04
Abr
12

Os Melhores Álbuns de 2011

30 – Balam Acab – Wander/Wonder

Alec Koone é um jovem americano de apenas 20 anos. Talvez o caso do seu projecto musical Balam Acab seja ilustrativo dos panorama musical actual. Depois de um EP muito badalado em 2010, voltou em 2011 com um disco que pouco tinha a ver com o dubstep e o witch house com que tinha sido comparado um ano antes. Wander/Wonder é um disco discreto, frio e constante, e, apesar de ser infrutífero catalogá-lo, consegue ser definitivamente uma prova de maturidade de alguém tão novo aos controlos.

 

 

 

29 – The Necks – Mindset

Os The Necks já cá andam há tanto tempo que podemos com confiança dizer que não será este Mindset que definirá a sua herança. Provavelmente não olharão para 2011 como o seu grande ano e o seu disco de antologia, mas, como objecto de estudo, este é um álbum de tensões. A maior e mais importante delas é sem dúvida a da sua primeira faixa, Rum Jungle: um denso e desorientante evocar a imagens fortes, que a faixa seguinte, Daylights, faz questão de contradizer.

 

 

 

28 – Portable – Into Infinity

A voz colocada, quase John Mausiana, de Alan Abrahams, é talvez a estrela principal daquele que acaba por ser o seu melhor disco até à data. Quer seja como Portable ou como Bodycode, Abrahams parece ter aperfeiçoado e valorizado o medium do álbum. Into Infinity é um disco completo e variado, com uma estrutura e um propósito próprios, no qual ainda sobra espaço para brilharem números como a gélida Find Me.

 

 

 

27 – Mikal Cronin – Mikal Cronin

Descendente directo da longa família do punk com elementos de um pouco de tudo, na qual nomes como Thee Oh Sees, The Intelligence ou Ty Segall se têm conseguido destacar, Mikal Cronin tem no seu disco de estreia uma fórmula gasta, mas executada com mestria. Uma espécie de sidekick de Segall durante uma boa parte da sua carreira, Cronin surge nisto tudo já com padrinho. Mas é injusto ver o seu disco homónimo desse prisma. Consegue ser grande para lá de qualquer senão.

 

 

 

26 – Jehst – The Dragon Of An Ordinary Family

É difícil encontrar hip hop com um feel tão tradicionalista quanto este hoje em dia. Mas é isso mesmo que representa o inglês Jehst: hip hop à antiga, quase de combate. Os arranjos são mínimos, os samples são evocativos de um passado distante mas presente e o enfoque no rap é total. Com tudo isto, poder-se-iam esperar as habituais comparações com Wu-Tang Clan ou Madvillian. Mas isso não me parece propriamente algo mau.

 

 

 

25 – Pinch & Shackleton – Pinch & Shackleton

Dream Teams raramente funcionam. A música pop tem inúmeros exemplos disso mesmo. Por isso, é apenas natural que se desconfie de uma equipa formada por dois dos grandes inovadores de música electrónica da última década. Creditados com o aparecimento e formação do dubstep quando este ainda não significava o que significa hoje, Pinch e Shackleton já não são propriamente novos nestas andanças. E talvez seja mesmo a capacidade de cada um saber reconhecer o espaço que tem que ocupar quando trabalham juntos que fez do seu disco homónimo um inesperado, mas em retrospectiva previsível sucesso.

 

 

 

24 – Ty Segall – Goodbye Bread

Claro que Ty Segall lançou um disco este ano. Mas desta feita é diferente. Goodbye Bread não é mais uma adição ao cânone de pop-punk melódico que Ty tem desenvolvido. E provavelmente essa é uma boa decisão. Seria difícil seguir o impressionante marco que foi Melted. E isso nota-se logo no tema-título que abre o álbum de forma peculiar, leve e desgarrada. Goodbye Bread está recheado de músicas com estruturas bizarras para o punk. E mesmo sem refrões, é de notar que qualquer disco que Segall lance consiga ser interessante.

 

 

 

23 – Kuedo – Severant

Severant não é um disco tremendamente original. Não inspirou os avisos de revolução que outros álbuns como Glass Swords de Rustie, por exemplo, inspiraram. Mas, ao não reinventar a roda, Jamie Teasdale pega no já saturado género retro-futurista que muita quilometragem tem em cima nos últimos dois anos e confere-lhe um sentido pragmático. Com faixas que projectam tantas imagens como carregam um ritmo e um propósito muito característicos, Severant consegue inovar, não inovando.

 

 

 

22 – Atlas Sound – Parallax

Parallax representou, sem margem para dúvidas, uma espécie de mini-comeback de Bradford Cox este ano. E fê-lo às costas de duas das suas maiores inspirações dos últimos cinco anos: o estilo desgrenhado e multiforme de Neil Young e o pop com tons ligeiramente, mas marcadamente, electrónicos dos Stereolab. Acabando por ser um exercício de quase tributo aos seus próprios heróis musicais, o impressionante é que Cox consiga transmitir uma genuinidade e um feeling marcado nas suas composições. Faixas como Te Amo ou Terra Incognita são o perfeito exemplo disso mesmo.

