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20
Jan
10

Crítica Musical

Praticamente desde o lançamento de Kid A dos Radiohead, simbolizando o virar do milénio com particular aptidão, que a revolução digital da última década tem alterado progressivamente o panorama da crítica musical a todos os níveis. Assistimos cada vez mais à curiosa tendência de redução drástica de críticos profissionais de música em simultâneo com o aumento vertiginoso de opinion makers amadores e independentes. Com todo o tipo música disponível a um clique de distância na internet, a crítica musical profissional deixa de ter o papel central que assumia, particularmente desde os anos 60, de informar o ouvinte sobre que nova música descobrir e o que esperar de futuros lançamentos de bandas já conhecidas do público.

A título de exemplo, podemos constatar que de 1978 a 1981, no auge da explosão do pós-punk na Grã-Bretanha, a tiragem média semanal da NME variava entre 200 mil a 270 mil exemplares, enquanto que no mesmo período de tempo as suas vendas, acrescidas às das revistas Sounds, Melody Maker e Record Mirror ultrapassavam os 600 mil, sendo que se levarmos em conta que o mesmo exemplar era geralmente lido por várias pessoas podemos concluir que  o número de pessoas que lia uma revista de música por esta altura largamente ultrapassava os dois milhões, apenas no Reino Unido. Comparando estes números aos actuais o quadro é desastroso para a indústria, pelo que a tiragem média semanal da NME se fica agora por volta dos 40 mil, representando menos de um quarto da tiragem no início dos anos 80. Com a possibilidade do download gratuito, o amante de música tem agora acesso sem precedentes a nova música, podendo fazer a sua própria apreciação sobre o que ouve de forma praticamente instantânea. Do mesmo modo, esta acessibilidade imediata faz de cada um de nós potenciais críticos musicais.

Tudo isto presenteia o exercício da crítica com novos e renovados desafios. Se por um lado, a crítica musical amadora é quase exclusivamente feita por amor à música e ao conteúdo, a crítica profissional enfrenta uma nova era corporativista na qual a análise marginal e a rentabilização de recursos assume um papel central (nalguns casos por uma lógica de sobrevivência financeira, noutros nem por isso). Em particular, publicações periódicas de algum enraizamento popular têm sentido o efeito pragmatista e tecnocrata com maior impacto. Desta forma, foram três os meios que mais conseguiram proeminência nos últimos dez anos: as publicações on-line profissionais, as publicações físicas de carácter mais comercialista e os blogs amadores. Cada uma delas sofre de virtudes e defeitos que lhes são praticamente inerentes.

Talvez a mais popular publicação on-line de música alternativa, a PitchforkMedia é um case study só por si. Igualmente objecto de desdém como de fidelidade da parte de leitores assíduos e de observadores casuais, a Pitchfork beneficiou do facto de ser virtualmente a única publicação alternativa com algum reconhecimento aquando da explosão do filesharing, e isso fez de si uma referência, independentemente da sua credibilidade, validade ou qualidade de escrita. Igualmente notável tem sido a sua evolução no que diz respeito a conteúdos, multiplicando-se em parcerias com multinacionais, desde a Haagen Dazs à American Apparel, e em cultivo da sua marca, para tal servindo-se de tudo desde um festival em seu nome até à promoção das suas listas de fim de ano. Ainda assim, procura vestir em permanência o manto do alternativo e do independente, paradoxalmente esforçando-se por maximizar a sua notoriedade.

Por muitas transformações de que seja alvo, a Pitchfork nunca deixará de lado a sua matriz de trend setter, uma publicação que, antes de mais, lida com a sua própria necessidade de ditar os gostos musicais dos jovens suburbanos, porque é precisamente aí que reside o seu core business; um core business que muitas vezes pode fazer a diferença entre popularidade e obscuridade. E isso molda de forma decisiva a sua escrita, tornando-a muitas vezes subserviente a determinadas sub-culturas considera serem populares, ou até pelo contrário, mais desafiante e petulante para com outras que obtêm críticas favoráveis noutros meios. No fundo, é este conflito entre objectividade crítica e moda/anti-moda que tem assegurado uma persistente queda na qualidade de escrita desta e de outras publicações na mesma linha.

Esta é uma contradição que acaba por se fazer sentir em várias das idiossincrasias particulares, não só da Pitchfork, bem como de publicações que seguem a sua linha de pensamento. Talvez a maior e mais evidente delas seja a obsessão com o estilo de vida que é conotado com as bandas, em detrimento da música em si. Isto não raras vezes redunda em críticas que referenciam repetidamente coisas desde encontros sociais entre o crítico e a banda até amizades pessoais que influenciam decisivamente a avaliação dos lançamentos. Apesar de na teoria não o ser, estas relações acabam por se basearem na reciprocidade; o crítico toma especial atenção ao músico na sua crítica e em troca é aceite por associação. Costuma-se dizer no futebol que o árbitro não deve ser o protagonista, mas este é um estilo particular de egoísmo que esquece a função principal do crítico e que se reflecte na própria crítica. Uma das formas que esta noção pode assumir é a de crítica conceptual, um estilo peculiar de texto que procura aludir ao disco que se critica por intermédio de uma história ou rábula. Este artifício está muitas vezes relacionado com alguma experiência pessoal do crítico e tem sido amplamente popularizado por publicações alternativas como um método falsamente original. Método este que inevitavelmente redunda em narcisismo literário. Mas o esforço para fazer do crítico personagem central na crítica não se fica por aqui, e muitas vezes passa mesmo por fulanizar a música ao ponto de se tirarem conclusões pessoais sobre os músicos, como acontece na crítica da Pitchfork a um disco de Oasis, na qual os irmãos Gallagher acabam catalogados como caricatura de uma “hedonistic rock star, head full of cocaine, bemoaning his lifestyle of promiscuous sex and striving for an easy quasi-spirituality”.

Não é incomum que a crítica musical convide ao facilitismo; um facilitismo que tem como principal recurso o sistema de pontuação de discos (reduzindo a crítica a um normativo teste de Matemática), que permite que o leitor seja dispensado da leitura da crítica em si e possa decidir-se com uma olhadela pelo score. Com efeito, este é um artifício utilizado por diversas publicações, muitas vezes como simples ilustração da própria crítica, mas que coloca outros problemas. Se é compreensível que se recorra a um sistema de cinco ou dez estrelas para ilustrar apenas se um disco é bom ou muito bom, deixa de o ser se usarmos uma escala com 100 possíveis combinações. Escalas desse tipo levantam o real problema de diferenciação, afinal qual é a diferença objectiva entre um 7.4 e um 7.5?; e de falta de contextualização, pelo que com um sistema deste tipo podemos estabelecer paralelos directos entre discos completamente distintos. Se o último disco de Girls conseguiu um score de 9.1 e a reedição de Let It Be dos Beatles conseguiu o mesmo nessa publicação, será que são álbuns que se equivalem em qualidade?

O que nos traz de volta ao problema de necessidade de afirmação, que observamos com cada vez mais frequência, até em Portugal. Este acaba por ser um mal que está directamente relacionado com a tecnocracia e a cultura do lucro que afecta muitas das publicações físicas que, com o passar do tempo e o aperto das vendas, cada vez mais se viraram para captar públicos mais generalizados, porventura menos interessados em música e mais nos protagonismos que de lá advêm, e que doutra forma não consumiriam publicações musicais com regularidade. A consequência imediata disto é a relegação da música em si e da sua crítica para patamares secundários em detrimento de temáticas mais lucrativas e gerais, como a cultura de fama. Um bom exemplo deste tipo de publicação mora aqui perto de casa, sob forma da bem portuguesa Blitz, actualmente a única publicação nacional de música com circulação geral.

