Paginas de arquivo 2

04
Out
09

A Autenticidade Na Música Moderna, Pt. 2

Nas primeiras décadas da música pop/rock, 50 e 60, a noção de valor artístico estava maioritariamente associada a sucesso comercial. Nos anos 60, os The Beatles eram melhores do que os The Searchers e o facto de que os fab four vendiam muito discos servia de prova disso. Contudo, esta maneira dos ouvintes abordarem a música começou a desaparecer com o surgir do punk em 1976/77 e terminou definitivamente com o pós-punk/new wave que lhe seguiu. Com o punk, criou-se pela primeira vez na música um sentimento de “anti-sistema” – que com o pós-punk/new wave conheceu (dependendo da banda), uma face mais politizada, mais filosófica, mais visual ou mais artisticamente desafiante. Em muitos aspectos criou-se a ideia de que romper com a tradição é louvável, mas que um bom músico deve ser sempre um estóico guerrilheiro a perseguir a sua visão musical. E como qualquer guerrilheiro, o bom músico tem inimigos poderosos: os fakes, os posers, os miúdos da cena, os que veêm a música como um veículo para fama, aceitação ou fortuna.

O sentimento que o punk gerou nos anos 70 teve um enorme efeito bola de neve. Se os anos 90 já foram fartos em perseguições McCarthyescas sobre autenticidade musical (quem não se lembra das grandes guerras entre Blur e Oasis, Nirvana e Pearl Jam), então os anos 00 foram o culminar da paranóia. Hoje em dia, uma banda de música alternativa pode perder 1/3 da sua base de fãs se assinar por uma editora grande, se lançar um álbum com uma produção mais cuidada, se um dos seus membros começar a namorar uma actriz famosa. Bono, um dos vocalistas mais diplomáticos, icónicos e filantropos em actividade, é quase unanimemente vexado e ridicularizado por bandas pequenas. Tudo isto porque é uma traição imperdoável o estóico guerrilheiro ser (ou no caso de Bono, transformar-se) num burguês conformado.

O altar da autenticidade musical é uma falácia. Instalou-se um clima de hostilidade e competitividade em que se uma banda, pelo seu valor, começar a vender muitos discos e obter merecida notoriedade, os fãs que a elevaram vão aliená-la por isso. Na realidade, os músicos são apenas peões na guerra pela autenticidade. Os verdadeiros combatentes são alguns dos ouvintes, que procuram sempre a banda mais subversiva, mais desconhecida ou mais paupérrima para se usarem dela – para fazerem a sua autenticidade da autenticidade dela. E depois a descartarem.

Which Will.

02
Out
09

A Autenticidade Na Música Moderna

É quase escusado afirmar que a música seria hoje um lugar diferente se vivesse fora dos limites do culto da autenticidade que tem fomentado praticamente desde o aparecimento do conceito de música pop no século passado. Mas até que ponto podemos classificar música autêntica acima ou abaixo de algo mais abstracto ou inorgânico? Partimos do pressuposto que artistas com experiências de vida mais variadas partem em desvantagem em relação a artistas com vivências mais privilegiadas ou enfadonhas, simplesmente porque são presenteados com mais substância que poderão transmitir com autenticidade para a sua música. Não é uma noção recente, mas é uma preocupação crescente, não só de fãs de música, mas também, e talvez sobretudo, da indústria musical. Ela pode ser vista como uma consequência da rentabilização da música pop, onde cada vez mais os artistas mais populares são vistos com desconfiança, e até da necessidade de individualização e afirmação pessoal dos consumidores. Desde o aparecimento do real lucro na música que a autenticidade é cada vez mais prezada e glorificada. Mas a preocupação com o tema sempre pareceu encobrir a indústria discográfica como se de um fantasma se tratasse: fosse na promoção de artistas negros de proeminência country ou blues do virar do século XIX que apelavam a um público branco aristocrata pelos temas que abordavam na sua música, desde mulheres ao álcool, passando pela pobreza e até pelo racismo, fosse na exposição de fabricações artísticas em particular nos anos 90 com o único propósito de lucrar, há uma página que se vira no meio disto tudo.

Enquanto que a obsessão pelo autêntico parece ter deixado o pop algures no século XX, também passou a assumir um estigma significativo em comunidades musicais mais alternativas e impermeáveis. É impossível não associar esta mudança ao aparecimento dos downloads e do filesharing ao virar do século. A quebra de receitas de grandes conglomerados ligados à promoção da música obriga a maior critério daquilo que poderá ser considerado lucrativo do que tem acrescido potencial de risco, o que à partida invalida que mais barreiras sejam impostas a um meio que cada vez mais pede cada vez menos entraves. Por outro lado, é impossível não fugir ao sufocante clima de competitividade pela autenticidade que se vive nos meios mais alternativos. Um dos exemplos mais interessantes deste estigma talvez recaia no aparecimento dos nova-iorquinos Vampire Weekend, primeiro nos círculos alternativos, depois na sua mainstreamização e a acabar na sua reavaliação de méritos de novo como banda alternativa. Aparecendo na cena musical nova-iorquina constituídos por ex-membros dos mais respeitados Dirty Projectors e gabando-se das suas influências africanas, a banda tem a peculiaridade de contar com um passado privilegiado que opta por transpor em letras críticas de comportamentos elitistas e aristocráticos. Com a sua crescente popularidade, este passou a ser um sério problema para a banda nos círculos alternativos, críticas estas que continua a refutar. Mas mais do que pretendem transmitir nas suas letras, a sua imagem consegue mais impacto junto dos críticos, e fomentando essa imagem, a banda transparece incongruência, artificialidade e aproveitamento mediático.