 

 

 

21 – Twerps – Twerps

Pela forma soporífera e despreocupada que marca muita da performance vocal destes australianos Twerps, é pouco claro se estavam a espera que a sua música soasse tão ordenada e estruturada como soa. Este seu primeiro disco homónimo acaba por ser uma aula de como fazer pop de guitarra casar melodicamente com uma estética descansada e imperturbável. A peça central, Who Are You, é um case study só por si: letras como “we’ll get drunk, we’ll get stoned, we’ll get high” conseguem ter um pano de fundo um trabalho instrumental executado na perfeição. Pois, é mesmo regra.

 

 

 

20 – Sean McCann – The Capital

Realmente, Sean McCann é prolífico. Só este ano foram seis discos. Com toda esta produção, é inevitável não pensar que isto tudo não diminua um pouco o valor artístico de cada uma das suas criações. Afinal, se se conseguem fazer sete por ano, não serão todas propriamente material de antologia. A lógica faz sentido, este The Capital nem por isso. Tremendamente absorvente e avassalador, é o disco que se impõe para quem não conseguir ouvir tudo o que McCann fez este ano.

 

 

 

19 – Jonathan Wilson – Gentle Spirit

De todos os álbuns lançados este ano, poucos serão tão voluntariosos quanto Gentle Spirit de Jonathan Wilson. O seu folk intenso entra várias vezes no campo improvisacional com resultados variados e, por vezes, alongando-se em demasia. Mas a sua intenção está claramente no lugar certo. E é ela que mais se faz impor quando ouvimos este disco. Não se lhe peça concisão, mas peça-se-lhe coração.

 

 

 

18 – Patten – GLAQJO XAACSSO

Sendo tão complicado descobrir um fio condutor na música deste misterioso Patten e o seu impronunciável segundo disco, é igualmente difícil caracterizá-lo. Já para não falar na inevitável catalogação. E tentaram-se vários rótulos. Hip-hop instrumental, agora muito em voga, não se lhe adequa. Experimental evoca música que não é bem a sua. Abstracta não será. Techno também não. Uma coisa é certa: Patten, tal como o seu segundo disco, são e serão resistentes.

 

 

 

17 – Bill Callahan – Apocalypse

Não haja dúvida que Bill Callahan escolheu uma forma peculiar de seguir aquele que ainda consta na sua discografia como o disco mais acessível e user-friendly do seu cânone. Apocalypse é um bicho estranho. Não segue o seu trabalho anterior, enquanto Smog, mas também não se pode dizer que tenha uma estética similar a Sometimes I Wish We Were An Eagle. E enquanto alguma da sua música tem o seu quê de familiar, é em Apocalypse que podemos apreciar a imprevisibilidade e a versatilidade de Callahan.

 

 

 

16 – Surgeon – Breaking The Frame

Poucos discos terão passado tão debaixo do radar quanto este poderosíssimo exercício de homenagem techno do inglês Surgeon, nascido Anthony Child. O seu estilo vagamente, mas definitivamente Detroitiano apenas consegue ser característico pelo trabalho que transpira de cada uma das suas faixas. Tudo neste Breaking The Frame é cuidadosamente planeado até ao mais ínfimo detalhe. O resultado soa a obra-prima de uma carreira. Pelo menos para já.

 

 

 

15 – Grouper – A I A

Quando Liz Harris anunciou, no princípio de 2011, que lançaria um duplo-álbum na Primavera, a expectativa era a de que aí viria um magnum opus. Uma espécie de tour de force que capturasse tudo o que o nom de guerre Grouper significava. As reacções foram mornas. AIA não é propriamente nada disto: não tem as ligações melódicas de Dragging a Dead Deer Up a Hill nem as idiossincrasias distintas dos trabalhos que o antecederam. Mas não deve ser malogrado por isso. Não quando Dream Loss e Alien Observer conseguem criar uma complementaridade e evocar uma imagem comum pelo menos tão forte quanto qualquer outro trabalho seu.

 

 

 

14 – Kendrick Lamar – Section 80

Por falar em old school. Section 80, o primeiro álbum propriamente dito do californiano Kendrick Lamar, representa uma nova forma de fundir sensibilidades sónicas de uma nova forma de pensar as batidas e a ligação pop do hip hop, muito ligada a alguns artistas de hip hop instrumental que têm pontificado no último par de anos com as preocupações sociais e políticas do rap dos anos 80 e 90. Com uma contrucção de um ambiente à volta da fogueira, Fuck Your Ethnicity estabelece esse mesmo paradigma, enquanto que a memorável Hiiipower coloca um ponto de exclamação no seu fim.

 

 

 

13 – Thee Oh Sees – Carrion Crawler/The Dream

Com a adição do carismático frontman dos The Intelligence, Lars Finberg, ao comando da bateria, é inegável que a sonoridade desafectada e propulsiva dos Thee Oh Sees ganha toda uma nova dimensão. Mais do que em qualquer outro aspecto, são até os interlúdios instrumentais, não muito comuns no catálogo da banda, que fazem questão de sublinhar a validade dessa aquisição. Carrion Crawler/The Dream, com o inesgotável músculo que demonstra, é talvez a obra prima que o punk lo-fi da última meia-década estava à espera há já muito tempo. E é cortesia, porventura sem surpresa, dos Thee Oh Sees.