Tendo começado quase como uma fanzine, a Blitz tinha um formato destemidamente independente, procurando dar a conhecer o que de melhor se fazia na música a nível internacional e promover bandas portuguesas pouco conhecidas. Assim, a Blitz foi-se gradualmente transformando no que é hoje: uma publicação pertencente ao Grupo Impresa de apelo geral que faz da música uma desculpa e não um motivo, que encontra na crítica musical um empecilho ao lucro e que assim a procura fazer dispensando o mínimo de recursos possíveis. O resultado óbvio e imediato é a incompetência geral que se banaliza nas críticas musicais da Blitz, que vai desde simples erros factuais até declarações de efectivo desconhecimento musical. Tudo isto é legítimo porque se legitimou a natural procura do lucro como motivo principal de existência da revista em si, da mesma forma que se legitimou a necessidade de afirmação de liderança de opiniões no caso da Pitchfork.

A crítica musical hoje em dia não pode ser entendida como era no passado. Actualmente, as pessoas não olham para as publicações musicais para saber se o próximo disco da sua banda favorita é bom ou não, ou para saber que outras bandas é que apreciariam dentro dos seus gostos. Essas funções acabaram por se anular no imediatismo da internet. Para quê a opinião de críticos sobre o novo disco da minha banda favorita a sair brevemente se o posso simplesmente ouvir à borla na internet?

A crítica amadora em publicações on-line, como esta, não é motivada por outras razões que não o puro e simples amor à música, mas sofre de problemas de palmatória. Raramente, e como é o nosso caso, tem formação específica para poder falar com autoridade do estado da música ou dos últimos lançamentos ou até pode alegar experiência para avaliar fenómenos de cultura pop no seu próprio contexto. Os blogs, contudo, servem na sua maioria para divulgar e dar a conhecer novos valores, como tal, só os conhece quem activamente os procura. A crítica musical hoje tem de responder à ameaça de se tornar efectivamente irrelevante. E pode fazê-lo promovendo bandas menos reconhecidas, resistindo à tentação de catalogar e etiquetar e de comparar e equivaler, mas também o faz evitando autoproclamar-se como farol do bom gosto musical.

Harvest Breed.

28
Dez
09

Guest list: os melhores de 2009

Este ano, decidimos publicar (para além das nossas usuais listas de lançamentos preferidos) as escolhas de 3 melhores discos de 2009 de 5 músicos de bandas portuguesas, acompanhadas com um comentário breve dos mesmos. Em nenhuma ordem em particular, apresentamos…

Ben (Triplet)

Julian Casablancas – “Phrazes for the Young”
“Julian neste disco ergue o peito, mas mantem-se cabisbaixo ao mesmo tempo. Ou seja da um passo firme, mas sem perder tudo o que o caracteriza.Uma produção des-polida, na tradição Strokes, com sintetizadores analógicos, e caixas de ritmos por todas as equinas, mesmo quando de uma canção folk se trata. Um pouco como a moda. Julian re-inventou a roupa que todos já conhecemos e usamos, e voltou a torna-la relevante. Os anos 80 vieram pra ficar.”

Muse – “The Resistance”
“Sou um sucker por Muse, e está tudo dito. Este disco tem tudo o que os Muse fizeram até hoje, com esteróides.”

Iconoclasts – “Iconoclasts EP”
“Infelizmente no meio de dezenas e dezenas de grupos portugueses a cantarem em inglês, é raro encontrar quem o faça condignamente, e o inglês cantado deste menino e menina, é irrepreensivel. Atitude, texturas, guitarras cheias de efeitose de “tone”, baterias urgentes, batidas electrónicas e uma excelente produção.”

Os Triplet (http://www.myspace.com/triplet) são uma das bandas de punk mais relevantes da zona de Cascais, sendo que as suas performances ao vivo são algo que roça o estatuto de lendário. Estão neste momento a trabalhar num novo disco.

Bernardo Pereira (Ella Palmer/White Rabbit To Follow)

Porcupine Tree – “The Incident”

“Embora os pontos altos deste álbum aparentem ficar aquém dos anteriores, continua a ser o álbum por que esperei o ano inteiro. Mais um diamante bem polido da banda prog com o sentido estético mais refinado das últimas décadas.”

One Hundred Steps – “Human Clouds”

“O álbum de estreia agressivo e emocional dos setubalenses pode passar ao lado de muita gente, mas não de quem o ouve. Vamos todos juntar as mãos para que 2010 traga menos Florcaveira.”

Mastodon – “Crack The Skye”

“Serem catapultados para o odiável semi-estrelato não afectou a maneira muito especial dos Mastodon de fazer metal. Concentração histórica de bons riffs e refrões.”

O Bernardo diz-nos que oficialmente morreu para o indie. Os Ella Palmer estão neste momento a promover o seu álbum de estreia, que conta com a participação de um dos membros de Men Eater (www.myspace.com/ellapalmer); os The White Rabbit To Follow (http://www.myspace.com/thewhiterabbittofollow) são um projecto novo que também conta com a participação do Bernardo.

Gonçalo Duarte (Porn Sheep Hospital)

Mastodon – “Crack The Skye”

“É dos albuns mais épicos que ja ouvi. Tudo neste album tem um conceito marado e imensos simbolismos.”

The Number 12 Looks Like You – “Worse Than Alone”

“Só os ouvi com atenção depois de os ver ao vivo no Porto e são todos músicos brutais. Ouvia este cd todos os dias a caminho da escola. Pena terem acabado R.I.P.”

Kidcrash – “Snacks”

“Com este album os kidcrash estão muito menos caóticos e muito mais melódicos. É uma mistura um indie rock progressivo com screamo ambiente. 1337!”

Os Porn Sheep Hospital (http://www.myspace.com/pornsheephospital) são uma promessa importante do hardcore da zona do Barreiro/Setúbal. E têm um nome mais bizarro na música portuguesa moderna.

Luís Jerónimo (The Ti Maria)

Grizzly Bear – “Veckatimest”
“Foi provavelmente o album que mais ouvi este ano, e parece-me melhor cada vez que ouço. É um album perfeito, portanto…”

St. Vincent – “Actor”
“É lindo do inicio ao fim! A senhora Annie é uma grande instrumentalista, “Marrow” é para mim a música do ano.”

Phoenix – “Wolfgang Amadeus Phoenix”
“Resumidamente é divertido, é pop, é orelhudo e eu gosto!”

Os The Ti Maria (http://www.myspace.com/thetimaria) são uma referência na cena de indie pop de Leiria, e uma das bandas mais prolíficas da zona Oeste.

João Rodrigues ( The Doups)

The XX – “xx”

“Este é para mim o melhor álbum do ano. Uma autêntica lufada de ar fresco. O álbum é cru como tanto gosto, é melódico e é absolutamente simplista. Fascinante!”

White Lies – “To lose my life”

“Excelente disco. Todas as músicas nos tocam. São Catchy, são negras… Os refrões entram no ouvido e só saiem uma semana depois.”

Julian Casablancas – “Phrazes for the young”

“Escolho este album por ter sido uma grande surpresa. Sou fã  de Strokes e decidi ouvir os projectos a solo de todos os elementos. Este álbum foi para mim o mais bem conseguido sendo uma evolução do álbum “First Impressions of earth” (The Strokes). Melodias extremamente ritmadas e uma voz que encaixa na perfeição.”

Os The Doups (http://www.myspace.com/thedoups) são um dos nomes mais falados do indie rock “britânico” da Margem Sul. 2009 foi um bom ano para eles (tendo inclusivamente aberto o concerto dos Franz Ferdinand este ano no Campo Pequeno) e prometem subir ainda mais a notoriedade com o álbum de estreia, para sair na Primavera de 2010.

Which Will.