Não é, portanto, de estranhar que o conceito de ’sell out’ se tenha banalizado no discurso dos fãs de música. A primeira vez que ouvi estas palavras de alguém dentro do meio musical foi pela boca de Kurt Cobain, referindo-se aos seus conterrâneos Pearl Jam que acusava de tentarem capitalizar na histeria colectiva pelo grunge ao optarem por uma versão suave, mainstreamizada e assim inautêntica do estilo, e na altura foi suficientemente polémico para forçar pessoas a decidirem com quem estavam de acordo. Desde então, o termo tem sido utilizado com crescente liberalismo: seja por uma banda de créditos reconhecidos no meio alternativo assinar um contrato com uma etiqueta de grande dimensão, seja por optar por sonoridades mais imediatamente reconhecíveis como música popular, seja por colaborar com artistas mainstream ou até por disponibilizar temas para efeitos publicitários. A autenticidade deixou de ser o assunto tabu que era em boa parte do século passado, onde na realidade se uma banda ou um artista vendia, a leitura óbvia era a de que o público, generalizado ou não, lhe reconhecia mérito, e daí o assunto não passava, para passar a ser tema de bandeira de nichos da comunidade musical ou de invocação corriqueira, quer para fãs quer para publicações. Seja porque Justin Vernon, Bon Iver, compôs um disco belíssimo numa cabana no Wisconsin sobre uma antiga relação, seja porque artistas ou bandas como Liz Phair ou Kings Of Leon lançam discos de apelo mainstream renegando aquilo que lhes notabilizou nos círculos arternativos, a noção de autenticidade aparece cada vez mais com uma dupla conotação: ora a de instrumentalização responsabilizadora, acusatória e elitista, ora a de advertência para a despersonalização da música e a santificação da composição de letras.

A consequência primária é o assumir de um papel avaliador e avalizador de intenções, carácter e motivos da parte dos artistas, pela crítica musical. Deixando de se resumir à análise do conteúdo musical, a crítica chama para si, mais do que nunca, a responsabilidade de garantir que a música com que lida não se cinja a um conjunto de sons, mas antes a um conjunto de sons reproduzidos por determinados músicos com intenções específicas, carácter específico e vivências muito particulares. O que só por si não será um resultado inesperado de uma sociedade observadora como a nossa, mas que na verdade até conduz a uma aproximação crescente e constante dos artistas que descobrimos e ouvimos na rádio ou na internet. E aqui reside o aspecto ainda mais pessoal do conceito de autenticidade. Quando a noção de estrela de rock caiu por terra algures nos últimos 20 ou 30 anos e passou a ser apenas conferida a algumas figuras acima de qualquer discussão, passou a recair o ónus no músico para ser autêntico e genuíno também ao nível do cada vez mais frequente contacto com a sua fanbase. No meio disto tudo, esta é mais uma área em que a indústria discográfica acaba por fazer o papel de intermediário e até de empecilho.

Harvest Breed.

30
Set
09

Pukkelpop 2009 @ Hasselt/Kiewit, Bélgica (Dia 3)

Telepathe @ Chateau, 11:55-12:35

Parecendo que não, dois dias de festival de manhã à noite deixam marcas e custam a levantar da cama no terceiro dia. Da mesma ressaca padecia o duo nova-iorquino Telepathe, que batalhou com dificuldades técnicas, passando por graves que literalmente abanavam a tenda, até uma actuação de pára-arranca. Ainda assim, com material do seu disco de estreia, a banda lutou como pôde com o horário que lhe saiu na rifa.

Nota: 7

The Temper Trap @ Marquee, 12:35-13:15

A toada morna continuou com os neozelandeses The Temper Trap, com a agravante desta banda ser incrivelmente desinteressante. Apostando em sonoridades testadas e gastas ao estilo de uns Keane ou uns Coldplay, a sua abordagem inofensiva nunca deu para fazer aquecer os motores.

Nota: 6

Noisia @ Boiler Room, 13:00-14:30

A segunda passagem do fim de semana pelo massivo Boiler Room fez-se ao som dos ilustres do drum ‘n bass, os holandeses Noisia. Embora ser o primeiro a reconhecer o meu primitivo conhecimento do género, é um facto que o conjunto atraiu uma multidão bem apreciável para uma hora ainda difícil, enquanto o Boiler Room produzia graves que se ouviam no outro lado do recinto.

Nota: 7.5

Micachu & The Shapes @ Club, 14:00-14:40

Mica Levi e os seus The Shapes são talvez o epítome do lo-fi. Quase ao ponto de parecer tudo improvisado, até como resultado da postura descontraída do trio em palco, a banda consegue manter os procedimentos melódicos e interessantes. Abrindo com Curly Teeth e conseguindo apreciáveis respostas do público presente em faixas como Lips, ainda assim o set soou a curto.

Nota: 8

Hudson Mohawke @ Chateau, 14:40-15:20

O jovem precoce escocês Hudson Mohawke é uma das últimas apostas da mítica Warp para capitalizar no relativo sucesso de Flying Lotus, mas não sejamos redutores: o miúdo sabe o que faz. A sua música é propulsiva e dançável e o seu espectáculo visual é bastante atractivo.

Nota: 8

Deerhunter @ Marquee, 15:25-16:10

Depois do inspirado e extremamente pessoal concerto no Lux em Junho, não é de surpreender que os Deerhunter optem por uma abordagem muito mais industrial nos fesivais de verão. E isso faz com que toquem mais música, entrando desta feita mesmo em diversas faixas de quase todos os seus lançamentos. O resultado é enfeitiçante, mas não pareceu impressionar os miúdos ingleses de 13 anos que esperavam o concerto dos Enter Shikari que se seguia.

Nota: 9.5

Rolo Tomassi @ The Shelter, 16:10-16:55

Sem dúvida dos espectáculos ao vivo mais bizarros que assisti, o concerto daquela tarde dos Rolo Tomassi acabou com um mosh pit absurdamente volumoso e com a banda a descer ao público. Misturando relâmpagos de hardcore com interlúdios jazz, a banda terá sido das que mais bom impacto causou ao público dos três dias.