 

 

 

12 – Pete Swanson – Man With Potential

De todos os discos que surgem neste rol, este Man With Potential, de Pete Swanson dos infelizmente defuntos Yellow Swans, que talvez tenha tido a reacção mais peculiar. Apesar de não ter sido alvo de muita atenção, a que teve veio com a afirmação de que aqui se desenvolvia uma nova forma de fazer noise, uma forma que combinava sensibilidades do techno progressivo com as já esperadas afectações intensas que tínhamos ouvido na obra dos Yellow Swans. Com tanto material a ser lançado neste género, talvez mais que qualquer outro, é raro, de facto, ouvir algo a soar tão fresco quanto Man With Potential.

 

 

 

11 – Steffi – Yours & Mine

Preciso e calculado, este Yours and Mine, da alemã Steffi é o álbum absolutamente essencial de house do ano. Não é um disco para quem queira ouvir variações ao modelo ou experimentações bem sucedidas com novas formas de fazer música, é um disco para completistas, um compêndio de bem fazer o estilo, um verdadeiro manual de instrucções para o universo do house profundo. Talvez por isso, muito do que daqui consta são produções herméticas, fechadas e sem arranjos complicados. Pode perder em complicação, mas Yours and Mine tenta, com o inevitável mas glorioso falhanço, atingir a perfeição da forma, e por isso deve ser celebrado.

 

 

 

10 – Oneohtrix Point Never – Replica

Com a sua interminável busca de sons perdidos no tempo para os encaixar nas composições experimentais de Oneohtrix Point Never, no pop distorcido dos seus mashups de Youtube ou até no electro retro de Ford & Lopatin, Daniel Lopatin foi ganhando fama de reformulador por excelência. Por entre acusações de falta de originalidade, se algo que Lopatin sempre tem prezado é a variação. Replica, talvez por isso, soa, mais que nunca, ao melhor de Lopatin, mais consistente que Rifts e menos abrasivo que Returnal.

 

 

 

9 – Legowelt – The Teac Life

A peculiar foto de Danny Wolfers, o holandês por detrás da marca Legowelt, que adorna a capa do seu terceiro álbum apenas neste ano parece querer dizer-nos algo sobre a abordagem clássica mas idiossincrática de The Teac Life. Descrito pelo próprio como “deep tape saturated forest-techno”, The Teac Life é um disco complexo e compreensivo, de batidas incessantes e incursões várias pelos caminhos do techno à moda de Detroit. Num ano em que os lendários Drexciya voltaram às edições, ainda que re-edições, The Teac Life é um bom lembrete das razões que nos levaram a apaixonar por aquela sonoridade.

 

 

 

8 – Wild Beasts – Smother

Foi particularmente complicado admitir que este Smother simplesmente não é o que foi Two Dancers. O segundo dos ingleses Wild Beasts foi um verdadeiro wake up call que poucos estariam à espera, especialmente vindo de uma banda com um historial relativamente colorido. Mas quanto mais cedo se instala essa realização da diferença entre os dois, mais facilmente podemos apreciar Smother: um disco de trato relativamente gentil, sem as guitarras a assumirem um papel tão central, mas seguindo uma linha lógica e coerente, talvez ainda mais do que Two Dancers.

 

 

 

7 – Royal Headache – Royal Headache

Antes de escrever este pequeno texto sobre o disco de estreia dos australianos Royal Headache, passou-me muitas vezes pela cabeça aquilo que os malogrados The Exploding Hearts representaram para o punk moderno. Depois pensei que não seria nem prudente nem justo associar as duas bandas. E não é. Royal Headache é um disco que vale por si: uma performance vocal fortíssima, incomum no meio, associada a uma sonoridade com uma aptidão melódica praticamente inata. Não deixa de ser impossível não pensar que algures um quarteto de rapazes de Portland não regatearia um aceno de aprovação a temas como Never Again ou Distant and Vague.

 

 

 

6 – Sandro Perri – Impossible Spaces

Sandro Perri sempre fez música de fato e gravata. Polida e distinta, própria para festas de cocktail e fraque. Tanto quando editava enquanto Polmo Polpo, como quanto agora a nome próprio. Impossible Spaces consegue, ainda assim, ter um distinto feel a jam session que não deve ser fácil de conferir a música com esta abertura e a já mencionada distinção. Mas acaba por ser precisamente essa ideia de jam session polida e trabalhada que atrai neste disco, as melodias que se parecem arrancar quase a ferros em temas como Changes ou How Will I?.

 

 

 

5 – Lee Noble – No Becoming

Apesar de não faltaram por esse mundo fora bandas a fazer música alegre e solarenta, 2011 parece ter sido o ano ideal para amantes de sonoridades pessimistas e depressivas. James Kirby, The Caretaker, lançou o que pareceu ter sido uma torrente de música claustrofóbica e sombria, mas nenhum outro disco do ano que passou teve a envolvência e o puro impacto que este No Becoming de Lee Noble na Sweat Lodge Guru, nem mesmo os dois outros lançamentos de Noble em 2011. E talvez o mais impressionante seja mesmo a forma como Noble consegue fazer casar elementos verdadeiramente orgânicos som todos os outros sons que não parecem ter proveniência certa.

