Bélgica: o centro geográfico e político da Europa, local de nascimento das melhores cervejas do continente, casa-mãe da comunidade pedófila europeia, e país acolhedor do festival Pukkelpop, um mega-evento de orientação alternativa e mainstream que se estende durante três longos dias debaixo das estrelas belgas. A sua edição de 2009 pode-se gabar de um dos line-ups mais fortes dos últimos anos para qualquer festival na Europa continental e o Volume/Tone fez parte das 170 mil pessoas que não faltaram à chamada e à oportunidade de ver algumas das bandas mais excitantes do momento. Durante a estadia, vimos um total de 43 bandas e artistas diferentes, o que pelas contas do preço do bilhete cifra um total de cerca de 3 euros por concerto. Contrariando as expectativas, o primeiro dia foi pródigo em temperaturas abrasadoras e em bandas como os pioneiros alt-country Wilco, os sempre voláteis Faith No More ou os lendários amantes do loud, My Bloody Valentine.
The Maccabees @ Main Stage, 11:20-11:55
Liderados por Orlando Weeks, nunca abdicando do seu boné, os proto-Futureheads deram início ao festival com uma actuação no monstruoso Main Stage. Com um set recaíndo bastante no seu novo disco Wall Of Arms, a banda, ainda que se ressentindo da hora madrugadora, consegue uma performance cativante com pontos altos nos últimos singles, No Kind Words, tema de abertura, e Love You Better, que fechou o set.
Nota: 7.5
Vetiver @ Chateau, 12:30-13:10
Seguem-se os californianos Vetiver, no seguimento do seu muito competente último disco Tight Knit. Apesar do fortíssimo calor que se fazia sentir num palco fechado, o soft rock/folk da banda de San Francisco é facilmente imediato e ganha boa aceitação junto do público. More Of This é o ponto alto de um set relaxado e confiante, deixando definitivamente para trás a toada morna que se poderia fazer sentir à hora.
Nota: 8
Howling Bells @ Marquee, 13:10-13:50
O palco Marquee é facilmente a coisa coberta mais monstruosa que já tinha visto num festival de música. Estando cheio, dá toda a sensação que poderia lotar o Coliseu dos Recreios. Ainda assim, o rock antémico dos australianos vive da dualidade entre um bastante agradável primeiro álbum e um banal segundo disco, Radio Wars, que a banda se encontra a promover, e isso faz-se sentir no set. Ora se atingem os altos de Low Happening do primeiro, ora damos por nós distraídos enquanto a banda replica alguns dos seus números recentes.
Nota: 6.5
Golden Silvers @ Club, 14:30-15:10
Ao contrário do que diz no seu nome, o palco Club, apesar de ser fechado e recriar um ambiente estufa com altas temperaturas, não fica fora dos limites da área do festival nem é propriamente um club. Posto isto, tenho de confessar que os ingleses Golden Silvers são uma minhas bandas fetiche dos últimos tempos. O seu disco de estreia, True Romance, é uma irresistível pedra preciosa de pop veraneante, e o seu concerto de festival é apropriadamente carregado de números dançáveis como o tema-título ou Magic Touch.
Nota: 9
Aeroplane DJ Set @ Boiler Room, 15:30-17:00
O duo belga Aeroplane captou as atenções de muita gente com os seus remixes vitoriosos, entre os quais o de Paris dos Friendly Fires em conjunto com as vozes das Au Revoir Simone. Jogando em casa, e no Boiler Room, uma enorme garagem que durante todo o dia se dedicava a passar música electrónica, os Aeroplane mostraram não só excertos dos seus remixes, não só de Friendly Fires ou Fever Ray, mas também um estilo de electrónica mais fria e calculada.
Nota: 8.5
Bon Iver @ Marquee, 15:50-16:35
Bon Iver deve ser ridiculamente popular na Bélgica. De todos os sets que vimos neste palco, e por aqui passariam por exemplo os heróis da casa dEUS por duas vezes, os Bon Iver não só encheram a casa, mas fizeram-na transbordar de gente por todos os lados. Não sendo propriamente o ambiente ideal para a música intimista de Justin Vernon, a sua técnica e entrega às músicas é exemplar, seja na abertura com Creature Fear ou na muito ovacionada Skinny Love.
Nota: 8
The Big Pink @ Club, 15:50-16:30
Os Big Pink fazem parte de uma vaga de nova música inglesa que tem conseguido boa imprensa dos dois lados do Atlântico. Fazem-no fundindo com sucesso guitarras ao estilo Loveless com um ataque techno e electrónico mais frio. Não é, por isso, surpresa que os pontos altos do seu set recaiam nos singles orelhudos Velvet e Dominos, passando ainda por um surpreendente cover de Smashing Pumpkins.