26
Out
09

Sintetizadores e Heróis

Nos cerca de 2 anos de existência do Volume/Tone, o nosso post mais popular e procurado é de longe (e para nossa grande perplexidade) o “Guitarras e Heróis”. Para comemorar essa perplexidade, decidimos fazer algo na mesma linha sobre o instrumento que o guitarrista vulgaris mais desconfia: o sintetizador. Na maioria dos casos, os músicos não sabem muito sobre sintetizadores; mesmo que os usem esporadicamente, muitos desconhecem a história, os modelos, e exactamente quais foram as ideias por detrás da criação deles. Contrariamente ao que se crê, não é preciso uma licenciatura em Engenharia para poder operar um sintetizador… Ou compreender a sua evolução. Vamos falar sobre 9 modelos e instrumentos da família do sintetizador que foram importantes para a história do instrumento, mencionando para cada um exemplos de canções onde tiveram uso destacado.

Theremin

Ano de introdução: 1928

Fabricante: Leon Theremin

O Theremin foi o primeiro verdadeiro instrumento electrónico. É um dispositivo rudimentar, que usa apenas duas antenas para o músico controlar o volume e a frequência (a nota). O instrumentista toca o Theremin sem lhe fisicamente tocar na realidade, apenas movendo as mãos pelo ar perto de cada antena. Não é um instrumento sofisticado ou versátil, mas tem um som bonito e característico quando bem tocado. Foi frequentemente usado nas primeiros filmes de Hollywood sonorizados, normalmente para criar ambiências assustadoras.

Momento Musical: The Beach Boys – Good Vibrations [refrão]

Mellotron M400

Ano de introdução: década de 60

Fabricante: Mellotronics Inc

O Mellotron, ao contrário do Theremin, tem um teclado e por isso é muito mais imediato e intuitivo. Na realidade, cada tecla faz tocar uma fita com um som previamente gravado, o que faz do Mellotron um dos avôs do sampler moderno, sendo apenas um (importante) tio-avô afastado do sintetizador. O seu timbre doce e natural tornou-se muito desejável e distinto, quer pelos seus sons de coros, de cordas ou de flautas. Encontrou um nicho particularmente adepto entre os músicos de inclinação psicadélica, chill out e pop.

Momento Musical:

The Beatles – Strawberry Fields Forever [flautas; introdução da música];

Kraftwerk – Trans Europe Express [cordas; introdução da música]

Moog Modular Systems

Ano de introdução: 1964

Fabricante: Robert Moog, Moog Music Inc

Robert Moog desenvolveu os primeiros animais complicados a poderem verdadeiramente chamar-se sintetizadores. A ideia do sintetizador era de ser o instrumento musical perfeito – tão versátil, aberto e configurável que poderia sintetizar qualquer som na natureza ou na nossa imaginação (daí o nome). Obviamente que na prática não conseguia imitar nada de uma maneira muito convincente. Um sistema modular em ‘64 parecia uma central telefónica de cabos, ligando uns módulos a outros – cada utilizador decidia os módulos que queria e como os queria ligados. Muito complexos, muito grandes, muito caros e muito pouco práticos, os sistemas modulares de Moog tiveram usos praticamente apenas na música experimental e conceptual de um punhado de visionários da altura.

Momento Musical: Wendy Carlos – Switched-On Bach [totalidade do disco]

Minimoog

Ano de introdução: 1971

Fabricante: Robert Moog, Moog Music Inc

O Minimoog é provavelmente o sintetizador mais desejado, clonado e imitado na história da música. Foi o primeiro sintetizador portátil, barato e simples vendido em massa – a primeira vaga de música electrónica foi feita ao som de Minimoogs. Para além de ser imediato, acessível e barato, tem um som extremamente musical e delicado. Deixou de ser fabricado em 1980, altura a partir da qual passou a valer fortunas loucas no mercado de 2ª mão.

Momento Musical: Pink Floyd – Shine On You Crazy Diamond (Part 6) [solo ao ínicio]

Korg MS-20

Ano de introdução: 1978

Fabricante: Korg

O MS-20 é a versão da Korg de um Minimoog, misturado com um sistema modular – é um sintetizador pequeno, barato e imediato, mas permite ligar as suas partes diferentes com pequenos cabos da maneira que quisermos. Tem um som bruto e agressivo, e o facto de permitir alguma flexibilidade de ligações tornou-o o sintetizador de eleição para uma geração de pseudo experimentalistas e projectos de electrónica mais violenta (como Prodigy, The Faint ou Nine Inch Nails).

Momento Musical: Mr Oizo – Flat Beat [maioria dos sons da música, incluindo voz de Eric]

Roland Juno 60

Ano de introdução: 1982

Fabricante: Roland

O Juno 60 foi um dos primeiros sintetizadores polifónicos comercialmente disponíveis, permitindo que agora se pudessem fazer acordes (tocar mais de uma nota em simultâneo) com sintetizadores (polifonia de 6 notas simultâneas, no caso do Juno 60). Tem um som geralmente sedoso, fluido e macio, e tornou-se rapidamente popular durante os anos 80 para criar ambiências etéreas e agudas (que tanto notabilizaram artistas como Human League, Eurythmics ou The Cure, e mais recentemente Junior Boys, Air e Phoenix).

Momento Musical: The Cure – Just Like Heaven [refrão]

Roland TB-303

Ano de introdução: 1982

Fabricante: Roland

O TB-303 foi inicialmente um produto com uma premissa muito aborrecida: foi feito para acompanhar guitarristas que estivessem a praticar sozinhos e precisassem duma linha de baixo (TB significa Transistorized Bass). Tinha um som muito abrasivo, cortante e definido, devido a características invulgares das suas configurações. Não teve de todo uma recepção entusiasmada do mercado de guitarristas (foi retirado do mercado após apenas 18 meses), mas os músicos que criaram o que mais tarde viria a ser chamado de House Music adoptaram-no como um instrumento essencial pelo seu som único (o termo Acid de Acid House advém de uma descrição do som do TB-303 em acção). Hoje em dia, o aparentemente tosco e diminuto TB-303 é visto como uma espécie de Santo Graal do produtor de House, e não só.

Momento Musical: LCD Soundsystem – Get Innocuous [linha de baixo; destaque entre 05:50 e 06:15]

Yamaha DX-7

Ano de introdução: 1983

Fabricante: Yamaha

A história do DX-7 foi totalmente a oposta do TB-303. Quando saiu, a Yamaha anunciou a sua nova forma de síntese de som FM (Frequency Modulation) como o som do futuro dos sintetizadores. De facto, na altura produzia sons absolutamente fenomenais em comparação com os outros sintetizadores que usavam sintese subtractiva tradicional: graves muito sólidos, agudos capazes de partir vidros e uma capacidade muito boa para imitar pianos eléctricos. Na altura todos os teclistas compraram um DX-7, tornando-o um dos sintetizadores mais vendidos de sempre. Contudo, rapidamente se percebeu que a síntese FM era muito pouco intuitiva e um pesadelo para programar. Durante os anos 80 ouviram-se todos os seus sons de fábrica pré-programados nos tops (daí que seja injustamente visto como o teclado responsável pelo som azeiteiro dessa década), e depois caiu em desgraça por não se conseguir tirar mais dele. Hoje em dia o DX-7 é um punchline de anedotas entre teclistas, e encontra-se no mercado de 2ª mão por tuta e meia.