Nota: 9.5

Dinosaur Jr. @ Main Stage, 17:40-18:30

Em mais nenhum lado se verá a estranheza que é a banda de J Mascis e Lou Barlow abrir para 50 Cent, mas pouco importou para os fidelíssimos fãs da banda que inundaram o Main Stage. Abrindo com um cover de The Cure e recaíndo sobretudo em material do seu novíssimo Farm, os Dinosaur Jr. comprovaram que ninguém pode morrer sem os ver ao vivo.

Nota: 9.5

Florence And The Machine @ Club, 18:35-19:25

Depois da mega-enchente de Bon Iver no primeiro dia, foi a vez de Florence And The Machine beneficiar de um banho de multidão, desta feita maioritariamente feminino, que até complicava a entrada na tenda. Ainda assim, visivelmente emocionada com a recepção, Florence berrou a plenos pulmões, ensaiou coreografias com o público e até aproveitou para fazer um cover de Fever Ray. Tudo sobre Florence é inflacionado, empolado e inchado, mas isso nem sempre é bom.

Nota: 7.5

Klaxons @ Marquee, 20:20-21:10

Complicações com o novo álbum e tudo, os Klaxons continuam a ser uma banda entusiasmante ao vivo, capitalizando não só no seu popular primeiro disco bem como no seu muito apreciável novo material. Embora sem o fulgor de Lisboa quando visitaram o festival Alive este ano, é indesmentível a força que números como Magick, Golden Skans ou Gravity’s Rainbow ainda têm.

Nota: 8

Ellen Allien @ Boiler Room, 21:00-23:00

Não sei bem se seria intenção da organização colocar a rainha da BPitch Control, Ellen Allien, neste horário a entrar na recta final do festival, mas provocou uma interessante mudança de tom no Boiler Room. Allien renega o genérico e o banal para fazer um set pleno das complicações agradáveis que compoem a sua música.

Nota: 8

Tortoise @ Club, 22:15-23:15

É impossível ver os Tortoise ao vivo e não ficar intimidado com o seu nível de capacidade e execução técnica, onde cada membro muda de instrumento e a banda prossegue mostrando a sua destreza no seu elemento característico atmosférico ou mesmo nas suas digressões pelo jazz. Com material maioritariamente de Beacons Of Ancestorship, a banda mostra-se intemporal, mas nem sempre consistente.

Nota: 8.5

Arctic Monkeys @ Main Stage, 23:20-00:35

E então, coube assim aos mega-populares Arctic Monkeys o fecho do Pukkelpop 2009. Tocando para um público maioritariamente expectante de material dos seus primeiros dois registos, a banda transpôs a sua nova direcção musical para tudo o que faz, desde a atitude em palco, até aos elementos visuais que procura conjugar ao vivo, passando até pelos cortes de cabelo. Acabou por não ser grande surpresa que o quarteto de Sheffield acabou por povoar o set de material do novo Humbug, começando pela dupla entrada da stoner My Propeller e do cover de Nick Cave, Red Right Hand. A verdade é que, de qualquer maneira que queiramos ver as coisas, os Arctic Monkeys fazem uma óptima banda ao vivo, e nesse aspecto Humbug é uma feliz adição ao seu inspirado catálogo. Ainda assim, enquanto fãs da velha guarda suspirarão pela omissão de When The Sun Goes Down ou A Certain Romance do set, outros apreciarão a emoção extrovertida de Secret Door e a enfeitiçada beleza simples de Cornerstone, não esquecendo óbvios favoritos como Brianstorm ou Fluorescent Adolescent.

Nota: 9

Harvest Breed.

29
Set
09

Gira-Discos: Broadcast – HaHa Sound

Os Broadcast não tiveram sempre a vida facilitada. Foram três anos a suportar comparações com os seus irmãos sónicos londrinos Stereolab, três anos a ultrapassar a saída de um baterista e teclista da sua formação original, três anos a mudar de locais de gravação, três anos de interregno entre o seu disco de estreia, The Noise Made By People, e o seu emblemático segundo, HaHa Sound. A banda de Birmingham vai para quase quinze anos de idade quando virarmos a década lá para Dezembro e apenas conseguiu editar três registos de longa duração. Nem sempre por opção própria ou fruto de constrangimentos criativos, é um facto que, tendo-se formado em 1995 por Trish Keenan, James Cargill, Tim Felton e Roj Stevens, levou cinco anos para lançar o seu registo de estreia, tendo demorado uns absurdamente longos três anos em diversos estúdios e com vários produtores a efectivamente gravá-lo. Também por isso, e pela boa expectativa gerada à volta da recepção de The Noise Made By People, os três anos que o separaram de HaHa Sound trouxeram ainda mais desafios para o conjunto inglês. Talvez pela sua longevidade e pelo seu fascínio pelo cinemático, os Broadcast sempre foram uma banda presa no tempo. Trish Keenan possui uma voz distinta e saudosista, que lhe valeu a comparação insistente com Laetitia Sadier dos Stereolab, e que envolve a música da banda num delicado embrulho de pop reminiscente de uma realidade passada, mas que não deixa de a encher de uma doçura ambivalente entre texturas mais declaradamente acessíveis e algo mais tenso e repetitivo.

De facto, o que fez a distinção entre The Noise Made By People e HaHa Sound acabou mesmo por ser a qualidade, a meticulosidade e a preciosidade do estilo de composição da banda. Forte mesmo em números mais despidos da produção complicada e precisa que inundou o disco de estreia, HaHa Sound mostrou outro tipo de versatilidade composicional por parte do conjunto de Birmingham. A prova disso será mesmo a sua faixa inicial, Colour Me In, que envolve uma melodia vocal facilmente apelativa numa espécie de carrocel sonoro, onde se passeiam todo o tipo de sons mais surreais e até indiscerníveis. De facto, algo que tinha marcado a sua estreia tinha sido mesmo o cuidado e a atenção às texturas. Uma abordagem que não desaparece aqui, mas agora vê-se emparedada por uma irresistível composição marcadamente pop. Ainda assim, HaHa Sound não fica por muito tempo no mesmo sítio: Pendulum, tendo sido previamente apresentada em forma de EP, apanha os Broadcast no pico da sua assimilação do krautrock, que faz questão de ser hipnótica, não deixando para trás os sintetizadores que os familiarizaram com os seus ouvintes. Não obstante, este é um disco que brilha mais intensamente nos seus momentos pop, que estão aqui presentes de alto a baixo, e não aparecerá porventura melhor momento destes como acontece em Before We Begin. Apoiando-se em harmonias vocais, Keenan constrói uma atmosfera irresistivelmente açucarada à volta de um panorama instrumental rochoso, mas extremamente rico.

