Joan As Police Woman, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Começando ainda mais cedo que o dia anterior, o segundo dia abriu com o concerto da americana Joan Wasser, aka Joan As Police Woman. Talvez mais famosa pela relação que em tempos mantia com Jeff Buckley por altura da sua morte e pela sua participação no projecto de Antony Hegarty com os Johnsons do que propriamente pela sua carreira a solo, uma audição à sua música deu para perceber porquê. Joan e a sua banda fazem música que não compromete nem insulta ninguém, e isso acaba por ser o seu grande problema. Sentada ao piano durante o início do set, arrastando-se sem grande entuasiasmo nem presença de palco por um punhado de músicas passáveis, Joan não conseguiu contagiar uma multidão já apreciável enquanto a sua banda se debatia com problemas técnicos que quase levaram a sua baixista a um ataque de nervos, e não sendo um concerto pouco profissional, não deixou de ser desinteressante.
José González, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage
Tendo em conta que este concerto representava um regresso do trovador folk à sua cidade natal de Gotemburgo, esperávamos uma recepção apoteótica que contrastaria com o cariz simples e despido das suas músicas, mas não foi bem o que vimos quando nos aproximámos do palco. Apesar de poder contar com um público bem apreciável e conhecedor para uma hora ainda relativamente cedo, não se pode dizer que os suecos sejam grandes apreciadores do folk. Ainda assim, González apresentou uma performance tipicamente profissional e eficaz, como já tínhamos visto quando o sueco passou pela Aula Magna em Abril, servindo-se de material dos seus dois álbuns em porções sensivelmente iguais. Apesar das já previsíveis boas recepções a números como o cover dos Massive Attack Teardrop, a Down The Line do último álbum ou a Crosses do primeiro, foi Heartbeats, já mundialmente reconhecida pelo anúncio da Sony, que gerou claramente o maior entusiasmo no seu set, o que acaba por ser normal, até por ser um bem sucedido músico sueco a fazer um cover de outra banda bem sucedida sueca. González mostrou novamente ser um músico consistente e sólido ao vivo.
The Bug, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Com o cancelamento de Girl Talk à última da hora, a organização acabou por encontrar um substituto com uma aproximação sónica mínima sob a forma do DJ inglês The Bug. Navegando a onda da sua recente popularidade depois do lançamento e da boa recepção crítica, em especial pela trendsetter Pitchfork, do seu álbum London Zoo, não deixou de ser ainda uma ligeira surpresa que, mesmo com um turnout apreciável, o seu concerto acabou por ser o menos concorrido do festival. Ainda assim, e apesar dos problemas técnicos insistentes, acabou por ser um concerto muito interessante. Decerto que as suas sonoridades de dubstep neurótico e com travos de jungle e house se adaptariam melhor a um horário mais tardio, mas ainda assim The Bug, que se fez ainda acompanhar pelo rapper Flowdan e a enérgica Warrior Queen, acabou por conquistar um público que sempre pareceu estupefacto com este tipo de música.
Kelis, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage
Apesar de entrar num certo choque com o cariz do resto do festival, não deixou de surpreender a presença de uns quantos números de hip hop abertamente comercial sob a forma de Kelis, N.E.R.D e Lil’ Kim. Apanhando a parte final do concerto de Kelis, que teve a particularidade de ter sido o único a atrasar os horários desenhados pela organização, foi ainda possível ouvir dois dos seus grandes êxitos: o apoteoticamente recebido Milkshake, e talvez o seu número mais dançável Trick Me que acabou por fechar o set. Kelis talvez não seja propriamente uma popstar nascida para sê-lo, mas parece lidar bem num cenário ao vivo. E não, não sei dizer mais nada sobre isto.
Sahara Hotnights, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage
Se há algo que se possa dizer que seja um dos grandes sucessos da organização, é sem dúvida a forma como conseguiu fazer entrelaçar as bandas com carreira e sucesso estabelecido ou apenas com algum reconhecimento nos círculos indie americano ou inglês com bandas suecas que, viemos a descobrir, se provaram extremamente populares entre os locais, e apesar de nenhuma nos ter particularmente entusiasmado, pelo menos têm uma excelente oportunidade de se fazerem ver num festival com esta mentalidade. Uma dessas bandas da ‘casa’ eram os Sahara Hotnights, ou melhor, as Sahara Hotnights, quatro mulheres a fazerem um revivalismo vulgar de rock de garagem dos anos 70 da mesma forma que um dia antes os Mando Diao se tinham mostrado fãs muito especiais de Libertines e rock britânico. Apesar de pouco entusiasmante, não deixou de ser bem recebido por um público caseiro, mas acolhedor às suas bandas nacionais.