Momento Musical: Sade – Smooth Operator [uso do som de fábrica de piano eléctrico]

Access Virus

Ano de introdução: 1997

Fabricante: Access

O Virus foi um dos primeiros sintetizadores puramente digitais a conseguir imitar convincentemente os sons dos sintetizadores analógicos tradicionais. Os sintetizadores digitais (ou virtualmente analógicos, como os departamentos de marketing lhes preferem chamar) encontraram no Virus uma capacidade razoável para imitar Minimoogs, TB-303’s e outros. Justamente por não ser analógico mas sim uma imitação computarizada de tal, é mais barato, mais robusto e mais fiável do que os sintetizadores que tenta emular. A Access foi melhorando o Virus ao longo dos anos até ao presente, sendo que a versão actual é muito sofisticada, versátil e dispendiosa. Em vários aspectos, oferece opções de configuração altas e impossíveis para os sintetizadores analógicos velhinhos que imita. Quase todos os músicos profissionais na electrónica de hoje em dia usam ou já usaram um Virus, nem que seja só ao vivo. Contudo, o purista nunca aceitou (e provavelmente nunca aceitará) que algum dispositivo digital jamais consiga imitar o timbre orgânico, rico e colorido de um sintetizador verdadeiramente analógico. Esta é, aliás, talvez a maior de divisão de opiniões entre os entusiastas de sintetizadores: os pró-analógico e os pró-digital.

Momento Musical: Nine Inch Nails – Only [riff principal]

A história dos sintetizadores dava livros de informação, e é impossível falar aqui de todos os sintetizadores fenomenais que chegaram às mãos dos músicos. Entre outros, vale a pena mencionar o ARP 2600, os sistemas Oberheim e Buchla, o PPG Wave, o Yamaha CS-80 (usado por Vangelis em todo o seu esplendor na banda sonora do filme Blade Runner), o Roland SH-101, o velhinho Ondes Martenot (tão preferido por Jonny Greenwood), o Sequential Circuits Pro-5 e o Roland TR-808 (gerador dos sons de percussão mais queridos na música electrónica).

Objectivamente, os sintetizadores tiveram uma história e desenvolvimento muito ricos e interessantes. Nesse aspecto, os teclistas foram muito mais corajosos e desejosos de novidades do que guitarristas ou baixistas, que continuam a usar tecnologias de 1940. A NME, em 1978, famosamente publicou um artigo em que o autor se escandalizava por saber que havia uma banda alemã chamada Kraftwerk que usava máquinas para gravar toda a sua música. Poucos anos depois, Depeche Mode, OMD e Gary Numan subiriam ao palco do Top Of The Pops sem medo de dizer que achavam o sintetizador mais divertido, mais fácil e mais excitante do que guitarras e baixos.

O sintetizador cativou, desde as suas origens, as imaginações de incontáveis músicos que quiseram não só criar melodias do nada, mas também criar sons e timbres do nada, que sejam seus e únicos. O reputado músico alemão Oskar Sala uma vez ilustrou bem as potencialidades do sintetizador: “sou apenas um pianista; infelizmente não sou um teclista”.

Which Will.

04
Out
09

A Autenticidade Na Música Moderna, Pt. 2

Nas primeiras décadas da música pop/rock, 50 e 60, a noção de valor artístico estava maioritariamente associada a sucesso comercial. Nos anos 60, os The Beatles eram melhores do que os The Searchers e o facto de que os fab four vendiam muito discos servia de prova disso. Contudo, esta maneira dos ouvintes abordarem a música começou a desaparecer com o surgir do punk em 1976/77 e terminou definitivamente com o pós-punk/new wave que lhe seguiu. Com o punk, criou-se pela primeira vez na música um sentimento de “anti-sistema” – que com o pós-punk/new wave conheceu (dependendo da banda), uma face mais politizada, mais filosófica, mais visual ou mais artisticamente desafiante. Em muitos aspectos criou-se a ideia de que romper com a tradição é louvável, mas que um bom músico deve ser sempre um estóico guerrilheiro a perseguir a sua visão musical. E como qualquer guerrilheiro, o bom músico tem inimigos poderosos: os fakes, os posers, os miúdos da cena, os que veêm a música como um veículo para fama, aceitação ou fortuna.

O sentimento que o punk gerou nos anos 70 teve um enorme efeito bola de neve. Se os anos 90 já foram fartos em perseguições McCarthyescas sobre autenticidade musical (quem não se lembra das grandes guerras entre Blur e Oasis, Nirvana e Pearl Jam), então os anos 00 foram o culminar da paranóia. Hoje em dia, uma banda de música alternativa pode perder 1/3 da sua base de fãs se assinar por uma editora grande, se lançar um álbum com uma produção mais cuidada, se um dos seus membros começar a namorar uma actriz famosa. Bono, um dos vocalistas mais diplomáticos, icónicos e filantropos em actividade, é quase unanimemente vexado e ridicularizado por bandas pequenas. Tudo isto porque é uma traição imperdoável o estóico guerrilheiro ser (ou no caso de Bono, transformar-se) num burguês conformado.

O altar da autenticidade musical é uma falácia. Instalou-se um clima de hostilidade e competitividade em que se uma banda, pelo seu valor, começar a vender muitos discos e obter merecida notoriedade, os fãs que a elevaram vão aliená-la por isso. Na realidade, os músicos são apenas peões na guerra pela autenticidade. Os verdadeiros combatentes são alguns dos ouvintes, que procuram sempre a banda mais subversiva, mais desconhecida ou mais paupérrima para se usarem dela – para fazerem a sua autenticidade da autenticidade dela. E depois a descartarem.

Which Will.

02
Out
09

A Autenticidade Na Música Moderna

É quase escusado afirmar que a música seria hoje um lugar diferente se vivesse fora dos limites do culto da autenticidade que tem fomentado praticamente desde o aparecimento do conceito de música pop no século passado. Mas até que ponto podemos classificar música autêntica acima ou abaixo de algo mais abstracto ou inorgânico? Partimos do pressuposto que artistas com experiências de vida mais variadas partem em desvantagem em relação a artistas com vivências mais privilegiadas ou enfadonhas, simplesmente porque são presenteados com mais substância que poderão transmitir com autenticidade para a sua música. Não é uma noção recente, mas é uma preocupação crescente, não só de fãs de música, mas também, e talvez sobretudo, da indústria musical. Ela pode ser vista como uma consequência da rentabilização da música pop, onde cada vez mais os artistas mais populares são vistos com desconfiança, e até da necessidade de individualização e afirmação pessoal dos consumidores. Desde o aparecimento do real lucro na música que a autenticidade é cada vez mais prezada e glorificada. Mas a preocupação com o tema sempre pareceu encobrir a indústria discográfica como se de um fantasma se tratasse: fosse na promoção de artistas negros de proeminência country ou blues do virar do século XIX que apelavam a um público branco aristocrata pelos temas que abordavam na sua música, desde mulheres ao álcool, passando pela pobreza e até pelo racismo, fosse na exposição de fabricações artísticas em particular nos anos 90 com o único propósito de lucrar, há uma página que se vira no meio disto tudo.

Enquanto que a obsessão pelo autêntico parece ter deixado o pop algures no século XX, também passou a assumir um estigma significativo em comunidades musicais mais alternativas e impermeáveis. É impossível não associar esta mudança ao aparecimento dos downloads e do filesharing ao virar do século. A quebra de receitas de grandes conglomerados ligados à promoção da música obriga a maior critério daquilo que poderá ser considerado lucrativo do que tem acrescido potencial de risco, o que à partida invalida que mais barreiras sejam impostas a um meio que cada vez mais pede cada vez menos entraves. Por outro lado, é impossível não fugir ao sufocante clima de competitividade pela autenticidade que se vive nos meios mais alternativos. Um dos exemplos mais interessantes deste estigma talvez recaia no aparecimento dos nova-iorquinos Vampire Weekend, primeiro nos círculos alternativos, depois na sua mainstreamização e a acabar na sua reavaliação de méritos de novo como banda alternativa. Aparecendo na cena musical nova-iorquina constituídos por ex-membros dos mais respeitados Dirty Projectors e gabando-se das suas influências africanas, a banda tem a peculiaridade de contar com um passado privilegiado que opta por transpor em letras críticas de comportamentos elitistas e aristocráticos. Com a sua crescente popularidade, este passou a ser um sério problema para a banda nos círculos alternativos, críticas estas que continua a refutar. Mas mais do que pretendem transmitir nas suas letras, a sua imagem consegue mais impacto junto dos críticos, e fomentando essa imagem, a banda transparece incongruência, artificialidade e aproveitamento mediático.