Contudo, a distinção para o que hoje se apelida de twee ou de indie pop seria mais do que redutora para uma banda como os Broadcast e para um disco como HaHa Sound, seria mesmo criminosa. Aliás, a complexidade da produção apenas assim o impedia, mas mais ainda do que isso, o carácter compreensivo de mão dada com a inventividade de tudo o que banda faz acaba por rejeitar sempre o formular. O que constatamos em algumas faixas como Minim, que parece orientar-se ordenadamente para uma introdução delicada e suave e que se desenvolve para uma bridge que quase soa a improvisação livre, povoada com mais uma etérea performance vocal de Keenan, um tratamento que voltaremos a ver brilhar em Hawk. “I wait in the stairs / for a break in my mind / let the balloons go outside”, proclama Keenan ao início de Lunch Hour Pops, que assinala o ponto intermédio de HaHa Sound, conjugando imagens mentais psicadélicas e divinais aos ouvintes, que depois se repetem noutro ponto alto sob a forma de Ominous Cloud, desta feita a ritmo de valsa e de flecha bem apontada ao coração. Numa altura em que muito se discute o balanço da década a nível de lançamentos, não podemos deixar de lembrar algumas bandas que não receberam o crédito que deviam ao longo dos últimos dez anos, e os Broadcast foram certamente uma delas. Em 2003, HaHa Sound demonstrou toda flexibilidade e genialidade de juntar texturas trabalhadas e evocativas a estruturas e abordagens pop, que hoje vemos provocar influência decisiva em alguns contemporâneos como Deerhunter, A Sunny Day In Glasgow ou Au Revoir Simone.

Tracklist:

  1. Colour Me In
  2. Pendulum
  3. Before We Begin
  4. Valerie
  5. Man Is Not A Bird
  6. Minim
  7. Lunch Hour Pops
  8. Black Umbrellas
  9. Ominous Cloud
  10. Distorsion
  11. Oh How I Miss You
  12. The Little Bell
  13. Winter Now
  14. Hawk

Harvest Breed.

25
Set
09

Cachet 0, Vol. 8

Festivais e concursos de bandas de garagem promovidos por autarquias são, salvo honrosas excepções, o bater no fundo. Nos piores palcos e locais de espectáculo, com o pior equipamento, com os piores técnicos, sem qualquer retorno, sem promoção ou publicidade, a maioria das bandas fica feliz da vida com a oportunidade de tocar algumas canções para os seus amigos na plateia. Tivemos recentemente a experiencia de tocar num festival desta natureza. Fomos instruidos para estar no local para fazer soundcheck às 15:00, o que fizemos. Quando lá chegamos, não havia sinal nem do técnico de som, nem do PA, apenas 5 bandas de adolescentes de braços cruzados e à espera como nós. Ficámos apenas meio surpreendidos.

Duas horas mais tarde, aparece alguém com um PA, uma hora depois disso aparece um técnico de som (e quando digo “técnico de som”, digo-o no sentido mais abrangente possível). Com pressa e sem staff, este “técnico de som”pediu ajuda aos músicos de algumas das bandas para montar o palco. Estes músicos não veteranos road dogs ou geeks informados, mas sim miúdos de 15 anos que não sabem a diferença entre um cabo de antena e um cabo de microfone. A determinada altura, haviam 10 pessoas em cima do palco – nenhuma delas a fazer algo de concreto. Vi 3 rapazes a discutir acesamente o ângulo e proximidade de um microfone a um amplificador digital de caca. Se eu já acharia essa imagem ligeiramente divertida numa sessão de gravação, então num festivalzeco de bandas amadoras no meio do nada a preparar 20 minutos de concerto…

Saturado de esperar horas a fio para fazer soundcheck (hora combinada era às 15:00, hora efectiva a que começámos a fazer som foi cerca de 20:00) e algo preocupado com o que estava a acontecer, perguntei ao técnico de som o que o estava a atrasar. “É um microfone que não está a funcionar… Sabes como é!”, disse. Sorriu e voltou a mexer na mesa de mistura, com a confiança de um chimpanzé a tentar conduzir um Boeing 747. Quando trabalhei como técnico de som no estrangeiro, perdia imediatamente o meu emprego se estivesse 5 horas atrasado e respondesse daquela maneira a um artista. Aliás, esqueçamos isso – qualquer profissional, em qualquer emprego, se tivesse 5 horas atrasado e se se justificasse com descontracção, deixava de ser profissional imediatamente. Para não falar que qualquer técnico de som minimamente competente sabe que se tem um microfone mau, o substitui em 2 minutos e não fica a tentar soluções esotéricas durante horas. Na realidade o que aconteceu nessa noite foi uma autarquia a gastar uns tostões rápidos no voto jovem em véspera de eleições, sendo que ninguém daquele lado realmente quer oferecer bons recursos materiais e humanos aos jovens artistas locais. Jovens esses que hoje estão felicíssimos da vida por poderem tocar num palco para os seus amigos – mas que daqui a poucos anos vão ver com outros olhos este tipo de migalhas.

Which Will.

24
Set
09

Pukkelpop 2009 @ Hasselt/Kiewit, Bélgica (Dia 2)

Delphic @ Marquee, 12:30-13:10

Para quem já os tinha visto em Lisboa no Optimus Alive, não perdeu nada de novo. A banda inglesa continua a apresentar-se com apenas dois singles de discografia oficial, e embora seja claro que há ideias e estruturas interessantes, a sensação geral é que Delphic precisam de mais material e mais selectividade no setlist, e menos tempo a alongar as poucas canções que já têm.