 

 

 

4 – Reel By Real – Surkit Chamber: The Melding

Não é particularmente claro o que faz uma lenda do Detroit Techno como Martin Bonds aparecer praticamente sem aviso quase vinte anos depois dos seus lançamentos chave. E não é que o seu regresso tenha sido recebido com grande pompa e circunstância, mas não faltou quem agradecesse. Surkit Chamber: The Melding é um registo que não parece ter perdido nem a vivacidade nem o sentido de urgência de uma sonoridade que marcou uma era nos anos 90, e também por isso não estranharia que tivesse sido produzido por alguém mais jovem e publicitável hoje em dia. Mas não foi. Foi Martin Bonds, e em boa hora.

 

 

 

3 – Real Estate – Days

Era inevitável. De facto, é impossível não pensar que cada vez mais, e à medida que o tempo se vai encarregando de familiarizar o vocalista Martin Courtenay com o homem de todos os ofícios Matt Mondanile, a música dos Real Estate se vai tornando mais automática, quase como que uma produção em série. O que, pelo menos em teoria, não devia ser nada bom. O que ainda torna mais complicado explicar porque é que este Days nada fica a dever àquele que foi um dos mais notáveis álbuns de estreia da última década em Real Estate. O que esse disco ganhava em novidade e na surpresa do primeiro impacto, Days parece compensar com consistência e um verdadeiro sentido de objectivo.

 

 

 

2 – Andy Stott – Passed Me By/We Stay Together

Pode não parecer à primeira audição, mas este combo de EPs do inglês Andy Stott foi um dos álbuns mais controversos do ano. O seu único álbum , Merciless de 2006, foi um exercício em frieza e fidelidade à forma do techno e do ambient, pelo que poucos estariam preparados para o emaranhado de sons que faz de Passed Me By e de We Stay Together um affaire de dubstep negro com vozes e batidas intermitentes. As acusações de cedência ao popular até se poderão adaptar, mas quando o trabalho e a minúcia são tão evidentes, é díficil preocuparmo-nos com modas.

 

 

 

1 – Machinedrum – Room(s)

Machinedrum, aka Travis Stewart, tem este aspecto. Só tirar isso do caminho logo à partida. Já com mais de uma década de actividade sob vários pseudónimos, Stewart passou toda uma carreira a tentar fazer o cruzamento entre sonoridades caracteristicamente urbanas como o hip hop e as mais declaradamente cerebrais como o techno, o glitch e até a música palpitante e experimental de Aphex Twin, LFO ou o primeiro material de Autechre. E apesar do seu demeanor menos gangsta do que muitos dos representantes da última vaga de hip hop instrumental e experimental, é inegável que este Room(s) representa a sua obra prima: um trabalho complexo, com um apelo crossover característico, de electrónica vibrante, actual e relevante.

 

Harvest Breed.

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13
Dez
11

As 20 Melhores Músicas de 2011

 

20 – Actress – Rainy Dub [Rainy Dub 12”]

É complicado explicar porque é que se gosta de algo assim. O que é, aliás, um sentimento normal ao ouvir Actress. Rainy Dub parece material tirado mais dos seus tempos antigos do que a sua produção recente, mas para uma faixa que se afiguraria relativamente dispensável, é perturbadoramente viciante.

 

19 – Mikal Cronin – The Way Things Go [Mikal Cronin]

Companheiro de luta de Ty Segall, Mikal Cronin lançou finalmente o seu disco de estreia este ano, com pouca pompa e ainda menos circunstância. The Way Things Go é uma faixa de conclusão se alguma vez ouvimos alguma: o seu feel de fim de festa e os seus assobios castiços devem atrair os amantes do rock throwback quanto baste.

 

18 – Blu – Hours [No York!]

Na maré de produtores caseiros de hip hop agora a a enfrentar uma era de absoluto reconhecimento, Blu tem passado relativamente despercebido. No seu Hours não há nada que não aconteça: samples uns em cima dos outros, vozes indiscerníveis que se vão revelando. Um pouco como este tema.

 

17 – DJ Rashad – Love U Found [Just A Taste]

Na sua cidade natal de Chicago, DJ Rashad é o que chamaríamos um verdadeiro herói local. Pioneiro do footwork e lutador incansável pelo seu reconhecimento, Rashad não deixa de estar aberto a desvios da forma como poucos outros estão. Com um sample de Michael Jackson, esta música é um fantástico exemplo disso mesmo.

 

16 – Sepalcure – Pencil Pimp [Sepalcure]

A colaboração entre Travis Stewart (Machinedrum) e Praveen Sharma pode ter oferecido resultados inconsistentes, mas o talento junto é mais que suficiente para criar pérolas como Pencil Pimp. Uma produção cuidadosa e um sample vocal a fazer lembrar o trabalho a solo de Stewart são mesmo mais que suficientes.