Não é, portanto, de estranhar que o conceito de ‘sell out’ se tenha banalizado no discurso dos fãs de música. A primeira vez que ouvi estas palavras de alguém dentro do meio musical foi pela boca de Kurt Cobain, referindo-se aos seus conterrâneos Pearl Jam que acusava de tentarem capitalizar na histeria colectiva pelo grunge ao optarem por uma versão suave, mainstreamizada e assim inautêntica do estilo, e na altura foi suficientemente polémico para forçar pessoas a decidirem com quem estavam de acordo. Desde então, o termo tem sido utilizado com crescente liberalismo: seja por uma banda de créditos reconhecidos no meio alternativo assinar um contrato com uma etiqueta de grande dimensão, seja por optar por sonoridades mais imediatamente reconhecíveis como música popular, seja por colaborar com artistas mainstream ou até por disponibilizar temas para efeitos publicitários. A autenticidade deixou de ser o assunto tabu que era em boa parte do século passado, onde na realidade se uma banda ou um artista vendia, a leitura óbvia era a de que o público, generalizado ou não, lhe reconhecia mérito, e daí o assunto não passava, para passar a ser tema de bandeira de nichos da comunidade musical ou de invocação corriqueira, quer para fãs quer para publicações. Seja porque Justin Vernon, Bon Iver, compôs um disco belíssimo numa cabana no Wisconsin sobre uma antiga relação, seja porque artistas ou bandas como Liz Phair ou Kings Of Leon lançam discos de apelo mainstream renegando aquilo que lhes notabilizou nos círculos arternativos, a noção de autenticidade aparece cada vez mais com uma dupla conotação: ora a de instrumentalização responsabilizadora, acusatória e elitista, ora a de advertência para a despersonalização da música e a santificação da composição de letras.

A consequência primária é o assumir de um papel avaliador e avalizador de intenções, carácter e motivos da parte dos artistas, pela crítica musical. Deixando de se resumir à análise do conteúdo musical, a crítica chama para si, mais do que nunca, a responsabilidade de garantir que a música com que lida não se cinja a um conjunto de sons, mas antes a um conjunto de sons reproduzidos por determinados músicos com intenções específicas, carácter específico e vivências muito particulares. O que só por si não será um resultado inesperado de uma sociedade observadora como a nossa, mas que na verdade até conduz a uma aproximação crescente e constante dos artistas que descobrimos e ouvimos na rádio ou na internet. E aqui reside o aspecto ainda mais pessoal do conceito de autenticidade. Quando a noção de estrela de rock caiu por terra algures nos últimos 20 ou 30 anos e passou a ser apenas conferida a algumas figuras acima de qualquer discussão, passou a recair o ónus no músico para ser autêntico e genuíno também ao nível do cada vez mais frequente contacto com a sua fanbase. No meio disto tudo, esta é mais uma área em que a indústria discográfica acaba por fazer o papel de intermediário e até de empecilho.

Harvest Breed.

27
Jun
09

Os 20 Álbuns Que Marcam 2009

  1. Grizzly Bear – Veckatimest
  2. Animal Collective – Merriweather Post Pavillion
  3. Dirty Projectors – Bitte Orca
  4. St. Vincent – Actor
  5. Bill Callahan – Sometimes I Wish We Were An Eagle
  6. Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix
  7. Bat For Lashes – Two Suns
  8. The Horrors – Primary Colours
  9. Future Of The Left – Travels With Myself And Another
  10. Sunset Rubdown – Dragonslayer
  11. Fever Ray – Fever Ray
  12. The Strange Boys – … And Girls Club
  13. Lindstrom & Prins Thomas – II
  14. Super Furry Animals – Dark Days/Light Years
  15. Micachu And The Shapes – Jewellery
  16. Japandroids – Post-Nothing
  17. The Intelligence – Fake Surfers
  18. Tim Hecker – An Imaginary Country
  19. The Field – Yesterday And Today
  20. Sky Larkin – The Golden Spike

Menções Honrosas:

  • Here We Go Magic – Here We Go Magic
  • Bowerbirds – Upper Air
  • Marissa Nadler – Little Hells
  • Ganglians – Monster Head Room
  • Clark – Totems Flare
  • Manic Street Preachers – Journal For Plague Lovers
  • Foreign Born – Person To Person
  • Lotus Plaza – The Floodlight Collective
  • Neon Indian – Psychic Chasms EP
  • The Antlers – Hospice
  • Passion Pit – Manners
  • Harvest Breed.

    21
    Mar
    09

    Álbuns Para Todas As Estações

    Inverno

    • Doves – Lost Souls
    • Women – Women
    • Liars – Drum’s Not Dead
    • The Twilight Sad – Fourteen Autumns And Fifteen Winters
    • Marissa Nadler – Little Hells

    Primavera

    • Augie March – Strange Bird
    • Animal Collective – Merriweather Post Pavillion
    • Air – Moon Safari
    • The Flaming Lips – Soft Bulletin
    • Shugo Tokumaru – Exit

    Verão

    • Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix
    • Reigning Sound – Too Much Guitar
    • Wilco – Summerteeth
    • The Exploding Hearts – Guitar Romantic
    • Cap’n Jazz – Analphabetapolothology

    Outono

    • Super Furry Animals – Fuzzy Logic
    • Built To Spill – Perfect From Now On
    • Grizzly Bear – Veckatimest
    • Mansun – Six
    • Hauschka – Ferndorf

    Which Will.

    24
    Fev
    09

    Balanço do Ano

    Apesar de muito equilíbrio na qualidade, 2008 apenas produziu uma mão cheia, ou algo lá perto, de discos verdadeiramente grandes e memoráveis, situação essa, que em apenas dois meses de 2009 se parece estar a alterar já com vários lançamentos de qualidade muito apreciável e um ou outro que parecem ter o potencial de se virem a tornar clássicos na década. É certo que, à partida para 2009, dois álbuns parecem elevar-se como grandes protagonistas do ano: o já muito antecipado e já justificando todo o hype que se gerou à sua volta, Merriweather Post Pavillion dos Animal Collective, e Veckatimest, o terceiro registo dos Grizzly Bear, ainda uma incógnita, é certo, mas que promete ser um dos álbuns mais inventivos do ano. Seja como for, já aqui no Volume/Tone revimos alguns dos bons discos de 2009, e talvez seja altura de fazermos o ponto da situação de dois meses promissores em 2009, por ordem alfabética:

    Andrew Bird – Noble Beast

    Muito antecipado sucessor do espantoso Armchair Apocrypha é mais acústico e íntimo que o seu antecessor, menos consistente, mas com momentos de brilhantismo que só podiam vir pela mão de Bird.

    Animal Collective – Merriweather Post Pavillion

    Já revisto num post anterior.

    Asobi Seksu – Hush

    Já revisto num post anterior.

    Bat For Lashes – Two Suns

    Segundo álbum da precursora moderna de Kate Bush a mostrar que a digressão com os Radiohead revelou uma Natasha Khan sombria e introspectiva, com momentos de pura genialidade a condizer com a dupla personalidade.

    Beirut – March Of The Zapotec / Realpeople – Holland EP

    Descrito como gravações do estado de Oaxaca, March Of The Zapotec e Holland é um disco de duas faces: a típica beleza tradicionalista de Beirut de Zach Condon e pop electrónico e doce em Holland… de Zach Condon.