Nota: 6.5

And So I Watch You From Afar @ The Shelter, 13:10-13:50

Sobre os norte-irlandeses And So I Watch You From Afar sabíamos pouco mais do que uns titulos de canções imaginativos (como “Set Guitars To Kill” e “If It Ain’t Broke, Break It”) e que faziam um tipo de post-rock instrumental misturado com punk. O concerto foi agressivo e genuíno – o público aderiu e ASIWYFA (WTF?) mostraram que rock instrumental pode ser imediato e sincero, sem ter a prepotência que muitas vezes se associa a este tipo de música. O gesto de oferecer algumas tshirts ao público depois do concerto foi bonito e sentido.

Nota: 7.5

A Place To Bury Strangers @ The Shelter, 14:30-15:10

A Place To Bury Strangers têm alguma fama por serem loucamente barulhentos ao vivo, fama essa completamente merecida. O som que saia dos amplificadores de guitarra e dos microfones era simplesmente ruído branco, com apenas baixo e bateria vagamente discerníveis. Foi brutal, exagerado, vertiginoso e fantástico.

Nota: 8

Future Of The Left @ The Shelter, 15:50-16:35

Future Of The Left tiveram um publico inesperadamente enorme, que conhecia muito bem a sua discografia e que resistiu à tentação de pedir canções de Mclusky. Houve mosh, gritaria, sangue, suor e lágrimas. Só quem lá esteve sabe o que foi.

Nota: 10

Buraka Som Sistema @ Dance Hall, 16:35-17:25

Os não-tão-orgulhosamente sós representantes portugueses levaram muitos milhares de belgas à loucura, belgas esses que não faziam ideia do que é um Wegue Wegue (tal como nós) nem do que as letras querem dizer (tal como nós). Tiveram a sensibilidade para misturar os seus originais com samples e excertos de êxitos mais mainstream (como “Satisfaction” de Benni Benassi) e deram espectáculo no dancefloor.

Nota: 8

Bill Callahan @ Chateau, 17:15-18:05

O concerto de Callahan veio trazer um momento para descansar e uma lufada de ar fresco, numa tenda quente e abafada no Pukkelpop. A sua actuação foi tal e qual como a sua música editada – intimista, sincera, simples e baseada na premissa de que uma simples boa canção com bons músicos funciona por si só.

Nota: 8.5

Glasvegas @ Marquee, 18:10-19:00

Segundo consta, Glasvegas andam a tocar exactamente as mesmas músicas ao vivo há cerca de 5 ou 6 anos. Enquanto que o seu trabalho em estúdio não aquece nem arrefece, a banda escocesa é definitivamente um espectáculo tépido ao vivo – com uma atitude afável mas desgastada, parece que estamos a ver a primeira parte de um concerto de The Jesus And Mary Chain… Uma banda antiquada de uma cena antiquada, que tenta um sing along em cada canção.

Nota: 6

The Jesus Lizard @ The Shelter, 18:50-19:40

Os The Jesus Lizard são uma banda de referência dos anos 90 que só recentemente se reuniu. Ao contrário de Glasvegas, não pareciam envelhecidos nem um minuto. Tecnicamente, tocaram sem enganos e a velocidade de cruzeiro arranjos complexos de rock subversivo. O vocalista parecia um doente mental e transmitia a sensação de que tudo de selvagem e imprevisível podia acontecer – quem nunca viu The Jesus Lizard ficou grato por não morrido sem antes os ter visto ao vivo.

Nota: 10

Vampire Weekend @ Marquee, 19:50-20:40

Já cansa vê-los e ouvi-los, e isso diz qualquer coisa da sua música, que definitivamente perde o seu encanto quando ouvida pela 324ª vez. E à chuva. Uma ou outra canção nova e por editar tornou vagamente interessante o seu set.

Nota: 6.5

HEALTH @ Chateau, 20:45-21:35

Os californianos Health não são um mar de simpatia e cordialidade em palco. Muito pelo contrário, para eles business is business, e fazer noise sem ser indulgente ou caprichoso significa seriedade. Mas quem vem ver Health sabe que não vai acenar isqueiros e cantarolar letras. Foram incisivos, intensos e mostraram que a sua música é cerebral e brutal em iguais partes.

Nota: 8.5

Fever Ray @ Marquee, 21:40-22:30

O projecto a solo de Karin Dreijer-Andersson de The Knife tem granjeado uma fama por ter visuais espectaculares ao vivo. Com uma multitude de lasers, candeeiros e holofotes em cuidada sincronia com sintetizadores, kick drums e momentos importantes nas músicas, bem como maquilhagem e guarda-roupa exuberante, Fever Ray fizeram jus à reputação. Contudo, a superior teatralidade e formalidade do concerto pode desiludir alguns espectadores que esperavam um pouco mais de interacção e descontracção pessoal de Dreijer-Andersson.

Nota: 8

Squarepusher @ Dance Hall, 21:50-23:05

É meio estranho falar de um concerto de um projecto de IDM. Contra todas as expectativas, Squarepusher foi refrescantemente espontâneo e imprevisível ao vivo. Um baixista dotado, Tom Jenkinson usou o baixo tanto para tocar normalmente como para controlar parâmetros no seu laptop em tempo real, e a velocidade a que o fazia fez parecer o seu baixo com um banjo em bluegrass. Parte do espectáculo foi acompanhado por um baterista, igualmente rápido e espontâneo. Uma experiência musical que desafia categorização.

Nota: 9

dEUS @ Marquee, 23:35-00:50

dEUS estavam a jogar em casa, e isso fez-se sentir. Tiveram a coragem e à vontade para abordar vários temas dos dois últimos discos, apesar do peso da importância e popularidade do seu trabalho mais antigo. Contaram com a presença de Karin Dreijer-Andersson para um dueto, e acima de tudo mostraram-se confiantes e descontraídos.