Nota: 9
Port O’Brien @ Chateau, 16:35-17:20
Apesar de um bom disco na manga sob a forma de All We Could Do Was Sing, os Port O’Brien sobem a um palco debaixo de um calor abrasador para tocar na sua grande maioria takes do seu novo álbum, Threadbare. O novo material não deixa, ainda assim, de ser bem recebido, com forte e saudável influência de Neutral Milk Hotel, ainda que os pontos altos sejam puxados para o fim do set, entre os quais o single Close The Lid.
Nota: 8
Passion Pit @ Club, 17:20-18:05
Se por um lado os singles infecciosos, o palco intimista e a sonoridade dançável adivinhava um grande concerto, por outro sempre circulavam os rumores que os Passion Pit eram simplesmente um falhanço rotundo ao vivo, apontando o falsetto de Michael Angelakos como uma das razões para isso. Felizmente, os rumores provaram-se completamente infundados e o set de Passion Pit, com uma apoteótica The Reeling, acabou mesmo por ser um dos pontos altos do fim de semana.
Nota: 10
Soap & Skin @ Chateau, 18:05-18:50
Soap & Skin é o alias musical da virtuosa austríaca Anja Plaschg, cuja sonoridade claustrofóbica se encaixaria melhor num ambiente nocturno do que propriamente no fim de uma tarde muito quente. Ainda assim, ora sentada ao piano, de laptop preparado, ora com incursões pelo público, Plaschg acabou por dar um bom concerto.
Nota: 7.5
Wilco @ Marquee, 18:45-20:15
Depois do excelente concerto no Coliseu, a tournée europeia dos nativos de Chicago Wilco entrou no circuito de festivais, no qual parece inserir-se com absoluta facilidade. Com um set algo semelhante ao de Lisboa, com a particularidade de investirem sobre material do mítico Summerteeth, com destaque para A Shot In The Arm, a banda até motivou um dos melhores momentos de comunhão com o público na já habitual Spiders.
Nota: 8.5
Grizzly Bear @ Club, 20:45-21:30
Com dois dos melhores discos da década na bagagem, sob a forma de Yellow House e do mais recente Veckatimest, os Grizzly Bear vieram à Bélgica reforçar a noção que apesar de tudo ainda conseguem ser melhores em concertos sob nome próprio. Ainda assim, fazendo-se complementar com Victoria Legrand no single Two Weeks, com números infalíveis ao vivo como On A Neck, On A Spit ou Cheerleader, a banda tem uma magia muito especial ao vivo que poucas outras bandas hoje em dia podem reclamar para si.
Nota: 10
Them Crooked Vultures @ Marquee, 20:55-21:55
Numa surpresa que à altura do concerto já era tudo menos isso, a vaga entre Wilco e Beirut no palco Marquee foi tomada pelos Them Crooked Vultures, a nova banda de Josh Homme, John Paul Jones e Dave Grohl. Fazendo-se valer mais pela ocasião com cheiro a história a ser feita do que propriamente pelo material que, ainda que soando bem, é inteiramente novo e constando de um futuro novo disco, os três, acompanhados de Alain Johannes, mostraram-se em boa forma.
Nota: 8
DeVotchKa @ Chateau, 22:00-22:50
Nunca tendo presenciado a rotina dos acrobatas de que os americanos DeVotchKa se fazem acompanhar em digressão, não deixa de ser surpreendente que acabaram por ser os únicos a transformar a tenda do palco Chateau no verdadeiro circo que parecia de fora. Com material maioritariamente de How It Ends, popularizado pela banda sonora de Little Miss Sunshine, Nick Urata e companheiros têm uma destreza impressionante para os seus instrumentos, casando-os com belíssimas melodias.
Nota: 8.5
Beirut @ Marquee, 22:55-23:55
A última banda a tomar o palco antes dos headliners do dia foi a trupe de Zach Condon, os Beirut. Incrivelmente populares na Bélgica, a banda conseguiu pôr a rebentar pelas costuras o já espaçoso palco Marquee, especialmente frequentado por público feminino que cantou palavra por palavra alguns dos seus êxitos, em particular a delicada Nantes e a épica Elephant Gun. Ainda assim, os Beirut tendem em entrar numa dinâmica repetitiva ao vivo, e o espectáculo acaba por se tornar um bocadinho inconsistente.
Nota: 8
My Bloody Valentine @ Marquee, 00:55-1:55
Apenas uma semana depois de serem carinhosamente corridos do palco do Rock One de Portimão com assobios e gestos simpáticos, os míticos shoegazers irlandeses tocaram para uma audiência consideravelmente mais receptiva no Pukkelpop. E nada falta daquilo que distingue o típico concerto de My Bloody Valentine, seja a coluna monstruosa de amplificadores que suporta o som de guitarra de Kevin Shields e que impede que se ouça mais alguma coisa ao vivo, seja o holocausto sónico de You Made Me Realise. Ver My Bloody Valentine ao vivo deve ser encarado como mais que um concerto, antes uma experiência, tanto que não é para todos e o Marquee acabou a noite algo magrinho, mas é sem dúvida uma catarse colectiva para quem fica.
Nota: 9.5
Harvest Breed.