    Black Dice – Repo

    Mais um disco da face mais experimental dos espíritos irmãos de Animal Collective em Brooklyn. Repo acaba por ser consideravelmente mais denso que o seu antecessor, Load Blown, mas não desilude.

    Cymbals Eat Guitars – Why There Are Mountains

    Expansivo e irrequieto, Why There Are Mountains soa a uma versão orquestral e frenética de um Lonesome Crowded West ou de um Surfer Rosa, sem soar excessivamente derivativo na voz de Joseph D’Agostino.

    Dan Deacon – Bromst

    Seguindo na linha de Spiderman Of The Rings, o novo de Dan Deacon é consideravelmente mais épico e menos balanceado para a produção de singles do que para a tradicional electrónica frenética característica de Deacon.

    Elvis Perkins In Dearland – Elvis Perkins In Dearland

    Com um feel decididamente retro, poucos álbuns folk este ano serão tão abertamente divertidos quanto Elvis Perkins In Dearland, sem necessidade de quebrar barreiras e inovar ditames sónicos.

    Emeralds – What Happened

    Psicadélico e abstracto em várias partes, What Happened dos Emeralds é uma máquina do tempo de volta aos drones e ambientes sombrios de uns Tangerine Dream.

    Fanfarlo – Reservoir

    Muito esperado e injustamente ditado por alguns como excessivamente derivativo de Arcade Fire, os anglo-suecos Fanfarlo fizeram uma agradável estreia com Reservoir, comandados aos controlos por Peter Katis (The National, Interpol).

    Fever Ray – Fever Ray

    Já revisto num post anterior.

    Franz Ferdinand – Tonight: Franz Ferdinand

    O novo de FF não é absurdamente viciante como os seus antecessores, mas não deixa de ser uma agradável promessa de continuidade para uma banda que nos habituou a pérolas pop inimitáveis.

    Gui Boratto – Take My Breath Away

    O brasileiro mais reconhecido da música electrónica voltou depois do deslumbrante Cromophobia com Take My Breath Away, que segue o mesmo caminho… e ainda bem.

    Handsome Furs – Face Control

    A outra metade dos Wolf Parade junta-se à sua mulher para mais um disco do projecto a que Boeckner chama de Wolf Parade com caixa de ritmos. Face Control é a prova que rockar não depende disso.

    Harlem Shakes – Technicolor Health

    Muito adiado, Technicolor Health é o disco de estreia dos Harlem Shakes. Leva ao peito os riffs e os ritmos funk que lhes valeu o reconhecimento há algum tempo atrás, produzido por Chris Zane (Asobi Seksu, Les Savy Fav).

    Here We Go Magic – Here We Go Magic

    O novo dos Here We Go Magic é a primeira coisa que ouvi em 2009 e não foram poucas as vezes que tenho voltado a este disco. Uma versão actualizada de Graceland de Paul Simon.

    It Hugs Back – Inside Your Guitar

    Apesar de levarem com a designação de Wilco ingleses, os It Hugs Back têm muito mais a seu favor que apenas o seu nome particularmente inspirado. Inside Your Guitar é subtil, mas recompensante.

    Junior Boys – Begone Dull Care

    Já revisto num post anterior.

    Lotus Plaza – The Floodlight Collective

    Os Lotus Plaza são a outra parte dos Atlas Sound em relação a projectos paralelos dos Deerhunter, pela mão de Lockett Pundt, The Floodlight Collective aproxima-se mais da sua banda mãe do que dos Atlas Sound de Bradford Cox.

    Malajube – Labyrinthes

    Labyrinthes é o surpreendentemente interessante segundo álbum dos canadianos Malajube. Pop noir e retro em francês genuinamente bem produzido e composto.

    Marissa Nadler – Little Hells

    Sempre com uma inclinação para o dramático e o sombrio, não surpreende que o novo disco da folkie Marissa Nadler se chame Little Hells. Também não supreende que seja assim tão bom.

    Papercuts – You Can Have What You Want

    Subvalorizados no indie pop, os Papercuts parecem saídos directamente de um portal para os anos 50, quer nas suas pretenções em termos de composição quer em produção. O seu novo disco é elegante.

    Sky Larkin – The Golden Spike

    Os Sky Larkin não devem ser discriminados por parecerem, quer em imagem quer em música, os Johnny Foreigner. Na realidade, fazem pop interessante e menos saturado que os seus semelhantes. The Golden Spike mostra como se faz.

    Studio 1 – Studio 1

    Studio 1, do alemão Wolfgang Voigt, é um projecto techno que prima pela consistência. Juntando sonoridades IDM ao tradicional quadro sónico das etiquetas alemãs como a Kompakt, Studio 1 é imperdível para os fãs do género.

    Telepathe – Dance Mother

    Tem sido muito falada a estreia dos Telepathe como sucessores de uns TV On The Radio, mas apesar de produzidos por David Sitek, estas comparações têm de ser levadas com cuidado. Ainda assim, Dance Mother é um disco simpático.

    The Black Lips – 200 Million Thousand

    Depois de uma absurda digressão pela Índia os eternamente controversos Black Lips regressam aos álbuns com uma produção ainda mais lo-fi que em Good Bad Not Evil, mas  o dom para pérolas rock como Starting Over ou Short Fuse continua lá.

    The Pains Of Being Pure At Heart – The Pains Of Being Pure At Heart

    Foram acusados de se colarem excessivamente às suas influências, The Jesus And Mary Chain, My Bloody Valentine, mas se este disco for visto pelo que é, The Pains Of Being Pure At Heart é um disco de pop perfeito, viciante e sem presunções.

    These Are Powers – All Aboard Future

    O projecto comandado por Pat Noecker, antigo baixista dos Liars no seu primeiro disco, oferece uma visão peculiar do pós-punk intenso e escuro com pitadas de electrónica aqui e ali, com resultados positivos.

    Tim Hecker – An Imaginary Country

    Depois de Harmony In Ultraviolet, o seu muito elogiado sexto disco, Tim Hecker levou três anos para construir o seu sucessor, An Imaginary Country, uma janela para a sublime criatividade ambiente de Hecker.

    Timber Timbre – Timber Timbre

    Parece que é um lugar comum este ano, mas há um elemento predominantemente retro no excelente disco homónimo de Taylor Kirk, Timber Timbre, no bluesy folk que apregoa e que enfeitiça o ouvinte.

    Vetiver – Tight Knit

    Depois de um segundo álbum algo ineficaz e um disco de covers, Tight Knit vê os Vetiver a recuperarem o seu groove. Nunca chega a atingir as alturas do seu registo homónimo de estreia, mas é um regresso agradável.

    Wavves – Wavvves

    Motivos solarengos para um disco de estreia extremamente lo-fi e ‘in your face’ de Nathan Williams, aka Wavves, já muito elogiado pelos seus irmãos musicais No Age. Wavvves é um álbum de riffs e sons que nunca descansam.

    Yeah Yeah Yeahs – It’s Blitz!

    It’s Blitz! é o registo de uma banda que achou que alterar a sua sonoridade consistia apenas em adicionar sintetizadores. Não que isso importe, continua a ser tipicamente YYY, inconsistente, mas com momentos de puro génio e clássico carisma de Karen O.

    Zomby – Where Were U In ’92?

    Depois de receber elogios de Panda Bear e a aprovação da Pitchfork, este disco de Zomby parecia estar destinado para mais reconhecimento. Seja como for, é uma interessante mistura dançável de sonoridades jungle, house e até techno.

    Harvest Breed.