Nota: 8

Krafwerk @ Main Stage, 00:30-02:00

Que dizer de Kraftwerk que ainda não foi dito? São mais importantes para a música electrónica do que Elvis, Beatles e Stones são juntos para o pop/rock. A componente visual dos seus concertos definiu o standard para gerações de músicos desde os anos 70. A beleza fria da sua música é intemporal e delicada, e a sua integração com o lado visual do espectáculo torna indistinto o que se ouve do que se vê. Frente a um enorme mar de jovens de olhos arregalados em espanto, Kraftwerk provam que não têm nada a provar – estivemos em ’78 outra vez, durante uma hora.

Nota: 10

Which Will.

18
Set
09

Novos Lançamentos: The Flaming Lips – Embryonic

O que haverá ainda para provar para uma banda como os Flaming Lips hoje em dia? O histórico quarteto de Oklahoma conta já com perto de trinta anos de idade, repletos de álbuns memoráveis que definiram a juventude de muita gente, tendo contado com o seu primeiro êxito apenas no início da década de 90 com o single She Don’t Use Jelly do agora clássico Transmissions From The Satellite Heart, passando até por reclamar para si o estatuto de autores do hino oficial do seu estado natal sob a forma da apaixonante Do You Realize?? de Yoshimi Battles The Pink Robots. Pela mão da invenção e do imaginário de Wayne Coyne e Steven Drozd, os Flaming Lips conquistaram também o título não-oficial de melhor banda ao vivo do mundo, num espectáculo que inclui tudo desde gigantescas bolas insufláveis até teletubbies, e que em última análise estabelece o conjunto de Oklahoma como uma banda orientada para os seus fãs. Apesar da sua afirmação recente ao vivo, o virar o século, tendo trazido três discos que definiram de vez o estatuto dos Lips, leia-se o ambicioso Zaireeka de 1997, o reflectivo The Soft Bulletin de 1999 e o enternecedor Yoshimi de 2002, trouxe a banda perante uma encruzilhada.

O seu último disco, At War With The Mystics de 2006, acabou por ser um trabalho pouco consistente, sem a naturalidade que caracteriza os Lips, soando sempre, mais do que tudo, a um disco de transição. Transição essa, diga-se, que encontra o seu destino final este ano com o lançamento do duplo álbum Embryonic, marcando o regresso da banda à ambição sónica de Zaireeka, sem recorrer aos seus excessos, procurando manter o lado psicadélico que é imagem de marca da banda e as sensibilidades pop de The Soft Bulletin, aliados desta feita a uma sonoridade mais sombria, mas simultaneamente mais natural e menos forçada. Facto esse que se reforça nas palavras de Coyne, que confessa que a maioria dos números de Embryonic foram produto das “weird jams” dos Lips no estúdio caseiro de Drozd, apontando inclusive um “freakout vibe” do novo registo. Tudo isto prova-se verdadeiro ao ouvirmos Embryonic, e acaba por não ser, por isso, surpresa que este seja um disco onde o que brilha com maior intensidade seja mesmo o poder da sua secção rítmica.

Antecedendo o lançamento, a banda procurou divulgar em particular três faixas, todas representativas dos dois lados de Embryonic: Convinced Of The Hex abre o disco com uma característica linha de baixo de Michael Ivins, tão poderosa quanto viciante, Coyne faz uma performance vocal quase Ian Curtisiana que complementa na perfeição o feel krautrock que a banda procurou incutir em muito do primeiro lado do duplo registo; por outro lado, Silver Trembling Hands e The Impulse traduzem um segundo lado mais experimental e orgânico, a primeira um óptimo número pop, a segunda mais saudosista. Não sendo um disco de duas metades, passe o pleonasmo, deve-se ouvir como um todo e flui facilmente de um lado para o seguinte. Enquanto no primeiro encontramos algo como The Sparrow Looks Up At The Machine, que segue o excelente fio condutor de Convinced Of The Hex, também podemos tropeçar numa Evil, uma faixa que surpreende pela sua abordagem minimalista aliada às suas letras afectantes. Powerless fecha o primeiro lado com a mesma eficácia com que começou, enquanto The Ego’s Last Stand abre o segundo com toda a pompa e circunstância que aquela fantástica bridge perfurante a conduz. O segundo lado marca também o envolvimento de convidados como Karen O, a fazer imitações de sons e animais em I Can Be A Frog, e os MGMT, acrescentando vozes adicionais à pesada Worm Mountain. Quando Watching The Planets fecha Embryonic em grande estilo, não podemos deixar de ficar com a noção que este é o som de quatro indivíduos muito experimentados que assim voltam a casa, fazendo-o com a mestria que em tempos tiveram, e ao mesmo tempo sempre possuíam.

Tracklist:

  1. Convinced Of The Hex
  2. The Sparrow Looks Up At The Machine
  3. Evil
  4. Aquarious Sabotage
  5. See The Leaves
  6. If
  7. Gemini Syringes
  8. Your Bats
  9. Powerless
  10. The Ego’s Last Stand
  11. I Can Be A Frog
  12. Sagitarius Silver Announcement
  13. Worm Mountain
  14. Scorpio Sword
  15. The Impulse
  16. Silver Trembling Hands
  17. Virgo Self-Esteem Broadcast
  18. Watching The Planets

Harvest Breed.

17
Set
09

Em Alta Rotação Este Mês

Compilação do Mês de Setembro:

  1. Fuck Buttons – The Lisbon Maru [Tarot Sport]
  2. The Drums – Best Friend [The Drums EP]
  3. Pastels & Tenniscoats – Sodane [Two Sunsets]
  4. The Boxer Rebellion – The Gospel Of Goro Adachi [Union]
  5. Early Day Miners – So Slowly [The Treatment]
  6. Washed Out – New Theory [Life Of Leisure EP]
  7. Calories – To Encounter A Deer [Adventuring]
  8. Johnny Foreigner – Criminals [Grace And The Bigger Picture]
  9. Mission Of Burma – Forget Yourself [The Sound, The Speed, The Light]
  10. A Sunny Day In Glasgow – Shy [Ashes Grammar]
  11. Do Make Say Think – Make [Other Truths]
  12. The Beatles – I Want You (She’s So Heavy) [Abbey Road (2009 Remaster)]
  13. Mumford And Sons – Winter Winds [Sigh No More]
  14. Califone – Better Angels [All My Friends Are Funeral Singers]
  15. Islands – Switched On [Vapours]
  16. Polvo – Right The Relation [In Prism]
  17. The Clientele – Graven Wood [Bonfires On The Heath]
  18. Fool’s Gold – Poseidon [Fool's Gold]
  19. Port O’Brien – My Will Is Good [Threadbare]
  20. Sparklehorse + Fennesz – Mark’s Guitar Piece [In The Fishtank]

Download

Harvest Breed.