 

15 – Old Apparatus – Side A [Old Apparatus]

Old Apparatus é um projecto relativamente desconhecido que acabou por surgir nos radares de muitos com este 12”. Com uma capacidade admirável para fazer confluir o ambientalismo doom de uns Demdike Stare ao mais tradicional da batida dance fragmentada, este Side A é uma das boas surpresas do ano.

 

14 – Royal Headache – Never Again [Royal Headache]

Australianos com um pendor por rock de garagem revivalista não tem muitas oportunidades para se dar a conhecer. Mas o que faz deste Never Again uma das melhores músicas de rock dos últimos anos é a voz cristalina, quase croon, do frontman Shogun. E uma composição como mandam as regras.

 

13 – Peverelist – Dance Til The Police Come [Dance Til The Police Come 12”]

Dance Til The Police Come é uma das faixas mais interessantes do ano. Habitando vários estilos e géneros em simultâneo, acaba no fim por não se ficar por nenhum: a batida jungle inicial junta-se aos laivos de dubstep mais à frente e a um sintetizador declaradamente house.

 

12 – Sun Araw – Impluvium [Ancient Romans]

Apesar dos quase sete discos em apenas três anos, o californiano Cameron Stallones acaba por conseguir, com o seu mais recente disco Ancient Romans, apagar a imagem tépida do seu antecessor, On Patrol. Como peça central, Impluvium é um verdadeiro jam.

 

11 – Wilco – The Art Of Almost [The Whole Love]

Não é propriamente novidade, mas é bom saber que os Wilco ainda são capazes de fazer álbuns como este e especialmente músicas como esta. Aqui se junta o ouvido melódico de Jeff Tweedy com o baixo profundo de John Stirratt, a bateria invulgar de Glenn Kotche e os solos de guitarra devastadores de Nels Cline.

 

10 – Deadboy – Ain’t Gonna Lie [Here 12”]

Deadboy conseguiu algum reconhecimento com este 12”, mas muito desse reconhecimento acabou por recair no também impressionante Wish You Were Here. Ainda assim, é no lado B, Ain’t Gonna Lie, um número frio e pleno de soul, que está o prémio.

 

9 – Atlas Sound – Terra Incognita [Parallax]

Apesar de uma evidente homenagem aos Stereolab e a Trish Keenan dos Broadcast, a quem, de resto, dedica Parallax, Bradford Cox consegue mais uma vez ocupar um espaço já ocupado sem parecer que o faça. Terra Incognita faz de uma coda sonhadora e uma performance vocal peculiar o ponto alto de Parallax.

 

8 – Kahn – Like We Used To [Like We Used To 12”]

O single de estreia de Joseph McGann, Kahn, para a Punch Drunk fê-lo voltar às suas origens: uma tradicional faixa de um dubstep fracturado e distante, com samples vocais meticulosamente trabalhados. A certa altura surpreende-nos.

 

7 – Oneohtrix Point Never – Replica [Replica]

O fascínio de Daniel Lopatin pela memória humana assume muitas facetas na sua música. Às vezes faz-se de revivalismo pop, como em Games ou em Ford & Lopatin, mas no seu projecto pessoal faz-se acima de tudo de um emaranhado de novelos avulsos e imprevisíveis. Este Replica está tão longe da sua faixa de abertura para Returnal, Nil Admirari, como nunca outra faixa sua esteve.

 

6 – Bill Callahan – Riding For The Feeling [Apocalypse]

E assim continua o casamento de Bill Callahan com uma produção mais polida. Apesar de não ser uma condição imprescindível para apreciar músicas como Riding For The Feeling, a frieza subreptícia da sua música sai valorizada como nunca antes. Ajuda que Callahan não tenha perdido o jeito.

 

5 – Wild Beasts – End Come Too Soon [Smother]

A gradual transição de banda de cabaret inclassificável que os Wild Beasts eram em Limbo, Panto para a fria máquina de pacientes clímaxes de guitarra como é aqui com este End Come Too Soon pareceu ter sido feita quase da noite para o dia, mas é complicado encontrar alguém a fazer isto tão bem nos dias que correm.

 

4 – Machinedrum – Come1 [Room(s)]

Talvez não haja outro álbum tão desafiante quanto Room(s), lançado neste ano. Come1 é quase um exhibit A nesse sentido. Samples que surgem das proveniências mais improváveis, viragens de ritmo súbitas e periclitantes, o James Brown, pianos insistentes, outros complexos e um suave final. Chega.

 

3 – Blawan – Getting Me Down [Getting Me Down 12”]

Não vale a pena dar a volta ao assunto: grande parte do que esta faixa consegue ser é produto do seu sample vocal furioso e orelhudo. Ainda assim, é depois de ouvirmos o original, uma balada R&B dos anos 90 da cantora Brandy, I Wanna Be Down, que ganhamos um renovado respeito pelo trabalho de Blawan nesta faixa. Uma descoberta impressionante e uma roupagem que se aproveita dela.