    27
    Dez
    08

    5 Más Ideias de 2008

    É fácil e divertido fazermos tops das coisas mais geniais do ano e regozijarmos nos feitos culturais e artísticos de mentes brilhantes (que não as nossas) nos últimos 12 meses. Daqui a muitos anos, pensamos, pessoas olharão com curiosidade para listas dessas para tentar tirar o pulso ao que foi vibrar em primeira mão com grande música, cinema espectacular, livros fantásticos e grandes eventos socio-políticos.

    Contudo a estupidez, em toda a sua magnitude e espectacularidade, também merece um monumento no fim do ano. Para todos aqueles momentos em que levámos as mãos à testa e pensámos “eu não quero acreditar que eles fizeram mesmo isto”, aqui vem uma pequena selecção de 5 más ideias de 2008.

    - A adaptação televisiva de “Equador” de Miguel Sousa Tavares

    Como habitual, a TVI lançou uma mega campanha publicitária para esta série. Pomposamente, anunciam o que dizem ser “uma das maiores produções televisivas de sempre”, adaptando o livro de uma pessoa que é comentador de política/futebol/arte desse mesmo canal semanalmente. Quem tem uma televisão em Portugal já se habituou que quando a TVI diz que vai fazer uma super produção… não é bem isso que as pessoas vêem no ecrã. Tudo bem, há muitas perucas, partes de enredo no estrangeiro, guarda-roupa da época e actores veteranos de novelas azeiteiras (enfim, todos os ingredientes que encontramos nas outras pseudo super produções da TVI, i.e. as últimas 2 ou 3 telenovelas da hora do jantar que eles fizeram). Sem grandes expectativas, vimos um ou outro episódio de “Equador”, e rimos-nos… muito. Vimos um rei de Portugal com o cabelo muito mal pintado de ruivo, vimos actores que não seriam capazes de representar nem na Rua Sésamo, vimos grandes cenas românticas à beira de precipícios ao pôr do sol em que se via claramente que foi tudo muito mal filmado e editado com os actores num estúdio de backdrop azul. Para o espectacular estúpido, a uma certa altura ficamos a saber que um casal inglês que vive na Índia fala em português entre si apenas “para que ninguém mais entenda o que estão a dizer um ao outro”…

    Este ano, algures no mundo um estrangeiro decide adaptar um livro de um Nobel português aos ecrãs. Algures em Portugal, alguém decide adaptar um livro dum comentador televisivo aos ecrãs. Um destes dois será um tesourinho deprimente de 2018.

    - A candidatura McCain/Palin

    Durante as eleições, dos EUA vieram notícias de propaganda e agitadores republicanos que apelaram ao pior da natureza humana para ganhar eleições. Foi insinuado que Obama seria um mau presidente porque tinha “Hussein” no nome, porque as pessoas gostavam demasiado dele, porque falava bem demais, porque estava demasiado interessado reduzir os impostos aos pobres. Foi dito, em directo para todas as televisões norte-americanas, que Obama tinha ligações a terroristas porque uma vez esteve numa comissão escolar com um homem que foi activista anti-guerra do Vietname nos anos 60. Uma delegação republicana instaurou um processo contra Obama porque ele usou um avião de campanha para visitar a sua avó moribunda ao Hawaii. Obama falou em distribuir melhor a riqueza, e chamaram-lhe de comunista. Obama foi ridicularizado por fazer acção social em bairros degradados e se orgulhar disso. Foi também insinuado que quem apoiasse Obama não fazia parte da “Real America” – era um americano de 2ª. Discretamente, apelou-se ao racismo.

    Na Europa, já não se fazem campanhas desta maneira desde o fim do fascismo. O século XXI não precisa deste tipo de política muito menos no país que, para todos os efeitos, é o líder militar, cultural e económico do mundo ocidental.

    - Hamburger Big Tasty com Bacon do McDonald’s

    Nós não temos nada contra hamburgers e fast food. Quando é bem feito, um hamburger pode ser delicioso. E como quaisquer outros jovens que se prezem, o fast food é praticamente a base da nossa dieta. Mas quem já levou um Big Tasty normal à boca sabe que isto é uma das ideias mais horripilantes do ano. Por si só, a maioria da comida servida no McDonald’s já mete algum nojo a muita gente – e o Big Tasty normal (um hamburger enorme com um molho enjoativo e muito, MUITO estranho) já estava confortavelmente a ocupar o lugar de “coisa mais nojenta que se pode pedir para comer”. Quando alguém em 2008 pensou “espera lá – vamos pôr bacon nisto!”, esse alguém de certeza nunca comeu no McDonald’s, nunca experimentou um Big Tasty e nunca provou aquilo que eles muito liberalmente chamam de bacon.

    Podíamos dizer aqui que uma combinação Big Tasty Bacon + Batatas Fritas Médias + Coca Cola Média excede todos os limites estabelecidos por médicos de consumo de calorias, sal, açúcar e gorduras por dia (não por refeição, POR DIA). Mas isso já nem interessa muito a ninguém. Apenas e só a ideia de adicionar bacon gorduroso a um Big Tasty é como adicionar uma bombinha de mau cheiro a um montinho de cocó de cão.

    - A Candidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara de Lisboa

    À uns anos atrás, Santana Lopes tornou-se numa coisa estranha e rara: um Primeiro Ministro que nenhum português elegeu. Quando chegou ao fim o seu curto e caótico governo, as únicas pessoas em Portugal que ficaram com saudades foram os humoristas e cartoonistas, a quem Santana tinha feito a vida tão mais fácil. Nas legislativas que precederam, ele perdeu para Sócrates porque já ninguém podia aturar o ego e a monumental incompetência de Santana Lopes (estamos a falar de um homem que não conseguiu nem gerir a Câmara de Lisboa nem um clube de futebol). Depois candidata-se à liderança do PSD e perde para Ferreira Leite, novamente porque já ninguém podia aturar Santana Lopes.

    Este ano, descobrimos que ainda não está convencido que ninguém o pode aturar, e candidata se novamente à Câmara de Lisboa. Todos os lisboetas lembram-se muito bem da “obra” de Santana Lopes quando passou pela Câmara da última vez: um agravamento da já enorme dívida da cidade, a construção do dispendioso Túnel do Marquês (que qualquer lisboeta concorda que é tão útil como ter um pénis na testa), o caríssimo projecto pedido a Frank Gehry para o Parque Mayer que depois nunca foi construído, e o Casino de Lisboa que nunca ninguém quis, cuja localização é horrível. E nós lisboetas também nos recordamos a rapidez com que Santana Lopes abandonou a cidade de Lisboa assim que lhe foi oferecido um cargo político mais sonante.

    Santana Lopes vai inevitavelmente perder, porque ele e um punhado de fieis seguidores são as únicas pessoas que ainda não perceberam que a grande maioria dos lisboetas (e dos portugueses pelo país fora) já não o querem ver mais à frente. A ideia de termos todos de ver a cara dele outra vez por todo o lado nas ruas e nas televisões faz morrer um pouco da nossa esperança para o ano de 2009.

    - A Nomeação de Carlos Queiroz Como Seleccionador Nacional de Futebol

    Um mau líder toma 99 más decisões e 1 boa decisão por acaso. Depois de 5 anos espectaculares com Scolari em que a selecção nacional alcançou os melhores resultados desde 1966 e os portugueses revitalizaram e reacenderam a sua paixão pelo futebol e a selecção, Gilberto Madaíl e Federação tomaram mais uma das 99 más decisões e contrataram Carlos Queiroz. Havia muita gente que gostava de Carlos Queiroz: afinal de contas, ele foi o treinador da famosa “geração de ouro” de sub-21′s. Essas pessoas provavelmente esqueceram-se que Carlos Queiroz foi treinador adjunto de outra pessoa nos últimos 2 ou 3 anos, que ele NUNCA ganhou um único campeonato como treinador de equipa sénior, que era dos maiores críticos ao trabalho de Scolari, que foi despedido pela federação de África do Sul, pela federação dos Emirados Árabes Unidos, pela federação de Portugal (esta é a segunda vez que tem o cargo).