N.E.R.D., 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Flamingo Stage
Sentado no sofá a ouvir a música dos N.E.R.D. na MTV já é uma experiência suficientemente estupificante, mas vê-los ao vivo assume um outro patamar de estranheza. Com um setup monstruoso, servindo-se de equipamento impressionante e com uma base de fãs apreciável e incrivelmente excitada, a banda leva toda o seu ego auto-inflaccionado e misoginia na duração do seu concerto. Apesar disso, foi impressionante ver em primeira mão um tipo de concertos que tem muito pouca saída em Portugal e ainda assim testemunhar o entusiasmo de uma plateia ao rubro com números como She Wants To Move, a única que conhecia e a única que reconheci, com fãs a serem chamados ao palco para entoarem as músicas com Pharell e amigos.
Fleet Foxes, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Entrando na recta final do festival, o WOW acabaria por fechar com três dos melhores concertos que se viram no fim de semana. O primeiro do fim de tarde e princípio de noite era o dos muito aclamados folk-rockers de Seattle Fleet Foxes. E acabou mesmo por ser o concerto típico de uma banda no pico dos seus poderes musicais e demonstrando alguma da melhor música que se vê hoje em dia. E os suecos pareceram reconhecer isso de forma inequívoca, se nos orientarmos pela quantidade de fãs acérrimos que se juntaram na tenda e a fizeram abarrotar de gente pelas costuras. A banda fez tudo o que se pedia que fizesse e tocou um set imaculado e diplomático onde incluiu todos os seus números mais populares como a peça central do EP Sun Giant Mykonos, o último single Blue Ridge Mountains que fez arrepiar e motivar um grande singalong ao mesmo tempo e a espectacular White Winter Hymnal. Toda a forma como a banda interpretou estes e outros temas que ora destacavam todos os instrumentos e davam um ar completo à banda como English House ou ainda as espantosas harmonias vocais de Sun Giant, roçou sempre a perfeição. Se juntarmos isso à boa interacção com o público temos o porquê da maior ovação do festival, que se estendeu bem para lá da banda ter vindo arrumar os instrumentos.
The Flaming Lips, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Azalea Stage
Algures nas últimas duas décadas os Flaming Lips ganharam uma reputação por ser a melhor banda ao vivo do circuito indie. Independentemente do material em que se centram os concertos, que tem variado em qualidade ao longo dos anos, desde o mítico Soft Bulletin, passando pelo espectacular Yoshimi Battles The Pink Robots e acabando com At War With The Mystics, o seu último álbum, que não sendo uma obra prima, tem alguns números que se aguentam de forma surpreendemente boa num cenário ao vivo. Desde a primeira nota à última que se percebe o porquê dessa reputação, e o feel em qualquer concerto da banda parece ser o de um evento único e especial. Desde à já habitual e nunca menos impressionante bola insuflável do vocalista Wayne Coyne, passando pela parada de Teletubbies e pelas constantes explosões de confettis, acabando na excelência do espectáculo visual reproduzido em pano de fundo, ver os Flaming Lips é sem dúvida uma experiência memorável. Começando com uma das melhores músicas de abertura em Race For The Prize, de Soft Bulletin, passando pelo coro que se juntou numa versão unicamente vocal de Yoshimi Battles The Pink Robots e acabando no habitual final de Do You Realize??, o concerto de Flaming Lips não dá nenhum momento por perdido.
Lykke Li, 9 de Agosto de 2008, parque Slottsskogen – Linné Stage
Virtualmente ignorada em Portugal e uma verdadeira popstar na Suécia, o concerto de Lykke Li representava um aclamado regresso a casa num justo horário de cabeça de cartaz para a autora do nosso terceiro melhor álbum da primeira metade do ano, apesar do seu disco de estreia Youth Novels já ter alguns meses de idade na Suécia. E isso notou-se plenamente ao observar o público sueco, que conhecia praticamente todas as letras e que fez abarrotar pelas costuras uma tenda claramente pouco preparada para receber um concerto tão concorrido como este. O mesmo já tinha acontecido nos concertos de Fleet Foxes, The Sonics e The National neste palco. Mas apesar dos constrangimentos de espaço, a chanteuse sueca não desiludiu, e começou o seu set com uma rendição grandiosa da doce, mas calculada Dance. Dance. Dance, um dos seus singles mais impressionantes, e a partir daí sempre pareceu ter a plateia controladíssima, fosse pelos singles e números mais dançáveis, fosse pelas músicas mais íntimas e reflectivas, o concerto cedo se viu que seria sempre uma vitória para Lykke Li. Numa interessante escolha de covers, viu-se uma representação do single de estreia dos Vampire Weekend Cape Cod Kwassa Kwassa, que resultou bem, ao contrário de um cover de Can I Kick It? dos A Tribe Called Quest, que pareceu forçado. Mas covers à parte, o material de originais de Youth Novels era demasiado forte para não funcionar em concerto. E especialmente impressionantes foram os singles Little Bit, apoteoticamente recebido, I’m Good, I’m Gone, uma das mais dançáveis do seu repertório, e o último single e dono de um refrão samplado Breaking It Up, o concerto de Lykke Li fechou o WOW 2008 da forma que merecia. Para o ano há mais.
Harvest Breed.