16
Set
09

Pukkelpop 2009 @ Hasselt/Kiewit, Bélgica (Dia 1)

Bélgica: o centro geográfico e político da Europa, local de nascimento das melhores cervejas do continente, casa-mãe da comunidade pedófila europeia, e país acolhedor do festival Pukkelpop, um mega-evento de orientação alternativa e mainstream que se estende durante três longos dias debaixo das estrelas belgas. A sua edição de 2009 pode-se gabar de um dos line-ups mais fortes dos últimos anos para qualquer festival na Europa continental e o Volume/Tone fez parte das 170 mil pessoas que não faltaram à chamada e à oportunidade de ver algumas das bandas mais excitantes do momento. Durante a estadia, vimos um total de 43 bandas e artistas diferentes, o que pelas contas do preço do bilhete cifra um total de cerca de 3 euros por concerto. Contrariando as expectativas, o primeiro dia foi pródigo em temperaturas abrasadoras e em bandas como os pioneiros alt-country Wilco, os sempre voláteis Faith No More ou os lendários amantes do loud, My Bloody Valentine.

The Maccabees @ Main Stage, 11:20-11:55

Liderados por Orlando Weeks, nunca abdicando do seu boné, os proto-Futureheads deram início ao festival com uma actuação no monstruoso Main Stage. Com um set recaíndo bastante no seu novo disco Wall Of Arms, a banda, ainda que se ressentindo da hora madrugadora, consegue uma performance cativante com pontos altos nos últimos singles, No Kind Words, tema de abertura, e Love You Better, que fechou o set.

Nota: 7.5

Vetiver @ Chateau, 12:30-13:10

Seguem-se os californianos Vetiver, no seguimento do seu muito competente último disco Tight Knit. Apesar do fortíssimo calor que se fazia sentir num palco fechado, o soft rock/folk da banda de San Francisco é facilmente imediato e ganha boa aceitação junto do público. More Of This é o ponto alto de um set relaxado e confiante, deixando definitivamente para trás a toada morna que se poderia fazer sentir à hora.

Nota: 8

Howling Bells @ Marquee, 13:10-13:50

O palco Marquee é facilmente a coisa coberta mais monstruosa que já tinha visto num festival de música. Estando cheio, dá toda a sensação que poderia lotar o Coliseu dos Recreios. Ainda assim, o rock antémico dos australianos vive da dualidade entre um bastante agradável primeiro álbum e um banal segundo disco, Radio Wars, que a banda se encontra a promover, e isso faz-se sentir no set. Ora se atingem os altos de Low Happening do primeiro, ora damos por nós distraídos enquanto a banda replica alguns dos seus números recentes.

Nota: 6.5

Golden Silvers @ Club, 14:30-15:10

Ao contrário do que diz no seu nome, o palco Club, apesar de ser fechado e recriar um ambiente estufa com altas temperaturas, não fica fora dos limites da área do festival nem é propriamente um club. Posto isto, tenho de confessar que os ingleses Golden Silvers são uma minhas bandas fetiche dos últimos tempos. O seu disco de estreia, True Romance, é uma irresistível pedra preciosa de pop veraneante, e o seu concerto de festival é apropriadamente carregado de números dançáveis como o tema-título ou Magic Touch.

Nota: 9

Aeroplane DJ Set @ Boiler Room, 15:30-17:00

O duo belga Aeroplane captou as atenções de muita gente com os seus remixes vitoriosos, entre os quais o de Paris dos Friendly Fires em conjunto com as vozes das Au Revoir Simone. Jogando em casa, e no Boiler Room, uma enorme garagem que durante todo o dia se dedicava a passar música electrónica, os Aeroplane mostraram não só excertos dos seus remixes, não só de Friendly Fires ou Fever Ray, mas também um estilo de electrónica mais fria e calculada.

Nota: 8.5

Bon Iver @ Marquee, 15:50-16:35

Bon Iver deve ser ridiculamente popular na Bélgica. De todos os sets que vimos neste palco, e por aqui passariam por exemplo os heróis da casa dEUS por duas vezes, os Bon Iver não só encheram a casa, mas fizeram-na transbordar de gente por todos os lados. Não sendo propriamente o ambiente ideal para a música intimista de Justin Vernon, a sua técnica e entrega às músicas é exemplar, seja na abertura com Creature Fear ou na muito ovacionada Skinny Love.

Nota: 8

The Big Pink @ Club, 15:50-16:30

Os Big Pink fazem parte de uma vaga de nova música inglesa que tem conseguido boa imprensa dos dois lados do Atlântico. Fazem-no fundindo com sucesso guitarras ao estilo Loveless com um ataque techno e electrónico mais frio. Não é, por isso, surpresa que os pontos altos do seu set recaiam nos singles orelhudos Velvet e Dominos, passando ainda por um surpreendente cover de Smashing Pumpkins.

Nota: 9

Port O’Brien @ Chateau, 16:35-17:20

Apesar de um bom disco na manga sob a forma de All We Could Do Was Sing, os Port O’Brien sobem a um palco debaixo de um calor abrasador para tocar na sua grande maioria takes do seu novo álbum, Threadbare. O novo material não deixa, ainda assim, de ser bem recebido, com forte e saudável influência de Neutral Milk Hotel, ainda que os pontos altos sejam puxados para o fim do set, entre os quais o single Close The Lid.