    Até agora, só ganhámos às selecções de Malta e das Ilhas Feróes, perdemos jogos importantes para o apuramento para o mundial (corremos risco de nem nos apurarmos depois de ficarmos em 4º com Scolari)… E fomos humilhados fora com o Brasil por 6 golos (a ultima vez que sofremos uma derrota tão pesada foi há muitos anos atrás). Este ano a selecção nacional voltou à triste miséria que era antes e a única coisa que mudou foi o treinador.

    Which Will.

    26
    Ago
    08

    Criticando Públicos

    Tendo assistido a diversos concertos em Inglaterra durante 2 anos, e depois de regressar de um festival na Suécia, ocorreu-me fazer uma reflexão sobre a atitude das pessoas perante música ao vivo nos diferentes países. Costuma dizer-se que as pessoas no Norte da Europa são geralmente mais frias e menos expressivas do que no Sul e que isso reflecte-se em ambientes de concertos. Costuma, também, dizer-se que o público português “ou ama ou odeia”. Será mesmo assim?

    Antes de mais, o que é que leva as pessoas destes países a vir a concertos? Em Londres, há genuinamente uma cultura de “sair à noite para ir ver música ao vivo”. Mais, o conceito de banda de covers é geralmente circunscrito a eventos como casamentos, festas de aniversários e coisas do género. Esta ideia é uma coisa que se tem cimentado desde os anos 60 e a chamada “british invasion” de música pop/rock. Tradicionalmente, sai-se à noite relativamente cedo para pubs, que podem ir desde pubs chic com decoração elaborada e vinhos franceses até buracos pegajosos à pinha com miudos malcheirosos descalços e cerveja morna. Cerca de metade de todos os pubs na capital inglesa possuem uma sala à parte cuja entrada é cobrada, onde se pode assistir a música ao vivo. Tendo em conta que estamos a falar de imensos pubs, este tipo de prática só existe porque há mesmo um substancial número de pessoas que estão dispostas a pagar dinheiro para ver música ao vivo, mesmo sabendo que vão ver bandas sem contrato, sem notoriedade cuja música provavelmente nem conhecem muito bem. Ou seja, as pessoas têm mesmo um desejo de ver música ao vivo num sentido de a descobrirem.

    Como é que isso se reflecte na atitude do do público durante o espectáculo? Bom, se imaginarmos uma sala pequena onde as pessoas pagaram para entrar e provavelmente muitas delas estão entre o “ligeiramente tocadas” até ao “a uma uva de um coma alcóolico”, muitas reacções são compreensíveis. Para já, há uma grande proximidade entre o artista e o público, quer pelo espaço em si, quer pelo carácter aberto e frugal do espectáculo. O facto de haver muito álcool à mistura (na mais fina tradição britânica) também serve para desinibir muita gente para mostrar o que pensa mesmo da música e da banda. Não é difícil uma pessoa sujeitar-se a ser enxovalhada, a este nível.

    Tendo em conta que apenas fui a um festival na Suécia, as minhas conclusões sobre os públicos escandinavos valem pelo que valem. Mas notei uma similaridade muito importante com o público inglês: muita gente foi assistir a concertos de bandas semi-obscuras apenas e só por recomendação de outros. E não se trata de aparecer em concursos de bandas de amigos em juntas de freguesia com entrada livre, estamos a falar de ficar em filas de 100 metros à porta de sítios que cobram bem mais do que 5 euricos à entrada.

    Em termos de “personalidade da plateia”, os suecos são muito mais expectantes do que quer os ingleses ou os portugueses. No geral, tentam apreciar a música e o espectáculo sem incomodar o vizinho do lado, especialmente quando a música não é bem banda sonora de mosh – e especialmente quando estão em missão de descobrir música nova. Não se coibem de andar aos saltos e moshar se a música assim o requer, mas não são abertamente interventivos ao ponto de espontaneamente interagir com os artistas como os portugueses ou os ingleses.

    Então e os portugueses? Não é novidade para ninguém que cá não existe a tradição britânica de voluntariamente querer sair regularmente para ouvir bandas de originais anónimas. Um conhecido costuma dizer que “quem só vê os jogos do Benfica não gosta de futebol – gosta apenas do Benfica”. Será que isto quer dizer que os portugueses não gostam mesmo de música mas sim apenas das suas bandas preferidas e estabelecidas?

    Historicamente, Portugal tem uma tradição muito reduzida (praticamente insignificante) de bandas e música pop/rock. Não somos como os ingleses que tiveram The Beatles e The Rolling Stones, ou como os suecos que tiveram Abba. O que explica que não sejamos um país de onde se espera grandes novidades ou revoluções musicais. E o público português é o primeiro a não esperar grandes coisas dos seus artistas compatriotas. Conta-se pelos dedos de uma mão os sítios em Lisboa onde as bandas de originais podem regularmente tocar ao vivo, sem ser a uma segunda-feira à noite, para 6 ou 7 conhecidos da banda. A tradição lisboeta de espectáculo ao vivo sempre foi a cena do fado, que agora está praticamente reduzida a turistas e um punhado de aficionados, prática pouco transmitida aos públicos jovens.

    Não sendo Portugal uma paragem importante das digressões dos grandes artistas anglo-saxónicos, a maioria dos portugueses raramente vai a concertos, quer devido a qualidade quer devido a quantidade. Tendo também em conta que os preços de bilhetes se tornaram algo proibitivos para muitos, os portugueses perderam muito o hábito de ver música ao vivo em comparação com outros países ocidentais. Isso revela-se um bocado em atitudes menos louváveis de alguns espectadores: no Optimus Alive, um autêntico batalhão de fãs de Rage Against The Machine alojou-se directamente em frente ao palco principal no príncipio do festival (RATM foi a última banda a tocar). Durante os concertos de 3 ou 4 bandas ficaram sentados ou deitados em grandes grupos directamente à frente do palco, impediram outros que queriam apreciar os espectáculos de perto e à vontade e nalguns casos insultaram os artistas – tudo porque só ali estavam para ouvir RATM, mais nada, queriam a todo o custo um lugar privilegiado e não lhes interessava minimamente a música que outros pudessem ter para oferecer.

    Contudo, quando em número suficiente e convenientemente motivado, o público português é muito participativo. Em bastantes aspectos, comporta-se muito como uma assistência de um jogo de futebol: têm cânticos, cantam letras das músicas que querem ouvir entre as canções, muitas vezes fazem mais barulho do que os próprios artistas (que o diga outros que viram recentemente José González na Aula Magna). Isto reforça a ideia de que os portugueses não estão lá propriamente para ouvir música em si mas mais pela experiência de estar num ambiente de concerto. A sensação de que se fica é que os portugueses ou são conhecedores e assistem ao espectáculo de uma forma fria, desligada e “sou demasiado cool para andar aos saltos e cantar a letra”, ou não gostam mesmo de música em geral e estão a assistir a um concerto para ouvir o seu artista mais-que-tudo debitar aquelas canções predilectas num ambiente ao vivo, pelo mesmo motivo que alguém vai ver um Sporting – Benfica ao vivo em vez de o ver pela televisão em casa. Isto suporta a proliferação de bandas de covers neste país – muitos músicos portugueses dizem-me que se eu quero dar concertos e fazer algum dinheiro que seja com música neste país, tenho de tocar numa banda de covers. Ou seja, só se toca ao vivo regularmente se se estiver a tocar música que o público já conhece e gosta. As pessoas certamente argumentarão “mas porque é que hei-de ir ouvir música que não conheço?”; eu pergunto “mas porque hei-de ouvir música que já ouvi mil vezes em casa e na rádio?”.

    Which Will.




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