 

2 – Burial – Stolen Dog [Street Halo EP]

O regresso de Burial, de tão aguardado que era, acabou por não ter sido em formato de álbum nem parece que vá ser tão cedo, anunciado que está outro EP para o início de 2012. Sim, Stolen Dog é mesmo um lado B da mais convencional Street Halo, uma faixa que acaba por nos levar mais aos primórdios de Will Bevan enquanto produtor. Mas talvez seja este o seu trabalho mais conseguido até à data. Mais do que tudo o resto, evidencia a maturidade que não tinha antes, nem mesmo em Untrue.

 

1 – Kendrick Lamar – Hiiipower [Section 80]

“A lot of people don’t understand. They think it’s just a song. It’s really a big movement that we’ve got in L.A. that’s spreading like wildfire. Hiiipower: the three i’s represent heart, honor and respect. That’s how we carry ourselves in the streets, and just in the world, period. Hiiipower, it basically is the simplest form of representing just being above all the madness, all the bullshit. No matter what the world is going through, you’re always going to keep your dignity and carry yourself with this manner that it don’t phase you. Whatever you think negative is in your life. Overcoming that and still having that self-respect.”

 
Harvest Breed.

23
Nov
11

Cachet 0, Vol. 21

Já há quase 1 mês que não ensaiamos todos juntos. Neste tempo todo, fizemos um ensaio, com um elemento ausente. Não têm havido ensaios porque uma ou outra pessoa está ocupada com assuntos pessoais, e invariavelmente outras duas acorrem dizendo que não lhes apetece muito ou não lhes dá muito jeito ensaiar, especialmente com um elemento a menos. Nós tínhamos um calendário para este ano (que incluía a gravação de um single nos próximos meses), calendário esse que agora começa a parecer uma distante miragem. Há 2 anos atrás todos na banda davam o braço direito para não faltar a um ensaio, mas também isso é uma distante miragem. Percebo que muitos deles têm agora noivas, empregos e projectos pessoais que não tinham dantes, mas o tom de alguns transpira desmotivação e desapontamento. Praticamente sem concertos, com mais em que pensar, e com um prazo de validade até D. sair, a banda parece caminhar sem intento ou direcção. Uma facção na banda está frustrada com a possibilidade de uma redução da assiduidade dos ensaios, que isso representa baixar ambições.

Eu percebo essa frustração, é bom ela existir. No entanto, parece-me que nem todos nós já perceberam o real estado da nação. Se alguns já interiorizaram que o fim está para acontecer, a melhor maneira de impedir o barco de afundar agora é de tornar a banda novamente divertida, e de deixar para segundo plano a ambição de um cariz mais carreirista. O que nos vai segurar agora não vai ser a promessa de mais concertos, de críticas favoráveis ou de vôos mais altos – será o convívio, a união e a música nova. Acho que algures no meio a facção ambiciosa irá encontrar a facção resignada. Espero que sim; ficaria a pensar no que poderia ter acontecido o resto da vida, se a banda atirar a toalha no ringue sem sequer tentar fazer o LP número 2.

Entretanto, comecei já a preparar o meu cenário pós-guerra pessoal. Nos últimos dias, tenho dedicado várias horas por dia a compor em casa e exercitar técnicas de produção novas. A minha paixão por música electrónica já tem anos, e o declínio anunciado da banda parece-me uma oportunidade tão boa como qualquer outra para começar um projecto que há muito quero fazer. Uma nova oportunidade para me frustrar com a indústria musical, sozinho.

Which Will.

02
Nov
11

Cachet 0, Vol. 20

Hoje tivemos uma reunião de banda com propósito de discutir como vamos planear o próximo ano em termos de lançamentos, composição e actividade global da banda. O D. quis avisar-nos que tem planos avançados em marcha, para emigrar a partir de Setembro de 2012. Não nos falou antes disto porque quis ter certezas da sua ida, e quis esperar pelo momento certo – hoje foi o momento certo. Conhecendo-o como o conheço, será preciso pouco menos que um milagre para desmantelar o que já é um plano meticuloso.

Uma banda sobrevive a maus concertos, a falta de dinheiro, a insultos de espectadores, ao escárnio de críticos – mas não sobrevive à perda de um vocalista e letrista. O D. é ainda mais que isso, é um moderador, é uma cabeça fria, uma peça fundamental na maneira como planeamos o futuro, e um músico sem substituto. Nós crescemos com ele. Perdê-lo é um golpe fatal do qual não sobrevivemos.

Vamos fazer os nossos planos para 2012, vamos tentar lançar um single e um álbum. Se estes serão os nossos últimos 12 meses, temos de fazer deles 12 meses que nunca serão esquecidos. Como num filme de acção em que o herói se confronta com um fim horrível e inevitável, que nós espectadores sabemos que não vai acontecer, parte de mim quer acreditar que algo imprevisível vai surgir do nada e manter o D. em Portugal. Outra parte de mim sabe que não estou num filme de acção, e que nada o irá manter cá. Perder a banda não é tão mau, eu só não queria perder o meu amigo e irmão de guerra. Se calhar alguma coisa imprevisível vai surgir…

Which Will.

