Talvez esquecido depois do seu disco de estreia, Mansion, em 2002, Boas é  Tyler Newbold e em 2010 é um dos álbuns homónimos mais difíceis de categorizar. Casando elementos de chillwave com IDM, a electrónica insana de Clark ou shoegaze, a coisa surpreendentemente funciona.

  • Burning Star Core – Papercuts Theater

Muitos anos no meio garantiram aos Burning Star Core de C. Spencer Yeh e Jeremy Lesniak uma espécie de estatuto como heróis do drone e do noise. Como tal, Papercuts Theater, o seu último registo, intenso e propulsivo como sempre, será pouco falado, mas muito apreciado.

Harvest Breed.




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