Nota: 8

Passion Pit @ Club, 17:20-18:05

Se por um lado os singles infecciosos, o palco intimista e a sonoridade dançável adivinhava um grande concerto, por outro sempre circulavam os rumores que os Passion Pit eram simplesmente um falhanço rotundo ao vivo, apontando o falsetto de Michael Angelakos como uma das razões para isso. Felizmente, os rumores provaram-se completamente infundados e o set de Passion Pit, com uma apoteótica The Reeling, acabou mesmo por ser um dos pontos altos do fim de semana.

Nota: 10

Soap & Skin @ Chateau, 18:05-18:50

Soap & Skin é o alias musical da virtuosa austríaca Anja Plaschg, cuja sonoridade claustrofóbica se encaixaria melhor num ambiente nocturno do que propriamente no fim de uma tarde muito quente. Ainda assim, ora sentada ao piano, de laptop preparado, ora com incursões pelo público, Plaschg acabou por dar um bom concerto.

Nota: 7.5

Wilco @ Marquee, 18:45-20:15

Depois do excelente concerto no Coliseu, a tournée europeia dos nativos de Chicago Wilco entrou no circuito de festivais, no qual parece inserir-se com absoluta facilidade. Com um set algo semelhante ao de Lisboa, com a particularidade de investirem sobre material do mítico Summerteeth, com destaque para A Shot In The Arm, a banda até motivou um dos melhores momentos de comunhão com o público na já habitual Spiders.

Nota: 8.5

Grizzly Bear @ Club, 20:45-21:30

Com dois dos melhores discos da década na bagagem, sob a forma de Yellow House e do mais recente Veckatimest, os Grizzly Bear vieram à Bélgica reforçar a noção que apesar de tudo ainda conseguem ser melhores em concertos sob nome próprio. Ainda assim, fazendo-se complementar com Victoria Legrand no single Two Weeks, com números infalíveis ao vivo como On A Neck, On A Spit ou Cheerleader, a banda tem uma magia muito especial ao vivo que poucas outras bandas hoje em dia podem reclamar para si.

Nota: 10

Them Crooked Vultures @ Marquee, 20:55-21:55

Numa surpresa que à altura do concerto já era tudo menos isso, a vaga entre Wilco e Beirut no palco Marquee foi tomada pelos Them Crooked Vultures, a nova banda de Josh Homme, John Paul Jones e Dave Grohl. Fazendo-se valer mais pela ocasião com cheiro a história a ser feita do que propriamente pelo material que, ainda que soando bem, é inteiramente novo e constando de um futuro novo disco, os três, acompanhados de Alain Johannes, mostraram-se em boa forma.

Nota: 8

DeVotchKa @ Chateau, 22:00-22:50

Nunca tendo presenciado a rotina dos acrobatas de que os americanos DeVotchKa se fazem acompanhar em digressão, não deixa de ser surpreendente que acabaram por ser os únicos a transformar a tenda do palco Chateau no verdadeiro circo que parecia de fora. Com material maioritariamente de How It Ends, popularizado pela banda sonora de Little Miss Sunshine, Nick Urata e companheiros têm uma destreza impressionante para os seus instrumentos, casando-os com belíssimas melodias.

Nota: 8.5

Beirut @ Marquee, 22:55-23:55

A última banda a tomar o palco antes dos headliners do dia foi a trupe de Zach Condon, os Beirut. Incrivelmente populares na Bélgica, a banda conseguiu pôr a rebentar pelas costuras o já espaçoso palco Marquee, especialmente frequentado por público feminino que cantou palavra por palavra alguns dos seus êxitos, em particular a delicada Nantes e a épica Elephant Gun. Ainda assim, os Beirut tendem em entrar numa dinâmica repetitiva ao vivo, e o espectáculo acaba por se tornar um bocadinho inconsistente.

Nota: 8

My Bloody Valentine @ Marquee, 00:55-1:55

Apenas uma semana depois de serem carinhosamente corridos do palco do Rock One de Portimão com assobios e gestos simpáticos, os míticos shoegazers irlandeses tocaram para uma audiência consideravelmente mais receptiva no Pukkelpop. E nada falta daquilo que distingue o típico concerto de My Bloody Valentine, seja a coluna monstruosa de amplificadores que suporta o som de guitarra de Kevin Shields e que impede que se ouça mais alguma coisa ao vivo, seja o holocausto sónico de You Made Me Realise. Ver My Bloody Valentine ao vivo deve ser encarado como mais que um concerto, antes uma experiência, tanto que não é para todos e o Marquee acabou a noite algo magrinho, mas é sem dúvida uma catarse colectiva para quem fica.

Nota: 9.5

Harvest Breed.

06
Ago
09

Em Alta Rotação Este Mês

Compilação do Mês de Agosto:

  1. No Age – You’re A Target [Losing Feeling EP]
  2. A Place To Bury Strangers – Deadbeat [Exploding Head]
  3. Wild Beasts – All The King’s Men [Two Dancers]
  4. Nosaj Thing – Coat Of Arms [Drift]
  5. Mayer Hawthorne – Just Ain’t Gonna Work Out [A Strange Arrangement]
  6. Why? – This Blackest Purse [Eskimo Snow]
  7. The Embassy – Time’s Tight [Tacking]
  8. Mew – Hawaii [No More Stories Are Told Today, I'm Sorry, They Washed Away...]
  9. Delorean – Moonsoon [Ayrton Senna EP]
  10. The Big Pink – At War With The Sun [A Brief History Of Love]
  11. Yo La Tengo – Avalon Or Someone Very Similar [Popular Songs]
  12. Lights – Hold On [Rites]
  13. Night Control – Star 131 [Death Control]
  14. Pictureplane – Solid Gold [Dark Rift]
  15. Ducktails – Beach Point Pleasant [Ducktails]
  16. Xx – Infinity [Xx]
  17. Neon Indian – Psychic Chasms [Psychic Chasms]

Download

Harvest Breed.