29
Out
11

Novos Lançamentos: Sandro Perri – Impossible Spaces

Quando, em 2003, Sandro Perri (Polmo Polpo) lançou o seu agora disco de culto Like Hearts Swelling, a tendência foi para que se perdesse no ruído de tudo o que a etiqueta canadiana Constellation estava a lançar na altura. Bandas como Godspeed You! Black Emperor ou Thee Silver Mt. Zion dominavam muito do que era a mensagem que saía da música canadiana. Nesse aspecto, Like Hearts Swelling foi, desde o início, um disco à frente do seu tempo. Juntava o minimalismo e a direcção ambiental do muito falado projecto do alemão Wolfgang Voigt, Gas, que na altura veria o muito merecido reconhecimento pelo seu último disco, Pop, aparecer, a algo mais. Um ‘algo mais’ que levou, tal como com Pop, uns anos a que fosse perfeitamente compreendido. Lentamente, Like Hearts Swelling não só veio a representar algo de perfeitamente único no catálogo da Constellation como algo de único na música contemporânea. Ecléctico e diversificado, Polmo Polmo era sinal de música verdadeiramente excitante, combinado o minimalismo techno com elementos orgânicos, de uma destreza fora do vulgar que se dava a uma execução técnica de instrumentais complexos mas envolventes.

Quase dez anos e três álbuns depois, Sandro Perri, já deixando para trás o nome de Polmo Polpo, continua a dar asas ao mesmo ecletismo e destreza que já ouvimos antes, mas agora numa dimensão mais abertamente pop. Ainda que, ao mesmo tempo, com estruturas musicais mais desalinhadas e incomuns. Em Impossible Spaces, o seu quarto disco em seu próprio nome, nono no total, Perri encontra para si mesmo um verdadeiro espaço que parecia pouco provável já de si: música doce e, sem margem para dúvidas, pop, que se casa com uma musicalidade expansiva, estruturas bizarras e complicadas e orquestração deslumbrante. Nesse aspecto, Impossible Spaces não é algo que possa ser directamente comparado com Like Hearts Swelling, mas podemos traçar a sua genealogia a partir daí. Quanto mais não seja, Perri demonstra aqui uma confiança inabalável na sua capacidade de composição que lhe dá a ele, e nós enquanto ouvintes, a sensação de que tudo poderá fazer e tudo poderá acontecer a qualquer altura. O mais impressionante nisto tudo, e aquilo que acaba por ser a peça central do disco, é a voz de Perri. Expressiva e com um alcance praticamente ilimitado, é dela que parte grande parte da saudável musicalidade que respira Impossible Spaces. Mas é também ela que nos indica que estamos perante algo pop, melódico e acessível.

O maior exemplo é a faixa de abertura Changes, que se apoia numa discreta mas invulgar linha de guitarra, que se expande numa mini-composição clássica. Acaba por ser no seu classicismo terminantemente anti-retro que tudo aqui assenta. A sua música é declaradamente orgânica, já sem os elementos techno que marcava o trabalho de Perri enquanto Polmo Polpo, a certas alturas fazendo lembrar os momentos mais leves dos últimos três discos de Talk Talk, mas faz-se de uma boa disposição inabalável. Essa é uma boa disposição que não perde tempo em transformar peças dispersas em algo melódico, um pouco como o ritmo de quase bossanova de um número como Love & Light, que dá lugar a uma coda peculiar mas estranhamente afectante, parece ser transformado em algo coerente pela invulgar facilidade vocal de Perri. Wolfman, a mais longa e chamativa faixa do álbum, segue uma fórmula semelhante a Changes: uma guitarra soluçante, letras desconjuntadas, teclados que vão aparecendo, uma espécie de caos pensado. Ainda assim, muitos dos elementos que à primeira vista parecem estar desconjuntados e dar a sensação de jam session também acabam por servir para levar muitas das melodias para lugares simplesmente esquisitos. E quanto mais cedo nos deixarmos levar por eles melhor.

Tracklist:

  1. Changes
  2. Love & Light
  3. How Will I?
  4. Futureactive Kid (Part I)
  5. Futureactive Kid (Part II)
  6. Wolfman
  7. Impossible Spaces

Harvest Breed.

28
Out
11

Novos Lançamentos: Kuedo – Severant

Não é incomum, nos dias que correm, ver alguém a fazer música completamente distinta, quer em forma quer em estilo, a solo em relação àquilo que fazia ou viria a fazer em grupo. Afinal, os meios são amplos e as influências não faltam. Durante seis anos, o londrino Jamie Teasdale foi uma das metades do duo que assinava, sob a forma de Vex’d, música perfeitamente sinistra e claustrofóbica. Mas mais que isso: os Vex’d representaram uma nova forma de fazer música à base de batidas fugazes e secas que, em especial com o seu disco de 2005 Degenerate, fazia começar o rufar dos tambores de guerra na grande comoção que se viria a formar nos anos seguintes à volta da ideia de dubstep. Apesar de ser admitidamente injusto classificar Degenerate dessa forma, a sua disposição quase industrial lançava uma manta de tensão sobre tudo o que por baixo dela era feito, desde trabalho de ambiência a batidas de cadência sepulcral, de tal forma que é possível compreender o porquê de se apontar o nome dos Vex’d como um dos primordiais catalisadores daquilo que, por volta de 2007, viria a ser conotado com o dubstep.

A solo, num trabalho que vinha a preparar há vários anos, Teasdale volta agora para lançar o seu primeiro álbum sob o nome de Kuedo, Severant. E mais do que uma parte da música de Vex’d, que ainda podemos encontrar aqui e ali, Severant retrata um músico num espaço artístico completamente diferente a produzir sonoridades que reflectem outra era. Literalmente outra era. Severant funciona um pouco como um conceito ambicioso de produzir uma banda sonora para um filme futurista dos anos 80. Se a ideia soa já por si requentada, é porque efectivamente é mesmo. Talvez agora mais que nunca nos deparemos com mais projectos musicais que se façam exprimir numa componente eminentemente teatral, até mesmo cinematográfica (um dos bons exemplos deste ano partiu do Lynchianismo quase enfermo do sino-canadiano Dirty Beaches, inspirado pelo Futuro da Nostalgia como definido pela autora Svetlana Boym). Mas Severant é produto de algo mais que apenas nostalgia. O seu espaço emocional está algures num vácuo que não conseguimos definir ao certo, mas que se faz expressar no verdadeiro maciço musical que são os cerca de três quartos de hora de Severant.

Em nenhum momento sentimos que a música de Kuedo se deixa espaço a si própria para respirar, nunca deixando de pintar um quadro tingido a tons de retro-futurismo Kubrickiano, e o resultado é um disco que não deixa respirar o ouvinte. Um bom exemplo da mudança que se fez sentir na música de Teasdale é Visioning Shared Tomorrows, um feito só por si: algo tão grandioso e aspirante na face do que antes tinha sido a música fechada e negra de Vex’d, não deixando de ser brutalmente simples. Ainda assim, é da fantástica tendência de criação de tensão do antigo conjunto de Teasdale que ele consegue retirar uma paisagem coerente para Severant, e é precisamente por isso que nele tem um triunfo arrebatador. As batidas ensurdecedoras e omnipresentes fazem-se sentir em faixas como Scissors ou Vectoral, casando, em poucos minutos e sem que a transição pareça pouco natural, com a tensão sublimadora de Ascension Phase ou da poderosa Flight Path. A ambição que fica patente em Severant é a de fazer algo que pegue naquilo que já fazia de Teasdale um dos produtores mais absorventes da electrónica actual e o eleve a patamares não tanto bombásticos quanto elegantes, graciosos e gloriosos. Tudo isso faz com que os tais três quartos de hora se fundam numa gigante composição de retro-originalidade: uma espécie de redefinir do que exactamente significavam as visões do futuro dos anos 80 e as aspirações do que estaria para vir.

Tracklist:

  1. Visioning Shared Tomorrows
  2. Ant City
  3. Whisper Fate
  4. Onset (Escapism)
  5. Scissors
  6. Truth Flood
  7. Reality Drift
  8. Ascension Phase
  9. Salt Lake Cuts
  10. Seeing The Edges
  11. Flight Path
  12. Shutter Light Girl
  13. Vectoral
  14. As We Lie Promising
  15. Memory Rain

Harvest Breed.

27
Out
11

Cachet 0, Vol. 19

Há uns dias atrás, enviei um link de videoclip no youtube a um colega de banda. Era um clip de rapper americano, filmado no seu bairro, com letras sobre o seu bairro. Mostrei-lhe porque sei que ele gosta de hip hop, e eu gosto muito deste rapper em particular. O comentário dele foi “Isto é para o lol?”.

Não percebeu. Achou que era um video viral. A coisa mais tradicional do hip hop é um rapper a falar sobre a vida no seu bairro, mas isto não ressoou com ele. Julgava que estava a ser “irónico”. A “ironia” tornou-se uma estranha forma de moda, e por associação, levar as coisas a sério tornou-se estranhamente passé. Há umas semanas atrás, aborreci uma amiga quando tentei perceber porque é que ela usava óculos grandes de massa se ela nunca precisou de óculos para ver. Nem sequer perguntei pelas calças justinhas, ou os sapatos mocassin – estamos a falar de uma mulher de 21 anos, não estamos a falar alguém com 65 anos ou de um desenho animado da década de 50. Respeito um gosto diferente, mas não entendo este gosto. Parece que o objectivo é deliberadamente de parecer o mais imbecil possível. Mas “ironicamente” imbecil, passo o “sarcasmo”.

Modas são modas, suponho eu, e raramente uma moda é bonita aos olhos de quem não padece dela. Contudo, é interessante ver como a “ironia” está a povoar o panorama musical português: bandas e artistas solo vestidos como personagens Disney, a cantar letras ligeirinhas em português, a tocar canções simples na viola, gravadas no sótão em casa, levando terrivelmente a sério a maneira de estar mas não a música. Tornou-se moda não querer fazer a diferença, tornou-se moda esperar que a música não seja mais que o veículo descartável para um estilo de vida. Querer escrever música para mudar as pessoas tornou-se um objectivo imbecil. Porque a tendência em Portugal é de que a música não seja feita para fazer a diferença.

Which Will.